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Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 4

25/03/2010

Deus e criações

Por Felipe Liberal*

Deus é o criador de todas as coisas, onipotente, onipresente e onisciente. Deus é tudo, definitivamente tudo.

Deus criou o diabo, o inferno e a matemática. Deus criou o universo, o mundo e os africanos Adão e Eva. Criou a África. Esqueceu a África e criou os outros continentes que foram povoados por imigrantes da África. Deus criou a cor branca, posteriormente à cor negra. Deus inventou o vinho e depois a cerveja, ou foi a cerveja e depois o vinho? Brancos e negros bebiam vinho, e brancos e negros bebiam cerveja.

Deus criou os outros deuses: Osíris, Ísis, os gregos, os romanos, Odin, os corvos da putrefação Huguin e Munin, as valquírias da morte entre os vikings, Javé, Alá, os deuses amarelos da Ásia, a indiana Mitra e etc. Deus criou todos eles e declarou guerra entre eles, várias vezes, infinitas vezes. Deus criou uma seleção natural entre os deuses, onde o mais forte vence e transforma o outro em pó, em páginas de livros de História.

Deus criou Johann Friedrich Blumenbach, zoólogo que reuniu 245 crânios humanos, comprovando que a raça branca provinha da região do Cáucaso e tinha o direito de se assumir superior à raça negra. Deus também criou o norte-americano James Watson, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, que afirmou em suas teses, em 2007, que os negros são menos inteligentes que os brancos. Mas nós todos fomos negros, temos os dois pés na África e somos fisiologicamente idênticos, mas é claro, Deus também inventou a ironia e o paradoxo.

Deus também criou um assistente, ou melhor, um grande assistente para auxiliar em suas invenções: a China. Os chineses, com o dom de Deus, inventaram praticamente tudo de que se tem notícia: chá; bússola; papel; seda; extração de sal, petróleo e gás; moinhos de água; imprimiram livros seis séculos antes que Gutenberg; pólvora; timão; roca; acupuntura; porcelana; futebol; baralho; lanterna mágica; pirotecnia; sismógrafo; pipa; papel-moeda; relógio mecânico; laca; pintura fosforescente; carrinho de mão; guarda-chuva; leque; estribo; ferradura; chave; escova de dentes e mais algumas coisinhas. Deus também inventou a mentira, que alguns países contaram sobre essas invenções.

Inventou, em 1492, um novo continente, que seria fruto de experimentos humanos por 500 anos. O continente da morte e das contradições.

Deus sozinho criou Kafka, Dostoiévski, Maiakovski, Tom Jobim, Chico Buarque, Villa-Lobos, Monet, Picasso, Gandhi, Nijinski, Jesse Owens, Juan Rulfo, Fidel Castro, Che Guevara, Mao, Stalin, Lênin, Roosevelt, Hitler, Napoleão e outras figuras também moldadas pelas mãos iluminadas.

Deus inventou a escravidão, os campos de concentração e as guerras. Deus criou o ódio e o amor. Criou também a pistola, a espingarda, as bombas, o fuzil e outros modos de mostrar quem manda e tem poder. Deus criou o conformismo, a alienação e tudo que faz o ser humano não ser humano. Deus criou Hiroshima, depois destruiu Hiroshima. Criou o Vietnã, depois destruiu o Vietnã. Criou o Iraque, depois destruiu o Iraque. Deus inventou Bush, e também o ataque terrorista de Nova York e Washington. Inventou Bin Laden e criou uma justificativa para tudo que somos hoje.

Deus criou tudo, absolutamente tudo.

Mas e se Deus não existir? Quem criou tudo isso? O que existe e o que não existe? O que nós somos? O que nós sentimos? Quem explicaria tudo?

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: A justificação da moderna inconsequência adolescente e a morte de J. D. Salinger, o reacionário

29/01/2010

Por Yashá Gallazzi*

O escritor Jerome David Salinger morreu ontem, quinta-feira, aos 91 anos. Morreu exatamente da mesma forma que sempre viveu: ocupado apenas consigo mesmo e com o pequeno mundo dentro do qual resolveu habitar.

Salinger sempre foi considerado um ídolo por aqueles estranhos profissionais que passarei a chamar de “modernos psicólogos”. Sua obra mais famosa, “O apanhador no campo de centeio”, sempre foi encarada como sendo uma espécie de tratado sobre a rebeldia na adolescência. Não que a adolescência tenha nascido com o livro de Salinger. Longe disso. É que foi a partir dele que se começou a cultuar a ideia de que há, necessariamente, uma fase da vida na qual a rebeldia e a contestação são aceitáveis.

A verdade é que Salinger acabou morrendo sem conseguir mandar para o diabo todos os imbecis que utilizaram sua obra de arte para abafar as palmadas que várias gerações de moleques deixaram de levar em seus traseiros rebeldes.

Não que ele tivesse vontade de desmentir, recriminar ou mandar pro diabo quem quer que fosse. Salinger era, antes de qualquer outra coisa, um indivíduo pleno em sua individualidade. Em uma das raríssimas entrevistas que concedeu, ao “The New York Times”, perguntado sobre o que tentava passar aos seus leitores, o escritor respondeu assim: “Não dou muita importância ao sentimento do leitor. Eu amo escrever, mas só escrevo para mim mesmo. Faço isso para meu prazer pessoal.”

Trata-se da síntese daquilo que considero a essência de uma boa relação entre escritor e leitor. É muito melhor ler as grandiosidades escritas por “um Salinger”, que não está nem aí pra você, do que se debruçar sobre as escoiceadas de “um Saramago”, sempre em busca de catequizar o mundo.

Salinger foi grandioso por ter escrito com extrema simplicidade o óbvio. Ele deixou de lado qualquer recurso a mensagens subliminares ou morais escondidas e ocupou-se apenas da fria narrativa dos acontecimentos. Por isso sua obra parece tão emocionante e envolvente. Paulo Coelho precisa rabiscar uma “lição de vida” diferente a cada três linhas de texto para conseguir emprestar alguma profundidade àquilo que produz. Salinger só precisava escrever para ele mesmo, nada mais.

“O apanhador no campo de centeio” é um livro fascinante porque se ocupa do que é prático. Ali, Holden Caulfield divaga tentando compreender a si mesmo, desafiado cada vez mais pelas nuances do seu próprio individualismo. A obra não poderia jamais ser vista como uma ode à rebeldia adolescente, simplesmente porque Caulfield, o contestador de Salinger, é o vilão da trama! Antes de ser um salvo-conduto para as trapalhadas dos moleques, o livro é, pois, uma sonora bofetada na cara espinhenta de todos eles.

A personagem principal do livro realmente enfrenta dramas e tormentos pessoais, mas em nenhum momento o autor os relativiza em razão da idade do atormentado. Muito menos tenta justificar as idiotices cometidas por Caulfield – e foram muitas! – valendo-se do discurso vitimista. Assim, se o moleque bombou na escola e foi expulso – por três vezes! -, fica claro que o problema é ele, não uma suposta “incompreensão do mundo exterior”. Em outras palavras, quando cada estranho na rua olha Caulfield como se este fosse uma aberração, Salinger deixa claro o óbvio: Não será ele, de fato, uma aberração?

Salinger morreu. Mas não ontem, numa quinta-feira fria de janeiro. Morreu há muitos anos, na primeira vez em que um “moderno psicólogo” subjugou sua obra prima e a seviciou intelectualmente, usando-a para molestar adolescentes ávidos por justificar suas irresponsabilidades.

O vilão criado por Salinger foi, assim, alçado à condição de mocinho-vítima, cujos atos destrambelhados deveriam sempre ser creditados a uma suposta revolta com um mundo e com uma escala de valores opressiva. Desta feita, quando Caulfield conseguiu ser expulso de três diferentes escolas, os “modernos psicólogos” passaram a questionar as políticas de ensino, deixando de lado o mais evidente: o moleque não queria estudar!

Foi de perversões assim que nasceram absurdos como a tal “avaliação no processo”, o “ensino voltado a formar cidadãos” e o culto à aprovação desmedida – mesmo sendo imerecida. Ao ler “O apanhador no campo de centeio”, os pensadores pegaram o caminho errado da interpretação: o pobre adolescente tem tantas dúvidas, tantos transtornos, que precisa ser acarinhado e protegido do mundo e de si mesmo, inclusive garantindo-lhe o direito à rebeldia. Na verdade, a escolha certa seria exatamente a oposta: o vagabundo precisa tomar uns tabefes o mais rápido possível! Ele que pare de se preocupar com os olhos do tal “mundo exterior” e se concentre nos livros. Simples assim.

Salinger morreu quando notou que “o mundo exterior” transformou seu romance em um livreco de auto-ajuda, bem ao melhor – pior? – estilo Paulo Coelho. O mais dramático, porém, talvez nem tenha sido isso, mas a enormidade de livrecos de auto-ajuda que nasceram sob a pretensão de explicar o livreco de auto-ajuda, que a estupidez moderna pensou ter sido escrito por Salinger. Aí a coisa ficou realmente crítica: caímos de Paulo Coelho para Chico Buarque, apanhados por histórias ridículas.

Não é de se estranhar que Salinger tenha vivido por décadas como um eremita, isolado da imprensa e negando-se a escrever continuações do livro. Quem poderia suportar a obra de sua vida sendo espancada, assassinada e, por fim, vilipendiada de forma tão cruel?

Nas últimas décadas – em especial nesta última -, presenciamos um exército de “experts” sustentando que a rebeldia e a contestação dos adolescentes são algo “bom e normal”, sempre a partir de uma psicologia que parece ter sido inventada no bar. Essa gente corrompeu toda uma leva de pais e de jovens, que cuidaram de se acomodar diante de sua própria estupidez e ignorância, encarando-as como “uma fase”, “um sinal da idade”.

Tomaram um romance brilhante sobre a conduta do ser humano e suas consequências, e transformaram-no em uma ode à irresponsabilidade sem causa. Fizeram de Holden Caulfield uma vítima do mundo, quando, na verdade, Salinger o descreveu como um vilão, causador de toda a sua mesquinharia interior.

Enquanto o “mundo moderno” se derrete pela rebeldia adolescente, encarada como uma espécie de revolução contra os “costumes caretas”, Salinger pintou o adolescente rebelde perfeito: aquele que merece levar uma boa surra, sofrer um castigo exemplar e, por fim, ser urgentemente obrigado a deixar de lado as baboseiras da contestação e se dedicar aos livros. Contra os “modernos psicólogos” revolucionários, Salinger foi, pois, um reacionário.

Aliás, não! Isso é o que eu acho que Salinger foi. Afinal, como dito, ele escrevia apenas para ele, não para passar mensagens secretas e libertadoras ao leitor. Por isso sua obra é tão brilhante. Por isso sua perda deve ser tão sentida.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Otimismo, apesar de tudo

09/08/2009

Por Tiago Franz*

Sim, um otimista. E sim, mais Senado. E pode haver alguém otimista com tanta m…? E por que não? Chico Buarque cantou para um presidente militar nos tempos do regime: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Que se cante o mesmo para os Sarneys da vida.

Agora, para os milhões de brasileiros que passam a noite antenados nas telinhas da televisão, há mais uma opção de entretenimento. Pelo menos é isso que muitos brasileiros estão vendo: mais um reality show. Por enquanto, Sarney está sobrevivendo ao paredão.

Creio que eu não seja o único brasileiro a assistir entusiasmado a cada episódio. Vibro. Torço. Lamento. Comemoro. Mas, nesse caso, não se pode ser um mero espectador, e nem se pode encarar a realidade como simples entretenimento.

Não há um número de telefone para ligarmos e votarmos para que o Sarney caia fora, mas temos como votar a cada dois anos. E podemos fazer mais. Muito mais. Tanto que se quiséssemos já teríamos mudado definitivamente essa programação. Cantar apenas também não basta. É preciso estarmos eufóricos. Mais Chico: “Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia?”. Temos que demonstrar segurança, convicção.

E, afinal de contas, com o que eu vibro e comemoro? Com as boas crises. Esta é uma das melhores e mais importantes crises para a política brasileira. Torço para que aquela velha e falsa cordialidade que se via entre os senadores seja substituída pela discussão como tem ocorrido, grave tal qual a situação exige. Que o decoro parlamentar não seja mais importante que o respeito para com o cidadão. Que os bons senadores não se intimidem. E que o povo vibre mais com as melhoras na política do que com o resultado do BBB.

Quer mais um grande motivo para estar otimista? Que tal a possível candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo PV?

Demos vivas a outro Chico, o Mendes, líder sindical dos seringueiros, assassinado no Acre em 1988. Um grande brasileiro, a quem Marina Silva faz as honras com sua boa atuação na nossa política.

Uma ótima semana a todos!

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

Coluna do dia: Joga pedra na Geni!

17/07/2009

Por Yashá Gallazzi*

Não sou um “tuiteiro” profissional. Pelo contrário: comecei a usar o tal “mini blogger” há bem pouco tempo e ainda estou longe de dominar seus recursos. Na verdade, acho que o problema é a minha prolixidade, que definitivamente não combina com os escassos 140 toques permitidos pela “geringonça”. Mas por que falar do Twitter? Bom, eu não sou, como dito, um profissional. Mas nem precisaria sê-lo para acompanhar o linchamento virtual que foi promovido contra a Sandy – a cantora – há poucos dias.

