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Coluna do dia: Reforma agrária ou dilúvio – Agricultura familiar e agronegócio não cabem na mesma arca

10/05/2009

Por Tiago Franz*

Você já se perguntou por que o poder executivo do Brasil tem dois Ministérios para os assuntos da terra, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)? Boa pergunta.

Na última sexta-feira, 08 de maio, cá em Chapecó, no Oeste Catarinense, um ato público nacional reuniu entidades de agricultores, do agronegócio e empresariais, membros do executivo e do legislativo de municípios, de estados e do país, e outros setores da sociedade. Razão do encontro: defender o novo Código Ambiental de Santa Catarina e a autonomia para os entes federados criarem suas próprias leis de meio ambiente, de acordo com suas realidades sócio-econômicas. Autonomia essa que questiono por motivos que já comentei aqui no Perspectiva.

Retomo rapidamente a principal questão, que envolve o tamanho das matas ciliares: “Enquanto a Lei Federal determina a largura mínima de 30 metros para as faixas de vegetação que protegem as margens dos rios, o que já é pouco se considerada a capacidade da natureza de se recompor, o Código de Santa Catarina permite a redução para dez metros em propriedades acima de 50 hectares e cinco metros nas áreas menores. O argumento do governo do estado é o de que o Código Federal inviabiliza as pequenas propriedades, que compreendem cerca de 90% dos agricultores catarinenses. Com a nova lei, 26 mil propriedades deixariam a situação de irregularidade.”

Contrários às alterações aprovadas pela Assembleia catarinense, “os Ministérios Públicos, Federal e Estadual, o Ministério do Meio Ambiente, a Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas do Senado, o Partido Verde, movimentos ambientalistas e diversos outros atores sociais já formalizaram ações judiciais, que apontam ilegalidade e inconstitucionalidade do novo código”. A decisão caberá ao Supremo Tribunal Federal.

Voltemos à manifestação em Chapecó.

Em apoio ao Governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), de Santa Catarina, disse a Governadora Yeda Crusius (PSDB), do Rio Grande do Sul: “O Código Ambiental Brasileiro é um problema”. A governadora se refere aos itens da Lei Federal que impedem as mudanças desejadas por alguns estados. Além de Yeda, participaram do ato o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB), e o Vice-Governador do Mato Grosso do Sul, Murilo Zauith (DEM). O Governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), estava entre os convidados, mas não compareceu.

Ora, só o “currículo” de Maggi – que inclui o prêmio Motosserra de Ouro, do Greenpeace – já é o bastante para traçar o perfil das principais lideranças apoiadoras da causa. Será que os maiores interessados em flexibilizar o Código Ambiental Brasileiro são os setores da agricultura familiar e pequenos proprietários, ou é o setor do agronegócio?

À propósito, você já se perguntou por que o poder executivo do Brasil tem dois Ministérios para os assuntos da terra, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)? Ao MAPA compete cuidar de políticas para o desenvolvimento do agronegócio, enquanto o MDA se ocupa da reforma agrária, agricultura familiar e desenvolvimento sustentável. Porque essas duas coisas, em essência tão complementares, são separadas no Brasil? É óbvio. Os interesses são totalmente opostos.

Disse à imprensa o Deputado Federal Celso Maldaner (PMDB/SC), que “o único país do mundo que oferece hoje 2/3 do seu território nacional para preservação é o Brasil”. Só faltou dizer que o mundo vai bem. O deputado, ao se dirigir à opinião pública, parece ter esquecido que o assunto do momento é a crise mundial. E a crise, todos sabem, tem duas faces que se interligam: uma financeira e outra ambiental. O atual modelo econômico, neoliberal, não permite uma gestão sustentável do meio ambiente. Do mesmo modo, as políticas ambientais que se fazem urgentes para a preservação dos recursos naturais impedem o desenvolvimento da economia tradicional.

O que fazer então? Investir nas tendências “verdes”, a exemplo do que pedem os ambientalistas, para dar novos rumos a economia mundial? Sim. O mundo inteiro deve seguir neste rumo de agora em diante, e o Brasil, enquanto aspirante a país desenvolvido, não pode rumar na direção oposta.

A economia brasileira, para ter saúde, precisa do mesmo remédio que o sistema político partidário do país: Reforma. Para o segundo caso, o nome é Reforma Política. Para o primeiro, Reforma Agrária.

Entre os pontos apresentados pelos defensores do Código Ambiental catarinense, um único faz sentido. É o de que a pequena agricultura, que no estado é tão significativa, não pode ser inviabilizada pelo Código Federal. Mas isso não quer dizer que a lei tenha que mudar para que as propriedades irregulares sejam legalizadas. Aí é que está o equívoco da nova lei catarinense. A realidade é que tem que ser mudada, através da correção de leis realmente erradas, para não competir com a tão salutar proteção dos recursos hídricos e florestais.

A solução ideal, mas que não interessa nem um pouco aos setores mais abastados da agricultura e pecuária, é uma reforma agrária que dê conta de corrigir a má distribuição das propriedades – distribuição no espaço físico e entre as pessoas, que deve incluir sem-terras, pequenos e grandes proprietários. Além disso, tão acostumados estamos com o decadente modo de usar a terra e seus recursos, que pouco valor damos às possibilidades econômicas que o ambiente natural preservado oferece.

É lamentável que representantes da agricultura familiar estejam lutando do lado errado. Deveriam saber que o máximo que podem conseguir desta forma é se eternizar na dependência a que estão sujeitos, enquanto os “maggis” e cia., com seus colossais latifúndios, crescem cada vez mais. Podem até regularizar suas terras perante a lei, mas não podem evitar as estiagens. Até quando os subsídios do governo irão amenizar as perdas?

Primeiro se cria um deserto, para que depois venha a água e leve tudo. Quem sabe só mesmo um dilúvio faria uma reforma de verdade.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

Coluna do dia: Governo catarinense não quer aprender a lição

19/04/2009

Por Tiago Franz*

Saudações aos leitores do Perspectiva Política. Quem vos escreve é um cidadão de Santa Catarina, do Brasil e do mundo, que propõe aqui a discussão de um problema catarinense, brasileiro e global.

Na semana passada, o Governador Luiz Henrique da Silveira sancionou o irresponsável novo Código Ambiental de Santa Catarina. A polêmica é a mesma desde o início dos debates para a criação da lei: o tamanho das matas ciliares. Enquanto a Lei Federal determina a largura mínima de 30 metros para as faixas de vegetação que protegem as margens dos rios, o que já é pouco se considerada a capacidade da natureza de se recompor, o Código de Santa Catarina permite a redução para dez metros em propriedades acima de 50 hectares e cinco metros nas áreas menores.

O argumento do governo é de que o Código Federal inviabiliza as pequenas propriedades, que compreendem cerca de 90% dos agricultores catarinenses. Com a nova lei, 26 mil propriedades deixariam a situação de irregularidade. “Nós temos que escolher. Nós queremos lavouras ou favelas? Este código ambiental precisa ser flexibilizado para a realidade dos estados”, disse o governador Luiz Henrique para o Jornal Nacional.

Realidade dos estados? Se os demais brasileiros fossem interrogados, hoje, sobre a última grande lembrança que têm de Santa Catarina, acredito que quase todos dariam a mesma resposta. Parece que o Governador esqueceu daquilo que o Brasil inteiro ainda se recorda: o drama vivido por Santa Catarina com as inundações de novembro do ano passado.

E tem mais. O oeste do estado, que escapou das enchentes, está sofrendo neste momento mais uma estiagem, a pior de todos os tempos. A agroindústria, motor econômico da região, já contabilizou um prejuízo de mais de 11 milhões de reais este ano, só em Chapecó. Milhares de pessoas estão perdendo seus empregos. Empresas como Sadia e Aurora já demitiram centenas e passam por dificuldades na produção. Como sempre, o mais prejudicado é o setor produtivo, ou seja, os pequenos agricultores e criadores de animais que o governo diz que representa.

A realidade catarinense é esta, senhor Governador.

Infelizmente, a catástrofe ambiental de novembro parece não ter sido o bastante para o governo aprender a lição. Os gastos da administração estadual com o conserto dos estragos foram muito maiores do que o orçamento de 2008 previsto para obras de prevenção. Só previsão mesmo, porque a execução, além de ruim, foi apenas parcial. Se tivéssemos a cobertura vegetal tal como deveria ser, a terra que desabou sobre as pessoas e estradas ainda estaria no lugar. Para piorar, a água que corre solta pela superfície nua causando estragos deixa de ser absorvida pelo solo e faz falta nas nascentes durante os períodos de seca.

Portanto, de que adianta ter alguns metros quadrados a mais de plantação ou de pastagem se a falta de água ou o excesso dela põe tudo a perder? E até que ponto a autonomia para os estados legislarem conforme suas especificidades – e contrariar a Lei Federal – se justifica, se a natureza não se comporta conforme a geografia política? O clima não obedece às divisas e fronteiras que o homem criou.

O mesmo erro ocorre nos Planos Diretores, que regulamentam o uso do solo nos municípios. Quando um rio é a divisa, o que acontece se de um lado a lei manda preservar e do outro permite o desmate? Neste caso, de quem é o rio? Quem se responsabiliza depois?

Só há uma resposta aceitável: recursos naturais são bens públicos e devem ser geridos de forma sustentável. As leis ambientais devem distinguir biomas e ecossistemas e não limites geopolíticos. Além disso, os estados vizinhos, Paraná e Rio Grande do Sul, têm culturas agropecuárias semelhantes à catarinense, o que põe em questão a existência de uma realidade tão especial para Santa Catarina.

É por tudo isso que abençôo a nova enxurrada que está caindo sobre o estado, e que desta vez não é de água. É uma chuva de rejeição ao Código Ambiental. Os Ministérios Públicos, Federal e Estadual, o Ministério do Meio Ambiente, a Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas do Senado, o Partido Verde, movimentos ambientalistas e diversos outros atores sociais já formalizaram suas ações, que apontam a ilegalidade e a inconstitucionalidade do novo código. Pelo jeito a coisa vai parar no Supremo Tribunal Federal.

Mesmo com toda a pressão, o Governador Luiz Henrique já declarou à imprensa que está confiante na vitória. O governo tem o apoio da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina. Queria eu que esses agricultores, principalmente os de pequena propriedade, fossem poupados desta situação. Não os culpo, tampouco os isento. Entristece-me ter que testemunhar, mais uma vez, os humildes deste país a carregar nas costas um erro histórico e chegar ao ponto de combater um falso vilão.

Sou um cidadão catarinense nascido no interior, em berço de famílias rurais. Enquanto escrevo estas linhas, falta água em minha residência, localizada na cidade de Chapecó. A 40 quilômetros de distância, meus tios e avós amargam as lavouras secas e os aviários vazios. E você? Já tomou banho hoje?

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo