Postagens com a palavra-chave ‘Câmaras Municipais’

Coluna do dia: PEC dos Vereadores – Maior representatividade ou inchaço?

14/10/2009

Por Renato Alves*

A Proposta de Emenda Constitucional nº 58 – conhecida como PEC dos Vereadores – que aumenta o número de cadeiras nas Câmaras Municipais em todo o País foi promulgada pelo Congresso Nacional. Esta promulgação tem suscitado uma polêmica bem interessante: o aumento significa maior representatividade da sociedade ou inchaço da máquina pública?

Para os defensores da tese de que há uma maior representatividade, o aumento veio em boa hora. Para estes, o ideal de um sistema democrático é dar voz e voto aos cidadãos, inclusive sobre todos os assuntos. Pelo fato de ser impossível que todo cidadão expresse sua opinião de forma que ela seja ouvida e repercutida, a representação se faz necessária. Dessa forma, o vereador passa a ser o representante legítimo de um determinado grupo ou setor da sociedade em seu município. Seguindo essa lógica, na teoria, quanto maior for o número de vereadores, mais grupos serão representados.

Para aqueles que veem o aumento como um inchaço da máquina pública, o pensamento é o de que não há necessidade de muitas pessoas para resolverem-se os problemas legislativos, principalmente nas pequenas cidades. Argumentam que o aumento onera os cofres públicos sem o devido retorno em qualidade de serviço. Sendo assim, o inchaço das câmaras de vereadores ocorre mais pela falta de qualidade do que pelo número maior ou menor de parlamentares.

Posso dizer que as duas linhas de defesa têm suas razões. Na teoria, o aumento de vereadores realmente beneficia a representatividade. Porém, na prática, percebemos que isto apenas onera os cofres públicos, devido à baixa qualidade da representatividade.

Então, por que o Congresso Nacional aprovou essa proposta se na prática ela não beneficia a sociedade?

Bom, esta é uma pergunta até certo ponto fácil de responder. O Congresso Nacional aumentou o número de vereadores para agradar a seus melhores cabos eleitorais, visando as eleições de 2010. Nesse sentido, os congressistas não pensaram na sociedade e sim no benefício próprio.

Acrescento, ainda, que os parlamentares, sabedores de que a proposta tem impacto negativo na sociedade, incluíram na PEC uma espécie de compensação pelo aumento do número de vereadores, isto é, aumentaram o quantitativo de cadeiras e reduziram o limite de gastos das câmaras municipais. Porém, essa compensação é fictícia, pois o teto estipulado na proposta é superior aos gastos atuais das câmaras. Ou seja, reduziram em pontos percentuais (para impressionar), deixando margem suficiente para os gastos futuros ultrapassarem os atuais.

Portanto, na prática, não percebo que o aumento tenha reflexo em maior representatividade. Na realidade, infelizmente, não posso dizer que a maioria dos vereadores represente a sociedade adequadamente.

Enfim, percebo na PEC dos Vereadores um inchaço da máquina pública e um agrado em véspera de ano eleitoral àqueles que servirão como cabos eleitorais. O Congresso deveria, em vez de aumentar o número de vereadores, ser um Poder Legislativo forte, atuante, preocupado com as questões que afetem a sociedade e não com as próximas eleições.

Até a próxima!

*Renato Alves é colunista do Perspectiva Política às quartas e editor do blog Política Mineira

Cascata

02/03/2009

Dizia eu, na postagem “Exemplo claro” que diversos congressistas já defendem que o valor da verba indenizatória, que teria as despesas referentes a ela divulgadas na internet em algumas semanas, fosse incorporado ao salário oficial deles. Assim, como os gastos anteriores à implantação desse sistema de divulgação já não iriam fazer parte dos dados divulgados e os gastos posteriores não existirão, visto que as quantias incorporarão os vencimentos, não existindo mais as verbas indenizatórias, não haverá nada a ser divugado e os parlamentares institucionalizarão como seus, valores que, na prática, já eram utilizados como tais.

Pensava eu, ao escrever sobre o tema, que o Congresso aumentaria suas despesas, elevaria o gasto de dinheiro e, provavelmente, não melhoraria em nada o nível de nossa representatividade, o que já configuraria algo triste, para não dizer vergonhoso e revoltante.

Pois não é que a coisa é pior ainda? Esqueci-me de levar em conta que os salários dos deputados estaduais e dos vereadores é calculado de forma vinculada ao dos membros do Congresso Nacional. Sendo assim, a “farra” com as verbas públicas, advindas do nosso bolso, é maior do que eu pensava, atinge a cifra gigantesca de 1,2 bilhão de reais.

Como muito bem disse Ranier Bragon, da Folha, “sob o argumento de reduzir gastos, lideranças partidárias do Congresso preparam uma manobra que pode resultar em um rombo de ao menos R$ 1,2 bilhão nos cofres públicos

[...]

as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado estudam acabar com a chamada verba indenizatória, que destina R$ 15 mil mensais a cada um dos 594 congressistas, e incorporar parte do recurso (R$ 8.000) ao salário dos parlamentares, que subiria para R$ 24,5 mil.

[...]

a proposta traria uma economia inicial de R$ 35,7 milhões/ano aos cofres do Congresso, mas o efeito cascata do aumento salarial de deputados e senadores resultaria em um gasto extra anual de pelo menos R$ 1,2 bilhão a Estados e municípios, o que supera em 33 vezes a suposta economia.“.

Grandes hipócritas é o que são os que defendem esta manobra, para ficarmos por aqui. Vão causar um grosso efeito cascata, manipulando tudo com uma cascata da grossa.

Quanto custa o Legislativo brasileiro?

26/02/2009

Vale a pena conferir interessante especial (clique aqui) do Estadão, que mostra quanto custam os parlamentares brasileiros.

O especial informa que, para 2009, dois terços das casas legislativas elevaram seus orçamentos acima da inflação oficial, segundo levantamento da ONG Transparência Brasil.

Além disso, vale ressaltar que é possível consultar o montante das despesas por órgão (Câmara dos Deputados, Senado, Assembléias Estaduais e Câmaras Municipais), por parlamentar (Deputados Federais, Senadores, Deputados Estaduais e Vereadores) ou por habitantes regidos pelo respectivo Legislativo, além da porcentagem da alta do orçamento para 2009. Todas esses diferentes quadros demonstram os órgãos legislativos por ordem decrescente gerando uma lista com os que produzem os valores mais altos.

Pervertendo os mecanismos institucionais

17/02/2009

“Câmaras ignoram TCE e aprovam contas irregulares em São Paulo”

De que adianta a fiscalização pelo TCE das contas das Prefeituras se, uma vez contestadas, elas sempre serão aprovadas pelos aliados políticos dos Prefeitos nas respectivas Câmaras?

É um absurdo o pervertimento de certos mecanismos das instituições democráticas brasileiras. Para tudo cria-se um jeitinho, uma maneira de driblar. Parece mais fácil do que simplesmente fazer o correto. Na verdade não o é, o problema do correto é que ele não oferece vantagens pessoais.

Como diz a reportagem do Estadão, “como a Constituição reserva aos vereadores o poder de derrubar os pareceres do tribunal, desde que com maioria qualificada – o equivalente a dois terços dos votos – , a prática virou garantia de impunidade”, e assim vai se comportando o legislativo em geral.

Como sempre, a coisa começa a beirar o cinismo, com a impunidade sendo tão garantida que os políticos praticam abusos à inteligência do cidadão. Como mostra outro trecho da reportagem:

“Em Araras, o caso é emblemático. As contas de 2004, 2005 e 2006 do ex-prefeito Luiz Carlos Meneghetti (PPS) tiveram parecer desfavorável. Com 8 dos 11 vereadores do seu lado, ele reverteu a decisão do tribunal na Câmara Municipal. Em dezembro passado, abriu mão do reexame das contas no tribunal para que o parecer desfavorável chegasse à cidade antes do fim do governo. Numa votação em 16 de dezembro, o documento que apontou problemas como a insuficiente aplicação de recursos no ensino fundamental e o não-pagamento de precatórios foi rejeitado e as contas, aprovadas. “

Para completar, os próprios TCEs são alvo de interferência política, com indicações, pelos governadores ou pela Assembléia Legislativa, dos conselheiros. A isenção, dessa forma, sobe no muro.

Enquanto não houver mudança desse caráter político dos tribunais, que, como sempre, atrapalha o trabalho de bons quadros técnicos, continuará o problema. As contas serão aprovadas sem estarem devidamente corretas e, quando não o forem, os pareceres serão derrubados nas Câmaras. É uma baderna.

Os institutos que na maioria das vezes foram criados na Constituinte para evitar perseguições políticas e manobras de opositores, protegendo a democracia, na prática são vistos como brechas para os trambiques. Lamentável.

No Brasil, as instituições não podem ser desenhadas para o mundo ideal. Têm que ser desenhadas prevendo a perversão.