Por Yashá Gallazzi*
Quando esta coluna for publicada, já estaremos na sexta-feira, dia 7 de agosto. Mas eu esclareço que escrevi estas linhas um dia antes, quinta-feira, dia 6 de agosto. O dia em que o mundo relembra aquela que considero a pior e mais macabra homenagem que um filho já fez a uma mãe.
Os leitores mais atentos já entenderam que me refiro ao aniversário do ataque atômico desferido contra Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, já no final da segunda grande guerra mundial. Há exatos sessenta e quatro anos o mundo conheceu um horror até então inédito, diferente de tudo o que já fora experimentado pela humanidade. Quando a malfadada bomba, composta por cerca de 60Kg de urânio, foi arremessada sobre aquela cidade japonesa, o que se viu foi um breve esboço do armagedon, com o fogo consumindo tudo e todos que estavam no lugar. E todo esse cenário de destruição serviu para prestar honras a Enola, mãe do piloto que atirou a arma nuclear. E ele, imbuído por sabe-se lá qual espírito, achou por bem batizar aquela que então era a mais poderosa arma de destruição com o nome da mãe. Enola… Uma americana que, como tantas outras, viu seu filho partir para a guerra. Não acredito que ela esperasse semelhante presente. Penso que teria se dado por satisfeita apenas recebendo seu filho de volta dos campos de batalha, preferencialmente livre dos conhecidos transtornos pós-traumáticos que o acometeram.
Como alguém que se orgulha de prezar a democracia e o sistema de liberdades individuais, não posso deixar de me confessar triste ao lembrar o que se passou naquele longínquo 6 de agosto de 1945. É impossível se regozijar com aquilo que aconteceu em Hiroshima, onde milhares de inocentes foram tragados pela onda violenta formada a partir de anos de guerra. Uma guerra sangrenta e dura. Talvez a mais dura que o mundo já conheceu. Mas o pior, confesso, é pensar naqueles inocentes que sequer estavam lá em 1945, mas que foram perseguidos e capturados pelos tentáculos atômicos da bomba. Descerebrados, alienados, mutilados… Homens, mulheres e crianças… Todos igualmente vítimas de Enola e seu poder de devastação inigualável. É sem dúvida um dos episódios mais sombrios da história humana, que diminui a todos nós. É uma data que viverá na infâmia, como disse o Presidente Roosevelt sobre… o ataque a Pearl Harbor! Aos que pensam que me perdi em divagações, tranquilizo: Estou apenas cuidando de rememorar um contexto histórico especialmente conturbado, a fim de construir uma análise sóbria que passe ao largo de alguns lugares-comuns assaz conhecidos.
Não estou entre aqueles que se deixam seduzir pelo antiamericanismo bocó, típico do terceiro-mundismo primitivo. Pelo contrário até: sou bel “filoamericano” mesmo. Para que tenham uma ideia, reconheço-me naquele estreito grupo de pessoas que entendem a importância dos Estados Unidos para o resto do mundo civilizado, especialmente a partir da segunda grande guerra. Não fossem os americanos – e o sempre importante Winston Churchill, Hitler teria marchado sobre toda a Europa, subjugando os valores morais sobre os quais o Ocidente se erigiu. Ainda hoje, por exemplo, custo a compreender o sentimento antiamericano dos franceses, que devem sua liberdade ao desembarque na Normandia. Por que esta tergiversação agora? Porque recuso-me a comprar a teoria que classifica o ataque atômico a Hiroshima como uma maldade do império americano contra um pobre povo indefeso. Isso é apenas tolice provinciana, nada mais!
A segunda guerra mundial foi um conflito com dois lados bem definidos: o bem, representado pelo ocidente democrático, e o mal, incorporado pelo nazismo e pelo fascismo. Qualquer um com dois neurônios e um pouco de senso lógico sabe que não há escolha possível entre tais campos. A escolha está feita de per si: cumpre alinhar-se com o bem. E qual era o objetivo do Ocidente democrático? Derrotar aquele que até então era o mal absoluto, eliminando-o da face da terra. Estados Unidos, Inglaterra e todos os demais países que representaram o bem pegaram em armas porque era preciso defender os valores que fazem da nossa civilização uma civilização! O inimigo, encarnado por Hitler e pelos fascismos italiano e japonês, representava a morte do mundo tal qual o conhecemos hoje. Nenhuma guerra é boa, dizem os pacifistas. E estão certos. Mas algumas são imprescindíveis! A segunda guerra mundial foi uma delas.
O horror havido em Hiroshima foi, a meu aviso, um erro de análise militar. Acredito que a força do exército americano – e dos demais aliados – poderia vencer o Império Japonês sem o recurso àquela bomba, injustamente chamada de Enola. Principalmente, estou convencido de que a guerra midiática teria sido vencida com enorme facilidade, caso Truman não tivesse lançado mão da tal arma. Guerra midiática, eu disse? Sim, isso mesmo. Os americanos e seus aliados venceram a guerra militar, para nossa sorte e para sorte de todo o mundo civilizado. Já aquela da propaganda, sabe-se, foi vencida pelo antiamericanismo – que muitas vezes se confunde com o pacifismo.
Muitos especialistas no assunto, por exemplo, sustentam ainda hoje que o ataque atômico acabou sendo a solução militarmente mais adequada. Eu, que não entendo muito de táticas militares, só posso ler as várias interpretações e construir minha própria análise a partir delas. Diz-se, por exemplo, que o número de mortos no caso de uma invasão por terra ao Japão seria muito superior aos cerca de cem mil mortos provocados por Enola. Sustenta-se, com base em estudos empíricos, que a duração do conflito poderia se estender por pelo menos mais uma década, caso fosse feita a escolha pela ocupação do território inimigo. E a história nos conta que Truman teve todos esses cenários à mesa antes de decidir que rumo tomar. Escolheu, como sabemos, a solução mais rápida, mas que só os canalhas podem considerar mais fácil. Não havia bandidos genocidas daquele lado – o lado do bem -, mas homens honrados tentando encontrar uma forma de salvar o nosso mundo. Eu, hoje, posso dizer que a escolha deles foi dolorosa. Mas não posso dizer que, fazendo outra, a coisa teria sido mais fácil.
A guerra da propaganda, estimulada pelo antiamericanismo do mundo, tratou de inverter a realidade e colocar os Estados Unidos na posição do império assassino, que subjugou com força desproporcional – eles adoram essa expressão – um inimigo muito mais frágil. Nada mais falso! O império do mal era o Império Japonês e seu fascismo assassino, que promovia expansão militar e territorial por meio de campanhas dignas de fazer inveja aos bárbaros de outrora. O ranço que certo pacifismo “woodstockiano” promoveu contra a América criou uma relação de causa e efeito entre Pearl Harbor e Hiroshima, coisa que não passa de trapaça retórica e moral. Mesmo porque – e aqui vai uma constatação muito importante – o ataque dos kamikazes foi moralmente muito pior do que a bomba chamada Enola. E eu não estou aqui falando apenas de aritmética, mas de valores, de ética. Uma ética que até nas guerras sempre existiu, mas que o fascismo, com sua obsessão por tudo o que é mais abjeto, tratou de violar.
O ataque japonês a Pearl Harbor foi aquilo que hoje se poderia chamar de terrorismo. Os japoneses de então estão para aquela guerra como os assassinos da Al Qaeda estão para o 11/9. E Hiroshima? Bem, como todos sabemos o lançamento da bomba não foi uma tática para dar início a um combate. Foi, antes, a maneira que se achou de por fim a ele, forçando à rendição o último arrimo de sustentação do forte fascista, que insistia em não ceder. Não preciso aqui lembrar, por exemplo, que o governo americano exortou os japoneses a pôr fim às hostilidades, inclusive advertindo que poderia lançar mão de uma arma muito poderosa. Ainda assim, o Império resistiu. Durante quanto tempo os Estados Unidos tentaram vencer de outra forma? Foram quatro anos! Quatro anos entre o atentado terrorista a Pearl Harbor – que não pode ser justificado sob nenhum ponto de vista moralmente aceitável – e o lançamento de Enola. Quatro anos! Digam o que quiserem, mas é impossível classificar o que houve em Hiroshima como vingança, ou como retaliação. Foi, isso sim, uma manobra militar e, como tal, deve ser encarada e julgada.
Eu a condeno, hoje, porque hoje me é dado conhecer todos os seus reflexos. Hoje sei as sequelas que centenas de milhares de inocentes tiveram – e tem – que suportar. Hoje sei que isso alimentou – e alimenta até hoje – o antiamericanismo rasteiro que tanto atrasa o mundo. Mas isso eu sei hoje, depois de consumados os fatos. Da mesma forma que sei o quanto era imprescindível vencer aquela guerra, colocando fim ao jugo nazista e fascista. Da mesma forma que critico a guerra do Iraque em razão de sua estratégia patética de ação, orquestrada por um presidente Bush que acreditou em uma vitória rápida e fácil. Mas não posso – e não consigo – criticar a guerra contra o terror, porque o terrorismo praticado pelo fascismo islâmico precisa ser detido hoje, da mesma forma que o fascismo do Império Japonês precisava ser detido então.
Não se trata, como percebem, de ser contra ou a favor da bomba atômica. Como já disse: ninguém com algum senso democrático e de humanidade pode ser a favor de semelhante massacre. Trata-se, isso sim, de olhar a história com olhos sérios, julgando homens e fatos a partir dos valores que temos e sobre os quais nossa história de civilização foi construída. Essa mesma civilização que os aliados lutaram vigorosamente para salvar na segunda grande guerra. Sob tal ótica, digo que vencer a guerra era um imperativo moral e categórico, mesmo porque os nossos valores, uma vez preservados do inimigo, nos permitem analisar as ações pretéritas, condenando aquilo que de errado foi cometido por nós ou por nossos antepassados. Os valores deles, caso tivessem prosperado – caso Pearl Harbor tivesse sido vitorioso – não seriam assim tão complacentes para conosco. Basta ver o que foi o nacional-socialismo de Hitler, moldado às custas de campos de concentração e de limpezas étnicas. De todas as infindáveis vítimas que aquela guerra fez – e foram inúmeras – confesso que uma das que mais me comove é Enola. A mãe, não a bomba. Ela não merecia isso.
* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento