Postagens com a palavra-chave ‘Colômbia’

Análise geral: A tensão entre Colômbia e Venezuela e a política externa brasileira

31/07/2010

Hugo Chávez anunciou o movimento de tropas para a fronteira com a Colômbia, acusando o governo colombiano de ter invadido o espaço aéreo venezuelano.

Chávez admitiu ter revisado ‘planos de guerra’ para um eventual conflito.

Em suma, sobe a tensão na região. Mas nós pouco fazemos.

Onde está o Brasil que não se dispõe a mediar este conflito?

Meter a colher na tensão constante entre Israel e Palestina o Itamaraty quer.

Ou seja: Onde não é chamado, o Brasil hoje se mete, buscando mídia para provar uma suposta nova e maior influência na ordem mundial.

Mas onde o País precisa interferir, utilizando sua real – e não fantasiosa – influência geopolítica, que é na América do Sul, o Brasil se exime.

E por quê?

Porque hoje o Itamaraty é de governo e não de Estado. As posições tomadas levam em conta a ideologia do grupo que hoje domina a nação e não necessariamente os interesses legítimos da pátria, desmoralizando uma diplomacia que sempre foi motivo de orgulho, respeitada internacionalmente.

O mais curioso é que esse posicionamento ideológico é aplicado somente para fora, sob o comando do “inigualável” Marco Aurélio Garcia.

Para o “mercado interno” defende-se o progresso e o desenvolvimento, além do consequente desempenho eleitoral, com posturas pragmáticas.

Ora, mas então qual a razão da defesa do atraso em nível externo?

Exatamente a necessidade de um contraponto ao pragmatismo interno.

As pataquadas da política externa são uma satisfação para a ala mais radical do governismo.

Enquanto o esquerdismo pré-queda do Muro de Berlim destruir o Itamaraty, as políticas internas pragmáticas podem seguir com menos represálias.

Como política externa não dá e não tira votos, está tudo certo.

O Brasil passa a ser pseudo-respeitado no exterior, Lula se torna “o cara” e nós somos os patetas da história.

Venezuela e Colômbia? Não nos metemos, até porque temos lado.

O bom é tentar resolver a guerra milenar entre judeus e muçulmanos com umas camisas da seleção brasileira.

Coluna do dia: Chega de “campanha de alto nível”!

23/07/2010

Por Por Yashá Gallazzi*

O PT processou Índio da Costa, Serra, o DEM, o PSDB e mais meio mundo, só porque os petistas não estão acostumados a ouvir a verdade. Não gostaram que o Vice de José Serra dissesse, com todas as letras, que Dilma, por ser petista, é aliada dos terroristas narcotraficantes das FARC, aquele grupo paramilitar que pretende criar o “outro mundo possível” por meio do sequestro, do estupro, da tortura e do assassinato.

Mas o processo em si, a judicialização do debate eleitoral por si só, nem é a pior parte. O mais ridículo mesmo é ver gente como José Dirceu pedindo uma “campanha de alto nível”. É… Vai ver ele prefere todo mundo quietinho, cuidando apenas de juntar dinheiro para comprar apoio parlamentar no Congresso. Ou ainda bolando maneiras de pagar os serviços de publicidade por meio de contas fantasmas no exterior. Discutir ideologia e moral? Ah, isso é “jogo sujo” para essa gente.

Eu estou convencido que a “síndrome do alto nível” é responsável por boa parte do desastre democrático que assola “essepaiz”. De uns tempos pra cá, criou-se o mito de que todo o debate eleitoral deve se dar em torno da gestão e da economia, deixando de lado os chamados temas polêmicos. A ideia era evitar os tais ataques pessoais entre os candidatos, direcionando a campanha apenas para aquilo que o marketing convencionou chamar de “aspectos propositivos”.

Besteira! Eu quero ver sangue! O povo quer ver sangue! Essa ladainha de ficar disputando quem é o gerentão mais sério já cansou. Estamos escolhendo um Presidente, não um síndico de prédio. É evidente que as escolhas ideológicas e morais dos postulantes devem, sim, ser objeto de profunda investigação e debate.

Não sou lá muito velho. A primeira eleição que lembro com mais detalhes foi a de 1998. Meu primeiro voto foi só em 2000, nas municipais daquele ano. Mas gosto do assunto. E procurando vídeos, reportagens e coisa do tipo, concluí há algum tempo que a melhor campanha eleitoral do Brasil desde a redemocratização foi a de 1989. Ou alguém vai negar que era divertido ver Lula dizer que Maluf era competente porque “compete, compete, compete, mas nunca ganha”? Ou ver Collor dizendo que Lula era o “candidato do bloco comunista”? Ou ver Covas e Brizola dizendo que “Collor era só um moleque mimado”? Bons tempos aqueles, quando um candidato podia dizer na cara do outro o que pensava sobre ele. Hoje, o TSE estaria em polvorosa, pressuroso de julgar os milhares de pedidos de resposta, interpelações judiciais e chicanas jurídicas afins.

Por que é “baixo nível” evidenciar a real ligação ideológica que existe entre o PT e as FARC? Ora, a turma da esquerda não vive forçando a mão para ligar Índio da Costa à ditadura? E fazem isso mesmo sabendo que o cara era pouco mais que um moleque na época do regime militar! Por que então não se pode apontar uma relação política e moral que existe de fato entre o partido do atual Presidente da República, e um grupo terrorista?

“Ah, mas as FARC não são terroristas!”, gritará o esquerdista mais radical. Ok. É um ponto de vista. E um ponto de vista que decorre de uma opção ideológica e moral de mundo. E isso precisa, sim, ser discutido numa campanha. Que Dilma se levante, pegue o microfone, e explique por que diabos as FARC não são uma associação criminosa. Defenda seus amigos, oras!

E por que não ir mais além? Por que tanto medo de discutir escolhas morais? Por que ninguém se interessa por temas como o aborto, a eutanásia, o casamento gay e a pena de morte? Essas coisas pautam campanhas em todo o mundo civilizado, mas aqui são tratadas como algo secundário, que pode levar a questionamentos de cunho pessoal e, portanto, recair no chamado “jogo sujo”. Ora, por que é jogo sujo dizer que Dilma e o PT são favoráveis ao aborto? Não é, pois, verdade que o são?! E se o são, por que não defendem isso abertamente, como escolha moral e de partido? Por que ficar tergiversando de forma reiterada, escondendo-se atrás da resposta padrão (“podemos fazer um plebiscito”…)?

O problema é que engessaram as campanhas eleitorais brasileiras, e muito disso é culpa da crise institucional pós-Collor. Como a eleição de 1989 deu no que deu, tudo aquilo ligado a ela foi considerado lixo. A partir de 1994, com o advento vitorioso do Plano Real, passou-se a considerar que a única agenda permitida na campanha era formada pelo binômio gestão-economia. E isso, diga-se, com o aval do PSDB e de FHC, então favoritos à vitória final. As campanhas perderam, assim, qualquer toque de Machado de Assis, e passaram a ser enfadonhas narrações bem ao estilo Sarney.

A justiça eleitoral, sedenta de um poder cada vez mais absoluto, entrou no jogo, engessando cada vez mais as campanhas eleitorais. Não tardará a chegar o dia em que Serra será obrigado a pedir voto para Dilma – e vice-versa – só para que não haja “desigualdade” nas eleições…

A sanha reguladora e controladora do Estado é assustadora. Se um candidato “A” diz que o seu adversário, o candidato “B”, é pior, a justiça considera isso “propaganda negativa”. Ora, mas se um político não puder falar que seu adversário é pior que ele mesmo, para quê a disputa? Se Índio da Costa aponta uma ligação de fato entre o PT e as FARC, a justiça, em vez de permitir e até estimular o debate, silencia as partes por meio de sua clava totalitária, cerceando o debate e prejudicando, assim, a sociedade.

De resto, por que me surpreendo com esse cenário eleitoral absurdo criado pelas instituições brasileiras? Vivemos em um País onde o direito de exercer a democracia foi transformado, pela voracidade controladora do Estado, em “obrigação de votar”. Fere-se de morte, assim, o princípio mais básico de uma sociedade civilizada: a liberdade individual. A partir do momento em que do cidadão é tirado o direito de simplesmente ficar em casa, cortando a grama no domingo eleitoral, sem tomar partido do processo, a democracia já está tecnicamente morta. Nenhum direito é direito quando somos obrigados a exercê-lo.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Análise: Vitória folgada do governista Santos contraria pesquisas e levanta suspeitas na Colômbia – Abstenção explica

30/05/2010

Há algumas semanas, Antanas Mockus, candidato do Partido Verde colombiano à Presidência do país, surgia nas pesquisas com boa vantagem. Surpreendentemente, liderava. Era a sensação das eleições colombianas. O fenômeno da vez.

Nos últimos dias, Juan Manuel Santos, candidato governista apoiado pelo Presidente Álvaro Uribe e membro do Partido Social da Unidade Nacional, encostou. Com o apoio da máquina administrativa e pregando a continuidade do elogiado governo de Uribe, Santos caminhou até o empate técnico, estando à frente em algumas simulações e pesquisas.

Mockus se perdeu um pouco. Patinou. Esqueceu-se de que, uma vez conhecido, teria que levar sua campanha para um novo nível.

Contudo, de qualquer forma, um primeiro turno acirrado era previsto.

Eis que surgem os resultados: Santos teve 46,5% dos votos. Mockus conseguiu 21,5%. Vitória folgada do governo.

Algo deu errado.

Uns começam a questionar as pesquisas.

Outros iniciam os boatos negativos sobre a lisura do processo eleitoral.

Discordo de todos eles.

Mockus e Santos tinham, nas pesquisas, índices que correspondiam, sim, ao número de simpatizantes de cada um. E as eleições não parecem ter sido fraudadas.

A resposta está na abstenção: 56%.

Foram votar mais simpatizantes de Santos do que simpatizantes de Mockus. Simples assim.

Os votos das pesquisas e da internet não se tornaram votos reais. Declarar voto não é votar.

Os interessados em que a máquina administrativa continue nas mãos dos mesmos compareceram bem motivados.

Mockus emocionou, mas aparentemente não motivou.

Perderá no segundo turno.

Fim do sonho verde colombiano.

Lição para Mockus e para muitos.

Ibope compra mais da metade das ações do Instituto Zogby e entra no mercado internacional de pesquisas

25/01/2010

Informa a Agência Estado, a respeito da expansão e da modernização das atividades do Ibope, importante instituto de pesquisas – entre elas as de intenção de voto -, que podem representar nova tendência para o setor no Brasil e que devem se tornar conhecidas por aqueles que acompanham a política nacional e pautam opiniões de olho nas pesquisas do Instituto brasileiro que de certa forma domina este mercado:

“O Grupo Ibope anunciou hoje a entrada no mercado norte-americano com a aquisição de 51% do instituto Zogby, empresa com faturamento anual de US$ 7 milhões. O valor da transação não foi revelado. Os Estados Unidos concentram 27% dos investimentos mundiais em pesquisa de mercado, algo em torno de US$ 8,9 bilhões. ‘Além de estarmos no maior mercado do mundo, o Zogby abre uma porta para atuação no Oriente Médio, de onde vem 20% do faturamento da companhia’, disse Nelsom Marangoni, executivo-chefe da Ibope Inteligência.

A compra do Zogby integra o plano de expansão internacional da Ibope Inteligência, que também abriu um escritório no Chile neste mês e pretende instalar outro na Colômbia ao longo do ano. No final de 2009, o instituto adquiriu o SKA, de Porto Rico. No Brasil, o Ibope comprou recentemente o IDPM, de São Paulo, e o Instituto IDS, do Rio de Janeiro. Essas novas empresas e escritórios farão parte da Ibope Inteligência, unidade do grupo especializada em pesquisa de opinião pública, política e mercado.

As novas aquisições vão agregar US$ 15,7 milhões de faturamento aos US$ 58 milhões previstos para a Ibope Inteligência em 2010, de acordo com Marangoni. O faturamento total do grupo gira em torno de US$ 250 milhões ao ano.

Na América Latina, com a entrada no Chile e, futuramente, na Colômbia, a empresa estará presente nos cinco países que concentram 88% dos investimentos em pesquisa de mercado. Os outros são Brasil, Argentina e México. A partir desses países, a meta é crescer para mercados menores, como o Paraguai.

Além de proporcionar a entrada no mercado dos EUA, a compra do Zogby agrega novos métodos e tecnologias ao Ibope, como a pesquisa por celular (chamada ‘Interactive Voice Response’) e pela internet. ‘O Brasil ainda não tem um uso massificado de internet como os Estados Unidos, mas será interessante trocar experiências sobre como eles usam essas ferramentas’, disse Márcia Cavallari, diretora-executiva da Ibope Inteligência.” 

Governador colombiano sequestrado pelas Farc é achado morto

23/12/2009

Informa o Portal G1

“O governador colombiano Luis Francisco Cuéllar, que havia sido sequestrado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, foi encontrado morto nesta terça-feira (22). Seu corpo foi achado baleado e rodeado de explosivos em Sebastopol, zona rural próxima da capital de Caqueta, departamento que governava.

[...]

O sequestro na segunda-feira (21) mostra como a guerrilha mais antiga da América Latina ainda é capaz de realizar operações de alta visibilidade, apesar de anos sendo combatida pelos militares colombianos com o apoio dos EUA.”

Eu gostaria nesse momento de ouvir o que têm a dizer pessoas que, explicitamente ou tacitamente, apóiam as FARCs, como Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo e – por que não? – Luiz Inácio Lula da Silva.

Qualquer pessoa que um dia tentou justificar as ações da guerrilha colombiana, por favor, tentem justificar isso.

Será interessante, para não dizer um pouco triste, ver as manobras retóricas.

Desde já adianto que a lorota de que o Governador colombiano é um representante das elites oligarcas opressoras e aliadas do capitalismo imperialista, e que por isso seria merecedor da morte, não cola. Nem um pouco.

Coluna do dia: A Guerra como lógica da sobrevivência

29/10/2009

Por Felipe Liberal*

É muito cansativo ver o planeta Terra do jeito que está. É muito árduo ver guerras e políticas dementes sendo apoiadas por massas populacionais, como se tudo fosse um jogo de tabuleiro. Eu não tenho raiva do meu planeta, eu sinto apenas tristeza. A raiva já passou, o sentimento agora é o misto de “depressão” e impotência diante das inexistentes ações.

A Guerra está se tornando cada vez mais inevitável. O “fazer guerras” no século XXI é mais do que uma ação estratégica ou uma política de dominação econômica, mas também é uma ação de sobrevivência da lógica neoliberal e do próprio capital.

Quando falamos da Colômbia, por exemplo, podemos lembrar o que acontece dentro do país e que pouca gente conhece. Muito dos lucros colombianos existem, justamente, porque trata-se, praticamente, de um país permanentemente em guerra. Durante os últimos 20 anos, a passagem da pequena e média agricultura para a agroindústria se fez com uma guerra. Se não fosse assim, não teria sido possível expropriar as terras de milhões de camponeses e fazer uma reforma agrária “às avessas”, na qual os latifundiários e paramilitares se apropriaram de seis milhões de hectares de terra. E tem gente que acha que os conflitos na Colômbia se resumem ao tráfico de drogas.

O surgimento das Companhias Militares Privadas (CMPs) nos EUA é a evidência de quanto a Guerra está atrelada aos lucros imediatos e permanentes de várias empresas que sobrevivem (ou vivem?) da manutenção de uma guerra ou da dominação militar em um determinado país.

Essas empresas fornecem vários tipos de serviços militares que o exército regular já não possui, por exemplo: a aplicação de armas sofisticadas (como aviões não tripulados, radares ou mísseis de navios americanos), na primeira onda de ataques ao Iraque, foi realizada por especialistas de empresas privadas. Entre outras coisas: distribuem a correspondência, cozinham ou lavam a roupa dos soldados, montam os acampamentos militares, as prisões. Praticamente todo o setor de transporte do exército americano é terceirizado.

No caso da prisão de Abu Ghraib, abafaram o julgamento de vários soldados americanos e ingleses. A verdade é que a prisão era administrada em todas as suas funções por duas empresas privadas: CACI e Titan.

Por serem funcionários civis (mercenários) e terem belos contratos com o Pentágono, esses “soldados” das CMPs quase não vão a julgamento, criando uma teia de imunização e impunidade. A maioria é contratada de países asiáticos e europeus, por serem locais de tradição mercenária e que têm trabalhadores com maior mobilidade.

Mas como fazer a Paz, se essas empresas militares (possuem ações na Bolsa de Valores e circulam cerca de 200 bilhões de dólares ao ano) sobrevivem por conta da Guerra? A lógica neoliberal, capitalista, liberal ou qualquer nome que queiram dar à ideologia americana impede qualquer processo pacifista e democrático. Essas são a democracia e a realidade que são exemplos? Esse é o modelo que tem que ser globalizado?

Prefiro continuar “depressivo”, a aceitar o inaceitável.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Uribe se diz em uma ‘encruzilhada da alma’ sobre 3º mandato

19/10/2009

Informa o Financial Times:

“O presidente colombiano, Álvaro Uribe, que hoje é esperado para uma visita oficial a São Paulo, diz viver uma ‘encruzilhada da alma’ acerca de disputar um terceiro mandato em 2010.

Para isso, ele teria de mudar a Constituição pela segunda vez -caminho já aberto pelo Parlamento. Isso preocupa seus aliados colombianos e até no exterior, incluindo nos EUA.

Indagado se arriscaria tentar seguir no cargo e arriscar seu legado (a violência caiu sob Uribe, e a Colômbia consegue contornar com certa tranquilidade a crise global), ele responde: ‘não é esta a questão, sou de uma geração que não conheceu um só dia de paz, minha prioridade é a continuação dinâmica de [minhas] políticas’.

‘Quando penso em meu legado, não desejo que as futuras gerações de colombianos pensem que eu era apegado ao poder. Ao mesmo tempo, quero que saibam que não virei as costas aos desafios do país’, disse o colombiano, sobrevivente de 19 tentativas de assassinato.”

O Perspectiva Política, na pessoa deste blogueiro que vos fala, já emitiu sua opinião sobre o tema:

O Perspectiva Política sempre primou o equilíbrio, a independência, a sensatez e a coerência. Sempre afirmando que deve-se criticar o que merece ser criticado e elogiar o que deve ser elogiado, provando que é possível apontar os erros de um lado sem, necessariamente, fazer parte do outro, este blog construiu uma credibilidade que muito me orgulha.

Todos os leitores mais assíduos do blog sabem que o personagem mais criticado por mim desde sempre é Hugo Chávez. É a ele que dirijo as críticas mais duras e os questionamentos mais contundentes. Não poderia eu, nunca, deixar de repudiar atitudes autoritárias, cooptadoras de instituições, oportunistas, personalistas, ditatoriais e doutrinadoras como as dele.

Acontece que este blog tem o dever, agora, de criticar o Presidente colombiano Álvaro Uribe. E não faço isso apenas para fazer jus ao compromisso de prezar pela justiça. Não. Faço isso pois realmente rechaço o projeto que Uribe empreende.

O Perspectiva Política não poderia, se quer se dizer como um blog pautado nos ideais supracitados, fazer o que alguns outros blogs fazem: Criticar um lado  por certas atitudes e depois fazer vista grossa quando alguém do outro lado realiza atividades semelhantes.

Por isso, é, sim, posição contrária aos arroubos de Álvaro Uribe a do Perspectiva. Isso se dá pois o repúdio a Hugo Chávez não ocorre por conta de uma questão pessoal ou ideológica, e sim, por força da defesa da democracia, da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e de tantos outros valores inegociáveis.

Sendo assim, a partir do momento que Álvaro Uribe atenta contra os mesmos valores, seja ele de esquerda, de direita, ou de Marte, ele merece as mesmas críticas. Nada de julgamentos diferentes para o mesmo erro. Nada de parcialidade.

É verdade que prefiro as medidas tomadas por Uribe na Colômbia se comparadas com as de Chávez na Venezuela, Correa no Equador e Morales na Bolívia? É. É correto afirmar que Uribe estaria atentando contra a alternância de poder enquanto Chávez atenta contra muito mais elementos da democracia? Também é. Mas isso nunca causaria ou justificaria uma defesa minha com relação aos equívocos de Uribe. Como nunca acontecerá com político algum.

Portanto, é total o agravo do Perspectiva no que tange a tentativa de Álvaro Uribe de autorizar ele mesmo, através de referendo popular permitido pelo Legislativo, ou seja, com os instrumentos do “kit” chavista, a tentar a segunda reeleição, que lhe daria um terceiro mandato.

Uribe não afirma nem nega que, uma vez permitido o referendo pelo Legislativo e apoiada pela população a hipótese de permissão de mais uma reeleição, ele tentará a vitória novamente.

Porém, todos sabemos que se não houvesse respaldo do Presidente, o projeto não avançaria, até porque Uribe poderia, muito bem, se fosse de sua vontade, desautorizar as manobras.

Fim das contas, merece críticas severas qualquer um que tentar perverter a democracia. Mesmo que seja através dela mesma, como na agenda bolivariana.

Seja Chávez, ou seja Uribe.

Coluna do dia: História, democracia plena e outras mentiras

10/09/2009

Por Felipe Liberal*

Nada mudou. Os bandidos continuam sendo os de barbas longas ou algum mestiço metido a independente, quaisquer que sejam seus países. Já os heróis se vestem de vermelho e azul, que são as cores de Deus, um Deus americano, feito de Coca-Cola Zero misturada a uma boa dose de anabolizantes feitos na Marvel. Nunca se esqueçam caros colegas, que Deus escreve certo por linhas tortas, e não vejo nada mais torto do que tudo que os EUA fizeram no século XX.

Muita gente afirma que os americanos são democráticos. E é verdade, são sim. São tão democráticos que todas as ditaduras latino-americanas e asiáticas tiveram participação decisiva do Tio Sam. O derramamento de sangue que vigora hoje no Iraque e Afeganistão é consequência da implantação da democracia sem nenhum planejamento ou estudo, como se a população desses países fosse formada por animais que não sabem decidir seu próprio futuro.

As eleições americanas, por sua vez, são fruto de um bipartidarismo ditatorial, onde os demais partidos têm que viver sob a clandestinidade, rodeados de “vigilantes democráticos”. Hoje, o Partido Comunista dos Estados Unidos possui mais espiões infiltrados do que filiados. Essa é a grande democracia americana.

Na América Latina é a mesma coisa. Tudo o que não cheira a hambúrguer queimado e ketchup é abominável. Hoje os demônios falam espanhol, odeiam ser explorados, mascam folha de coca ou perderam o dedo mínimo trabalhando em uma fábrica democrática. Aqui no Brasil, estatal é sinônimo de corrupção e improdutividade, o louvável é privatizar, “neoliberalizar”, americanizar, etc. O interessante é que, segundo o IPEA, as estatais produziram mais que as empresas privadas entre 1995 e 2006. Mas isso só pode ser mentira dos demônios que sempre mentem.

O nosso Deus agora quer implantar bases na Colômbia, para se proteger de alguma coisa. Que coisa? Dos anjos decaídos? Não consigo enxergar coisa mais antidemocrática que invadir um país com seu exército e ocupá-lo. Mas isso sempre aconteceu. É a guerra preventiva, lembram? Deus sempre foi prevenido durante todo o século XX e início do XXI também. E hoje é a mesma coisa, como será amanhã e depois de amanhã novamente.

Infelizmente, desconhecemos o que se passa dentro do país mais rico e democrático do mundo. Existem algumas coisas que são escondidas, não por maldade, e sim, por prevenção. Mas vou citar algumas, que Deus me perdoe:

1 – Apenas os democratas e republicanos participam de grandes debates. Super democrático.

2 – A clássica eleição de Bush em 2000 foi fraudada, alguém duvida? Super democrático.

3 – O governo americano está retirando dinheiro dos fundos de pensão dos trabalhadores da GM (General Motors) para pagar as dívidas com o Citibank e o JPMorgan. Super democrático.

4 – Apenas neste ano, Obama já atacou duas vezes o Oriente Médio, com o resultado de 250 mortes entre civis. E mais: Vendem armas para todos os países que eles mesmos criticam pela “falta de paz”. Super democrático.

5 – O governo atual é a favor do 3º mandato de Álvaro Uribe, da Colômbia, mas é contra o de Chávez, na Venezuela. Super democrático e coerente.

Ficando apenas nesses cinco segredos sagrados do nosso glorioso Deus azul e vermelho, percebemos que a realidade nua e crua embaralha toda a concepção da nossa realidade. A visão sem manchas, fumaças ou mentiras é muito dura de ser enxergada. E quando sabemos que a diferença entre Deus e o Diabo está apenas no diâmetro de um fio de cabelo, descobrimos que a História e o presente são bombas de ilusões que nos inundam até morrermos afogados.

Fukuyama disse que a História acabou. Meu caro filósofo, a História nunca existiu.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Ativistas realizam marcha mundial anti-Chávez

04/09/2009

Idealizada pelo colombiano Alejandro Gutiérrez, a Marcha Mundial contra Chávez em 4 de Setembro mobilizou pessoas ao redor do mundo para protestar contra o semi-ditador venezuelano.

Houve protestos em Bogotá, sede da manifestação, Cali, Nova York, Madri, Barcelona, Sydney, Paris, Bruxelas, Hamburgo, Toronto e, para a satisfação dos brasileiros que, como eu, repudiam Chávez, São Paulo.

Além disso, ocorreram diversas manifestações em cidades hondurenhas como Tegucigalpa, San Pedro Sula (norte), Choluteca (sul), La Ceiba e na ilha de Roatán. Como se sabe, Hugo Chávez tentou recentemente uma clara intromissão nos rumos do país da América Central, auxiliando Manuel Zelaya em seus planos de perpetuação no poder e atentando, assim, contra a soberania local.

Embora a Marcha não tenha atingido o número de cidades ao redor do mundo esperado e o protesto paulista tenha tido pouca expressão, não se pode deixar de elogiar o movimento que, com poucos recursos e utilizando-se da internet, mobilizou um número considerável de pessoas.

Ficou comprovado que muitos cidadãos, de diversos países diferentes, repudiam as políticas de Chávez, que representam escalada ditatorial clara no âmbito interno venezuelano e intromissão danosa nas questões politico-eleitorais alheias no âmbito externo.

Além disso, trata-se de ótima utilização das possibilidades da internet que, neste caso, foi usada muito bem para unir pessoas em torno de uma causa ao redor do globo. O movimento se utilizou de redes sociais como o Twitter e o Facebook.

Este blogueiro entende que Hugo Chávez está empreendendo na Venezuela uma ditadura em doses homeopáticas, enquanto incentiva e financia grupos políticos que pretendem seguir o seu modelo “bolivariano” em outras nações que, infelizmente, não dispõem de instituições fortes o suficiente para deter os arroubos chavistas.

Por isso, o Perspectiva apóia inteiramente as manifestações.

No más Chávez!

Coluna do dia: Incompetência na política externa

29/08/2009

Por Matheus Passos*

Nesta semana, meu colega colunista Raphael Machado Silva escreveu a respeito da falta de experiência dos EUA em lidar com sua atual política externa. O autor cita como exemplos o apoio americano às Forças Armadas da Geórgia, há apenas um ano da guerra entre esta e a Rússia; a falta de tato americano em perceber que não há mais como pressionar o Irã a respeito de armas nucleares; e ainda a atual incapacidade americana em “manter a ordem” no Iraque e no Afeganistão. Sua coluna termina com a seguinte frase: “Talvez seja hora dos EUA começarem a aprender que o mundo mudou e que não lhe é mais possível, hoje, se envolver e interferir em eventos múltiplos ao redor do globo de modo a garantir sua hegemonia [...]“. Podendo cometer o erro da super-simplificação, eu diria que meu colega quis transmitir, com outras palavras, a seguinte ideia: Os EUA estão metendo demais o bedelho onde não são chamados e intervêm de menos onde efetivamente deveriam.

O Brasil é o maior país da América do Sul, disso todos sabemos. Mas talvez o que não tenhamos muito clara é a dimensão de nosso país nesta América do Sul – e não me refiro aqui à dimensão territorial, mas sim, em termos de função política, econômica e até mesmo social. Temos a mania de nos acharmos “subdesenvolvidos” e “atrasados”, pensando que somos os “coitadinhos” que são explorados pelos “malvados” europeus e americanos, mas a realidade é bem diferente: Exercemos, na América do Sul, o mesmo papel de “exploradores” e de “imperialistas” que acreditamos ser da Europa e dos EUA. Para nossos vizinhos, somos os “EUA do Sul”, como me disseram alguns argentinos e uruguaios com quem tive a oportunidade de conversar quando estive nestes países há um ano.

A pequena introdução anterior, com dois temas aparentemente desconexos, tem por objetivo fundamentar a ideia principal da coluna de hoje, qual seja, a de que é uma pena que aquilo que os EUA exercem demais, nas palavras de meu colega Raphael, o Brasil exerça de menos – ou até mesmo não exerça. E claramente não me refiro aqui ao papel imperialista “negativo”, de “explorador”, mas sim ao papel que foi desempenhado por muito tempo pelos EUA (e que acredito que continue sendo desempenhado), ou seja, o papel de liderança e de “guia” a respeito de qual rumo seguir.

Não quero aqui debater a respeito do acordo entre EUA e Colômbia em si – se ele é bom ou ruim para o Brasil e para os demais países da América do Sul. Também não pretendo falar acerca do equilíbrio de poder existente na América do Sul e da distorção que a presença americana em qualquer país da região traz a tal equilíbrio. Tampouco pretendo questionar se a Colômbia tem ou não o direito de permitir a presença dos militares americanos em seu território – tal debate só é feito por aqueles que não tiverem o mínimo de conhecimento a respeito do conceito de soberania. Mas me importa mostrar alguns pontos daquilo que considero como fraqueza da diplomacia brasileira sobre o assunto.

Todos devem ter acompanhado a viagem que Álvaro Uribe, Presidente da Colômbia, fez há duas semanas, por todos os países da América do Sul, para explicar o tal acordo. Os leitores devem ter acompanhado também as últimas tagareladas dos presidentes de três de nossos vizinhos ao norte – Bolívia, Equador e Venezuela – sobre o tão falado acordo entre Colômbia e EUA a respeito da presença de militares americanos em território colombiano para se lutar contra o narcotráfico.

Hugo Chávez e seus filhotes Evo Morales e Rafael Correa soltaram diversos impropérios a respeito da situação. Como exemplo, no dia 26 de agosto Evo Morales sugeriu a realização de um referendo sul-americano sobre as bases na Colômbia, argumentando que tal processo garantiria a “soberania da América do Sul” (parece que o Presidente boliviano não sabe o que significa “soberania”). Rafael Correa também não ficou atrás, afirmando em plena Unasul que a implantação das bases na Colômbia corresponde à transformação da América do Sul no “quintal dos EUA”. Contudo, Hugo Chávez continua sendo o campeão de patacoadas: Ele afirmou que caso o acordo fosse assinado (o que já aconteceu), a Venezuela poderia até mesmo entrar em guerra com a Colômbia, e esta última seria “a única responsável” (parece que Chávez se esqueceu de que comprou diversos armamentos russos nos últimos tempos, militarizando a região). Ele disse ainda que o acordo seria “a semente da guerra” – esta última frase em plena Unasul.

E o Brasil, o que faz nessa situação? Absolutamente nada. Defende a soberania colombiana, mas diz que é necessário debater a eficácia da cooperação entre EUA e Colômbia. E isso é o máximo da política externa brasileira sobre o assunto. O Brasil não tem tomado nenhuma ação contundente na situação e age sempre de maneira reativa, esperando que os outros tomem a iniciativa primeiro para depois se posicionar. Nossos “líderes” se esquecem de que o Brasil é, sim, o País mais importante da região e que a palavra do Brasil tem força. Neste sentido, nosso País poderia efetivamente ser o líder na América do Sul, mostrando o rumo a ser seguido.

Mas não é isso que acontece: Nossa diplomacia deixa a faca e o queijo nas mãos de Hugo Chávez e companhia – não é à toa que o Presidente venezuelano foi visto como o líder mais importante da América do Sul em pesquisa recente, à frente de Lula.

E eu termino a coluna deixando uma pergunta no ar: Até quando continuaremos com uma diplomacia reativa, que espera os acontecimentos internacionais para depois tomar decisões – que, geralmente, se fundamentam em elementos ideológicos, e não, pragmáticos? Enquanto continuarmos assim, continuarei envergonhado da diplomacia do meu País.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus