Por Raphael Machado Silva*
O julgamento que deveria ter tido início nessa segunda-feira, de Radovan Karadzic, outrora Presidente da República Sérvia, Presidente do Partido Democrata Sérvio e comandante do Exército Sérvio-Bósnio, foi adiado por um dia pelo não comparecimento do referido réu, que quer mais tempo para preparar sua defesa.
Karadzic, que será “julgado” (eufemismo para condenado) pelo Tribunal de Linchament…ops, Tribunal Penal Internacional para a Iugoslávia, em Haia, é acusado por ter supostamente praticado genocídio contra bósnios, croatas e outros não-sérvios durante uma guerra que foi de 1992 a 1995, com destaque para o suposto massacre de 7.000 civis em Srebrenica, e para o cerco de Sarajevo, o qual durou 44 meses.
Por outro lado, parece que realmente há algum tipo de política anti-sérvia constante na agenda da OTAN (que na verdade não passa de um braço armado dos EUA, cuja finalidade existencial há muito expirou). Ainda que eu não seja simpático a nenhum Estado que englobe vários povos, pelo fato patente de que nesses Estados sempre há a tendência para a dissolução e perseguição das identidades etnoculturais com o fito de propiciar a “tolerância” ou a tirania de um povo sobre os outros, é difícil negar que, no bojo da queda da União Soviética, as potências ocidentais também pressionaram por uma dissolução da Iugoslávia que fosse o mais desfavorável possível para os sérvios.
Depois foi a vez da separação da Bósnia, liderada por fundamentalistas islâmicos financiados pelo Irã. Mais recentemente foi a vez do Kosovo, cuja secessão se deveu a uma verdadeira “iminvasão” e a uma disparidade entre as taxas de natalidade de albaneses e sérvios. O Kosovo, aliás, é hoje governado por membros do KLA, uma organização islâmica terrorista, com laços com a Al Qaeda, e cuja fonte de renda ao longo da última década tem sido o tráfico de armas, drogas, mulheres e o que mais der lucro.
Em seguida, veio a separação de Montenegro (ocupada por um povo sem qualquer distinção étnica, cultural ou religiosa em relação aos sérvios). Quiçá a próxima secessão seja a da província da Voivodina?
O que todas essas secessões possuem em comum? Todas foram apoiadas e financiadas pelos EUA e pela OTAN, em algumas situações com intervenção da CIA, ou ações militares dirigidas contra o povo sérvio. Qual seria a razão? Uma disputa com a Rússia por influência nos Bálcãs talvez seja uma boa explicação.
Afinal, deve haver uma boa explicação para os bombardeios genocidas praticados pela OTAN contra o povo sérvio, que duraram 78 dias ininterruptos, deixando inúmeros civis mortos. Como desculpa foi apresentada a alegação de que os sérvios, sob o comando do Presidente Milosevic, estavam cometendo genocídio contra os albaneses do Kosovo. Interessantemente, a equipe de peritos em medicina forense, vinda da Espanha e responsável pelas bem-sucedidas investigações de genocídio na Ruanda, não encontrou qualquer evidência de genocídio no Kosovo.
A OTAN alegou ter havido mais de 100.000 mortes. Achou-se algumas centenas de corpos, sem a possibilidade de se atestar a autoria de suas mortes. Quantos morreram em combate “justo” entre forças militares e quantos eram realmente civis? Onde foram parar os outros 99.500 corpos? Os sérvios usaram fornos crematórios, os transformaram em cinzas e depois assopraram no vento?
Pois então a OTAN matou 3.000 civis em bombardeios, porque os terroristas da KLA estavam perseguindo sérvios, inclusive ateando fogo a igrejas ortodoxas e, portanto, Milosevic resolveu, de pleno direito, defender seu povo?
O “duplipensar” corre solto na política externa dos EUA na Europa Oriental. Os EUA justificaram seu apoio à independência do Kosovo pelo “princípio da auto-determinação”. Pouquíssimo tempo depois, eles se posicionaram contrariamente à independência da Ossétia do Sul e da Abkhazia.
Pior ainda, no próprio Kosovo, a OTAN, diante da possibilidade de que a minoria sérvia no norte do Kosovo declarasse independência e se reunisse à Sérvia com base no “princípio de auto-determinação”, simplesmente resolveu “tornar mais rigoroso seu controle do norte do Kosovo, para acelerar sua pacificação e a integração dos sérvios”. Alguém já ouviu algo mais orwelliano? “Pacificar”. “Integrar”.
É triste a ignorância total a respeito dessa questão, mesmo entre supostos “anti-imperialistas”. Mostra o quanto ocidentais são sensíveis frente a acusações de “crimes contra a humanidade” e outros mantras humanistas, lamentações de vítimas e coisas do tipo. É importante ressaltar, aliás, uma suposta incongruência no que concerne aos ataques às campanhas anti-sérvias e às guerras americanas no Oriente Médio. A Europa Ocidental e os países muçulmanos apoiaram a primeira, e se opuseram à segunda.
Por quê? No caso dos muçulmanos é fácil. Não só porque bósnios e albaneses são muçulmanos, mas porque um tema sussurrado nos corredores das mesquitas e palácios, tanto por céticos e pragmáticos sunitas, como por xiitas fundamentalistas, é o retorno do “Califado Islâmico”, a forma de governo estabelecida e ordenada por Maomé, com autoridade para liderar os muçulmanos ao redor de todo o mundo, cuja finalidade é fazer a Jihad e retomar o que se extinguiu com o fim do Império Otomano. O risco do retorno do Califado já foi admitido pela CIA, em um de seus últimos relatórios anuais sobre política externa.
No caso da Europa Ocidental, se resume ao fato de que a Sérvia é, atualmente, o país mais hostil à União Européia e à qualquer forma de “integração” (eufemismo para escravização) internacional. A Sérvia é uma “pedra no sapato” dos globalistas. Por isso, tinha que ser bombardeada até voltar à Idade da Pedra.
Mas as razões abundam, também, para os EUA. Quer-se acesso aos trilhões de dólares em reservas minerais inexploradas nos subsolos do Kosovo e em certas partes da Bósnia. E uma outra grande razão, talvez a principal para o interesse americano e europeu, era a possibilidade de construção de um oleoduto saindo do Mar Cáspio, que não precisasse passar pela Rússia.
Não terminarei com qualquer desejo tolo de que “a verdade seja revelada no tribunal”. Não será. Todas essas cortes penais internacionais não passam de tribunais inquisitoriais, os quais já têm uma sentença pronta, antes mesmo do julgamento.
As cortes de Haia não passam de cortes políticas, apontadas com a específica finalidade de perseguir e punir os inimigos da OTAN e dos EUA. Que esperança de “contraditório” e “ampla defesa” pode haver nesse modelo de tribunal? Ademais, a ilegalidade de Haia é gritante, dado que a mesma violou as regras da ONU concernentes à imparcialidade quando aceitou doações da Time-Warner, da Disney e do banqueiro George Soros, o qual, agora, lucra milhões com as minas do Kosovo.
Diria George Orwell: “Em um mundo de mentira universal, falar a verdade é um ato revolucionário”.
* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.










