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Desculpa esfarrapada: Irmão diz que Lugo é vítima de tentativa de ‘golpe de Estado encoberto’

25/04/2009

Informa o jornal O Globo que Pompeyo Lugo, um dos cinco irmãos do presidente paraguaio Fernando Lugo, transformou-se num dos principais defensores do ex-bispo. O jornal diz ainda que, numa visita a Buenos Aires, ele disse à repórter Janaína Figueiredo que “este é um golpe de Estado encoberto” e defendeu a relação entre Lugo e Viviana Carrillo, mãe do menino de quase dois anos de idade que o presidente reconheceu como filho, na semana passada.

Confiram algumas perguntas feitas ao irmão de Fernando Lugo e as respectivas respostas:

Qual é sua opinião sobre a situação que vive o presidente?

Tudo o que estamos vendo e ouvindo é parte do roteiro de uma guerra suja, uma tentativa de golpe encoberto.

Quem está por trás desta guerra suja?

O crime organizado internacional, o narcotráfico, o narcoterrorismo, os contrabandistas de armas, os falsificadores, os contrabandistas de cigarros e os lavadores de dinheiro. Com Lugo, acabou o roubo no Paraguai, e todas essas pessoas roubaram demais nos últimos anos.

Lugo era bispo quando Viviana engravidou…

Ele disse que foi um momento de fraqueza, mas também foi um momento de grandeza. Ele queria ser amado, queria amar, ela também, já tinha 23 ou 24 anos, tenho certeza que ambos decidiram ter esse filho. Também decidiram manter essa relação e esse filho no âmbito privado, porque ela é solteira e ele, um homem público.

Qual das desculpas do irmão do Presidente Fernando Lugo é mais esfarrapada? A de que está ocorrendo um golpe encoberto, a de que aqueles que roubaram no Paraguai no passado querem atingir Lugo, a de que Lugo queria amar e teve um momento de grandeza ou a de que o filho foi desejado?

Ora, faça-me o favor senhor Pompeyo Lugo. O caso está sendo acompanhado internacionalmente. O senhor insulta a inteligência não só dos paraguaios como também do mundo inteiro.

Darei-lhe algumas respostas:

1- Exista um plano, desenhado por opositores, para derrubar Lugo ou não, isso nada tem a ver com o fato dele ter engravidado uma, ou mais mulheres. Aposto que não foram os opositores que forçaram Lugo a fazer o ato necessário para que uma mulher engravide e acho um absurdo que se entenda que a divulgação, para o povo paraguaio, de que seu Presidente é pai, é algo ruim orquestrado pelos golpistas. E por mais que fosse, o povo tem o total direito de saber. Tivesse Lugo um passado ilibado.

2- Existiu, existe e sempre existirá roubo no Paraguai. Lugo não acabou com o roubo, não só porque não teve tempo, como porque é impossível. O que Lugo pode ter feito, embore eu duvide um pouco, é diminuído o roubo. Pode até ser que exista ainda, nos planos do Presidente, um projeto para, a longo prazo, reduzir drasticamente o roubo, mas ele ainda não poderia ter atingido os resultados desejados em tão pouco tempo.

3- A concepção do filho de Lugo que só foi reconhecido recentemente não foi um ato de grandeza. Embora a geração de um filho seja algo belo e emocionante para qualquer casal, este filho foi o fruto de um ato que desrespeitou um juramento feito por Lugo que, se traiu este juramento, pode muito trair a promessa de honestidade tácita que faz quando se candidata a Presidente. Se por um lado não podemos achar que o filho de Lugo é menos que alguém ou que o ato sexual que envolveu Lugo e a jovem Viviana foi algo terrível, por outro, não podemos chamar de ato de grandeza.

4- O filho não foi desejado. Dizer que se tem “certeza que ambos decidiram ter esse filho” é uma mentira deslavada. Embora todos afirmem corretamente que um casal qualquer ama o seu filho, poucas pessoas podem ter certeza de que o mesmo casal quis ter um filho. Filhos, normalmente, não são planejados. Eles vem, por acidente, e passam a ser queridos e amados. Pois bem. Se com um casal normal, isso se dá, imaginemos com um casal que une um bispo católico e uma jovem. Eles decidiram ter o filho? Ok, meu caro irmão do Presidente. Finjo que acredito.

Se já não bastasse o Presidente Fernando Lugo ter sobre suas costas suspeitas a respeito da paternidade de mais de uma criança, ainda tem um irmão que apresenta justificativas patéticas.

Alfonsín foi diferente de Sarney

01/04/2009

Por ocasião da morte de Raul Alfonsín, escreve Paulo Moreira Leite sobre as diferenças entre a política dele e a política de José Sarney, presidentes contemporâneos que comandaram, respectivamente, Argentina e Brasil.

Segue o texto na íntegra:

“Boa parte dos biógrafos de Raul Alfonsin (1927-2009) costumam lembrar seu papel na criação do Mercosul. É uma forma de torná-lo parecido com seu amigo e vizinho latino-americano, o presidente José Sarney, do Brasil.

É injusto. Alfonsin e Sarney foram colegas de Mercosul e de inferno inflacionário. Mas o presidente que governou a Argentina entre 1983 e 1989 só entrou para a história da América do Sul graças a uma grande diferença em relação a seu colega brasileiro.

Ele mandou a julgamento os oficiais que sequestraram, torturaram e assassinaram 30 000
adversários do regime. Sob seu governo, coronéis, generais, almirantes e até ex-presidentes sentaram-se no banco dos réus para explicar crimes cometidos sob a ditadura.

Antes de deixar o poder, desmoralizados pela guerra das Malvinas, os militares argentinos tinham aprovado uma lei em que se auto-anistiavam. O novo presidente explicou que a legislação não tinha valor porque, esclareceu com muita simplicidade, não é possível anistiar quem não foi julgado.

Essa atitude serviu de exemplo para outros países, como o Chile, e colocou a Argentina num patamar mais avançado no terreno dos direitos humanos. Esta é a herança de Alfonsin.

Presidente entre 1983 e 1989, enfrentou três rebeliões militares sérias e um atentado contra sua vida. Sob pressão, aprovou uma Lei, chamada de Ponto Final, que rejeitava novas investigações sobre direitos humanos depois da data de sua publicação. Também aprovou outra lei, de Obediência Devida, em que oficiais subalternos podiam alegar o
cumprimento de ordens superiores para explicar seu envolvimento em crimes contra adversários políticos.

Foram acordos, recuos e avanços determinados pela situação política, numa postura de quem tem um caminho a seguir e não negocia com determinados princípios.

Sob a ditadura militar, Alfonsin não foi um aliado do regime nem buscou seus favores. Foi aos tribunais defender presos políticos. Na Guerra das Malvinas, aventura irresponsável iniciada pela ditadura como ultima esperança de sobrevivência, ele teve a coragem lúcida de denunciar o caráter demagógico da empreitada — num momento em que até exilados políticos retornavam ao país para pedir ingresso como voluntários nas Forças Armadas.

Do ponto de vista econômico o governo Alfonsin entrentou 13 greves gerais e foi
um fiasco inesquecível. Ele foi embora para casa seis meses antes do final do mandato.
(Sarney era estimulado a fazer a mesma coisa quando chegou a sua hora, mas descartou a idéia conselhado pela bravura da primeira-dama, dona Marly).

Se hoje um ex-presidente, o general Jorge Videla, cumpre pena de prisão em Buenos Aires, isso se deve a firmeza de Alfonsin, exibida na hora certa — por uma causa certa.

Com a modéstia que é privilégio de quem sabe que realmente fez uma coisa grande, aos poucos Alfonsin deixou a vida pública. Eleito senador em 2001, renunciou no ano seguinte, cansado e amargurado consigo mesmo, com seu partido e também com seus adversários.

Em 2003, os eleitores disseram numa pesquisa popular disse que ele foi o melhor presidente argentino após a democratização.”