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Coluna do dia: O Brasil, a ONU e o mundo que não se quer

16/10/2009

Por Yashá Gallazzi*

Creio que os leitores já sabem, mas nunca é demais lembrar que hoje o Brasil foi indicado para ocupar um assento no Conselho de Segurança da ONU. Ainda não é a tão sonhada vaga permanente, que alimenta os devaneios de Celso Amorim, mas um posto como membro transitório. Ainda assim, como é de se supor, o feito mereceu notável destaque na mídia nacional, que se apressou em comemorar mais um grandioso feito do Itamaraty petista, saudado por sua – como é mesmo? – “política externa ousada e soberana”.

O que eu acho? Bem, acho que Lula, Celso Amorim e os demais petistas estarão muito confortáveis em qualquer fórum promovido pelas tais Nações Unidas. Parafraseando Lula, digo que nunca antes na história do mundo um governo supostamente democrático emprestou tanto apoio a terroristas e ditadores dos mais abjetos. Lembram? Foi só Celso Amorim se aboletar no Itamaraty e pronto: imediatamente começou o discurso pedestre e terceiro-mundista da “autonomia dos países pobres”.

E com base nesse discurso o Brasil tratou de se render a convescotes com humanistas do calibre de Kadafi e Mugabe, só para citar dois. Em breve, o País vai receber, de braços abertos, o fascista Mahmoud Ahmadinejad, possivelmente um dos maiores perigos para o mundo livre e democrático. E tudo por quê? Ora, para esfregar a tal soberania na cara dos chamados “países ricos” – em especial os Estados Unidos.

Por isso, não dou a menor pelota para a posição que o Brasil ocupa na ONU. Só os inimigos da liberdade dão alguma bola para aquela super-ONG inútil e cara.

Em nome da confraternização e do entendimento entre os povos, a ONU aceita receber sob seu teto a escória do mundo. Como justificar, por exemplo, que o líder maior do fascismo islâmico possa discursar diante de um fórum supostamente democrático? “Ah, mas ele pode discursar justamente porque o lugar é democrático!”, dirão alguns. Besteira!

A democracia, em nome de sua pluralidade e de sua tolerância, não é obrigada a condescender com a canalha que pretende vê-la destruída. Lembro de um célebre julgado da Suprema Corte britânica: “Não podemos conceder aos inimigos da liberdade, em nome de nossas convicções, as prerrogativas que eles, em nome das suas, nos negariam.” É isso que falta ser assimilado pelo Ocidente, que insiste em aceitar a presença dos seus inimigos, em vez de derrotá-los. Por isso me é impossível levar a ONU a sério.

Como respeitar, por exemplo, um fórum onde o Congo é convidado a sentar na mesma mesa de democracias históricas como a americana e a britânica? Por que pincei o Congo como exemplo? Bem, pode ser que os leitores não conheçam a história congolesa, mas eu faço uma breve síntese: Aquele pobre país africano, como os leitores hão de supor, foi um dos tantos dominados pela tão demonizada colonização europeia. Ah, a malvada Europa… Como sabemos, os europeus oprimiram a África durante décadas, sempre impondo aos nativos a sua arte, sua cultura, suas escolas e sua medicina. Simplificando, pode-se dizer que o chamado “velho mundo” exerceu sua dominação sobre a pobre África por meio de Descartes, Voltaire, Hegel, Santo Tomás de Aquino, Shakespeare e tantos outros. Trágico, não? Cruel, não? Antes não houvesse existido essa dominação, essa opressão desmedida. Mas o fato é que houve. E o mundo, tomado pelo discurso pacifista “woodstockiano”, começou a gritar pelo “fim da opressão”. A ONU, à época, era aquela que gritava mais alto e forte.

E eis que os povos nativos começaram suas lutas de libertação, embalados nos cantos humanistas da classe média ocidental, que desde sempre adorou uma passeata pela paz. E, então, o Congo se libertou do jugo europeu. Do dia para a noite não havia mais Descartes, Voltaire, nem Shakespeare. Não era mais preciso vestir as roupas deles, ir às escolas deles e aprender os costumes deles. Os nativos puderam, finalmente, viver segundo suas tradições, suas convicções e suas crenças. E então a tragédia começou.

Entre os anos de 1998 e 2002, mais de cinco milhões de congoleses morreram no mais sangrento conflito armado desde o fim da Segunda Grande Guerra Mundial. Mas se acabou a opressão do “primeiro mundo”, de onde veio a guerra?

Bem, das disputas étnicas que passaram a eclodir a partir do momento em que os nativos se viram sem as brisas da civilização… Convenhamos: quando se perde, de uma só vez, os referenciais de Voltaire, Hegel, Santo Tomás e outros, o norte moral também desaparece em um segundo. Quem poderia, pois, imaginar que de todos os supostos males que a Europa teria causado ao Congo, a saída do país pudesse ser o maior deles?

Exagero? Estou sendo muito imperialista no meu discurso? Me digam vocês, ao final. Mas saibam, antes, que os nativos – os libertadores do Congo – adotaram o estupro coletivo como arma de guerra. Naquele país esquecido, qualquer milícia “libertadora” tem o direito de estuprar. Os rebeldes estupram, os Hutus estupram, os Mai-Mai, alinhados ao governo, estupram e, não bastasse isso, as tropas do Exército oficial também estupram. São casos isolados? Não! Trata-se de uma prática tradicional. Uma arma de guerra. Ou, se preferirem, um aspecto da tal cultura local dos povos, tão defendida por um exército de ONGs cujas mulheres, suponho, jamais foram estupradas.

No Congo, Elise Mukumbila, uma anciã, foi estuprada pelos Mai-Mai em uma floresta durante meses, tudo porque, segundo as crenças locais, sodomizar uma mulher mais velha traria riqueza ao agressor. Já Valentine, de apenas doze anos, foi estuprada pelos “libertadores do Congo” porque, segundo outra crença, violar uma virgem traz a imortalidade. A menina, em decorrência dos ferimentos que experimentou, sofre perenemente as agruras de uma fístula nunca curada, que a impede até mesmo de controlar a urina.

É assim que os tais “povos tradicionais” promovem a liberdade das nações africanas. É assim que restauram sua “cultura” depois de encerrado o jugo europeu. Aliás, não promovem liberdade nenhuma. Afinal, já são mais de cinco milhões de mortos em vários anos de conflito pela autonomia. De forma objetiva, pode-se dizer que a Europa, oprimindo Congo, matava bem menos que os próprios congoleses ao buscarem sua libertação.

É essa canalha que a ONU abriga. É a essa gente simiesca, animalesca e primitiva que aquele fórum empresta voz e atenção. Por isso me é impossível levar a sério a ONU e qualquer um de seus braços institucionais. Por isso não dou a mínima para o Brasil ocupar, ou não, o Conselho de Segurança. Que diferença faria? Os congoleses continuariam lá. Ahmadinejad continuaria lá. O Sudão continuaria lá. E o mundo livre e democrático continuaria ameaçado por um fórum antiocidental, que só consegue existir graças aos recursos do… Ocidente!

Dizem que Lula está cotado para ser, em um futuro próximo, Secretário-Geral da ONU. Nada mais apropriado. O mundo politicamente correto e “pogreçista” adora o apedeuta e aquela inutilidade que as Nações Unidas representam. E Lula, está posto, nutre irremediável simpatia por qualquer tirania que se diga antiamericana. Ninguém melhor do que Lula, que usa os livros como sonífero, para chefiar uma organização capaz de defender que uma nação africana troque Descartes, Voltaire, Hegel, Santo Tomás de Aquino e Shakespeare por morte, terror, miséria e estupros.

Os Republicanos disseram, há coisa de poucos dias, que seria preciso jogar algumas bombas sobre as instalações nucleares do Irã e da Coreia do Norte. Concordo. Mas faço um adendo metafórico: seria melhor, antes, lançá-las sobre o órgão que permite a tais países filoterroristas o direito de manter um arsenal atômico. Assim, a ONU sairia um pouco de cena. O Ocidente ficaria muito mais seguro. E alguma pequena nação que ainda esteja sendo oprimida pela cultura, pela escola e pela medicina da Europa, não será obrigada a trocar tudo isso por estupros e morte.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: A mente colonizadora e as populações indígenas e caboclas do Sul do Brasil

05/07/2009

Por Tiago Franz*

A legenda de uma fotografia do livro “Contestado” (1986), publicação sob responsabilidade do estado de Santa Catarina, informa, corretamente, que os índios Kaingang são os “mais antigos e originais habitantes da região” oeste do estado. Em geral, no que se refere aos processos de colonização de terras, é preciso que o modelo social dominante esteja implantado por completo e totalmente enraizado na cultura do local para que se possa refletir sobre os fatos que compõem a sua história. O estado que hoje reconhece os seus habitantes originais é o mesmo que permitiu a colonização das terras pelos imigrantes europeus, colocando à margem da sociedade os povos indígenas.

As pessoas mudam. Os governos mudam. Se hoje o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas é indiscutível, por que então continuam em situação deplorável de vida? O discurso muda, mas o modelo permanece. Quase ao mesmo tempo em que o então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, assinava a primeira edição do livro citado acima, uma velha índia Kaingang conhecida como Fendó reivindicava em Brasília o direito de posse das terras do Toldo Chimbangue, no município de Chapecó, para seu povo.

E quem eram os contestadores do tal Contestado? A história oficial – que não dá o devido valor a esta revolta popular da mesma forma que dá a Canudos – fala muito na disputa de terras entre Paraná e Santa Catarina, que sucedeu as disputas entre Portugal e Espanha e depois entre Brasil e Argentina, e pouco fala da disputa entre posseiros e a Estrada de Ferro São Paulo / Rio Grande. “Posseiros” é o termo usado por historiadores da região para se referir às populações caboclas que habitavam a região. Estas chegaram ao local devido ao transporte de gado entre São Paulo e Rio Grande do Sul e iniciaram uma povoação marcada pela cultura de subsistência. Não tinham registro das terras. Para eles, o Contestado foi uma revolta armada contra o Exército Brasileiro, que executava as ordens do Governo Federal de entregar as terras que margeavam a estrada de ferro à empresa construtora da ferrovia.

O destino das populações caboclas não foi muito diferente do destino das populações puramente indígenas. Quase um século depois do fim da Guerra do Contestado (1915) e da instalação das empresas colonizadoras na região (a partir de 1917), é possível ver explicitamente que opção de vida restou aos caboclos. O vídeo documentário “Manifesto Caboclo”, de João Lucas e Odoni Perin, mostra uma organização de caboclos em pleno século XXI, que busca reativar a auto-estima do grupo e melhorar sua condição de vida.

Enquanto isso, a Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS), de Santa Catarina, filiada à Rede Globo, produziu um outro vídeo documentário chamado “Desbravadores do Oeste”. Trata-se de uma homenagem aos “heróicos” colonizadores: os euro-descendentes, na grande maioria italianos e alemães vindos do Rio Grande do Sul, que tanto trabalharam para desenvolver a região (nestes incluem-se meus avôs, alemães por parte de pai e italianos por parte de mãe). Em todos os processos de colonização, assim como os recursos naturais, os povos originários também foram submetidos aos colonizadores. Nesse sentido os estudiosos definem a mentalidade colonizadora, que foi claramente predominante no documentário da RBS.

Em resumo, a história é a seguinte: a partir de 1917 as empresas colonizadoras se instalam na região, comercializam terras e madeira, e contam com o apoio do Estado para ocupar a região, pondo fim às disputas pela terra. Como foi dito antes, é politicamente correto, nos dias de hoje, o reconhecimento da causa dos povos marginalizados nos processos de colonização. Porém, isso fica só no discurso. Assim, prevalece a mentalidade colonizadora.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

Coluna do dia: O “jeitinho” na política

20/06/2009

Por Matheus Passos*

Sérgio Buarque de Hollanda foi um dos maiores historiadores brasileiros. É conhecido pelos estudantes dos cursos da área de Ciências Sociais principalmente devido ao seu livro “Raízes do Brasil”, de 1936. Nesta obra, Sérgio Buarque aborda aqueles que seriam, em sua ótica, os principais aspectos da história da cultura brasileira, trazendo o legado cultural da colonização portuguesa no Brasil e mostrando de que forma certos aspectos da cultura portuguesa foram absorvidos, adaptados ou ignorados pelos formadores da nova nação sul-americana.

Um dos aspectos presentes na obra é o conceito desenvolvido pelo autor e chamado de “homem cordial”, característica típica do brasileiro. Contudo, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, a palavra “cordial” não tem o sentido de cordialidade, de gentileza, de auxílio ao próximo: a palavra está diretamente relacionada à sua raiz latina, “cor”, que significa “coração”. Assim, o “homem cordial” não é o homem gentil, mas sim, o homem que se deixa levar pela sua emoção em detrimento de sua razão: o “homem cordial” é aquele que se utiliza de apelos ou chantagens emocionais para conseguir o que quer.

A caracterização do “homem cordial” está relacionada diretamente com outra característica cultural do Brasil: o “jeitinho brasileiro”. Todo brasileiro, em algum momento ou outro, se orgulha de ter “dado um jeitinho” para solucionar algum problema, se orgulha de ter passado por cima das regras em alguma situação que poderia prejudicá-lo e, ao final,  ter “se dado bem”, burlando normas e/ou convenções sociais para atingir seu objetivo. Daí vem também outro elemento da cultura brasileira, o “malandro”, que é o indivíduo que sabe que está fazendo algo não necessariamente correto mas, como “se dá bem”, é inclusive bem visto pela sociedade. Como exemplo concreto temos o político que rouba e sempre escapa da Justiça: este é o “esperto”, aquele “que se deu bem”, e que se torna – infelizmente – até mesmo um modelo para a sociedade.

Claro está que estamos no auge do “jeitinho brasileiro” em nossa política nacional. A partir do momento em que o Senador José Sarney se dirige à tribuna do Senado e afirma: “a crise é do Senado, não minha”, está ele tentando dar um “jeitinho” para se eximir de suas responsabilidades. A partir do momento em que afirma que “qualquer um teria feito o mesmo em meu lugar”, está sendo um “homem cordial”, apelando para o lado emocional do cidadão brasileiro. Quando o Senador Delcídio Amaral afirma que contratou a sobrinha de Sarney em retribuição a um “favor pessoal”, está sendo um “homem cordial” – deixando de lado a formalidade e fundamentando suas ações em sua amizade com o Senador José Sarney.

Quando o presidente Lula afirma que “não se pode julgar o Senador José Sarney”, ou quando afirma que “Sarney merece um tratamento especial devido à sua história”, está sendo um “homem cordial” no pior sentido da expressão – aquele que leva à informalidade, que leva a acreditar que é “melhor” ou “superior” a palavra do “amigo” do que o que a lei diz, o que leva a ignorar-se a lei em benefício das amizades ou dos laços pessoais. Tais situações, infelizmente, concretizam a máxima atribuída ao presidente Arthur Bernardes (1922-26): “aos amigos, tudo; aos inimigos, tanto quanto possível, o rigor implacável da lei”.

Enquanto o “jeitinho brasileiro” for um elemento fundamental – talvez até mesmo preponderante – da cultura brasileira, não há como o País alterar seu cenário político.

Enquanto o cidadão “comum” continuar achando que “para tudo se dá um jeitinho”, passando por cima da lei – seja fazendo um “agrado” ao policial que o para na rua, seja tentando passar por cima de prazos (já que o brasileiro deixa tudo para última hora), ou seja considerando que o Honesto é trouxa e o Malandro é o modelo a ser seguido – seus representantes serão um reflexo de sua própria atuação: se o cidadão “dá um jeitinho”, por que o político também não daria?

Se o cidadão não se interessa por política e não participa – cobrando constantemente de seus representantes –, por que o representante irá se preocupar com a vontade popular? Apenas com uma profunda mudança cultural será efetivamente possível mudar a cultura política brasileira.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus

África, inseguranças e instabilidades

25/12/2008

Africa

A alternância de poder é importantíssima para a democracia, não restam dúvidas quanto a isso. Porém, essa alternância deve se apresentar na forma de mandatos sucessivos de diferentes representantes eleitos pelo voto popular, e não, na forma de uma mudança constante e frenética de lideranças que se alternam no poder através de golpes e contra-golpes.

Quando ocorrem constantes golpes, sejam civis ou militares, que atentam contra as instituições e a democracia do país, não ocorre alternância de poder, e sim, instabilidade política crônica que traz consigo insegurança.

A insegurança e a instabilidade políticas são ingredientes de uma fórmula explosiva, quando se trata de uma nação e seu respectivo desenvolvimento.  A insegurança trata da imprevisibilidade das decisões governamentais sobre assuntos como investimentos internos ou externos e do medo de rompantes do governante, mesmo que este seja estável. A instabilidade trata da possibilidade de ocorrerem mudanças no governo e revoluções a qualquer momento, com uma população revoltada e uma economia caótica. Na realidade, como se pode ver, instabilidade e insegurança se conectam intimamente, embora não sejam exatamente a mesma coisa.

Todo país que cultiva a insegurança e a instabilidade tem seu progresso retardado, a qualidade de vida de seu povo diminuída e seu vislumbre de melhoria embaçado.

Um exemplo claro disso é a Venezuela de Hugo Chávez e, porque não, seus similares, como a Bolívia de Morales e o Equador de Correa. Todos esses países sofrem, em maior ou menor escala, dos males da insegurança e da instabilidade.

Mas não é sobre os tiranetes sul-americanos que vou falar hoje e sim sobre a África, afinal, que continente foi mais afetado pelas constantes inseguranças e instabilidades políticas de seus países?

A África é um continente que, como sabemos, foi fatiado pelos europeus. Cada fatia correspondia a uma colônia e elas foram distribuídas entre diversas metrópoles. Um dos maiores problemas era que as fatias levavam em conta apenas critérios territorias ou os recursos naturais de cada região e não a cultura, as crenças, as inimizades e os costumes das populações  negras presentes em cada uma delas.

As colônias cresceram, evoluíram e, um dia, tornaram-se nações. Essas nações atuais vivem com o mesmo problema que acometia as colônias fatiadas há anos e anos, ou seja, etnias rivais convivem dentro de um mesmo país, enquanto populações inteiras de etnias amigas estão do outro lado de alguma fronteira.

Em todos os países que sofrem desse mal, as etnias inimigas se digladiam pelo controle do Estado. Normalmente, a etnia que constitui a minoria da população perde a batalha, é segregada, aniquilada e muitas vezes sofre com políticas de extermínio.

As tais instabilidades e inseguranças atingem em cheio essas repúblicas. As instituições são fracas, os golpes são frequentes e a democracia é constantemente atacada. Os governos são acusados de corruptos e incompetentes e são substituídos por outros que, embora critiquem os primeiros, vêm para agir da mesma forma.

Com toda essa conjuntura, o desenvolvimento de muitas nações africanas fica prejudicado, os investimentos externos escasseiam, as riquezas naturais vão sendo dilapidadas, a violência afasta os possíveis turistas e, no fim das contas, os países se tornam dignos de caridade.

Embora tenhamos países africanos em que a democracia se fortalece aos poucos, onde o respeito às instituições cresce e onde os golpes são coisas do passado, muitos deles ainda sofrem com a insegurança e com a instabilidade que em nada ajudam as suas já periclitantes situações.

Muitos tratam o problema da África, com suas crises políticas, doenças e guerras, como sem solução. Acredito que a mesma seja complicada, mas não impossível. Países como Angola estão experimentando um certo período de paz e prosperidade, sem guerras civis ou golpes. Situações como essa nos dão a esperança de que soluções para a África sejam possíveis contanto que existam vontade política, investimento externo, incentivo interno ao esporte e à educação e crença nos valores e princípios democráticos.

Cabe aos outros países, entre eles o Brasil, tratar as nações da África que resolverem jogar o jogo democrático como parceiros. É tenebroso saber que alguns países, e principalmente empresas, enxergam a África como um local para fazer experiências farmacêuticas e armamentistas.

Com força de vontade da população, cooperação entre os povos, conscientização tanto dos habitantes do continente, como do cenário externo, principalmente das potências, e busca de estabilidade e segurança política, juntamente com grandes investimentos em educação, saúde, saneamento básico e segurança, a longo prazo, podemos pensar em uma África melhor.

Pode até ser que eu esteja sendo idealista, ou até mesmo ingênuo, porém, não custa nada sonhar com um mundo onde a vontade política é colocada a serviço do progresso e da melhoria da qualidade de vida de um povo tão sofrido e não do enriquecimento de pequenas elites que se beneficiam financeiramente dos diversos problemas da região.

A África tem de deixar de ser um continente onde estrangeiros procuram oásis particulares com alta segurança, sexo, lucros fáceis, obras públicas superfaturadas e recursos naturais a preço de banana. Tem de haver toda uma força tarefa para tentar, pelo menos, minimizar um problema que, mais cedo ou mais tarde, vai ser de todos nós.

Obviamente, não será fácil, beira a impossibilidade. Mas com vontade política, solidariedade e muito esforço, acredito que o quadro possa ser melhorado. E melhorado de forma a garantir o progresso africano, a democracia africana e o desenvolvimento do povo africano e não de forma a aumentar a caridade. É a velha história de ensinar a pescar, e não, dar o peixe.

Não devemos precisar que fundações presididas por Bill e Melinda Gates estejam presentes para sempre na África. Precisamos é tentar garantir que cronologias como essa, não se repitam mais.