Caso não saibam, a moça – ou melhor, senhora – achou por bem expor sua crítica a um eventual terceiro mandato de Lula, aquele mesmo que sempre falou em defesa da ética, mas que, hoje, se dedica a defender Sarney, Calheiros e Collor. Sandy, que entende mais de democracia do que muito intelectual brasileiro refém do marxismo bocó, explicou por que um terceiro mandato deve ser repelido, inclusive propondo um pequeno exercício de comparação com as legislações de outros países.

Simplificando, ela poderia ser convidada a ministrar um curso rápido aos petistas, principalmente aos mais gabaritados, como a dona Dilma e o Celso Amorim, por exemplo. Aquela, sabemos, é uma ex-terrorista, enquanto que este último sempre mostrou muita desenvoltura ao apoiar ditadores dos mais perversos. De democracia, está posto, essa gente nunca gostou.

Depois que Sandy resolveu defender a democracia, a patrulha petralha e lulista caiu matando sobre a coitada. Sim, entre a democracia e Lula, eles ficam com Lula. Afinal, ambos são claramente incompatíveis. Assim, não é de causar estranhamento que a mesma canalha capaz de apoiar o “mico mandante” Chávez, também consiga defender de forma tão aborrecidamente enfadonha a permanência de Lula no poder. O que me surpreende é ver que eles não se contentam em expressar seu ódio à democracia. Vão além: atacam pessoalmente qualquer um que tente defendê-la. Eis aí outro emblema desse grupo: sempre se dizem favoráveis a “um bom debate”, desde que todos os debatedores defendam as ideias que lhes forem mais favoráveis. Enfrentar o contraditório e a crítica, sabemos, é algo inimaginável.

Assim, Sandy tornou-se a Geni da internet brasileira, apanhando e recebendo pedradas de todos os lados. A máquina de difamação montada pelo petismo é muito eficaz e, em questão de horas, a página inicial da moça no “Twitter” estava tomada por ataques bestiais, escritos invariavelmente naquela língua que se assemelha apenas um pouco com o português. Aliás, essa é mais uma característica dos que cito: eles simplesmente não aprendem a manejar as palavras. São incompatíveis com a gramática da mesma forma como o são com a democracia.

O curioso é que muitos dos que atacaram Sandy o fizeram alegando que ela não teria gabarito para falar sobre política e democracia, afinal, seria “apenas uma cantora”. Hum… Digam-me se não é o “duplipensar” dos petralhas em evidência! Eu pergunto: se a Sandy não pode palpitar sobre a política, por que o Chico Buarque pode? Sim, segundo os fãs de Lula, o famoso cantor não só pode como deve falar tudo o que pensa acerca do tema. Na verdade, Chico nem é mais tratado apenas como artista. Já se tornou um verdadeiro intelectual da política brasileira.

O ponto aqui é bem simples: Sandy é atacada porque sua voz destoa daquela bradada pela manada ensandecida que serve de base de sustentação para o lulismo. Já Chico, por sua vez, defende a mesma “causa” dessa gente abespinhada, razão por que é sempre ouvido como se fosse um lumiar da sabedoria progressista.

Na cabeça doentia dessa gente, Sandy é a direita reacionária e preconceituosa. É a classe média burguesa que se ocupa de atacar o presidente “dozoperário” e “dozoprimido”. Já Chico é o visionário! O gênio! Aquele que soube driblar a censura dos militares, camuflando supostas odes revolucionárias dentro de sambas de qualidade poética bastante duvidosa. Não deixa de ser engraçado perceber que os críticos de Sandy, capazes de censurar a produção musical da moça (o que é “Vâmo pulá”?), são os mesmos que ouvem coisas como “A Banda” com lágrimas nos olhos, acreditando piamente que se trata de um ato de resistência contra o império capitalista opressor.

Eis o retrato mais fiel do deplorável momento político que vive o Brasil. Quem defende a democracia e o sistema de liberdades individuais é atacado sem piedade. E quem é o algoz? A mesma gente que se junta para louvar os feitos de Lula, Chávez, Correa e tantos outros gorilas que buscam, dia após dia, solapar aquela mesma democracia. Vida longa a Sandy!

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento