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Má notícia: Nomes importantes deixam a política desiludidos com Legislativo inerte, custo de campanhas e escândalos

03/04/2010

Informa a Folha:

“Desilusão com a produtividade no Legislativo, o altíssimo custo das campanhas eleitorais, os financiamentos obscuros e o risco crescente de escândalos na classe política. Esses são os motivos alegados para que prestigiados senadores e deputados desistam de concorrer à reeleição este ano.

Com história política notável e alguns com votos mais do que suficientes para tentar novos mandatos, eles seguem a trilha aberta pelo ex-governador e atual presidenciável Ciro Gomes (PSB-CE) e dizem que não têm mais entusiasmo para continuar na vida parlamentar.

Na lista há nomes como os do líder do PPS na Câmara, Fernando Coruja (SC), do deputado mais votado do PSDB em 2006, Emanuel Fernandes (SP) e do secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo (SP).

Renovação no Congresso é normal, porque há uma dança de cadeiras entre os vários Executivos e Legislativos. Desta vez, porém, a questão não é de quantidade, mas de qualidade.

Levantamento feito pela Folha junto às lideranças partidárias aponta que cerca de 88% dos 513 deputados devem tentar a reeleição, com a expectativa de renovação de 50%, mas a bancada do ‘cansei’ abrange quase todos os partidos, espectros ideológicos e regiões.

Uns ainda se animam com a possibilidade de ocupar funções em campanhas à Presidência ou a governos estaduais e cavar cargos executivos, onde se consideram ‘mais úteis’. Outros pensam em simplesmente abandonar a política.”

Trata-se de um dos fenômenos mais perigosos da política brasileira atual. Embora isso não se dê em todos os casos concretos, essa situação traz muito do receio traduzido naquela velha máxima de que o silêncio dos bons é que assusta, e não necessariamente a atuação dos maus.

O Perspectiva tem como um de seus objetivos, justamente, o incentivo à participação política no que diz respeito aos jovens de bem. Como este que vos fala, repetindo Ruy Barbosa, afirma em seu perfil, que pode ser acessado na seção “Autor” através do menu acima, “se o Brasil for condenado, pelos meus representantes, a continuar a ser, diante do mundo, a fábula dos países miseráveis, risíveis e desprezíveis, não será porque eu não tenha exercido as minhas forças em bradar à nossa pátria”.

Urge que as pessoas bem-intencionadas passem a ver a política como um meio de atuação onde podem fazer a diferença. Estas não deixaram de existir e a proliferação de entidades beneficentes, organizações não-governamentais, instituições ambientalistas, movimentos sociais, associações de moradores, etc, íntegras e honestas são prova disso.

Não é possível que continue-se a enxergar o Parlamento brasileiro como um local engessado, impossibilitado de promover mudanças reais e para onde alguém se dirige em busca de um bom emprego e não para empreender as ações que traduzem um ideal, independetemente de qual seja este.

É temoroso para o futuro do País, para o nosso Estado Democrático de Direito e para o interesse público que a política, pelo menos no que tange o Legislativo, seja vista como um mero banco de negócios ou uma simples repartição pública de alocação de aliados.

Necessita-se o quanto antes de uma reforma político-eleitoral que modifique essa realidade. O Perspectiva faz a sua parte e você, leitor, deve também fazer a sua.

Um grande auxílio já terá sido dado por você se, antes de votar, refletir bem na escolha dos candidatos, eliminando aventureiros interessados em verbas e cargos, deixando de lado clientelistas e assistencialistas que visam lhe comprar com centros sociais e que muitas vezes inviabilizam propositadamente o bom funcionamento das instituições públicas que agem nos mesmos setores em que atuam e afastando a hipótese de apoiar candidatos envolvidos com o crime, com escândalos de corrupção e com nepotismo.

Em suma, é preciso que se entenda que, quando as pessoas de bem saem da política, constitui-se o primeiro passo para que outras pessoas de bem não se sintam em casa no Brasil.

Artigo do leitor: A crença no controle e o valor da liberdade

29/01/2010

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto que me foi enviado pelo leitor Marco Antonio Reis, que me orgulho em publicar por ser prova do alto nível dos leitores do meu Perspectiva Política:

A crença no controle e o valor da liberdade

Marco Antonio Reis*

O que há de mal em buscar segurança, ou, ao menos, a sensação de estar seguro? Aparentemente nada. Animais não caçam para garantir a própria sobrevivência e de sua prole? Assim também não opera o ser humano, que através do desenvolvimento de tecnologia logra dominar e transformar, em certa medida, os recursos naturais à disposição a fim de garantir uma vida mais “segura”? A rigor, o homem é uma criatura frágil, limitada e historicamente inserida em uma luta contra adversidades, sejam as suas ou as do meio. Contudo, uma asserção é inescapável: não foi um ente abstrato e dotado do monopólio pretensamente legítimo da violência que logrou tornar a vida dos homens mais fácil diante de tais obstáculos, senão os próprios homens que, envidando esforços conjuntos porém, determinados livremente por cada indivíduo –, conseguiram pouco a pouco ultrapassar os referidos desafios.

O cenário atual, sequioso de mais segurança e controle de adversidades muito mais complexas, e marcado por uma irrefletida confiança no poder das autoridades, parece vinculado a um nível mais profundo da experiência humana. E talvez esta seja a razão determinante para o recrudescimento da cultura do controle em detrimento da liberdade.

Se o ser humano possui uma natureza essencial, eu diria que ela consiste na ignorância. Podemos ser mais ou menos egoístas, mais ou menos solidários, mas somos definitivamente ignorantes, no sentido de que precisamos constantemente aprender algo, seja para sobrevivermos num ambiente de escassez de recursos, seja para aprendermos a respeitar as liberdades alheias. Ao ignorante, contudo, assusta a possibilidade de haver algo para além da escura caverna em que habita, e mesmo quando alguém obtém um átimo de luz, o impacto da razão não basta para desanuviar uma mentalidade mítica. Para que algo possa ser aprendido a liberdade é condição necessária, mas não suficiente.

Daí a possibilidade permanente do erro. Liberdade é a possibilidade de aprender, mas também possibilidade de errar. E ninguém gosta de errar. Ninguém gosta de ter de abandonar convicções convenientes e aventurar-se em um mundo livre e, por isso mesmo, suscetível ao erro. Considero que a compreensão deste ponto é indispensável, pois aquele que renuncia ao aprendizado também o faz em relação à liberdade. E quem não está disposto a usar da própria liberdade para aprender renuncia à responsabilidade de seus atos e entrega, conscientemente ou não, a decisão acerca dos rumos de sua vida a outro que se julgue no direito de escolher pelo renunciante. Quem age por si está sujeito ao erro, mas é um indivíduo livre; quem delega decisões, quer queira ou não, assume as responsabilidades, mas jamais os méritos do ato e, tampouco, a liberdade. A ignorância é a escassez interior que pode resultar na experiência do aprendizado (mesmo que por tentativa e erro), possibilitada pela liberdade; ou resultar no medo e no escapismo, possibilitados pela busca de segurança. Os exemplos são fartos.

Em busca de uma sociedade menos violenta e mais segura, o Estado brasileiro proibiu o comércio de armas, mas as mortes violentas por arma de fogo permanecem. O apelo por uma sociedade livre das drogas conduziu ao agravamento da resposta penal ao tráfico de drogas, mas não só as pessoas continuam a consumi-las como a violência ínsita a um aparato que procura sobreviver na ilegalidade não parou de fazer vítimas. Da mesma forma, a Lei Seca não foi capaz de deter as estatísticas que colocam o Brasil no quinto lugar das mortes no trânsito segundo a OMS, com destaque para as vítimas jovens.

Na tentativa de prover maior segurança aos trabalhadores, o Estado instituiu um programa de previdência social, mediante o pagamento forçado e periódico de quantias (ironicamente chamadas de contribuição) para, ao final, “garantir” uma aposentadoria muito aquém da remuneração recebida pelo trabalhador enquanto ainda ativo, bem como um déficit (preocupante, mas de modo algum surpreendente).

No nobre intuito de promover justiça “social” e prover maior segurança à população carente, o governo brasileiro arrecadou um trilhão de reais em 2009 em tributos. Os resultados sociais tão esperados pelo ideário igualitário-distributivo parecem, contudo, longe das expectativas social-democráticas, exceto pela política assistencialista e demagógica que só faz aumentar as chances de perpetuação do PT e demais partidos envolvidos no poder e expandir a economia informal às custas, mais uma vez, do “contribuinte”.

Enquanto expande artificialmente a base monetária da economia nacional por meio do Banco Central, controlador da taxa básica de juros (SELIC), sob o argumento falacioso de prover crédito e, com isso, maior segurança à economia, ao ritmo de consumo e à vida do cidadão, o Estado, em verdade, engendra um processo inflacionário imperceptível aos olhos do leigo, além de garantir uma ótima estrutura para a manutenção de seu déficit, causado, em última instância, pelo binômio ineficiência-corrupção.

A lista é interminável, entretanto, o ponto nodal e comum a todas essas experiências fracassadas é o seguinte: troca-se a falsa sensação de segurança (às vezes nem isso) pela progressiva intervenção governamental naquilo que o ser humano tem de mais precioso para aprender: a liberdade.

Mas todas essas experiências escondem um fato importante, a saber: a concessão da gestão e controle de nossos medos e inseguranças ao Estado. Uma entidade aparentemente abstrata e dotada de faculdades especiais para administrar tantos problemas. O dado concreto e realista, porém, é que o Estado não passa de um conjunto de outros seres humanos igualmente ignorantes e falíveis, conhecidos pela alcunha de “autoridade pública”. Como bem salientou Bastiat, não é incomum às veneráveis autoridades a sede pelo poder, uma imaginação afetada por devaneios napoleônicos de condicionamento, adestramento e, como epílogo perfeito, de salvação da humanidade (que nada mais é do que a espoliação do conceito de indivíduo ou pessoa).

Este misto de adoração, condicionamento milenar e renúncia à liberdade individual conduz, a meu ver, a um panorama angustiante: se o Estado arroga para si e com a anuência das pessoas obrigações – positivas de efetivar uma série de supostos direitos e de gerar o famigerado bem estar social, tal premissa leva a duas conclusões. A primeira é o fato de que tornamo-nos dependentes. Escolhemos permanecer vivendo numa fase pueril, em que as regras são ditadas pelo pai, pelo príncipe ou por qualquer outra autoridade “competente”. Para retomar uma idéia contida nos parágrafos iniciais: renunciamos à possibilidade de aprender e permanecemos ignorantes pelo medo de errar. Não há responsabilidade pelos fracassos ou méritos, mas em contrapartida haverá sempre a possibilidade de depositar nossas frustrações na conta do outro, o que nos leva ao segundo efeito: se o Estado é incapaz de realizar tais obrigações, a culpa é dele, Estado, o que só fomenta este círculo vicioso.

Com efeito, o que gera perplexidade não é a coleção de fracassos estatais, mas a crença das pessoas de que o Estado continua a ser a melhor alternativa. Historicamente, o povo brasileiro não costuma primar pelo associativismo e pela valorização das liberdades individuais. O brasileiro, via de regra, costuma ser pródigo em críticas e inconformismos quanto aos rumos do “país do futebol”. O mensalão, o apagão, a imoral e insuportável tributação, o voto obrigatório, os desvios de conduta de seus governantes parecem lhe alarmar por alguns poucos momentos, mas não passa disto. É só. É com pesar que faço tal constatação, mas o brasileiro é passivo e acomodado.

À conclusão semelhante chega, por exemplo, o excelente trabalho do antropólogo Roberto DaMatta, que perguntou aos entrevistados o que eles achavam do brasileiro que costumava cumprir as leis e tratar todos como iguais perante a lei. O resultado foi implacável: a maioria dos brasileiros reputam este brasileiro, alheio a privilégios e cumpridor de seus deveres, um “otário”, que provavelmente não possui uma rede forte de influências.

Este é outro ponto inolvidável que, quero crer, vincula-se à insistência no messianismo estatal e ao poderio que as doutrinas coletivistas possuem em terras tupiniquins. Não se ignora que o “jeitinho brasileiro” encerra uma manifestação cultural promotora do círculo de amizades e interesses em detrimento da igualdade perante a lei; que faz da autoridade e da coerção um manto sob o qual todo o tipo de interesse é negociável, não à base de liberdade de escolha, tratamento uniforme e livre competição, mas às custas do “contribuinte otário” que paga seus impostos e não pertence (e nem deseja pertencer, pelo caráter nefasto que revela tal comportamento) a um círculo de poder capaz de distribuir vantagens, renda e posição com recursos alheios.

Considero que este expediente também decorre do medo e da necessidade desenfreada por segurança do indivíduo. Estaríamos sendo injustos ao afirmar que o Estado é incapaz de gerar algum grau satisfatório de segurança e controle (pelo menos material). De fato, o Estado gera. Mas só para alguns poucos amigos do rei. Aos inimigos, a lei, como diz o ditado.

As características de um Estado intervencionista, sobretudo na economia, são um convite à constituição de um círculo promíscuo de interesses. Naturalmente, os seres humanos menos escrupulosos enxergam nesta circunstância uma chance única de enriquecer, conseguir prestígio e poder. No fim das contas, garantem a si mesmos a segurança de manter seus próprios interesses intactos e, o principal, a segurança de não serem importunados neste cenário. Como pontuava Edmund Burke, para que o mal triunfe, basta a omissão dos bons. Basta que os indivíduos escrupulosos, porém amedrontados e passivos, continuem a reclamar da ineficiência estatal da boca para fora, apenas. É para estes, sobretudo, que a mensagem libertária se faz imperiosa.

Estas e outras questões serão objeto de análise e crítica, não só por mim, nesta coluna libertária. Pareceu-me, todavia, promissor um roteiro que começasse pela premissa básica, da qual não posso me furtar, ainda que em poucas linhas: o valor da liberdade.

Liberdade é o agir livre de coerção externa. É a possibilidade de livre participação pessoal no mundo (do indivíduo em suas relações com os recursos naturais e demais seres humanos). Esta possibilidade de livre participação no mundo pressupõe o exercício ou disposição da propriedade que o ser humano tem sobre seu corpo e mente, e que encontra limite na possibilidade de o outro exercer ou dispor livremente dessa mesma propriedade.

Para que tal liberdade se exerça de modo compatível com as demais liberdades e possa valer como máxima universal é condição necessária a interiorização do valor da autonomia individual (a garantia de um núcleo inatacável e insuscetível de intervenções forçadas, a saber: a possibilidade de livre participação da pessoa no mundo por meio do exercício e disposição da propriedade de seu corpo e mente).

Ora, se é reconhecida à pessoa a possibilidade de livre disposição para estabelecer relações com o mundo em razão de uma autonomia moral individual, a noção de responsabilidade pela escolha dentre um rol de possibilidades é complementar ao fundamento aqui defendido. A partir do momento em que se pode estabelecer uma relação “X” com o mundo, a pessoa efetua uma escolha. Tal escolha pode ou não coincidir com a escolha necessária para que um certo âmbito inatacável de autonomia individual de outras pessoas seja respeitado. Este núcleo de autonomia individual é um imperativo categórico, na medida em que manifesta uma exigência incondicional de respeito, e sua razão de ser é possibilitar às pessoas uma coexistência livre e responsável. Todo desrespeito a este núcleo, exige, pois, uma atribuição de responsabilidades, sob pena de se quebrar o universo equilibrado de possibilidades de livre disposição das relações individuais.

Em síntese, compreendida a liberdade como esta possibilidade de livre exercício da propriedade que o ser possui sobre seu corpo e mente, é evidente que quando se fala em liberdade, também se fala em liberdade para errar. Liberdade para escolher possibilidades que podem ou não se demonstrar corretas. Seja a realização de um investimento inviável, seja o dedicar tempo e trabalho a uma atividade que no futuro se mostra infecunda ou seja a liberdade para se aproximar de outros indivíduos e com eles se decepcionar. Liberdade é, pois, possibilidade lastreada pela atribuição de responsabilidade. Possibilidade de livre participação pessoal no mundo e responsabilização pelas consequências dessa participação.

De cada qual conforme sua escolha, e jamais à força violar a possibilidade de escolha alheia. De cada qual conforme seus erros, para que também o mérito do aprendizado seja verdadeiro.A cada qual conforme seja escolhido, jamais pela força, mas à luz da liberdade alheia. A cada qual conforme seus feitos, e feliz da liberdade que não cede em face do medo.

*Marco Antonio Reis é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog

Coluna do dia: Natal e ações políticas “solidárias”

20/12/2009

Por Jessica Riegg*


Época de Natal… Corações abertos!

Não são “curiosas” tantas manifestações de amor e carinho em direção aos menos favorecidos no mês de dezembro?

Acho muito comovente a forma com que alguns políticos se tornam amáveis e solidários. Alguns vereadores, prefeitos e até presidentes ajudam crianças doando roupas, brinquedos e até comida.

Contudo, eu fico me perguntando a todo momento se aquela ação não deveria ser desenvolvida durante o ano inteiro… Se as crianças não precisam de roupas e comida durante o ano… Se os pobres não esperam mais dos seus governantes…

As respostas que obti para minhas indagações foram simples: tanto políticos quanto a população esquecem tudo de ruim nessa época (falta de atenção, projetos caros, e superfaturados demora em projetos necessários, mensalão e coisas do tipo). Homens públicos se tornam “solidários” de repente (e começam a doar e ajudar). Os pobres se espantam com tamanho carinho e começam a ver com bons olhos aqueles homens “tão sinceros”.

Claro que existem projetos natalinos verdadeiros financiados pelos homens do poder público, mas estes são raros e cabe a nós indentificá-los. Cabe a nós verificar o que vem por trás das boas intenções e dos presentinhos. Cabe aos eleitores perceber quem gosta de ajudar e quem ajuda por obrigação e/ou interesse.

Nós, o povo, precisamos diferenciar as ações e saber se aqueles homens agem daquela maneira para estarem na mídia, ou se são assim com a própria família. Porque um homem de verdade, de caráter, trata sua família como ouro, e isso se reflete em todas as suas outras relações.

*Jessica Riegg é colunista do Perspectiva aos domingos e escreve diariamente no Twitter em @jessicariegg

Coluna do dia: Escândalo no DF – Aquilo que é invisível para os olhos

06/12/2009

Por Matheus Passos*

“Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível para os olhos.” Acredito que todos os leitores já tenham lido esta frase, ou já a tenham ouvido em algum momento de suas vidas. Da mesma forma, acredito que todos saibam de onde a frase vem: do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, um dos livros mais traduzidos no mundo.

Estranho, não é mesmo? Estranho começar uma coluna sobre política com algo tão poético quanto “O Pequeno Príncipe” – embora saibamos que tal livro não é um mero “livro para crianças”: possui conteúdo filosófico que serve para as “crianças de todas as idades”. Mas o objetivo da coluna não é falar da filosofia de “O Pequeno Príncipe”. O objetivo é levantar dois questionamentos a respeito de um fato que ocorre aqui “ao lado de casa”, há exatos 25,3 km de onde moro, segundo o Google Maps: a corrupção na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Antes de começar, quero deixar claro que não sou favorável a absolutamente nenhum tipo de corrupção. Apropriando-me das ideias de meu colega colunista Yashá Gallazzi, não me importa se o corrupto é de esquerda, de direita, de centro, de cima ou de baixo: corrupto bom é corrupto na cadeia, pagando pelos erros cometidos.

Feita tal ressalva, surge a primeira pergunta: notaram que quem lançou tudo “no ventilador” foi Durval Barbosa, uma das pessoas mais próximas de Joaquim Roriz? Quem mora no DF sabe a aura de “salvador da pátria” que Roriz tem por aqui. Quem mora no DF sabe que há uns 15 anos (talvez mais) a política local é plebiscitária – muito mais do que tem sido em âmbito nacional –, oscilando entre Roriz e seus aliados de um lado e o PT e seus aliados de outro. E quem mora no DF sabe que Roriz não quer largar o osso de jeito nenhum, tanto que saiu do PMDB e se filiou a um partido pequeno objetivando voltar nas eleições do próximo ano, com grandes chances de ser eleito – porque foi ele que fez a população do DF aumentar em mais ou menos um milhão de habitantes em 10 anos, graças à sua política de distribuição de lotes.

Que coincidência, não é mesmo? Justamente aquele que é um dos principais “braços-direito” de Joaquim Roriz resolve, há menos de um ano das eleições, abrir o bico a respeito de algo que teria acontecido antes mesmo da eleição de Arruda – portanto, ainda durante o mandato de Roriz.

Durval Barbosa resolveu falar no momento em que Arruda tinha índices de popularidade razoáveis, que, se não lhe garantiriam a reeleição no ano que vem, com certeza o colocava como um dos principais candidatos, ao lado de Roriz – com boas chances de vencer o mesmo.

Durval Barbosa resolveu falar no momento em que Arruda, se expulso do DEM, não poderá concorrer no ano que vem, por faltar menos de um ano para as eleições e não haver mais tempo hábil para a filiação a um novo partido.

Em suma: Durval Barbosa falou no momento exato de tirar Arruda da competição eleitoral do ano que vem, pavimentando o caminho para que Roriz vença – pois quem mora no DF sabe que no momento o PT não possui nenhum nome suficientemente forte por aqui para competir com Roriz (o deputado Geraldo Magela que o diga), e que o único que se encontrava no caminho do retorno de Roriz era Arruda.

O segundo questionamento também é simples: quem fez a investigação? A Polícia Federal, é claro. Que é comandada pelo governo federal, ou seja, pelo PT – cujo partido opositor é, dentre outros, o DEM. Que, por sua vez, vinha fazendo, ultimamente, uma forte campanha oposicionista ao governo federal, até mesmo com o lançamento – ainda que tímido, mas já uma evolução em relação à política brasileira – de propostas alternativas ao que o governo vem fazendo.

Claro está, neste caso, que o governo federal quis dar uma pequena mostra de sua força ao DEM, atacando o único governador que este partido possui – e que, como já falado, teria grandes chances de reeleição no próximo ano.

O governo federal quis dar uma pequena mostra de sua força ao DEM, atacando o único governador que este partido possui – e que vinha fazendo uma boa política de boa vizinhança com o governador de Goiás e o de Minas Gerais, no que diz respeito a políticas públicas para o Entorno do DF.

O governo federal quis dar uma pequena mostra de sua força ao DEM, atacando o único governador que este partido possui – bem como sua base aliada na Câmara Legislativa do Distrito Federal, cuja maioria apóia o governo de Arruda.

Em suma: o governo federal atacou na hora exata, no sentido de enfraquecer o único governador que o DEM – partido que vinha ultimamente cutucando demais o governo – possui.

Para terminar esta coluna, deixo um terceiro questionamento: em algum momento a grande mídia apresentou tais ideias ao público? Em algum momento a Rede Globo explicou as relações existentes entre DEM e PT? Em algum momento a Rede Globo falou a respeito da força que Roriz tem no DF, força esta fundamentada no mais retrógrado populismo-assistencialismo possível? Corrijam-me se eu estiver enganado, mas tais ideias, em nenhum momento, foram apresentadas claramente ao grande público. Mostraram-se apenas as imagens que chamam a atenção e causam indignação a qualquer um, em qualquer lugar do mundo: políticos recebendo dinheiro vivo. Mas nada, nenhuma análise a respeito das motivações da divulgação destas imagens. Nada, nenhuma palavra a respeito da vinculação de tais fatos às eleições do próximo ano. Nada, nenhuma palavra a respeito das motivações do governo federal.

É como diria Saint-Exupéry: “o essencial é invisível para os olhos”.

*Matheus Passos, escrevendo excepcionalmente em um domingo, é colunista do Perspectiva Política aos sábados, cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr.

Coluna do dia: Eleições em Honduras – O Brasil parece querer o juízo final

30/11/2009

Por Arthurius Maximus*

A política externa brasileira vem sendo criticada por mim, e por inúmeros outros articulistas, faz tempo. Subserviência a Chávez, apoio a toda sorte de ditadores e genocidas africanos, esmolas em profusão para nossos vizinhos que, ao invés de trabalharem pela melhora de seus países, ficam chafurdados no velho discurso de que a culpa de sua pobreza é do “Imperialismo Tupiniquim” e não de seus governos preguiçosos e de uma população acostumada ao populismo e ao assistencialismo.

A posição do Brasil frente às eleições hondurenhas deste domingo é mais um ponto de vergonha na política externa do governo Lula. A canhestra operação de acobertamento envolvendo a tomada da embaixada brasileira em Tegucigalpa pelas “legiões” de Zelaya e a sua transformação em palanque político (contra todas as leis internacionais) pelo velho caudilho hondurenho, não foram suficientemente capazes de fazer ver a Lula e ao Itamaraty a burrada em que o Brasil se meteu.

Além de abdicar do importante papel de mediador e de agente da normalidade política, aumentando o seu poder de influência na região e levando uma imagem de país preparado para lidar com crises além da sua própria fronteira, o Brasil, embalado pela subserviência a Chávez, tomou o pior partido possível e acabou se prestando ao papel de marionete de Zelaya e do venezuelano.

Honduras vivia a quase normalidade política e todas as partes compactuaram com um acordo firmado pelo Presidente da Costa Rica, que reconduziria o país para a normalidade democrática. Mas o retorno de Zelaya ao país e o seu abrigo em nossa embaixada serviram para lançar a nação hondurenha à beira de uma guerra civil e da instabilidade institucional. Tudo porque o Brasil deixou que Zelaya acessasse rádios, canais de televisão e a imprensa internacional através da nossa embaixada e conclamasse os seus seguidores a se revoltarem.

Como sempre vimos nas transmissões ao vivo, as passeatas sempre eram de poucas centenas de pessoas. Contudo, a balbúrdia e a insegurança criadas por elas levaram o país para a beira de um colapso social e de uma luta fratricida.

Como ficou claro depois, Zelaya nunca quis negociar. Seu intuito era mesmo criar confusão e ser reconduzido “nos braços do povo” para o palácio presidencial (do qual foi retirado legalmente ao violar a Constituição de Honduras). Ao perceber que isso não aconteceria, pelo simples fato de que a maioria da população de seu país estava contra ele, a única alternativa era impedir as eleições. Com a ajuda do Brasil, Zelaya e Chávez tentaram de tudo. Mas, com o apoio dos EUA e de quase toda a comunidade das Américas para a realização das eleições e o reconhecimento de que isso encerrava a crise de uma vez por todas, Zelaya viu a sua posição esvaziar-se e até os membros de seu próprio partido participaram das eleições.

O resultado não pode ser mais expressivo do pensamento do povo hondurenho: Tanto o partido de Zelaya quanto o de Micheletti foram derrotados nas eleições. Isso demonstra claramente que o povo hondurenho está farto do populista de chapéu de vaqueiro e do incompetente que não soube explicar à comunidade internacional o acontecido.

As eleições colocaram um fim nessa longa pantomima mal interpretada e cheia de atores de terceira categoria. Mas, insatisfeito com seu papel ridículo, o Brasil se uniu às “forças do avanço” (Venezuela e Equador) e se recusará a reconhecer o vencedor das eleições hondurenhas como Presidente eleito legítimo.

O que querem o Itamaraty e o governo Lula? Um banho de sangue? A convulsão social em Honduras? Uma guerra civil?

Tudo isso para satisfazer Hugo Chávez e um obscuro caudilho centro-americano que só nos deu dores de cabeça. Além disso, ao invés de reduzir os danos, ao ser derrotado miseravelmente em seu apoio a Zelaya, o Brasil assumirá a posição equivocada de esperar que Papai Noel restitua o poder a ele.

O mais estranho é que Zelaya, ao ter sua proposta de negociação submetida à Suprema Corte Hondurenha, ainda foi condenado por traição. Portanto, se deixar a embaixada brasileira, ao invés do palácio presidencial, vai para a cadeia.

E o Brasil corre o risco de ficar com o “mico internacional” do ano ao apoiar a realização do Juízo Final e de uma guerra civil como única forma viável para reempossar um Presidente que desejava “apenas” eternizar-se no poder e violar a sua própria Constituição.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Marina define bem declaração de Lula: “Foi uma metáfora infeliz”

23/10/2009

Como informou o Perspectiva Política recentemente, o Presidente Lula declarou que, dado o espectro político que temos, hoje, no Brasil, poderia-se dizer quese Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão“.

A repercussão desta declaração do Presidente não foi das melhores. Aliás, foi, na realidade, das piores. A Igreja Católica protestou, dizendo que Jesus não se uniu aos fariseus, senadores como Cristovam Buarque alegaram que Jesus poderia perdoar Judas, mas não fazer acordos com ele, e diversos outros atores políticos comentaram, com críticas, a fala de Lula.

Na minha modesta opinião, o Presidente não fez por mal, não quis ofender, não calculou bem as palavras, simplesmente. Contudo, com certeza, merece as críticas, afinal, o Presidente da República não pode se dar ao luxo de declarar o que quiser, principalmente se estiver construindo metáforas que incluem personagens ligados a temas polêmicos, como Jesus e Judas.

Talvez na ânsia de declarar mais uma metáfora supostamente espirituosa, o Presidente se complicou e disse o que não devia. Mas, para mim, a metáfora não é o maior problema.

A questão, na visão deste humilde blogueiro, é o conformismo tácito que a metáfora traz. Se até Jesus se aliaria a Judas na visão de Lula, isso quer dizer que ele já incorporou a prática política conchavada e de rabos presos, cuja esperança de eliminação fora, justamente, uma das razões de sua vitória em 2002.

Dizendo o que disse, o Presidente demonstra que se rendeu ao clientelismo, ao patrimonialismo, ao assistencialismo, às oligarquias, enfim, ao jogo político espúrio das “raposas”.

Sob a justificativa da “governabilidade”, Lula parece entender que não ter rompido com aquilo que, por conta do repúdio que causa, proporcionou sua própria eleição, através dos votos dos que queriam a mudança destas práticas,  é justificável. Vale lembrar que “mudança” era, justamente, o lema de Lula.

Sobre a essência da metáfora, vale dizer que se Lula afirmava, quando venceu a eleição, que “a esperança venceu o medo”, seria interessante perceber que esta esperança é exatamente a abandonada quando ele compactua com o que há de mais nocivo na política nacional, tenta justificar esta atitude e, pior, vê isso como inevitável, com uma pitada de conformismo e nenhuma frustração aparente.

Sobre a metáfora em si, o comentário da ex-Ministra Marina Silva é perfeito:

“Nem todas as metáforas são felizes e essa é uma metáfora infeliz. “

Em tempo: Na política nacional existem diversos Judas. Muitos poderiam vestir essa carapuça. Mas em quem será que Lula pensou ao lembrar do traidor Iscariotes?

Coluna do dia: Existem argumentos contra o Rio 2016

06/10/2009

Por Raphael Machado Silva*

Como é engraçado quando se tem uma opinião da qual ninguém compartilha, ou mesmo que ninguém compreende. É nesses momentos que se percebe que, no fundo, toda comunicação completa entre pessoas é impossível, e que isso só não é perceptível quando parece (apenas parece) que duas ou mais pessoas estão a falar da mesma coisa, nos mesmos termos, a partir de um mesmo ponto de vista. Mais engraçado ainda, é poder assistir sentado a toda a pantomima popular. É como estar em um sonho, sabendo-se estar em um pesadelo. Quão previsível é a massa! Pulam e urram como homens da caverna. E quem poderá me dizer o porquê?! Trata-se dp seguinte: “As Olimpíadas vão ser no Rio!!!”

O Estado e a Mídia aprenderam muito bem que entretenimento e esportes constituem ópio melhor do que qualquer religião poderia pretender ser. Estão estampandos na face das pessoas os seus efeitos. Pessoas eufóricas, chorando e babando, por causa de um evento em um futuro distante, cujo nome elas mal conseguem pronunciar direito. Assustador. Lembro-me, aliás, de minhas leituras sobre as experiências soviéticas de psicologia social baseadas nos trabalhos do Dr. Pavlov. Parece que a maioria das pessoas já está condicionada a agir de certa forma diante de certos estímulos específicos como o grito “BRASIL!!!”

Como algumas pessoas têm a (in)capacidade de confundir essas reações animalescas e instintivas, esse patrioteirismo orgiástico de arena esportiva, com algum ardor nacionalista autêntico? Serão assim as coisas porque o Brasil, como País de segunda, só se permite esse tipo de sentimento em pantomimas e tragicomédias?

Eis que, das profundezas dos cofres públicos, surgem (e surgirão ainda mais) infindáveis recursos, cuja destinação será realizar um projeto olímpico megalomaníaco. Recursos esses que, para realizar investimentos em áreas as quais o Estado prometeu tutelar, simplesmente inexistiam. Tanto que somos subjugados por impostos cada vez mais pesados, exatamente para podermos financiar projetos assistencialistas, muitas vezes inúteis e irracionais, visando setores da população que acabam, por vezes, se tornando indolentes.

E será mesmo que esse projeto megalomaníaco (digno de um Nero) ficará pronto no devido tempo? Ora! Se até mesmo nas Olimpíadas realizadas em países mais desenvolvidos há atrasos e complicações! Isso aqui é o Brasil! Nem uma simples obra de piscina na minha casa de praia os pedreiros conseguem terminar, quanto mais um projeto desses, cujas obras, todos sabem, ficarão abandonadas às moscas após o término dos eventos. Afinal, não foi isso que aconteceu com as instalações olímpicas em Pequim e Atenas?

E quanta contradição o Rio de Janeiro oferece em relação ao Espírito Olímpico! Difícil seria encontrar uma cidade mais anti-olímpica do que esta. Talvez apenas Los Angeles. Temos o Império do poder paralelo e um dos focos da prostituição internacional.

A vitória do Rio de Janeiro é a vitória do “jeitinho”, da malandragem, da animalidade disfarçada em trajes humanos. Nenhuma honra, nenhuma altivez, nenhuma dureza. Como um lugar que não possui nada de Olímpico poderia ser digno de sediar uma Olimpíada, evento esse que em sua aurora estava transposto em uma dignidade religiosa para os gregos?

Será que não se reconhece que as prioridades são outras?

Terão os votos favoráveis dados ao Brasil sido dados por velhotes apenas por conta de lembranças inesquecíveis de momentos de lazer passados no País? Isso só os caducos anciãos do COI poderiam revelar.

E o que esperar da “festa de abertura”? Momento em que o País é apresentado ao mundo, como magistralmente feito por todas as sedes pretéritas, com destaque para Atenas.

Sinto-me envergonhado de antemão. Não necessariamente pela história do Brasil, mas pelo que creio venha a ser apresentado. E não me refiro às gloriosas conquistas de portugueses e bandeirantes!

Falo das mazelas, algo que talvez muitos não saibam, já que brasileiros de inúmeras regiões se curvam diante da “imagem sagrada” do Rio de Janeiro, que o Estado e nossa Mídia, que simplesmente odeiam e desprezam a maior parte do Brasil, teimam em construir.

É simples assim. Constrói-se há décadas uma imagem absolutamente falsa do que seria o Brasil, que simplesmente ignora a contribuição de milhões de brasileiros.

O Brasil que será apresentado na “abertura” das Olimpíadas será o mesmo que é apresentado constantemente a estrangeiros, falsamente representando um “todo” do Brasil: Uma soma do pior do Rio de Janeiro com a Bahia.

O Brasil que o mundo verá será um festival de batucada em tambores. Já prevejo uma mega-apresentação coreografada do Olodum. Inclusive com o mesmo improvisando batidas de funk, ritmo o qual se tornou representativo do Rio, a despeito de vários outros ritmos que surgiram ou se desenvolveram na cidade.

E o resto do Brasil? Este simplesmente não existe? Quão representados estarão os estados do Sul? E Minas Gerais? E Goiás? Para quem não sabe, o Sul, por exemplo, é alvo dos ódios mais rancorosos de setores do Estado e da Mídia brasileiros. Talvez porque seja a região mais afastada da imagem de Brasil considerada a “ideal” por nossos tiranos. Quão bem será representada a cultura sulista?

Comemoramos enquanto o Rio de Janeiro vive suas mazelas, cresce o receio dos desvios de verbas e o Estado brasileiro pinta um quadro fictício no exterior, além de ignorar as culturas de outras partes do País.

Enfim, que fique só isso como dito, porque o não dito e entalado na garganta é ainda mais amargo.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Lula chama críticos do Bolsa Família de imbecis e ignorantes

02/08/2009

Informa o jornal O Globo:

” No mesmo dia em que foi anunciado o reajuste de até 10% do benefício do Bolsa Família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta sexta-feira os que dizem que o principal programa social do seu governo é eleitoreiro e assistencialista. Lula chamou os críticos de ignorantes e imbecis.

- Tem gente tão imbecil, tão ignorante que ainda fala: ‘O bolsa-família deixa as pessoas preguiçosas porque quem recebe bolsa família não quer mais trabalhar’. A ignorância é de tal magnitude que as pessoas pensam que um ser humano vai ganhar R$ 85 e vai deixar de ter perspectiva de ganhar os R$ 616 que a Mônica vai ganhar tendo um trabalho decente – disse o presidente, referindo-se a uma das formandas durante cerimônia do Planseq (programa de qualificação dos beneficiários do Bolsa Família) em Belo Horizonte. “

Presidente, o seu raciocínio pode até ser correto. Embora o Bolsa Família careça fortemente de uma porta de saída eficaz, não podemos também afirmar categoricamente que o Programa gera indolência endêmica.

Porém, qual é a necessidade de o senhor utilizar termos como “imbecil” e “ignorante”? Isso só comprova, mais uma vez, a sua falta de compostura Presidente. O senhor se comporta, talvez por achar que assim será mais popular, de forma que não condiz, nem de longe, com a posição que o senhor ocupa.

Depois de episódios como o da “diarréia” e o do “sifu”, são totalmente desnecessárias novas faltas de compostura, Presidente. O que o senhor acharia se algum membro da oposição, por exemplo, dissesse que o senhor, ao defender o Bolsa Família, foi “imbecil” e “ignorante”? Não seria uma falta de respeito? Pois então…

Se o seu raciocício de que o Bolsa Família não gera preguiça já é questionável, já que as estatísticas mostram que esta está, sim, aumentando de forma sensível, e que as portas de saída são ineficazes, precisando urgentemente serem reformuladas, que dirá o seu tom.

Eu não sou crítico feroz do Bolsa Família, Presidente. Mas se o fosse, não gostaria nada de ser chamado, pelo meu próprio Presidente da República, de “imbecil” e “ignorante” por um simples posicionamento político.

“Imbecil” talvez seja quem pensa que se pode falar o que quiser na vida.

Pergunta de um leitor, resposta do blogueiro: O que fazer para melhorar a política nacional?

30/06/2009

Pergunta para este blogueiro que vos escreve, em comentário feito aqui no blog, o leitor que se assina Eziquiel de Souza Silva:

“Prezado blogueiro, preciso da sua contribuição editorial, estou num momento de intensa revolta como cidadão, sou paulistano, acabei de fazer uma viagem ao Maranhão, e a conclusão é que tenho o dever de botar a boca no trombone, espernear, berrar, não podemos permitir que o clã dos Sarney simplesmente tome conta do nosso país, por favor, nos dê uma luz, qual bandeira nós mortais da classe média (baixa) podemos empunhar para barrar tudo isto que está acontecendo em Brasilia?????”

Primeiramente, eu gostaria de dizer que fico muito lisonjeado de saber que este leitor vê no Perspectiva, blog que é escrito com tanto esmero por mim todos os dias, um meio que pode lhe ajudar a encontrar um norte, um caminho a seguir, uma batalha a lutar, no que tange a melhoria e moralização da política nacional. Que grande motivo de orgulho é saber que hoje, menos de um ano depois da criação do Perspectiva, um leitor recorre a mim para orientá-lo.

Dito isso, responderei a você, Eziquiel, com uma resposta que vale para todos os leitores deste blog, sem exceção:

A bandeira que deve ser erguida é a da indignação, a do protesto, a da vontade de mudar. Mas isso, com certeza, não é novidade. É a outro ponto que temos que nos ater.

O principal é saber como e onde focar esta indignação, este protesto. Afirmo a você que o alvo a ser escolhido não deveria ser José Sarney. Não por ele não merecer, ao contrário, mas sim, por ele estar longe, muito longe, de ser o mal maior do nosso Brasil.

O nosso mal maior, meu amigo Eziquiel, é nossa cultura política. Sim, a culpa é nossa. É claro que quando digo nossa, quero dizer que os brasileiros são os culpados e não, necessariamente, que eu ou você tenhamos contribuído para a construção dessa situação que dá desesperança e desespero.

É o brasileiro comum de hoje que será político amanhã. É o brasileiro que critica o político mas que, em seu lugar, faria as mesmas falcatruas que é o culpado. É o brasileiro que elege os mesmos ladrões eleição após eleição que deve colocar a mão na consciência.

Muitos dirão: Mas os brasileiros têm, muitas vezes, vida precária. Dependem de assistencialismos baratos, dependem de pratos de comida, dependem das práticas que perpetuam as ervas daninhas no poder.

Sim, é verdade. Mas cabe a aqueles que não se encontram nessa situação, e que são muitos também, não quererem levar vantagem, não quererem a vaga no emprego público para o parente que é indicado politicamente, não quererem a mutreta para se livrar de tarifas, não quererem reclamar de quando os outros fazem o mesmo que eles fizeram, não quererem, por fim, se valer de “pistolão”.

Parece lugar-comum mas a resposta é a mesma de sempre: Voto consciente e educação. Só isso transforma.

É com o voto consciente dos que têm possibilidades de ter consciência que será possível moralizar uma grande parte da política. No momento que tivermos a maioria da política regida pela ética, e não o contrário, poderemos esperar que a moralização se intensifique em um ciclo.

Uma vez moralizada a política, será a educação de qualidade para todos os brasileiros, aquela que não é dada hoje pois a ética não rege o poder e os que o ocupam não gostam da ideia de eleitores mais informados, que dará a eles consciência social e política, além de cidadania.

São esse atributos que impedirão, provavelmente, que a calamidade da política do conchavo, do empreguismo, do loteamento de cargos, das oligarquias e dos sarneys, que são inúmeros, continue.

Nada de “fora Sarney” meu caro Eziquiel. “Fora brasileiro que é imoral nas pequenas atitudes” é que deveria ser o grito das ruas.

O que podemos fazer, então, é votar direito e incentivar outros a fazerem o mesmo. Façamos isso com nossos pais, avós, filhos, irmãos, primos, sobrinhos, amigos, vizinhos e, principalmente, com os mais necessitados, como a empregada doméstica, o inspetor do colégio, o cobrador do ônibus e o camelô da esquina.

O conformismo nesse caso é nocivo. É terrível pensar que nada irá mudar. E se nós mesmos praticarmos o errado, mudemos.

Tudo pode mudar, Eziquiel. Tudo. Inclusive o brasileiro que pede a renúncia do Presidente do Senado, mas é, em sua vida privada, um mini-Sarney.

Eu acredito nisso. O Perspectiva Política é filho dessa crença.

Lula diz que prefere dar dinheiro à população a desonerar impostos

25/06/2009

“Lula diz que prefere dar dinheiro à população a desonerar impostos”

Reconheço que o aumento do poder aquisitivo dos brasileiros mais pobres, seja ele obtido da maneira que for, auxilia, e muito, a “girar” a economia nacional. Admito, também, que algumas desonerações dificilmente chegam ao bolso do cidadão brasileiro.

Dito isso, darei-me o direito de, apesar destes fatos, discordar do Presidente. Explico o porquê dessa discordância de forma sucinta:

1- Não é assumindo que as desonerações acabam não chegando ao bolso do brasileiro, admitindo assim a incompentência governamental em fiscalizar os repasses das desonerações que devem ser feitos pelas empresas, e trocando a diminuição de tributos por programas assistenciais que se constrói um País desenvolvido e coerente.

2- A desoneração, se chegasse ao bolso de todos os brasileiros por força da fiscalização governamental, que hoje é falha e não pune nem mesmo a falta de repasses de desonerações da Petrobras, atingiria toda a população e, não só, as camadas mais pobres. Não é porque os pobres são mais necessitados que a classe média não merece usufruir de desonerações. Diminuam-se os tributos e usufruam todos.

3- Fica claro que “dar dinheiro à população” não é a melhor medida, sendo, na realidade, a alternativa mais fácil, que dá menos trabalho para a administração e que faz parecer que a fiscalização laboriosa não está em falta.

4- A desoneração, se for feita corretamente e no momento econômico apropriado, pode fazer com que a população se veja sem o peso de alguns tributos ou de parte de alguns tributos durante anos, enquanto “dar dinheiro à população” é sempre paliativo e essencialmente transitório. Se não for o caso, assume-se que o projeto é assistencialista, nocivo ao desenvolvimento de toda a nação, e não, assistencial.

5- A desoneração é pulverizada e não dá fama ao político. O programa assistencialista é, também, personalista.

Resumindo: Os programas sociais do governo Lula são razoáveis e devem, sim, ser mantidos.

Porém, não se deve nunca entender que a existência deles faz com que as desonerações sejam desnecessárias. Esse entendimento é torto. A diminuição dos preços pode, muito bem, ser uma alternativa para obter o aumento do poder aquisitivo. Basta vontade política de fiscalizar o setor privado.

Na verdade, fica a sensação de que uma pessoa lógica não poderia, realmente, acreditar que a desoneração não é um bom plano em um País que tem tributos exorbitantemente altos e que não presta nem de longe serviço condizente.

Sendo assim, só resta o raciocínio de que o interesse político é que alimenta o sofisma e faz com que ele seja propalado, ou seja, Lula preferiria “dar dinheiro” pois, nesse caso, o povo lembra que quem “deu” foi “o Lula”. Uma desoneração não tem este efeito.