
A Ministra Dilma Rousseff foi, como já era totalmente de se esperar, aclamada como pré-candidata do PT à Presidência.
Será o nome do partido para outubro com certeza, mas por alguns meses fingirá ser apenas pré-candidata. A campanha continua, Dilma e Lula fingem que enganam e nós fingimos que acreditamos.
Como todos já esperavam que Dilma fosse finalmente oficializada como pré-candidata, as informações mais relevantes a respeito do Congresso petista são as indicações de como será, possivelmente, o viés político-ideológico da candidatura e do programa de governo e, também, de um hipotético governo futuro.
Essas suposições, feitas a partir de pontos defendidos pelo partido em seu encontro nacional, são revelantíssimas no sentido de que podem balizar a escolha de diversos eleitores. O vislumbre do que poderia ser um governo Dilma pode atrair ou afugentar brasileiros quanto ao projeto petista.
Sinceramente, as indicações dadas pelo congresso petista parecem mais afugentar do que atrair:
Em primeiro lugar, Dilma disse com todas as letras que vai continuar a reaparelhar o Estado.
Isso pode ser interpretado positivamente ou negativamente, dependendo da ideologia de cada um e do que se entende por aparelhamento.
Contudo, a interpretação mais correta me parece ser a de que o PT continuará a empregar partidários em órgãos e empresas públicas.
E isso, meus caros, não agrada em nada.
Em segundo lugar, medidas aprovadas pelo congresso do PT deixaram o plano de governo de Dilma mais radical.
Entre elas, pode-se citar a taxação de grandes fortunas, o combate a um suposto monopólio dos meios de comunicação, a atualização dos índices de produtividade no campo no que tange a reforma agrária, a restrição às compras de terras por estrangeiros, a redução da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas sem redução de salários
Alguns tentaram amenizar passagens dos textos. Não conseguiram. Por outro lado, o monopólio estatal do petróleo não foi aprovado como medida a ser defendida pelo plano de governo dilmista e nem a escolha do PMDB como aliado privilegiado e preferencial. Pelo menos isso.
No fim das contas, especialistas acreditam que as medidas aprovadas podem afligir o “capital”, o empresariado. Concordo com eles. E esta aflição é relevantíssima no mundo político-eleitoral.
Dilma procurou, para compensar, assumir compromissos com a estabilidade econômica. Porém, o passado esquerdista revolucionário da Ministra e o viés pré-Muro de Berlim de muitos de seus aliados próximos trazem suspeitas, perigosas para a sua candidatura, de que seu governo estaria mais à esquerda que o de Lula, sendo mais radical. E radical de uma forma que causa receio, próxima ao início do chavismo.
Em suma, alguns começam a temer mais fortemente, depois do que foi dito no congresso petista, que Dilma traga algum nível de radicalismo, embora o Ministro Paulo Bernardo, por exemplo, diga que isso é besteira.
Por fim, um elemento que normalmente acompanha o radicalismo e o autoritarismo é o personalismo. E ele também esteve presente. Dilma afirmou o seguinte, sobre a possibilidade de Lula querer concorrer à Presidência novamente em 2014, jogando para escanteio uma possível tentativa sua de reeleição:
“Sem sombra de dúvida, ele pode. O presidente chegou a um ponto de liderança pessoal, política, nacional e internacional que o futuro dele é o que ele quiser”.
Mais messiânico, impossível.
Resumindo, o lançamento da pré-candidatura de Dilma foi recheado de demonstrações de que a Ministra pode, sim, ser um pivô de radicalização após um governo esquerdista mais moderado de Lula, quase centrista. Pragmático, na verdade.
E essas indicações trazem receios, dúvidas e críticas que, além de trazerem instabilidade para alguns apoios e preferências pela Ministra, podem também afugentar uma parcela grande do eleitorado.
De positivo fica a noção de que, pelo menos, se for para existir radicalização as pessoas estarão cientes de que ela ocorrerá com Dilma.
Ninguém poderá dizer que foi engando.
Pior será se o discurso repetido, entre outros, por Paulo Bernardo, de que dizer que Dilma está à esquerda de Lula e próxima em alguma medida de Chávez é besteira, prevalecer e, caso Dilma vença, todos se mostrem surpreendidos por uma radicalização escamoteada durante a campanha.
Muita água ainda rolará, mas já se pode dizer que aqueles que afirmam que Dilma está mais próxima do chavismo que Lula não são tão paranóicos assim.
Ela não é chavista no sentido estrito da palavra, mas não é necessariamente a continuidade total de Lula, aparentemente.
Talvez porque o PT tenha sido sempre assim, com a diferença de que Lula teve força para conter os arroubos da ala mais radical da legenda.
Dilma provavelmente não teria, não por personalidade ou cacife político exatamente, mas sim por não ser um quadro histórico do PT.
O que Lula fala é lei.
O que Dilma fala, nem tanto.
Nesse cenário, dependeria-se fortemente de Lula para manter a moderação. A influência do futuro ex-Presidente se manteria em grande medida.
Talvez seja por isso que Lula adora a ideia de sua sucessora ser Dilma.