Por Por Yashá Gallazzi*
O PT processou Índio da Costa, Serra, o DEM, o PSDB e mais meio mundo, só porque os petistas não estão acostumados a ouvir a verdade. Não gostaram que o Vice de José Serra dissesse, com todas as letras, que Dilma, por ser petista, é aliada dos terroristas narcotraficantes das FARC, aquele grupo paramilitar que pretende criar o “outro mundo possível” por meio do sequestro, do estupro, da tortura e do assassinato.
Mas o processo em si, a judicialização do debate eleitoral por si só, nem é a pior parte. O mais ridículo mesmo é ver gente como José Dirceu pedindo uma “campanha de alto nível”. É… Vai ver ele prefere todo mundo quietinho, cuidando apenas de juntar dinheiro para comprar apoio parlamentar no Congresso. Ou ainda bolando maneiras de pagar os serviços de publicidade por meio de contas fantasmas no exterior. Discutir ideologia e moral? Ah, isso é “jogo sujo” para essa gente.
Eu estou convencido que a “síndrome do alto nível” é responsável por boa parte do desastre democrático que assola “essepaiz”. De uns tempos pra cá, criou-se o mito de que todo o debate eleitoral deve se dar em torno da gestão e da economia, deixando de lado os chamados temas polêmicos. A ideia era evitar os tais ataques pessoais entre os candidatos, direcionando a campanha apenas para aquilo que o marketing convencionou chamar de “aspectos propositivos”.
Besteira! Eu quero ver sangue! O povo quer ver sangue! Essa ladainha de ficar disputando quem é o gerentão mais sério já cansou. Estamos escolhendo um Presidente, não um síndico de prédio. É evidente que as escolhas ideológicas e morais dos postulantes devem, sim, ser objeto de profunda investigação e debate.
Não sou lá muito velho. A primeira eleição que lembro com mais detalhes foi a de 1998. Meu primeiro voto foi só em 2000, nas municipais daquele ano. Mas gosto do assunto. E procurando vídeos, reportagens e coisa do tipo, concluí há algum tempo que a melhor campanha eleitoral do Brasil desde a redemocratização foi a de 1989. Ou alguém vai negar que era divertido ver Lula dizer que Maluf era competente porque “compete, compete, compete, mas nunca ganha”? Ou ver Collor dizendo que Lula era o “candidato do bloco comunista”? Ou ver Covas e Brizola dizendo que “Collor era só um moleque mimado”? Bons tempos aqueles, quando um candidato podia dizer na cara do outro o que pensava sobre ele. Hoje, o TSE estaria em polvorosa, pressuroso de julgar os milhares de pedidos de resposta, interpelações judiciais e chicanas jurídicas afins.
Por que é “baixo nível” evidenciar a real ligação ideológica que existe entre o PT e as FARC? Ora, a turma da esquerda não vive forçando a mão para ligar Índio da Costa à ditadura? E fazem isso mesmo sabendo que o cara era pouco mais que um moleque na época do regime militar! Por que então não se pode apontar uma relação política e moral que existe de fato entre o partido do atual Presidente da República, e um grupo terrorista?
“Ah, mas as FARC não são terroristas!”, gritará o esquerdista mais radical. Ok. É um ponto de vista. E um ponto de vista que decorre de uma opção ideológica e moral de mundo. E isso precisa, sim, ser discutido numa campanha. Que Dilma se levante, pegue o microfone, e explique por que diabos as FARC não são uma associação criminosa. Defenda seus amigos, oras!
E por que não ir mais além? Por que tanto medo de discutir escolhas morais? Por que ninguém se interessa por temas como o aborto, a eutanásia, o casamento gay e a pena de morte? Essas coisas pautam campanhas em todo o mundo civilizado, mas aqui são tratadas como algo secundário, que pode levar a questionamentos de cunho pessoal e, portanto, recair no chamado “jogo sujo”. Ora, por que é jogo sujo dizer que Dilma e o PT são favoráveis ao aborto? Não é, pois, verdade que o são?! E se o são, por que não defendem isso abertamente, como escolha moral e de partido? Por que ficar tergiversando de forma reiterada, escondendo-se atrás da resposta padrão (“podemos fazer um plebiscito”…)?
O problema é que engessaram as campanhas eleitorais brasileiras, e muito disso é culpa da crise institucional pós-Collor. Como a eleição de 1989 deu no que deu, tudo aquilo ligado a ela foi considerado lixo. A partir de 1994, com o advento vitorioso do Plano Real, passou-se a considerar que a única agenda permitida na campanha era formada pelo binômio gestão-economia. E isso, diga-se, com o aval do PSDB e de FHC, então favoritos à vitória final. As campanhas perderam, assim, qualquer toque de Machado de Assis, e passaram a ser enfadonhas narrações bem ao estilo Sarney.
A justiça eleitoral, sedenta de um poder cada vez mais absoluto, entrou no jogo, engessando cada vez mais as campanhas eleitorais. Não tardará a chegar o dia em que Serra será obrigado a pedir voto para Dilma – e vice-versa – só para que não haja “desigualdade” nas eleições…
A sanha reguladora e controladora do Estado é assustadora. Se um candidato “A” diz que o seu adversário, o candidato “B”, é pior, a justiça considera isso “propaganda negativa”. Ora, mas se um político não puder falar que seu adversário é pior que ele mesmo, para quê a disputa? Se Índio da Costa aponta uma ligação de fato entre o PT e as FARC, a justiça, em vez de permitir e até estimular o debate, silencia as partes por meio de sua clava totalitária, cerceando o debate e prejudicando, assim, a sociedade.
De resto, por que me surpreendo com esse cenário eleitoral absurdo criado pelas instituições brasileiras? Vivemos em um País onde o direito de exercer a democracia foi transformado, pela voracidade controladora do Estado, em “obrigação de votar”. Fere-se de morte, assim, o princípio mais básico de uma sociedade civilizada: a liberdade individual. A partir do momento em que do cidadão é tirado o direito de simplesmente ficar em casa, cortando a grama no domingo eleitoral, sem tomar partido do processo, a democracia já está tecnicamente morta. Nenhum direito é direito quando somos obrigados a exercê-lo.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi