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Coluna do dia: O ambientalismo, a sociedade verde e os pensadores contemporâneos

01/11/2009 em Tiago Franz | (4) Comentários

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Por Tiago Franz*

A questão ambiental veio à tona na década de 70 do século XX, impulsionada por movimentos políticos. Em 1971 surgiram, na América do Norte, o Greenpeace e o Friends of the Earth, duas das maiores organizações ambientalistas internacionais, ainda atuantes. No ano seguinte, na Austrália, foi fundado o primeiro Partido Verde, logo acompanhado por versões na Europa. Atualmente, o ambientalismo é um dos maiores – senão o maior – setores de atuação do ativismo político em âmbito global.

As ações e discursos políticos em torno do ambientalismo são amplamente diversificados. Não existe um único movimento ambientalista. São muitas iniciativas, que diferem no campo da prática e da concepção filosófica. Para Manuel Castells, em seu livro ‘A era da informação: o poder da identidade’, “é exatamente essa dissonância entre teoria e prática que caracteriza o ambientalismo como uma nova forma de movimento social descentralizado, multiforme, orientado à formação de redes e de alto grau de penetração”.

A nova experiência de relacionamento da humanidade com o ambiente natural, que Castells chama de “o verdejar do ser”, também é abordada por Anthony Giddens – ambos são autores europeus contemporâneos – no livro ‘Para além da esquerda e da direita’. Este cria uma série de conceitos para explicar os fenômenos sociais de nosso tempo. Entre eles, a “reflexividade social” e a “destradicionalização”, que tratam de características da globalização de um ponto de vista que não o econômico. O aspecto, neste caso, é o comportamento das pessoas frente às tradições.

As pessoas passaram a filtrar melhor as informações e refletir mais sobre as opções de vida, o que faz com que a tradição mude de status. As tradições não desaparecem totalmente, mas agora precisam se explicar, abrir-se às interrogações. A partir disso se dissemina no corpo social aquilo que Giddens conceitua como “política gerativa”, que é “intimamente ligada aos interesses da política de vida” e que reflete no despertar do espírito ativista das pessoas.

O contexto global em que se dá esse fenômeno é marcado pela “incerteza artificial”, outro conceito de Giddens. Em meio às constantes ameaças a que a humanidade está sujeita, os “ambientes de risco global”, destaca-se o “impacto do desenvolvimento social moderno sobre os ecossistemas mundiais”. O autor considera “provável que os recursos materiais necessários para manter a vida humana, e em especial o modo de vida das áreas industrializadas do mundo, estejam ameaçados a médio prazo”.

As ameaças ecológicas estão ligadas à “dimensão do industrialismo”. Como solução, Giddens aponta uma “economia de pós-escassez” – tornar excelente o uso dos recursos naturais – somada a uma “humanização da natureza”. No século XIX, a “relação entre os seres humanos e a natureza foi rompida e invertida. Em vez de nos preocuparmos, acima de tudo, com o que a natureza poderia fazer-nos, temos agora de nos preocupar com o que fizemos à natureza”, diz o autor.

Ambos, Castells e Giddens, defendem que essa nova configuração global de consciência ativa é reflexo da “era da informação”, que cria redes sociais e dá novas perspectivas de identidades às pessoas. A complexidade que envolve as mais variadas formas de manifestação política na contemporaneidade faz com que correntes políticas, uma vez tão distintas, passem a se confundir e a se misturar. Para bem entendê-las e situá-las, é preciso avaliar cada situação, dentro de cada contexto. Há elementos da direita e da esquerda presentes nas diferentes concepções e situações que o ambientalismo abarca.

O progressivismo característico dos movimentos sociais que emergiram na segunda metade do século XX – dentre eles os ambientalistas – é fator para que alguns situem o ambientalismo à esquerda. “No entanto”, observa Giddens, “embora os movimentos verdes tendam com frequência a situar-se na esquerda, não existe uma afinidade óbvia entre a ecologia radical e o pensamento esquerdista”. Há também quem aponte relações entre o conservadorismo e o ambientalismo, como Gray, a quem Giddens se refere na citação que segue:

“O pensamento conservador tem sido, de maneira geral, hostil à política verde, vista como ‘propaganda anticapitalista sob outra bandeira’. No entanto, sem estar ligada à esquerda, diz Gray, uma preocupação com a integridade da natureza está próxima aos temas conservadores.

Tanto a filosofia conservadora quanto a ecológica são caracterizadas por um ceticismo a respeito do progresso e uma crença de que o crescimento econômico em si é perigoso, ou até mesmo desastroso; pelo entendimento de que os vivos têm a responsabilidade de estabelecer perspectivas que relacionem as gerações mortas do passado com aquelas ainda por nascer; e pela convicção de que os indivíduos só podem se desenvolver dentro das formas comunais de vida. [...] Aceitar essas idéias, reconhece Gray, implica repensar as políticas e a filosofia conservadoras [...]“

O principal objetivo do ambientalismo é a conservação da natureza. Visto por esse lado, existem laços evidentes com o conservadorismo filosófico, que defende a tradição, a herança do passado. Mas a relação entre capitalismo e preservação do meio ambiente reforça a ideia do ambientalismo mais próximo da esquerda. “O capitalismo depende da interminável acumulação econômica; qualquer hesitação do crescimento econômico é interpretada como uma falha no sistema”, lembra Giddens, apoiado na teoria marxista. Visto que o industrialismo – ou seja, a busca do crescimento econômico desenfreado – é o principal responsável por ameaçar os ecossistemas, defender a preservação do meio ambiente, nesse sentido, é contrariar uma lógica que se atribui genericamente à direita.

Autores como Murray, Bookcin e Merchant dizem que o movimento ecológico resgata e aprofunda o radicalismo, através de uma nova ética da natureza e da transformação das pessoas. A política radical, simbolizada pelo vermelho devido à relação com os socialistas, muda de cor após o triunfo do capitalismo. Muitos autores da esquerda têm adotado o pensamento ecológico. A mudança de vermelho para verde representa um refúgio para o radicalismo refutado. Assim, a revolução socialista, não mais viável, deu lugar às utopias verdes.

Finalizo este artigo com mais Giddens, numa passagem que sintetiza perfeitamente o argumento de que o ambientalismo não obedece integralmente a determinada ideologia política. Mesmo reconhecendo que a esquerda é mais afim à causa ambiental, o sociólogo britânico conclui:

Seria mais exato ver as filosofias verdes como refletoras das mudanças na orientação política [...] Elas não são caracteristicamente nem da esquerda e nem da direita. Elas resistem ao progressivismo que sustenta ser possível mudar tudo para melhor; mas, ao mesmo tempo, defendem formas de radicalismo com implicações que estão muito além de qualquer coisa que possa ser desenvolvida nos modelos usuais de socialismo. Não decorre dessa observação que devamos aceitar a teoria política verde sem questionamentos; essa teoria é tanto uma expressão dos problemas políticos e sociais que enfrentamos atualmente quanto uma solução para eles. E, é claro, existem muitas versões da filosofia política verde, nem todas coerentes com as outras.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo


Coluna do dia: Juventude, política e internet – Seu candidato não está no Twitter!?

11/10/2009 em Tiago Franz | (8) Comentários

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Por Tiago Franz*

Sábado, tarde ensolarada em Santa Catarina (finalmente uma pausa nas tragédias provocadas pelas intempéries climáticas) e eu enfiado na rede. Sim, na rede mundial de computadores, a internet. Algumas horas mastigando e digerindo milhares de informações sobre política, como faço quase todos os dias. Dou uma olhada no Twitter e encontro algumas centenas de novas postagens dos meus following, a maior parte delas também sobre política.

O que será que os jovens da minha idade estão fazendo agora? Estarão conectados também?

Humm! O que temos aqui? O Twitter da Juventude Democratas de Santa Catarina! Mais um para minha lista de política. Vejamos o que está rolando na página desses meus conterrâneos…

juventudesc25 Confiram a programação do Encontro Nacional da Juventude Democrata. Participe ! http://bit.ly/X7Gpb

Vou dar uma olhada nessa programação. Um clique no link e…

“O II Encontro Nacional da Juventude Democratas, marcado para acontecer em Blumenau, dias 30 e 31 de outubro, 1º e 2 de novembro, buscará debater, à exaustão, a política jovem no Brasil e a força das novas idéias, repassando temas como Internet, imagem dos políticos e militância de oposição.”

Internet! É, a política tradicional acordou definitivamente para as redes digitais. Tem mais aqui…

“Apresentará nomes de peso entre palestrantes e participantes. Marcelo Tas, comandante do CQC, vem falar de Internet x Jovem x Twitter x Política.”

O Tas! Mas claro, o palestrante do momento! De volta ao Twitter…

juventudesc25 Siga o @twiticos e receba novidades do políticos que estão no twitter! Seu candidato não está no twitter? Então não vote nele! É medo de vc!”

Na sequência:

juventudesc25 RT @Quadros25 @juventudesc25 <<< sigam a força jovem de SC que vai levar o senador @RaimundoColombo ao governo do estado”

Mais…

juventudesc25 Marge Simpson posa para Playboy e lidar ranking TT do Twitter! http://bit.ly/39BhY2

Uatarréu?! Marge Simpson…?! …deixa pra lá. Acho que quiseram escrever “lidera” ao invés de “lidar”.

E vou mastigando:

O PT contratou o marqueteiro do Obama, especialista em internet, para auxiliar na campanha de Dilma Rousseff. A oposição também aposta e investe no potencial da rede. O Governador de São Paulo e provável candidato tucano à Presidência, José Serra, já reúne 112 mil seguidores no Twitter (@joseserra_).

O “Blog do Link”, hospedado no site do Estadão, já contabiliza, entre políticos e instituições políticas presentes no Twitter, 19 senadores, 63 deputados federais, 49 deputados estaduais, 95 vereadores, 2 governadores, 5 governos estaduais, 11 prefeitos, 18 prefeituras, 3 ministérios, 17 partidos políticos, etc, em uma lista de links que não para de crescer.

E continuo mastigando:

Internet, juventude… Pesquisas apontam que, de todo o planeta, os brasileiros, e em especial os jovens, são o público que mais tempo passa conectado à web. Será que isso pode aproximar os jovens da política? Será que teremos uma juventude mais consciente e participativa através da internet? É importante considerar que, apesar da grande expansão da internet no País, a maioria da população ainda não tem acesso à rede.

E será que, em meio ao oceano de conteúdo que é a web, onde a política e o jornalismo são apenas ilhas cercadas pela imensidão azul de entretenimento, a juventude engajada será capaz de conduzir seus barcos e conquistar mais jovens de forma consciente e responsável?

E vou digerindo:

Aprendi na faculdade de comunicação que a política e o entretenimento nunca estiveram tão juntos como atualmente e que dificilmente irão se separar. Foi desse encontro que nasceu e se estruturou o ativismo político dos últimos 50 anos, também chamado de ativismo midiático.

Independente da causa em questão, grande parte da comunicação política contemporânea segue a linguagem do espetáculo, como forma de guerrilha. A fórmula serve e é aplicada tanto para fins sociais relevantes como para qualquer outra coisa sem cabimento, por movimentos diversos e até por instituições como os partidos.

E se além do aspecto lúdico, da diversão, houver algo mai$… Opa! O próximo tweet…

juventudesc25 Participe do Desafio de vídeos da Juventude Democratas e corra o risco de ganhar R$4.000,00. http://www.desafiodevideos….

Vejamos o que é esse tal desafio de vídeos… Humm! A proposta até que é interessante: expressar o que se pensa sobre a democracia.

Mas nem todo engajamento é para o bem.

Recordo-me agora de dois casos envolvendo a juventude deste mesmo partido. Em municípios da região do Oeste Catarinense, a agremiação promoveu, há alguns meses, uma gincana e um torneio de futebol para filiar (leia-se arrebanhar) jovens.

Quem conseguisse filiar mais amigos ao partido, vencia a gincana. E para disputar o torneio de futebol era preciso ser filiado ao partido. Conheço duas pessoas que entraram nessa e se filiaram à sigla. Uma quis ajudar o amigo com a gincana e se arrependeu da filiação depois de alguns dias. A outra, feliz da vida, venceu o torneio de futebol e faturou uma grana com a premiação.

Eu aqui pensando sobre juventude, política e internet e vocês aí se perguntando: será que esse cara vai ficar pegando no pé do DEM? Não. Também acho péssimo o comportamento de grupos ditos de esquerda, como a União da Juventude Socialista (UJS), do PCdoB, que no comando da União Nacional dos Estudantes (UNE) deixa de representar os estudantes para se encostar ao governo Lula.

Além disso, vejo pontos positivos nas atuais atividades da Juventude do Democratas, apesar da notável imaturidade. A iniciativa de se aprofundar nas ferramentas da web para aproximar jovens da política é, sem dúvida, de grande importância. Com certeza há gente séria e bem intencionada entre os militantes. Pena que, paralelas às boas ideias e ações, há práticas ruins, que em nada melhoram nossa juventude e nossa política.

Quanto aos políticos internautas, fiquemos de olho. Eu, particularmente, acho ótimo poder ler em primeira mão o que meus representantes estão fazendo e pensando. Não duvido do potencial das redes sociais.

De volta ao Twitter… What are you doing?

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo


Coluna do dia: Reinventar a sociedade

14/06/2009 em Tiago Franz | (3) Comentários

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Por Tiago Franz*

Tão habituados estamos a comentar a esfera formal da política que acabamos deixando de lado iniciativas igualmente importantes de manifestação e organização social. Não acho possível, pelo menos por mais alguns séculos, que o Estado e suas instituições complementares sejam extintos, nem é isso que proponho. Entretanto, reconheço e valorizo diferentes práticas que grupos e indivíduos têm experimentado na contemporaneidade. Um propósito ativista germina em grandes centros urbanos, com causas diversas e um desejo comum: reinventar a vida em sociedade, corrigindo “erros históricos”.

Não se trata de radicalismo do tipo “hay gobierno? soy contra!”. Tampouco são grupos violentos. Alguns defendem, sim, que líderes e organizações são desnecessários. Porém, suas causas é que são a essência do que vivem. É mais um engajamento por algo em que acreditam, do que uma negação daquilo que não querem. Enfim, jovens estão fazendo política por outros meios que não os tradicionais.

Há, em São Paulo, e em outras grandes cidades do mundo, iniciativas de ativismo com estas características. Uma reportagem da Istoé Independente, de março, apresentou alguns exemplos. Denominações como “Veganos” (que defendem o não consumo de produtos de origem animal) e “Jardinagem de Guerrilha” (que executam ações de cultivo de plantas em locais públicos, sem autorização) são usadas por alguns dos grupos. Não sei dizer de onde se originaram tais nomes, se dos próprios ativistas, da imprensa ou de estudiosos. O Núcleo de Antropologia Urbana da USP realiza estudos com os ativistas de São Paulo.

A reportagem menciona ainda, entre os fatores de mobilização, a desigualdade enfrentada pelas mulheres e o caos do trânsito urbano. E, entre as características dos novos ativistas, destaca: “são engajados, mas não querem saber de partidos políticos”; “envolvem-se em causas humanitárias, sociais e ecológicas, mas acham que as organizações não governamentais (ONGs) estão fora da realidade”, “rejeitam líderes e, para se organizar, usam a internet, numa rede que os liga a grupos semelhantes na mesma cidade, ou outros países”.

Mas afinal, por que são importantes? Por que usei o termo “erros históricos”? Este ano assisti a uma palestra sobre desperdício e escassez de recursos naturais na produção de alimentos: indiscutivelmente, uma questão global. Ao final, um participante exclamou exaltado que gostaria que o desperdício continuasse, se outras espécies animais pudessem usufruir daquilo que o ser humano perde. O palestrante concluiu: “realmente, é uma realidade pensada por um viés totalmente antropocêntrico”. Pensar o uso da terra e dos recursos do planeta como inteiramente a serviço dos homens é uma realidade, e é um erro histórico.

Nesse sentido, mudanças profundas só são possíveis quando paradigmas são rompidos. Ao imaginarem e experimentarem uma nova relação do ser humano com as demais espécies animais, o que implica uma nova economia e outras transformações culturais marcantes, os ativistas ligados à causa fazem política à sua maneira. Assim, os grupos pela libertação animal, os próprios veganos, jardineiros de guerrilha e outros, tentam mostrar para a humanidade que é possível viver em um ambiente diferente.

Temos atualmente uma série de assuntos que perpassam a linha entre esquerda e direita. São os ditos politicamente corretos. Quem é que, hoje, não defenderia publicamente a igualdade entre os sexos e a proteção do meio ambiente? Bem, uma coisa é querer, outra é realizar. Sabemos como é e o quanto custa, para os meios tradicionais da política (governos, representantes, justiça, empresas, grupos de pressão e tudo mais), corrigir um erro histórico. Sabemos também que, nos últimos séculos, a humanidade conseguiu evoluir em muitos aspectos. Isso ocorre porque as pessoas mudam e a realidade está sempre em movimento. Pequenas mudanças, aqui ou ali, com o tempo, viram grandes transformações.

Algo se torna formal e aceito pela sociedade quando as pessoas materializam aquilo em que passam a acreditar. É por isso que o novo ativismo político-social, assim como as outras formas de manifestação e organização política, é tão importante.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo