Coluna do dia: O ambientalismo, a sociedade verde e os pensadores contemporâneos
Por Tiago Franz*
A questão ambiental veio à tona na década de 70 do século XX, impulsionada por movimentos políticos. Em 1971 surgiram, na América do Norte, o Greenpeace e o Friends of the Earth, duas das maiores organizações ambientalistas internacionais, ainda atuantes. No ano seguinte, na Austrália, foi fundado o primeiro Partido Verde, logo acompanhado por versões na Europa. Atualmente, o ambientalismo é um dos maiores – senão o maior – setores de atuação do ativismo político em âmbito global.
As ações e discursos políticos em torno do ambientalismo são amplamente diversificados. Não existe um único movimento ambientalista. São muitas iniciativas, que diferem no campo da prática e da concepção filosófica. Para Manuel Castells, em seu livro ‘A era da informação: o poder da identidade’, “é exatamente essa dissonância entre teoria e prática que caracteriza o ambientalismo como uma nova forma de movimento social descentralizado, multiforme, orientado à formação de redes e de alto grau de penetração”.
A nova experiência de relacionamento da humanidade com o ambiente natural, que Castells chama de “o verdejar do ser”, também é abordada por Anthony Giddens – ambos são autores europeus contemporâneos – no livro ‘Para além da esquerda e da direita’. Este cria uma série de conceitos para explicar os fenômenos sociais de nosso tempo. Entre eles, a “reflexividade social” e a “destradicionalização”, que tratam de características da globalização de um ponto de vista que não o econômico. O aspecto, neste caso, é o comportamento das pessoas frente às tradições.
As pessoas passaram a filtrar melhor as informações e refletir mais sobre as opções de vida, o que faz com que a tradição mude de status. As tradições não desaparecem totalmente, mas agora precisam se explicar, abrir-se às interrogações. A partir disso se dissemina no corpo social aquilo que Giddens conceitua como “política gerativa”, que é “intimamente ligada aos interesses da política de vida” e que reflete no despertar do espírito ativista das pessoas.
O contexto global em que se dá esse fenômeno é marcado pela “incerteza artificial”, outro conceito de Giddens. Em meio às constantes ameaças a que a humanidade está sujeita, os “ambientes de risco global”, destaca-se o “impacto do desenvolvimento social moderno sobre os ecossistemas mundiais”. O autor considera “provável que os recursos materiais necessários para manter a vida humana, e em especial o modo de vida das áreas industrializadas do mundo, estejam ameaçados a médio prazo”.
As ameaças ecológicas estão ligadas à “dimensão do industrialismo”. Como solução, Giddens aponta uma “economia de pós-escassez” – tornar excelente o uso dos recursos naturais – somada a uma “humanização da natureza”. No século XIX, a “relação entre os seres humanos e a natureza foi rompida e invertida. Em vez de nos preocuparmos, acima de tudo, com o que a natureza poderia fazer-nos, temos agora de nos preocupar com o que fizemos à natureza”, diz o autor.
Ambos, Castells e Giddens, defendem que essa nova configuração global de consciência ativa é reflexo da “era da informação”, que cria redes sociais e dá novas perspectivas de identidades às pessoas. A complexidade que envolve as mais variadas formas de manifestação política na contemporaneidade faz com que correntes políticas, uma vez tão distintas, passem a se confundir e a se misturar. Para bem entendê-las e situá-las, é preciso avaliar cada situação, dentro de cada contexto. Há elementos da direita e da esquerda presentes nas diferentes concepções e situações que o ambientalismo abarca.
O progressivismo característico dos movimentos sociais que emergiram na segunda metade do século XX – dentre eles os ambientalistas – é fator para que alguns situem o ambientalismo à esquerda. “No entanto”, observa Giddens, “embora os movimentos verdes tendam com frequência a situar-se na esquerda, não existe uma afinidade óbvia entre a ecologia radical e o pensamento esquerdista”. Há também quem aponte relações entre o conservadorismo e o ambientalismo, como Gray, a quem Giddens se refere na citação que segue:
“O pensamento conservador tem sido, de maneira geral, hostil à política verde, vista como ‘propaganda anticapitalista sob outra bandeira’. No entanto, sem estar ligada à esquerda, diz Gray, uma preocupação com a integridade da natureza está próxima aos temas conservadores.
Tanto a filosofia conservadora quanto a ecológica são caracterizadas por um ceticismo a respeito do progresso e uma crença de que o crescimento econômico em si é perigoso, ou até mesmo desastroso; pelo entendimento de que os vivos têm a responsabilidade de estabelecer perspectivas que relacionem as gerações mortas do passado com aquelas ainda por nascer; e pela convicção de que os indivíduos só podem se desenvolver dentro das formas comunais de vida. [...] Aceitar essas idéias, reconhece Gray, implica repensar as políticas e a filosofia conservadoras [...]“
O principal objetivo do ambientalismo é a conservação da natureza. Visto por esse lado, existem laços evidentes com o conservadorismo filosófico, que defende a tradição, a herança do passado. Mas a relação entre capitalismo e preservação do meio ambiente reforça a ideia do ambientalismo mais próximo da esquerda. “O capitalismo depende da interminável acumulação econômica; qualquer hesitação do crescimento econômico é interpretada como uma falha no sistema”, lembra Giddens, apoiado na teoria marxista. Visto que o industrialismo – ou seja, a busca do crescimento econômico desenfreado – é o principal responsável por ameaçar os ecossistemas, defender a preservação do meio ambiente, nesse sentido, é contrariar uma lógica que se atribui genericamente à direita.
Autores como Murray, Bookcin e Merchant dizem que o movimento ecológico resgata e aprofunda o radicalismo, através de uma nova ética da natureza e da transformação das pessoas. A política radical, simbolizada pelo vermelho devido à relação com os socialistas, muda de cor após o triunfo do capitalismo. Muitos autores da esquerda têm adotado o pensamento ecológico. A mudança de vermelho para verde representa um refúgio para o radicalismo refutado. Assim, a revolução socialista, não mais viável, deu lugar às utopias verdes.
Finalizo este artigo com mais Giddens, numa passagem que sintetiza perfeitamente o argumento de que o ambientalismo não obedece integralmente a determinada ideologia política. Mesmo reconhecendo que a esquerda é mais afim à causa ambiental, o sociólogo britânico conclui:
Seria mais exato ver as filosofias verdes como refletoras das mudanças na orientação política [...] Elas não são caracteristicamente nem da esquerda e nem da direita. Elas resistem ao progressivismo que sustenta ser possível mudar tudo para melhor; mas, ao mesmo tempo, defendem formas de radicalismo com implicações que estão muito além de qualquer coisa que possa ser desenvolvida nos modelos usuais de socialismo. Não decorre dessa observação que devamos aceitar a teoria política verde sem questionamentos; essa teoria é tanto uma expressão dos problemas políticos e sociais que enfrentamos atualmente quanto uma solução para eles. E, é claro, existem muitas versões da filosofia política verde, nem todas coerentes com as outras.
*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo














