Postagens com a palavra-chave ‘Conservadorismo’

Coluna do dia: O último dos moicanos

02/07/2010

Por Yashá Gallazzi*

Antes de me debruçar de fato sobre o tema central deste texto, peço ao leitor o seguinte: Se você quer criticar o Vice de José Serra, Deputado Índio da Costa, mas pretende votar em Dilma Rousseff, a ex-terrorista que escolheu como Vice ninguém menos que Michel Temer, nem se dê ao trabalho de continuar a leitura. Este texto tem um lado. E este lado, sinto, não é o seu. Adiante.

Ao escolher Índio da Costa como seu Vice, José Serra deixou sua intenção razoavelmente clara: Quer alguém jovem, alguém que possa emprestar um ar de renovação, de vigor para a chapa PSDB-DEM, que já conta com a figura do político experiente. Vai funcionar? Difícil dizer. Se considerarmos que há alguns dias a oposição esteve perto de indicar Álvaro Dias para o posto, a escolha de Índio da Costa parece um salto de qualidade tremendo.

Não! Não estou aqui tentando de forma oblíqua tecer comentários negativos ao Senador Álvaro Dias. Minha opinião se baseia em simples raciocínio lógico: Um Vice precisa agregar algo novo à chapa. Dias, vindo do Paraná – um estado sulista, onde Serra já é franco favorito -, não traria lá muitos votos a mais. Já o Deputado Índio da Costa pode ajudar num estado onde Dilma cresce a olhos vistos: o Rio de Janeiro.

Mas isso tudo não passa de exercício de futurologia, que pode facilmente mudar ao sabor da maré eleitoral que se avizinha. O dado mais curioso da corrida eleitoral – até agora pelo menos – foi o quase rompimento da aliança entre tucanos e democratas. Ao tentar empurrar goela abaixo do DEM o nome de Álvaro Dias, o PSDB esteve a um passo de perder seu aliado mais fiel, o que poderia concorrer para modificar bastante o quadro sucessório.

No meu mundo ideal, o DEM vestiria de uma vez por todas a carapuça de partido conservador do Brasil, indicaria a Senadora Kátia Abreu à Presidência e, arrisco dizer, teria grandes chances de fazer uma boa campanha.

Sim, é claro que eu sei a gritaria que o progressismo faria contra a Senadora tocantinense. Tudo absolutamente normal e dentro do padrão brasileiro, afinal “essepaiz” costuma demonizar todo aquele que defende o livre mercado, a iniciativa privada, a meritocracia e o império do regime de liberdades democráticas. Aqui, onde uma ex-terrorista está às portas do Planalto, prefere-se a bandalheira revolucionária do MST…

Mas o DEM, acostumado a ser rebocado pelo PSDB, jamais tomaria tal atitude. Candidatura própria? Com o risco de amargar as últimas colocações (não que eu acredite que isso fosse acontecer…)? Jamais! Por isso choraram, pressionaram e pronto: Índio da Costa levou a vaga de Vice. Bom para quem deseja uma alternativa contrária ao lulo-petralhismo, afinal, está claro que tucanos e democratas, juntos, têm mais condições de vencer do que sozinhos.

A desgraça é que o Brasil vai ver mais uma eleição monocromática, onde todos os políticos vão disputar o campo “vermelho” do eleitorado. De Serra a Dilma, passando por Marina Silva, todos vão lutar para se mostrar o mais progressista possível, prometendo manter as várias bolsas-esmola, aumentar o tamanho do Estado e prover ao cidadão todas as necessidades, de forma que ele nunca precise aprender a viver por conta própria.

Todo mundo ávido por ser progressista, até o partido tido como “de direita” pela imprensa, que as esquerdas acusam de ser comprada pelo partido da… direita! E isso num País onde majoritariamente se é contra o aborto, contra as drogas, favorável à pena de morte e à redução da maioridade penal.

A fatia mais numerosa do eleitorado brasileiro está ávida por um “partidinho conservador” para chamar de seu. Em vez disso, vai ter que escolher, mais uma vez, entre uma infinidade de esquerdistas. Um tédio!

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: “Vamos tirar o Brasil do vermelho!”

16/04/2010

Por Yashá Gallazzi*

A frase que utilizo como título foi dita pela Senadora Kátia Abreu, que pediu ao Ministério da Justiça a adoção de ações concretas a fim de prevenir as invasões de terra protagonizadas pelo MST, aquela milícia clandestina criada por João Pedro Stédile, o homem que pretende transformar o Brasil num País mais “justo e igualitário”, inspirando-se, para tanto, em ninguém menos que Mao Tsé-Tung, o carniceiro chinês responsável pelo assassinato de 70 milhões de pessoas.

O slogan cunhado por Kátia Abreu – e pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), presidida pela Senadora do Democratas – é o melhor e mais eficaz mote de campanha que a oposição brasileira, liderada por José Serra, poderia usar. A ideia seria partir abertamente para um confronto ideológico, como nos velhos tempos: eles são os “vermelhos”, que apóiam Cuba, Venezuela e o MST. E, por isso, o Brasil não pode confiar neles.

É claro que Serra e os tucanos não farão nada disso, afinal, são uma – como é mesmo que eles dizem? – “oposição construtiva”. São pessoas elegantes, que se preocupam apenas em fazer uma “campanha propositiva” focada, principalmente, em mostrar uma infinidade de obras feitas pelos políticos do PSDB. E haja “choque de gestão”, “eficiência” e “competência” pra preencher tantos discursos. Confronto ideológico? Ah, isso é coisa do passado! Ninguém mais liga pra isso hoje em dia, dizem os especialistas.

Bem, os especialistas estão errados! Lembram da campanha de 2006? O melhor momento de Alckmin foi quando ele deixou de lado aquela patacoada de “eu vim de ‘Pinda’” e passou a colocar o dedo na cara de Lula, perguntando insistentemente: “De onde veio o dinheiro do mensalão e do dossiê?”

Lembram de 89? Esqueçam as teorias conspiratórias que pretendem atribuir o triunfo de Collor à edição de um mísero debate. Isso pode até ter ajudado, mas não foi decisivo. Collor venceu porque conseguiu incutir no povo o medo de um candidato do “campo comunista”, como ele chamava Lula repetidamente na TV. E o eleitor brasileiro, majoritariamente conservador, rejeitou o barbudinho com cara de mau.

Na campanha atual, Serra e Dilma não vão tocar no tripé que sustenta a economia brasileira. Se houver alguma mudança, ela será feita pelo tucano – que não precisa pagar pedágio ao mercado financeiro -, não pela petista.

Além do enfadonho discurso do “pós-Lula”, o que resta aos candidatos?

Passaremos meses vendo Dilma, de um lado, tentando se apresentar como aquilo que é: um avatar de Lula. E Serra, do outro, dizendo que tudo está bom, mas ele sabe como pode melhorar ainda mais. Só de imaginar já me sinto aborrecido…

E o confronto de valores, como fica? O que eles pensam sobre aborto, liberação das drogas, pena de morte, liberdade de imprensa e valores democráticos? Por que diabos o candidato da oposição não vai apontar o dedo para Dilma e cobrar a petista por seu passado terrorista? Por que o PSDB não cuida de associar, da forma mais explícita possível, o PT aos bandoleiros de Stédile? Porque isso tudo não tem importância? Tem, sim!

Uma pesquisa do Ibope, feita em 2008, procurou saber como os brasileiros viam o MST. As respostas não deixam margem para dúvida:

- 50% são contrários ao movimento;

- para 45%, a palavra que melhor descreve o movimento é “violência”.

- 31% discordam totalmente do objetivo do MST;

- 38% concordam com o objetivo, mas acham que o MST se desviou dele;

- 60% acham que as tais “organizações camponesas” estão se aproximando da criminalidade

            E não venham me dizer que os brasileiros condenam o MST porque são doutrinados pela mídia conservadora, reacionária, preconceituosa e de direita. A Rede Globo, grande besta-fera das esquerdas radicais brasileiras, nunca chamou os milicianos de Stédile de criminosos ou terroristas. Eles são sempre “militantes”. Se isso é ser parcial, resta forçoso concluir que a parcialidade em questão só ajuda o MST.

            A Senadora Kátia Abreu percebeu que o confronto ideológico contra o MST só pode ser uma boa jogada, afinal, a maioria da população não vê lá com muita simpatia aqueles bandoleiros. Ela se mostra, assim, “o melhor homem da oposição”, numa paráfrase da famosa frase usada por Ronald Reagan para descrever Margareth Thatcher.

            Uma campanha sem confrontação de valores é morna e sem graça, coisa que não é do interesse da oposição atual. A mensagem de Serra é ótima: “fizeram muito. Tenho experiência para fazer muito mais. Minha adversária não tem.”

            O problema é que para Dilma a coisa também é muito simples: basta a petista convencer o eleitor de que, se é para melhorar o que de bom foi feito, o mais prático é votar em alguém da situação, não da oposição. Isso, associado a um ou outro lance de guerrilha política, como espalhar a falsa ideia de que os tucanos acabarão com o Bolsa Família, pode virar o jogo facilmente.

            A oposição deveria perceber o óbvio: uma sociedade – qualquer que seja ela – tem valores morais próprios. Exatamente por isso o confronto ideológico nunca é ignorado pelo eleitor. Ele pode, sim, ser relativizado, principalmente num cenário de fartura econômica. Mas ignorado ele nunca será.

            O problema é que a oposição brasileira tem medo do confronto ideológico. Serra tem medo de chamar Dilma de terrorista, porque ela pode responder acusando-o de ter simpatia pela ditadura. E aí? Um embate de ordem moral nunca é fácil de ser feito, pois os tiros – dos dois lados – sempre são pesados. É preciso muito traquejo para explicar, no Brasil, que ser anti-comunista não quer dizer ser fascista, coisa que muitos ainda confundem.

            Mas o principal nem é o medo do contra-ataque. O problema é que Serra e o PSDB são muito de esquerda para fazer algo assim. Lá no fundo dos seus corações emplumados, há tucanos que ainda caem naquela baboseira de que “a resistência armada” foi importante para a construção da democracia. Eles querem, em resumo, disputar com o PT o “campo progressista”, pois morrem de medo quando são acusados de serem conservadores e direitistas.

            Isso para não mencionar que a própria moral dos principais expoentes do tucanos foi forjada a golpes de martelo esquerdista. Ou alguém se espantou quando FHC – o monstro neoliberal, lembram? – se disse favorável à liberação das drogas? Eu não esperava outra coisa dele. Da mesma forma que não espero ver um partido como o PSDB se dizendo publicamente contra o aborto, afinal, abraçar a defesa da vida virou um fardo a ser suportado só pelos “neocons”, não é? E eles são “progressistas”!

            É por tudo isso que a campanha será muito dura para ambos os principais candidatos. E imprevisível também. Tudo porque a oposição insiste em disputar no terreno do PT, que é o terreno das esquerdas. Morrem todos de medo das chamadas “bandeiras conservadoras”, por isso se negam a chamar o MST de milícia partidária, afinal, não querem ser acusados de “criminalizar os movimentos sociais”…

            Não sei se a eleição seria menos difícil para Serra se ele adotasse o lema de Kátia Abreu, conclamando os eleitores a “tirar o Brasil do vermelho”. Mas tenho certeza que ela seria bem menos chata para mim.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

            Coluna do dia: Barack Obama, o homem do SUS

            26/03/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Quando Barack Obama, o Presidente-de-ébano, foi eleito, fez um discurso arrebatador. Falou em “mudança”, em “nova era”, em “paz mundial” e em “igualdade entre os homens”. Mas toda a retórica salvacionista do havaiano, que chegou a prometer o “fim do aquecimento global”, poderia ser resumida na seguinte construção:

            “Eu tenho um sonho! No meu sonho, os homens e as mulheres da América, brancos e negros, nativos ou imigrantes, independentemente da religião que professarem, poderão ter acesso ao SUS.”

            E Obama foi à luta: pegou todas as ideias que seus vários antecessores tiveram sobre como reformar o sistema de saúde americano, juntou-as num calhamaço enorme e, não satisfeito, acrescentou uma ou duas coisas que, suponho, aprendeu com Lula – “o cara”. O resultado? Um dos diplomas legais mais controvertidos de toda a história dos Estados Unidos.

            O plano de Obama, aquele com o qual o Messias negro sonhou, não existe. Ficou pelo caminho, cedendo seus pedaços às exigências de boa parte da bancada… Democrata! Sim, é isso mesmo! Obama apresentou algo tão complicado e contraditório, que nem sua própria base de sustentação – escandalosamente majoritária no Congresso Americano – se convenceu a aprová-lo na íntegra.

            Não vou cansar o leitor com todos os pormenores do plano idealizado por Obama. Vou apenas ilustrar o quanto ele foi obrigado a ceder diante da flagrante incapacidade de convencer os parlamentares e a opinião pública da importância de suas bandeiras mais caras.

            Um dos principais pontos do programa original previa a criação de um plano de saúde público – o SUS – destinado a atender todos os americanos, independentemente de sua condição social. Esse, aliás, era o carro-chefe de Obama, aquilo que deveria simbolizar a nova mentalidade da América: mais igualdade e solidariedade. Não vingou…

            Os americanos sentiram rapidamente o cheiro de queimado quando ficou claro que o trabalhador de classe média, mesmo optando por pagar um seguro de saúde privado, seria obrigado a financiar o plano público. Lá, eles têm dessas esquisitices “direitistas”: não suportam ver os tentáculos do Estado tentando crescer para cima de suas carteiras.

            A outra bandeira desfraldada com entusiasmo por Obama foi a de criar um fundo público para financiar quem optasse por – como é mesmo que se diz na linguagem politicamente correta? – “interromper a gravidez”. Também não vingou…

            Pelo visto, os americanos – todos conservadores, reacionários, feios e bobos – ainda entendem que matar uma criança é… matar uma criança! Mais que isso: entendem que o Estado não deve financiar aqueles que decidirem matar suas crianças. E, sob uma ótica ainda mais profunda, entendem que quem quer matar suas crianças deve se virar para fazer isso sozinho.

            O que sobrou do plano sonhado por Obama? Em síntese, aquilo que Bill Clinton se recusou a levar adiante durante seu governo, pois entendeu que as propostas aceitas pelo Congresso seriam “tímidas demais”…

            Claro que Obama conseguiu acrescentar alguns pontos relevantes, que trarão mudanças substanciais ao sistema de saúde e à economia dos Estados Unidos. As mudanças mais imediatas que eu vejo, por exemplo, são: 1) alta dos preços dos planos privados; 2) necessidade do governo de subsidiar os custos; 3) aumentos dos impostos; 4) desemprego.

            Mas é claro que tudo isso não passa de mera preocupação conservadora… O importante para o progressismo é que os americanos terão um sistema de saúde mais amplo e acessível, que poderá oferecer a boa parte da população a mesma lógica de operacionalização que nós, brasileiros, conhecemos tão bem aqui…

            A “vitória” política de Obama consiste na aprovação de uma lei praticamente toda diferente da que ele queria, e que, ainda assim, conta com a rejeição de 60% dos cidadãos do país. “Ah, mas os americanos são mesmo conservadores!”, dirão alguns. É mesmo? Ué, mas não foram esses mesmos americanos que elegeram Obama Presidente? E não foram eles que, depois de elegerem Obama Presidente, foram saudados pela mídia progressista do mundo, que falou em “morte do movimento conservador americano”?

            Obama teve pouco mais de 50% dos votos em novembro de 2008, mas nunca é demais lembrar que começou seu mandato abraçado pela aprovação de mais de 80% dos americanos. Como conceber que, cerca de um ano depois, ele veja sua principal bandeira eleitoral tão rejeitada? Na verdade, é tudo bastante simples. A atuação de Obama vem rompendo um paradigma absolutamente fantástico que sempre norteou a sociedade americana: a regra de ouro segundo a qual o Estado deve se meter o menos possível na vida das pessoas.

            A pedra angular sobre a qual se assenta a democracia americana não é a da igualdade, mas a da liberdade. Diz a constituição de lá que os homens possuem o direito à vida, à liberdade e à busca pela felicidade. Pode parecer apenas uma construção vaga, mas é, na verdade, a essência daquilo que separa o mundo civilizado da barbárie. Quando se assimila o preceito de que ninguém é obrigado a conceder a outrem o que é necessário para que seja feliz, e que cada um, por suas próprias forças e méritos, deve alcançar isso sozinho, temos a fórmula da equação elementar que garante a vida em sociedade.

            A crescente insatisfação com Obama por parte da maioria dos americanos não se deve, pois, ao teatro dos “Tea Partys”, nem ao histrionismo de alguns jornalistas da FOX. Eles refletem apenas aquele eleitorado mais à direita que nunca se deixou seduzir pela retórica “mudancista” do Novo Messias. Quem está correndo a popularidade de Obama são os moderados e os independentes, ou, em outras palavras, a fatia do eleitorado que acaba por decidir todas as eleições lá por aqueles lados.

            Essa parcela importante da população não dá a mínima para Sarah Palin ou Glen Beck. Eles resolveram romper com Obama quando perceberam que aquele corolário antes referido estava sendo dinamitado pela agenda de governo do democrata, sempre mais intervencionista.

            A maioria dos americanos acredita sinceramente na lógica do “self-made man”, o sujeito que batalha e vence na vida graças aos próprios esforços. Por isso, ficaram ouriçados quando notaram que Obama queria o dinheiro dos contribuintes até mesmo para custear abortos.

            Ainda há esperança! Quando os cidadãos da maior e mais duradoura democracia da história mostram, sem sombra de dúvidas, que preferem uma sociedade informada pela ação das pessoas, sem os braços pesados do Estado para atrapalhar, é sinal de que o futuro pode, sim, ser promissor.

            Entre o imediatismo de um SUS meia-boca, e a vontade de frear os avanços centralizadores do Estado, os americanos estão escolhendo a segunda opção.

            “God bless America”!

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento, escrevendo também no Twitter em @yashagallazzi

            Coluna do dia: “Nenhuma delas é cubana”

            12/03/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Certa vez, numa discussão um tanto acalorada com alguns conhecidos, perguntaram-me quando exatamente eu me tornei um “porco direitista”. Na ocasião, ri da pergunta e nem dei muita importância, afinal estamos em um País onde qualquer um que critique o socialismo é automaticamente chamado de “direitista”.

            Mas eis que hoje descobri quando me tornei um “porco direitista”. Foi no momento exato em que compreendi que Alexander Soljenitsin não é igual a Marcola; que Wladmir Herzog não é igual a Fernandinho Beira-Mar; e que Nelson Mandela não é igual a Elias Maluco. Em outras palavras, diferentemente dos esquerdistas que hoje governam o Brasil, este “porco direitista” aqui sabe bem a diferença entre um preso político e um delinquente vagabundo.

            Lula, que assentou boa parte de sua mitologia pessoal na personagem do operário perseguido pela ditadura militar, resolveu mostrar ao mundo sua verdadeira face. Munido de seu cinismo sem limites, rasgou as vestes elegantes do “pobre-coitado-que-bebia-água-com-caramujo-e-virou-Presidente”, olhou na cara dos jornalistas e disse, “sem medo de ser feliz”, que Cuba tem direito de ter suas próprias leis e que o Brasil não se meterá nos assuntos internos daquela ilha.

            É um democrata, esse Lula! Respeitador da tal autonomia dos povos, desde que – é claro! – os povos em questão sejam esquerdistas… Afinal, quando se tratou de defender a democracia de Honduras, Lula preferiu se alinhar aos golpistas, na esperança de criar mais uma “republiqueta bolivariana”, onde há mais igualdade, fraternidade e justiça social, mas falta sabonete e papel-higiênico…

            Eu, como todo “porco direitista” que se preza, dou a maior importância para produtos de higiene pessoal. A civilização deles – dos esquerdistas – é aquela que pretende criar o “outro mundo possível”, o “novo homem”, a “igualdade plena”. A nossa civilização, por outro lado, é aquela dos antibióticos, da água encanada, da escrita e da literatura. Por isso somos incompatíveis, da mesma forma que nossas visões de mundo jamais poderão conviver pacificamente.

            Mas há outra variante de tal “pensamento”. A “lógica” de Lula poderia servir para justificar até mesmo o horror nazista! Imaginem um repórter entrevistando Lula nos idos da década de 1930: “Senhor Presidente, dizem que há judeus sendo presos, torturados e mortos na Alemanha. O que o Sr. tem a dizer?”

            E Lula, do alto de sua sabedoria de boteco, mandaria ver: “Veja bem, meu caro: eu estou convencido de que cada país tem direito a ter suas leis, e nenhum outro deve ficar dando pitaco de fora. Ou seja, quem sabe da situação da Alemanha direito é o meu querido Hitler, e só ele pode dizer com precisão as razões das medidas que ele toma. Eu só acho que se as leis da Alemanha estão sendo respeitadas, não cabe ao Brasil dizer o que é certo fazer, da mesma forma que o técnico do São Paulo não pode dizer pro meu querido Mano Menezes que esquema tático ele deve usar num jogo do Corinthians.”

            Exagero? Não creio… Alguns dos leitores, conhecendo Lula e tendo lido o que ele disse sobre o regime cubano, não conseguem imaginá-lo dizendo o que vai acima? Eu consigo. E consigo por um motivo simples: é algo perfeitamente coerente com o caráter pedestre dele. Com sua moral maleável. Ou, melhor dizendo: com suas várias morais.

            Morais, eu disse? Sim. Costumo dizer que tenho apenas uma moral, ainda que isso possa soar um tanto aborrecido ao leitor. Os “esquerdistas modernos”, como Lula, são melhores que eu: têm várias morais! Querem ver? Pois bem, se os presos políticos cubanos são iguais aos assassinos, sequestradores e traficantes presos em São Paulo, a “lógica” lulista me leva a concluir que Lula, Dilma e os demais presos políticos subjugados pelos militares brasileiros eram, também, iguais aos bandidos paulistas. Há alguma falha lógica nisso?

            Mas isso valeria se essa gente tivesse uma moral só – como nós, os “porcos direitistas”. Como, porém, eles possuem várias, cada uma aplicável a um determinado caso específico, dirão que não! Os esquerdistas tupiniquins aprisionados pelos militares eram homens bons. Humanistas, dispostos a – como é mesmo? – “dar a vida em nome da democracia”. Em outras palavras, eles dividem os presos entre os que têm “pedigree” esquerdista, e os demais.

            Quando você aceita a tese de Lula, aceita que um homem como Mandela pode ser, eventualmente, igualado a um vagabundo como Elias Maluco. Isso porque, segundo a “moral” torta desses “humanistas”, qualquer um que ouse se levantar contra a “revolução socialista” tem mais é que ser preso mesmo! Lênin, um dos maiores facínoras que o mundo já conheceu, não era menos sutil: todos precisam tomar parte na revolução. E quem não quiser? Simples: passa-se fogo!

            Eu, não! Não aceito que Soljenitsin seja igualado a Marcola. Não admito que Herzog seja tratado como um Fernandinho Beira-Mar. De acordo com a minha única moral de “porco direitista”, uma pessoa aprisionada apenas por suas ideias políticas não é apenas um atentado à democracia: é uma humilhação para a espécie humana! Quem condescende com isso empresta justificativas para a barbárie mais abjeta. Flerta com a escória do mundo!

            Hoje, os esquerdistas que defendem a maior e mais sangrenta tirania das Américas podem livremente pregar seu “outro mundo possível”, amparados pelas garantias do Estado democrático de direito que eles tanto abominam. Em Cuba, a ilha-prisão dos irmãos Castro, quem ousa contestar o regime assassino é preso e torturado. Isso se tiver sorte! Caso contrário, pode acabar sumariamente fuzilado.

            Eis aí a diferença essencial entre nós – que eles chamam de “burguesia” – e eles, os esquerdistas: abraçamos a democracia e a liberdade como valores básicos, perenes e inegociáveis. Não consideramos as instituições democráticas meras “invenções da classe dominante”. Sabemos, ao contrário, que são criações da sociedade civilizada, aquela que tem por obrigação conter os bárbaros revolucionários.

            Me tornei um “porco direitista”, aos olhos da realidade política brasileira, a partir do momento em que compreendi que as garantias e liberdades do indivíduo estão acima de qualquer distopia coletivista pregada por uma manada acéfala. Por isso acho que nenhum cidadão deve ser tolhido em seu legítimo direito de protestar contra qualquer governo. Mesmo quando se arvora a criticar os irmãos Castro, aqueles redentores que querem apenas nos salvar do jugo capitalista.

            Meu – se me permitem a construção – “porco-direitismo” nada tem a ver, pois, com crenças econômicas. No caso específico do Brasil, você será automaticamente um “porco direitista” sempre que se recusar a igualar bandidos comuns a pessoas que pregam, pacificamente, o fim de uma ditadura sanguinária e a instalação de um regime democrático. E, acreditem: isso é libertador! Esqueçam o consenso progressista e politicamente correto que tomou conta “dessepaiz”: a sensação de defender quem combate os tiranos é revigorante. Não quer ser chamado de “porco direitista”? Ah, deixe disso! “O que é um nome?”, diria Shakespeare? “Aquilo que chamamos de rosa, caso tivesse outro nome, guardaria o mesmo perfume.”

            Há milhares de ativistas políticos espalhados pelo mundo militando em favor da democracia. Estão na Europa, na Ásia e na Oceania. Nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, na Argentina e na Venezuela. Onde há liberdade – ainda que um filete dela apenas -, há um ser humano exercendo seu direito legítimo de contestar o governo. Há pessoas de várias nacionalidades, crenças, etnias e religiões protestando livremente por todo o globo.

            E, como diria Fidel Castro em sua frase célebre, “nenhuma delas é cubana”.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

            Coluna do dia: Privatizem os Correios!

            19/02/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Oi, tem algum progressista aí? Tem?! Ótimo! Preciso que alguém que defende o Estado grande e intervencionista me explique uma coisa: que raio de teoria econômica justifica a existência de algo como os Correios?

            Sim, eu tive problema com os Correios. Sim, eu só estou reclamando deles porque tive problema. Como todo “porcodireitista” que se preze, eu me ocupo, primordialmente, daquilo que diz respeito a mim – e ao meu núcleo familiar. Deixo o altruísmo para os humanistas do progressismo, sempre prontos a decidir tudo por nós – inclusive se podemos usar papel higiênico e desodorante, essas coisas pequeno-burguesas…

            Fiz uma compra via internet no dia 24 de dezembro de 2009 e pedi que a entrega fosse feita por meio do PAC dos Correios. Prazo máximo? 21 dias. Recebi minha encomenda quase dois meses depois de feita a compra. Isso já mostra uma empresa inviável, porquanto incapaz de prestar o serviço vendido para o consumidor final. Mas desgraça pouca é bobagem, não?

            Quando minha encomenda finalmente chegou aqui em Macapá, capital do fim do mundo, o prazo já havia se esgotado havia muito tempo. Pressuroso por ter em mãos algo que era meu por direito, dirigi-me até os Correios e travei com meu inimigo – um desocupado travestido de servidor público – o seguinte diálogo:

            Eu: Bom dia. Gostaria de retirar aqui uma encomenda.

            O inimigo: O senhor vá àquela fila e depois diga ao atendente o número do registro, para que possamos ver a situação atual da postagem.

            Eu: Já consultei o andamento na internet. A encomenda chegou ontem de tarde aqui. Veja.

            O inimigo [olhando preguiçosamente o papel]: Correto. Chegou ontem… Então nenhuma tentativa de entrega no endereço foi feita ainda…

            Eu: …

            O inimigo [com aquela cara de desinteresse que só um servidor público relapso sabe fazer]: Funciona assim: são feitas três tentativas de entrega em dias e horários diferentes. Depois de esgotadas as tentativas, a mercadoria fica aqui para ser retirada pelo cliente.

            Eu: Sei disso. Mas prefiro retirar logo, sem esperar nenhuma tentativa de entrega.

            O inimigo: Mas não funciona assim. A política de funcionamento dos Correios prevê as três tentativas de entrega.

            Eu: Sim. E também que eu deveria ter recebido o MEU produto há bastante tempo. Eu só quero receber logo, sem esperar mais.

            O inimigo: Já expliquei ao senhor que o política dos Correios…

            Eu: A política dos Correios provavelmente está arruinando o serviço dos Correios! Não vê a falta de lógica? Eu estou oferecendo a vocês a possibilidade de economizar dinheiro! Nenhuma empresa rejeita a possibilidade de reduzir seus custos, santo Deus!

            O inimigo: Senhor, é preciso entender que há todo um padrão de funcionamento construído durante anos de serviço. Essa política serve para que o serviço tenha excelência.

            Eu: Ou seja, não serve pra nada! Afinal o serviço é uma bela porcaria.

            O inimigo [dando uma olhada de esguelha para o cartaz padrão de toda repartição pública – aquele que adverte os consumidores sobre o crime de desacato]: O senhor está se excedendo.

            Eu: E vocês estão retendo indevidamente algo que é meu!

            O inimigo [olhando por cima do meu ombro]: Próximo!

            E, pronto. O sujeito atrás de mim, ávido por pagar alguma conta atrasada, não quis saber do meu problema. Nem o recrimino: ele tinha os problemas dele, assim como tenho os meus. Mas os Correios…

            Entendo perfeitamente que falhas na prestação do serviço não são exclusividade do Estado. O problema é quando fica evidente que o Estado não sabe nada acerca da livre iniciativa empresarial. Em outras palavras, um bando de burocratas partidários pensa que ser empresário é só sentar na cadeira do chefe.

            Eu já tive problema com serviços não prestados pela minha operadora de telefonia celular. Mas duvido que ela se recusasse a receber em dobro o valor da minha conta mensal, caso eu me propusesse a pagar isso… Já os Correios, preferiram gastar o nosso dinheiro – esbulhado por meio de impostos – com a gasolina que o entregador precisou para tentar entregar a minha encomenda no endereço. E isso mesmo depois de eu ter me oferecido para recebê-la diretamente na agência, sem ônus para a empresa.

            Quando eu me aborrecer definitivamente com a operadora de celular, posso cancelar o vínculo e escolher ficar aborrecido com outra, que concorre com aquela no mercado. No caso dos Correios, estou refém de um monopólio estatal estúpido e ineficiente. Não posso desistir dos Correios e correr para a concorrência, pois não há concorrência! E, se não há concorrência, como esperar que os néscios se esforcem para fazer algo melhor?

            Eu conheço a conversa fiada dos esquerdistas, segundo os quais o Estado deveria ter o monopólio dos tais “setores estratégicos”. Tudo desculpa para lotear cargos entre gente sem estudo, sem caráter e sem competência. Mas gostaria de deixar essa posição ideológica de lado e perguntar: que diabos o serviço postal tem de estratégico para o País? Por acaso alguém acha que vão começar a mandar antraz pelos envelopes? Mais que isso: alguém acha que, se começassem a enviar antraz, o Estado brasileiro seria capaz de impedir? Santo Deus! A tara estatizante “dessepaiz” não pode ser explicada pela lógica.

            Hoje, a grande maioria das comunicações se dá pelo meio virtual. Aos Correios restou a função de “moleques de mandado”, entregando coisas compradas aqui e ali. É mesmo preciso que isso fique a cargo do Estado? Não é melhor direcionar recursos para hospitais, escolas e polícia, já que nunca vamos conseguir nos livrar de um Estado grande mesmo?

            Se o maldito Estado brasileiro precisa mesmo ser empresário, como diz a ex-terrorista, pelo menos que aprenda a ganhar dinheiro! “Ah, mas o Estado não faz pelo dinheiro.” Eu sei! E é justamente por isso que faz mal feito. Quem entrega encomendas, deve entregar em troca de um pagamento final, não para resolver “us pobrema çoçial”.

            Ninguém liga se por meio dos Correios alguém lá em São Paulo consegue mandar um telegrama para a mãe, que ficou no sertão nordestino. Nem eu, um “porcodireitista”, nem “ozoprimido”. Isso é pensar pequeno. É pensar pobre… E só quem gosta da pobreza são os “subintelectuais” da esquerda, empoleirados nas universidades públicas, os quais, no mais das vezes, são tão competentes quanto aquele atendente dos Correios que citei ao alto.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

            Coluna do dia: Aos libertários – Liberdade sem regras é escravidão

            12/02/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Há algumas semanas, conversava com um amigo sobre a realidade política brasileira. Ele me perguntava como era possível que as pessoas encarassem o PSDB como sendo de direita. Lembro que ele disse algo mais ou menos assim:

            “De direita? O partido das agências reguladoras? Dos programas assistencialistas? Do SUS? Francamente.”

            De fato, só mesmo no Brasil, onde o quadro político-partidário é caótico e absolutamente ilógico, é que alguém poderia considerar uma agremiação autodenominada social-democrática como de direita. Meu diagnóstico para isso é simples e linear: falta uma direita de verdade no Brasil. Uma direita séria, democrática e propositiva, não esses sectários filofascistas, como o PRONA de Enéas, que, por sinal, se extinguiu ao formar o PR em aliança com o antigo PL.

            Ao serem corrompidos pela ligeireza do discurso político promovida pelas esquerdas brasileiras, os eleitores acabaram comprando a tese absurda de que qualquer um que renegue o socialismo é, necessariamente, de direita. E mais: no Brasil, criou-se o corolário de que toda a direita é sempre má. Mas eu pergunto: toda a esquerda é sempre boa? Desnecessário dizer que ao comparar a herança de ambas em cadáveres, o legado da esquerda é infinitamente mais deletério.

            Com o surgimento de expoentes radicais de esquerda, como o PSOL, o PSTU e o PCO, o PT ganhou o direito de se apresentar como moderado; moderno até. Assim, Lula pode falar em estabilidade econômica e controle inflacionário, pois cabe a gente como Heloísa Helena a defesa da “ruptura com tudo isso que está aí”.

            Não é de estranhar que o petismo tenha experimentado um crescimento importante nas últimas décadas: a esquerda radical avocou para si o papel de besta-fera dos moderados, brandindo as bandeiras ultrapassadas do socialismo e do comunismo. Ao PT coube apenas ocupar o espaço destinado aos moderados, fazendo, ainda que indiretamente, um “aggiornamento” de sua figura. Em outras palavras, a turma da estrelinha pode se declarar moderna, sem ser obrigada a explicar o inacreditável paradoxo que a expressão “socialismo democrático” representa.

            E os tucanos? Bem, se a esquerda radical é representada pelas várias “Heloísas Helenas”, ao passo que o PT é o moderado, resta aos adversários das esquerdas a… direita! Assim, pouco importam os atos e os programas de PSDB e DEM, pois a máquina de propaganda do PT já decidiu: “São nossos inimigos. São a direita!” Claro que isso seria muito diferente se existissem partidos verdadeiramente direitistas no Brasil, afinal, eles próprios cuidariam de “empurrar” o PSDB mais para a esquerda.

            Pois eis que há coisa de dois dias atrás, aquele mesmo amigo citado ao início mandou-me um e-mail que trazia em anexo o manifesto de um novo partido, o Libertários – ou Líber. Ao final da mensagem, ele arrematou: “Surgiu finalmente uma alternativa séria à direita?”

            Se considerarmos a direita liberal, sim, sem dúvida. Li rapidamente as propostas dos Libertários e pude notar que eles pregam a desregulação completa da economia, a redução drástica do Estado e a consolidação plena do mercado livre. Sem dúvida trata-se de uma novidade no mínimo curiosa dentro da política brasileira, sempre tão estatizante. Fico sinceramente curioso para saber como o novo partido será recebido pelos eleitores, mesmo prevendo que a aceitação – pelo menos a inicial – não será lá muito entusiasmada… Os brasileiros, meus caros, adoram a figura do Estado-pai.

            De minha parte, posso dizer que não me reconheço no tal partido. O Brasil, aliás, não me inspira muita esperança… Quando o mundo civilizado mostra ter sepultado coisas arcaicas como o comunismo, percebemos que aqui ele ainda é reverenciado publicamente. Da mesma forma, quando finalmente surge uma alternativa séria à direita, percebe-se que é aquela menos confiável. Pelo menos aos meus olhos.

            Ora, claro que eu concordo com o livre mercado e com uma considerável redução no tamanho do Estado brasileiro. Mas o Libertários está propondo, a meu ver, uma espécie de anarcocapitalismo, coisa que considero absolutamente inviável na prática. Imaginar que a ausência quase que completa de regras e normas levaria, por si só, a um equilíbrio social é, na melhor das hipóteses, ingenuidade. E isso não melhora apenas porque se propõe tal sistema no bojo de uma sociedade capitalista. “O homem é lobo do homem”, lembrem. Por isso a mediação feita por meio do Estado é indispensável.

            O lado – como direi? – “social” do programa dos Libertários também não me seduz nem um pouco. Para ser breve, posso mencionar duas divergências inconciliáveis que me distanciariam demais deles: 1) o apoio à legalização do aborto; 2) o apoio à legalização das drogas.

            Dizer o quê? No meu mundo moral, não há sistema de liberdades capaz de justificar o assassinato. A ideia de que a liberdade ideal confere à mulher o direito de escolher o que fazer do seu corpo colide de forma frontal com o direito do bebê à vida. No mais, desafio qualquer liberal clássico a me mostrar em qual plano de valores absolutos o direito à vida não é, de per si, a expressão máxima do direito à liberdade.

            Não, meus caros. Sem a existência de imperativos morais e éticos, não há maneira de ver uma sociedade prosperar. A sociedade de mercado, indiscutivelmente a melhor parceira até hoje encontrada para a democracia, não nasceu apartada dos chamados valores morais – hoje erroneamente associados aos chamados conservadores. Pelo contrário: ela foi dada à luz por aqueles.

            Foram as instituições próprias da democracia que criaram os fundamentos inerentes ao capitalismo, não vice versa. E a democracia, queiram ou não os direitistas mais liberais – ou os esquerdistas mais extremos -, traz em sua essência um conjunto de postulados éticos e morais sem os quais a sociedade livre simplesmente não conseguiria sobreviver. Vou até um tantinho além, no afã de provocar – quem sabe? – um futuro aprofundamento do debate: a democracia tal qual a conhecemos hoje é, no plano político, herdeira da tradição ética e moral desenvolvida, no plano filosófico-humanístico, pela cultura judaico-cristã. Mas esse último aspecto, reconheço, mereceria um artigo próprio. Ou até uma tese, mais longa e abrangente.

            O fato é que o livre mercado praticado sem democracia, acaba em totalitarismo. E a democracia, está posto, só sobreviveu em sociedades onde uma profunda ética sempre esteve arraigada nos cidadãos.

            O mercado não proporciona liberdade. Ele depende dela. E uma sociedade escrava das drogas, por exemplo, jamais será livre. Da mesma forma, uma sociedade que minimiza a vida humana e permite o assassinato de bebês, escolhe vilipendiar a essência do ser humano. Como poderá, pois, ocupar-se dos negócios?

            O Libertários, uma novidade interessante na política nacional, não passa de um PSOL à direita. Ou, em outras palavras, de um grupo radicalmente favorável ao Estado mínimo, da mesma forma que a esquerda conta com grupos radicalmente favoráveis ao Estado paquidérmico. Um erra porque entrega o livre mercado a uma comunidade desregrada. O outro, porque entrega o livre mercado a um Estado totalitário. Ambos, cada um à sua maneira, sucumbirão aos vícios próprios de seus sistemas.

            Não consigo ser otimista com o futuro do Brasil. As opções políticas que nos são dadas acabam por ser flagrantemente ruins. Não bastasse a infinidade de partidos de esquerda filosoviéticos, agora a direita também resolve entrar em campo com aquilo que tem de pior a oferecer.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

            Coluna do dia: A vitória republicana em Massachusetts – O fim de uma era

            22/01/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Há coisa de poucos dias vimos o crepúsculo de uma era. A hegemonia de décadas exercida pelo mesmo grupo político chegou ao fim com a eleição de um candidato tido como conservador, em um resultado que surpreendeu o consenso politicamente correto.

            Não! Eu não estou falando da recente eleição havida no Chile, onde o candidato conservador conseguiu derrotar a coalizão de centro-esquerda, no poder desde o fim da ditadura liderada por Augusto Pinochet. O Chile, em que pese a grandiosidade de seus indicadores econômicos e sociais, não passa de um pequeno país incrustado na América Latina, oprimido pela Cordilheira dos Andes. O Chile, apesar de seu sucesso institucional e de sua democracia consolidada, é apenas… “um Chile”. E isso, meus caros, dá uma ideia da “importância” do Brasil dentro do mundo.

            Esqueçam, pois, o Chile! Falemos de lugares um pouco mais importantes aos olhos do mundo, como Massachusetts, nos Estados Unidos. Na última terça-feira, os eleitores do estado, há cerca de quarenta anos devotos dos Democratas – e dos Kennedy – surpreenderam o país ao escolher Scott Brown, um Republicano, para o Senado.

            A vitória de Brown não foi apenas um normal triunfo eleitoral, desses que acontecem sempre na política. Há também o lado simbólico da coisa: Massachusetts votou em um Republicano conservador para uma vaga até então ocupada por um Kennedy. Mais que isso: para a vaga ocupada por Ted Kennedy, um ícone do progressismo americano cuja principal bandeira sempre foi a reforma da saúde.

            E eis que, para a surpresa de muitos, o porta-bandeira do “Health Care”, o gorduchinho simpático e bonachão que era amado pela grande maioria dos americanos, verá – onde quer que esteja agora – seu assento ocupado por um Republicano que promete aborrecer a vida daquele que é visto praticamente como um Cristo negro, Barack Hussein Obama. E aqui reside a explicação para o sucesso de Brown: a disposição declarada de atormentar o Presidente-de-ébano e os obamófilos de todo o mundo.

            Brown fez da discussão mais importante do país, o assunto principal em Massachusetts. Mostrou aos eleitores, por exemplo, que o plano de Obama e dos Democratas – que era aquele de Ted Kennedy – acabaria por drenar uma infinidade de dinheiro para o Estado, sem que houvesse nenhuma garantia de sucesso para o plano de reforma da saúde. O Republicano jogou no colo de sua rival, Martha Coackley, a contradição essencial do projeto Democrata: como tornar prática a universalização do seguro-saúde, se a questão da imigração ainda não foi abordada? Ora, eu simplesmente não posso prometer que toda pessoa residente na América terá acesso à saúde, enquanto não reconhecer a enormidade de imigrantes que residem na América!

            Ao deixa isso evidente, Brown mostrou aos eleitores de Massachusetts que o plano de Obama, tal qual apresentado hoje, não passa de uma maneira segura de meter a mão nos bolsos dos cidadãos, sem ser importunado. E, querem saber? É exatamente isso!

            Volta e meia eu afirmo que os Estados Unidos são melhores que nós. E melhores em tudo! Por quê? Ora, lá o povo – vejam que coisa fascinante! – se sente ameaçado com as tentações de agigantamento do Executivo. Bastou Obama vir com essa conversa de “preciso tirar o dinheiro de vocês para salvar o mundo” e pronto: o sentimento de “opa, fizemos besteira” aflorou rapidamente.

            Desde a eleição do Messias, há um ano, a “era Obama” tem sido um sucessão interminável de fracassos. Toda eleição regional que disputou, Obama perdeu. E, sim! Foi ele mesmo quem perdeu. Não apenas os Democratas, nem só os candidatos de ocasião. Todas as derrotas foram derrotas pessoais de Obama, principalmente porque ele está demorando a se dar conta de que os americanos o enxergam como aquilo que é: um homem.

            O “mito Obama” durou exatamente até o dia da eleição. A partir de então, o ser humano tratou de dar cabo de toda retórica ufanista, de toda a cantilena mudancista que pretendia nos conduzir a um novo Éden.

            Quando Obama ficou nervosinho ao ver que Brown fez os eleitores de Massachusetts esquecerem Coackley, a adversária real, e se concentrarem no Presidente, mordeu a isca dos Republicanos e se abalou, com comitiva e tudo, decidindo assumir as rédeas da campanha. A partir de tal momento, a disputa, que estava acirrada, ficou mais fácil para o GOP, como é conhecido o Partido Republicano nos EUA.

            Sempre que Obama tentou personalizar alguma questão nos Estados Unidos, se deu mal. Está a cada dia mais evidente que os eleitores de lá parecem sinceramente aborrecidos com a escolha feita há um ano, quando deixaram a esperança vencer os fatos… É por isso que cuidam de surrar Obama e os Democratas sempre que têm chance. É por isso também que vão tirar do partido do governo o controle do Legislativo, em novembro próximo, a fim de impedir que Obama faça besteiras até o final do mandato.

            Então, vão sentar e esperar que chegue 2012, quando poderão consertar a grande besteira que fizeram. A única chance que Obama tem de permanecer na Casa Branca – vejam que coisa! – é capturar Osama Bin Laden. Ou seja, a última esperança do homem da mudança vai ser se agarrar aos planos do demônio aposentado, George W. Bush. Este, por sinal, era mais popular do que Obama ao final do primeiro ano de mandato…

            Eu, que desde sempre fui cético quando à capacidade administrativa de Obama, um ongueiro de esquina disfarçado de estadista, duvido muito que ele consiga balançar a cabeça de Bin Laden em praça pública, ganhando de volta o apreço dos americanos. Sendo assim, acho mesmo que o mandato dele é apenas um estorvo entre as eleições de 2008 e 2012, nada mais.

            O problema é que as reiteradas trapalhadas políticas do sujeito, aliadas a sua sanha “liberal”, estão vitaminando a ala mais radical do conservadorismo americano. Em resumo, Obama pode ser responsável, de uma só tacada, pela reabilitação histórica de Bush, bem como pela eleição de Sarah Palin. E olhem só: eu até acho, contra o consenso mundial, que Bush não foi lá o demônio que tantos pintaram. Também acho a “hockey mom” algo mais que um rostinho bonito. Mas acredito que os Republicanos têm coisa bem melhor a oferecer aos Estados Unidos. Melhor que Obama, pelo menos, com certeza têm.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

            Coluna do dia: Política e cinema

            08/01/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Com o filhote me dando umas duas horas de liberdade – muito graças à ação providencial de sua mãe -, pude me dedicar a um filme interessante nesta tarde: “A onda”. Caso não tenham ainda visto a obra, deixo meu conselho: tratem de alugar, logo, o DVD.

            Não vou aqui divagar sobre cada particular da história, mesmo porque não quero estragar a surpresa daqueles que pretendem seguir o conselho deste escriba. Mas adianto algo essencial: trata-se de uma obra rica em particulares político-sociológicos, que nos ajuda a compreender bem por que toda e qualquer distopia coletivista não poderá jamais ter sucesso.

            O roteiro é bastante simples – talvez por isso seja tão bom: um professor, ávido por fornecer experiências novas aos seus alunos adolescentes, propõe que uma oficina sobre regimes autocráticos seja abordada por meio de ações práticas. Isso se concretiza quando a turma toda, sob a liderança do mestre, adota um regime totalitário de molde fascista, inclusive vestindo todos um mesmo tipo de roupa, adotando uma saudação comum e um símbolo identificador. Fica fácil deduzir que os alunos logo passaram para a fase seguinte, segregando os diferentes e agredindo os rivais.

            O objetivo do filme é, claro, criticar os vários fascismos. E ele é muito bem sucedido em sua missão, pois mostra como a imposição “da massa” sobre o indivíduo – e seus direitos e liberdades fundamentais – acaba sempre levando à tirania escancarada. Não faltam, é claro, alguns clichês politicamente corretos, como a família “woodstockiana” e “descolada” que se preocupa – com razão, é claro! – com a nova onda fascista, ao mesmo tempo em que considera normal ver um dos filhos metido com a turma mais rebelde, anárquica. Em outras palavras: rebeldia “de esquerda” é bacana, mas aquela “de direita”, não. Melhor ainda fica quando a outra filha, uma das primeiras a renegar a turma fascistóide, também cuida de repreender os pais “mente aberta”, lembrando que todos precisam de disciplina – não de totalitarismo.

            Em síntese, o filme “A onda” é bastante claro em sua mensagem: sempre que o indivíduo é subjugado pela “massa” – ou pela “voz das ruas” – o resultado é uma manada acéfala que estoura em devastante debandada, destruindo tudo o que encontra pela frente. A primeira vítima? Ora, a liberdade é claro. Como quando, no filme, um aluno era repreendido, ameaçado e, finalmente, agredido, simplesmente por se negar a usar as mesmas roupas criadas pela turma fascista. Qualquer semelhança com a revolução cultural chinesa, acreditem, não é mera coincidência.

            Se “A onda” mostra um regime fascista e seus pormenores, lembro de outro cuja principal virtude é exatamente o oposto: exortar o indivíduo em seu estado puro: “Gran Torino”. É, a meu aviso, o melhor filme de Clint Eastwood, um notório conservador americano.

            No filme, Eastwood é apenas aquilo que – suponho – ele é na vida real: um velho conservador que deseja apenas continuar fechado no seu próprio mundo, aquele no qual nasceu e foi criado. É um homem que só quer o direito de não ser incomodado pelos novos vizinhos japoneses e suas “tradições aborrecidas” de ficar dando presentes. “Saiam do meu gramado!”, grita o velho ranzinza.

            O indivíduo Eastwood só está cansado do multiculturalismo que parece disposto a destruir os “valores da América profunda”. E ele só quer ter o direito de ficar aborrecido com isso. Nada mais! E demonstra isso em variadas facetas: desde o repúdio aos automóveis da moda, todos japoneses, até no confronto que empreende contra uma gangue local, que não desiste de infernizar os… novos vizinhos japoneses! E aqui estamos na essência da obra: o mesmo velho conservador e ranzinza que não suporta os vizinhos e seus novos costumes, também não exita em tomar as dores daqueles, enfrentando os “bandidos” locais. Em nome da segurança dos mais fracos? Da paz na vizinhança? Que nada! Em nome apenas dos seus princípios e dos seus valores. O indivíduo no centro de tudo, lembram?

            Sempre que os valores e os princípios dos indivíduos devem ser mitigados por uma “força maior”, coletiva, estamos diante do terror. Nenhum regime de massas pode ser benéfico, pois tenta-se fazer o impossível: criar a unidade homogênea a partir da extirpação daquilo que faz de nós seres humanos: nossa individualidade. Comete-se, pois, o erro de insistir em uma igualdade impositiva, forçada. Esta, em vez de promover uma realidade melhor, terminar por atirar todos em uma igual poça de miséria – e, no mais das vezes, de sangue.

            Lembro-me de Margareth Thatcher, uma das mentes que mais admiro. A “Dama de Ferro”, certa vez, discursava para suas bases conservadoras, dizendo: “Os socialistas querem a igualdade. Isso quer dizer que ninguém poderá se dizer inteligente, sob pena de ofender os estúpidos”. Simples, não? Estranho que tantos ainda comprem o ideário socialista…

            Sabem por que o fascismo pôde ser aplicado com tamanha facilidade na escola do filme “A onda”? Simples: porque os jovens precisam de disciplina. Mais que isso: eles clamam por ela! Gritam pedindo por limites, diretrizes e orientações. E não é um velho careta quem diz isso, mas um jovem de 26 anos. Abraçaram o fascismo porque ele apareceu de inopinado, oferecendo aquilo que eles queriam.

            O que vamos fazer de nossa sociedade e de nossa juventude? Vamos deixar que os utopistas da manada continuem tentando doutrinar todos, nas escolas e nas universidades principalmente? Se ainda pretendemos vivem em uma sociedade civilizada, é preciso resgatar os valores essenciais sobre os quais se ergueu nossa civilização, baseados, em princípio, no indivíduo e nos seus direitos e liberdades fundamentais.

            Se fosse possível, eu designaria o velho Clint para tal missão. Mas ele está ocupado, sabem? Polindo o velho carro Ford, ou mesmo aparando a grama. Ele está ocupado demais, cuidando do cerne da sociedade humana: o indivíduo. Teremos que nos contentar em imitá-lo e aprender a resolver as coisas por nós mesmos. Sem nenhuma “massa” a nos conduzir.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

            Coluna do dia: A corrupção de Arruda e a arte de se ter apenas uma moral

            04/12/2009

            Por Yashá Gallazzi*

            FORA ARRUDA! FORA MENSALEIROS!

            Não quero parecer ambíguo, por isso comecei o texto com as frases acima. Quero que os leitores saibam, desde já, que qualquer mensaleiro, se dependesse de mim, iria para a cadeia. Simples, não? Bem, mais ou menos… Aqui, “nestepaiz” esquisito, algumas coisas óbvias não parecem assim tão simples.

            Os leitores sabem que sou considerado por alguns como um conservador. Outros – estes mais diretos – preferem dizer que sou reacionário. A maioria, porém, não tem dúvidas: “Esse sujeito é um direitista!” O problema é que essa turma tem o péssimo hábito de medir os outros pela sua própria régua. Assim, se eles decidiram, por exemplo, que ser “pogreçista” é aprovar o aborto, qualquer um que seja contrário ao assassinato dos bebês será um… direitista!

            No caso do mensalão do Arruda – ou do DEM, como queiram -, se comportam da mesma forma. Como eles – os “pogreçistas” – defenderam com unhas e dentes as trapaças de Lula, Dirceu e companhia, cobram que “a direita” faça o mesmo agora e abrace Arruda. Sai pra lá! No meu colo vocês não jogam esse cadáver, não!

            Quando, há alguns anos, fui acusado de ser “de direita” pela primeira vez, respondi ao interlocutor: “Depende. Se você está falando de Lincoln, Churchill e Thatcher, tudo bem.” Ao que o outro retrucou: “E Hitler?! E Mussolini?!” Entenderam o truque desses valentes? Sabem o que é mais curioso? Essa gente é a mesma que, até hoje, renega sua “herança maldita”. Qual? Bem, os mais de 100 milhões de mortos legados ao mundo por “humanistas” como Lênin, Stálin, Mao, Pol-Pot, Castro e afins.

            Por que não defendo Arruda? Bem, porque só tenho uma única moral, sempre constante e certa. Sim, eu sei que isso pode soar um tanto aborrecido, ainda mais em um Brasil onde o Presidente se gaba de ser uma “metarmofose ambulante”… Mas é assim. E, abraçado à minha única moral – e à lógica, como sempre -, só posso condenar Arruda e toda aquela canalha que estuprou a democracia.

            Quem tem duas morais – deve ser fruto da tal dialética, lembram? – é a gente “pogreçista”, a turma do “outro mundo possível”. Foram eles que, entre 2004 e 2005, praticaram contorcionismos retóricos os mais absurdos a fim de justificar o mensalão lulo-petista. Aliás, não! Eles fazem isso até hoje! Experimentem tratar do assunto com aquele amigo petista e verão: “Mensalão? Isso nunca existiu! Tudo invenção da imprensa golpista e da elite conservadora e preconceituosa!” E assim eles seguem exercitando a arte de ter uma moral própria, diferente da nossa – que eles chamam de “burguesa”.

            Eu? Ora, eu quero que todo mensaleiro vá pro diabo! E que se note: eu disse todo! Quero que os democratas envolvidos sejam punido, da mesma forma como defendo, até hoje, punição para os petistas. Quero que Arruda sofra impeachment, da mesma forma como defendo o mesmo fim para Lula. Perceberam? É essa simplicidade de propósitos, essa lógica moral evidente que deixa os “pogreçistas” ouriçados. Eles não se conformam com isso, e insistem em medir seus adversários – que chamam indistintamente de conservadores – pela própria régua. Por isso vêm até mim, perguntando: “E aí? Não vai defender o Arruda?” Eu?! Eu, não! E você, petralha? Vai continuar defendendo o Dirceu?

            Sim, podem apostar que eles continuarão exercitando a ética maleável: defenderão o lulismo e seus desmandos e, com o mesmo vigor, pedirão punição para os demais. Um dos tantos pedidos de impedimento de Arruda – pasmem! – foi apresentado pelo PT! Isso para não mencionar os tais “movimentos sociais”, esbirros do petismo, que já se apressaram em cobrar “ética”. Cobraram de quem? Bem, dos outros… Afinal, eles são a “vanguarda transformadora”, não é? Eles não precisam perder tempo com coisas pequeno-burguesas como a lei e o direito. Só o que importa para eles são “ozoprimido”.

            Eu sei que estou dizendo algo até bastante evidente, mas é que vivemos tempos um tanto sombrios. Hoje, defender a liberdade de expressão de um ex-petista é ser “de direita”. Fácil compreender por que essa gente estranha não consegue chamar bandido de… bandido! Para eles, só “os outros” são bandidos. Quais? Bem, os que não roubam pela “causa”. Pode parecer novidade, mas é só a repetição de um triste padrão. Os que justificam o mensalão lulista, mas condenam o de Arruda, são os mesmos que criticam Hitler, mas conseguem justificar Lênin e Trotsky. É sempre a velha história das duas morais…

            Eu não defendo os envolvidos no mensalão do distrito federal porque não tenho bandidos de estimação. Quero é que todo o bandido seja processado, condenado e encarcerado. Simples assim. Logo, quero que Arruda e sua corja sejam atirados num calabouço, de preferência junto com Lula, Dirceu e companhia. Quem tem bandidos – terroristas e ditadores também – de estimação são os “pogreçistas”, que conseguem condenar o regime militar brasileiro, ao mesmo tempo em que tecem honras a Fidel Castro, o maior assassino da história das Américas. Eu? Bem, “conservador” que sou, quero mais é que todos sejam atirados na lata de lixo da história!

            Acreditem: Não há nada mais libertador do que se deixar nortear por princípios que não precisam justificar o assassinato, nem condescender com a corrupção. Sabem, porém, o que é mais curioso? Isso, no Brasil de hoje, tem sido sinônimo de ser “conservador e de direita”. Bom, se é assim… Que assim seja!

            No mais, eu não poderia defender o DEM em nenhuma hipótese. Nem mesmo em razão de uma suposta afinidade ideológica. O ex-PFL, afinal, está muito à esquerda para o meu gosto pessoal.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

            Coluna do dia: Obama, a contagem regressiva começou

            06/11/2009

            Por Yashá Gallazzi*

            obamanowecant

            Parabéns pra você! Nesta data querida! Muitas felicidades! Muitos anos de vida!

            Quem é o aniversariante? Ora, o Presidente-de-ébano, Hussein Obama! Na última quarta-feira, dia 4 de novembro, ele completou um ano de sua – como é mesmo? – “histórica” eleição. Ôpa, errei na letra da musiquinha. No caso de Obama o certo é terminar cantando: “Um só mandato de vida!”.

            Sei que já disse isso no passado, mas não custa relembrar: Obama acabou! Está politicamente morto e enterrado. Eu e muitos outros agourentos, todos reacionários, conservadores, maus e bobos, estamos dizendo isso há meses. Na quarta-feira, os fatos vieram em nosso socorro, ajudando a confirmar nossas previsões.

            No “Election day” desta semana, os Democratas foram arrasados pelos Republicanos, perdendo todas as disputas principais. Dois resultados são politicamente emblemáticos e simbolizam o fracasso pessoal de Obama, o Messias negro que pretendia ombrear com Kennedy, mas que passará à história como um novo Carter:

            Na Virgínia, o candidato Republicano, Robert McDonnell, venceu o atual Governador Democrata, Creigh Deeds. Isso, há pouco mais de um ano atrás, sequer seria notícia, afinal a Virgínia sempre foi considerada um “red state”, ou seja, um estado com tendências Republicanas. Por que ganhou as manchetes? Bem, porque Obama venceu na Virgínia em 2008 e, em um de seus proféticos-ridículos discursos históricos – aqueles que fazem história antes mesmo de fazer… história! -, afirmou que “a mudança havia expugnado as barreiras conservadoras mais tradicionais, inclusive na Virgínia.”

            Foi na esperança de manter a tal “mudança” na Virgínia que Obama participou da campanha local, chamando os eleitores a votar no Democrata, personalizando a disputa bem ao melhor estilo do caudilhismo terceiro-mundista. Obama quebrou a cara e os Republicanos venceram. E isso é bom! Bom, não: ótimo! Sempre que Obama perder, a democracia vence. Parabéns pra você!

            Na eleição realizada em Nova Jersey, a derrota obamista foi ainda mais humilhante. Lá, o Cristo de Illinois foi às ruas, participou de comícios e gravou até programas de televisão. Tudo para defender a supremacia Democrata naquele estado, tradicionalmente eleitor dos “donkeys”.

            Naquele terreno, a pequenez de Obama se superou, e ele agiu como Lula agira na eleição municipal de São Paulo, em 2008. Uma vez mais, tentou personalizar a disputa, transformando-a em uma espécie de referendo do seu primeiro ano de mandato. Em uma inserção publicitária, chegou a pedir que os eleitores dessem a ele, Obama, um voto de confiança. O que aconteceu? Bem, os Republicanos, com Christopher Christie, venceram os Democratas, representados por Jon Corzine – e por Obama. Obama quebrou novamente a cara. Parabéns pra você!

            Onde os Democratas venceram? Bem, no pequeno distrito conhecido como NY 23, lá em Nova Yorque. Bem, não os Democratas propriamente, mas Bill Owens. A máquina Democrata e Obama, uma vez mais, perderam. A surpresa daquela eleição, porém, foi a sova sonora que a burocracia dos Republicanos tomou, a partir do surgimento de Doug Hoffman. Quem? Doug Hoffman! Não conhecem? Ora, nem brinquem com isso! O sujeito é simplesmente a maior estrela da política americana no momento.

            A história do NY 23 daria uma novela. Começou com um racha dentro dos Republicanos, que escolheram uma candidata liberal – mais liberal que muito democrata – para concorrer pelo partido, preterindo o conservador Hoffman. Tudo para dar vida à ideia abespinhada que prega a ruptura do partido com os seus valores tradicionais e a aproximação do centro moderado. Em suma, escolheram alguém que, dentre outras coisas, era favorável ao casamento gay e ao aborto.

            Só que Hoffman não se rendeu e decidiu entrar na disputa pelo pequeno Partido Conservador. E começou a crescer… E cresceu cada vez mais, a ponto de engolir a candidatura oficial dos Republicanos. A candidata oficial, emburrada, continuou fazendo campanha ao estilo Democrata até a véspera da eleição, quando se retirou da disputa e – atenção agora! – declarou apoio ao Democrata. Resumo da ópera: o Democrata venceu, o conservador Hoffman ficou em segundo – muito perto da vitória – e a Republicana, coitada, foi esmagada.

            Qual a mensagem que a eleição em NY 23 – e nos Estados Unidos como um todo – nos deixa? Bem, que os Republicanos só estão recuperando terreno onde se comportam como… Republicanos! É até bastante lógico, não? Para defender o aborto e o casamento gay, o eleitor já tem os Democratas. Ele quer os Republicanos quando escolhe bandeiras diferentes daquelas. Por isso, em todos os lugares onde o GOP (Grand Old Party – Republicanos) assumiu sua posição conservadora e enfrentou a patacoada obamista, os Democratas se deram mal. Também por isso é que os Republicanos perderam no único lugar em que quiseram se disfarçar de progressistas.

            Apesar da vitória do Democrata Owens em NY 23 – para um mandato-tampão, de cerca de um ano -, a derrota da máquina Democrata ancorada no discurso mudancista de Obama foi inegável. Até a CNN e o Times a reconheceram! Foi a péssima leitura do jogo feita pela burocracia do GOP que perdeu ao não escolher Hoffman, não os Democratas que venceram ao repetir a pífia tese do “Yes, we can!”. Aliás, nunca é demais lembrar que Obama não tomou parte na campanha de Owens, o que, analisados os demais resultados, parece ter contribuído demais para a vitória dele. Parabéns pra você!

            Por que digo no título que a contagem regressiva começou? Bem, Obama perdeu seu primeiro grande teste eleitoral. E sua popularidade já se assemelha àquela do demônio aposentado, George W. Bush. Tudo isso há apenas um ano da eleição mística… E ano que vem, em novembro, teremos as eleições de “mid-term”, quando o Congresso será quase que todo renovado. Querem uma profecia? Lá vai: os Republicanos vão vencer e Obama perderá o controle do Legislativo. E, a partir de então, se arrastará vergonhosamente até o final do mantado, em 2012, quando será definitivamente defenestrado, tal qual um novo Carter mesmo.

            Nessas horas me lembro dos inúmeros “intelectuais”, “especialistas” e “estudiosos” brasileiros que, tomados pela magia do sorriso brilhante de Obama, saudaram, há um ano, aquilo que seria o “fim dos valores tradicionais americanos”, o “soterramento da América profunda”, “a capitulação dos Republicanos e do seu conservadorismo”.

            Essa gente me lembra os universitários dos anos 30, estudados por Claude Lévi-Strauss, falecido esta semana. São uma gente apequenada, que despreza os livros de referência e prefere os resumos. A curiosidade intelectual deles mais parece inquietação gastronômica. Ah, que falta o franco-belga me fará!

            Ainda na esteira do que Lévi-Strauss ensinou, lembro o que ele respondeu quando perguntaram se ele se identificara com os índios brasileiros: “De jeito nenhum!” Por que isso? Bem, porque o primitivismo, o tal saber natural do “bom selvagem” simplesmente não tinha nada a ensinar ao saber tradicional, aquele dos livros e dos bancos de escola. Eu, quando me perguntaram se me seduzia a retórica obamista, sempre respondi: “De jeito nenhum!” Ponto pra mim! Os selvagem da intelectualidade, assim como os obamófilos do mundo, quebraram a cara. E quando essa gente se arrebenta, é sempre melhor para a democracia.

            Parabéns pra você! Nesta data querida! Muitas felicidades! Um só mandato de vida!

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento