Postagens com a palavra-chave ‘10. América Latina’

Coluna do dia: Imagine

20/08/2010

Por Yashá Gallazzi*

Imaginem um presidente brasileiro conservador. Aliás, mais do que isso: imaginem um presidente de extrema-direita. Sim, eu sei que não é fácil, afinal o Brasil está acostumado a ter há décadas, uma disputa entre as várias matizes da esquerda, sem que haja um representante sequer da direita.

Mas, ainda assim, peço um esforço a vocês. Tentem imaginar, apenas por um momento, que o Brasil tem um presidente extremista de direita. Feito isso, imaginem que o sujeito tenha escrito uma carta mais ou menos nos seguintes termos:

“Queridas Companheiras e Companheiros

Há 20 anos, 42 partidos e movimentos conservadores da América Latina e do Caribe reuniram-se em São Paulo – convidados por nós – para um Encontro sem precedentes na recente história política de nosso Continente.

Nascia o que um anos depois, no México, seria chamado de Foro de São Paulo.

Vivíamos tempos difíceis no início dos anos noventa.

Em muitos países começava a ganhar força um discurso radical de esquerda, alimentado por líderes oposicionistas carismáticos, como Lula da Silva e Hugo Chávez, inspirados no exemplo do tirano homicida chamado Fidel Castro. Esses caudilhos ameaçavam as democracias vigorosas e dificultavam a luta dos trabalhadores.

Pairava sobre nosso Continente a ameaça de um novo espectro comunista.

(…) A predominância dessas idéias de extrema-esquerda, era reforçada pela profunda crise das referências tradicionais da direita radical. Suas políticas não permitiam explicar a realidade mundial mas, sobretudo, mobilizar as grandes massas.

A reunião de São Paulo e tantas outras que se seguiram nestes 20 anos tiveram como mérito fundamental criar um espaço democrático de conhecimento e de discussão das extremas-direitas. Esse espaço não existia, muitas vezes, nem mesmo em nossos países.

(…) Hoje, nossa região vive uma situação radicalmente diferente daquela de vinte anos atrás. Muitos dos que nos encontramos no passado nas reuniões do Foro de São Paulo como forças de oposição, hoje somos Governo e estamos desenvolvendo importantes mudanças em nossos países e na região como um todo.

(…) Uns poucos tentam caracterizar o Foro de São Paulo como uma organização autoritária. É o velho discurso de uma esquerda que foi apeada do poder pela vontade popular. Não se conformam com a democracia de que se dizem falsamente partidários.

A contribuição de meu partido e outros partidos de extrema-direita do Brasil para esta nova realidade do Continente é de todos conhecida.

(…) O Brasil mudou e vai continuar mudando nos próximos anos.

Mudou junto com seus países irmãos do Continente.

Mudou como está mudando a Argentina que agora acolhe mais este encontro do Foro de São Paulo.

Recebam, queridos amigos, o abraço do seu irmão e companheiro”

Continuando o nosso exercício de imaginação, considerem que os destinatários da carta acima, assinada pelo presidente brasileiro de extrema-direita, sejam integrantes de partidos com inspiração em Mussolini, Pinochet, Franco, bem como em herdeiros políticos dos militares que governaram Brasil e Argentina durante décadas de ditadura. Imaginem, assim, que tais movimentos políticos sejam as forças políticas integrantes do tal Foro de São Paulo.

Ah, quase esqueci! Considerem também que, além dos movimentos políticos acima mencionados, essa entidade representativa das extremas-direitas da América Latina contasse, ainda, com a participação de um grupo paramilitar, conhecido internacionalmente por sequestrar, torturar, estuprar, matar e traficar drogas.

Como a opinião pública reagiria diante de semelhante organismo internacional? O que diriam a OAB, a CUT, o MST e a CNBB? Qual seria o posicionamento da imprensa e dos intelectuais brasileiros a respeito? Como se comportaria a academia brasileira? Gente como Emir Sader, Marilena Chauí, Maria da Conceição Tavares, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim diriam o quê?

Ora, não é difícil concluir que o mundo desabaria sobre a cabeça do tal presidente brasileiro de extrema-direita, não é mesmo? E com razão! Um fórum com clara inspiração fascista e totalitária, formado por movimentos cujo ideário descende de tiranias assassinas, não mereceria mesmo respeito algum! Vou além: não mereceria sequer existir! A democracia não pode, por amor aos seus princípios, tolerar a existência daqueles que, se pudessem, os destruiriam.

Agora, diante de tudo o que vai acima, considerem que o tal Foro de São Paulo realmente existe, e que não é apenas fruto de um exercício de imaginação proposto por mim. Considerem ainda que ele realmente é composto por partidos e movimentos políticos de inspiração ditatorial, e que tem entre seus membros um grupo paramilitar como o descrito ao alto. Mas atentem para o seguinte: considerem que ele não é de extrema-direita, mas de esquerda.

O que custo a entender, o que não me parece nada lógico, é o seguinte: por que repudiamos – acertadamente, diga-se! – um Foro de São Paulo de extrema-direita, mas aceitamos um de extrema-esquerda? Por que seria escandaloso um presidente brasileiro mantendo relações com partidos inspirados em Mussolini e Franco, mas não causa escândalo algum ver Lula sentando à mesa com gente que se espelha em Stalin e Mao Tse-Tung? Por que seria inadmissível ver o governante do país chamando um grupo paramilitar de direita de “companheiro”, mas é aceitável que o presidente atual derrame abertamente seu amor pelas FARC?

Que deturpação descabida de valores morais é essa, capaz de nos levar a rejeitar o nazismo e o fascismo, ao mesmo tempo em que ainda nos faz parecer aceitável conviver com o socialismo e com o comunismo? Se concordamos todos em rejeitar uma das faces do horror, por que não concordamos também em rejeitar o horror por inteiro? Por que o totalitarismo de esquerda é tolerado no Brasil, a ponto de termos no poder um presidente que mantém relação pessoal de amizade com Fidel Castro? Por que o “terrorismo progressista” é tolerado no Brasil, a ponto de termos um presidente que se senta à mesa com as FARC?

Ou, para colocar as coisas de uma outra forma, a ponto de termos uma candidata que militou em grupos paramilitares, aqui mesmo no Brasil, com grandes chances de se tornar presidente?

Esta é, enfim, a curiosidade antropológica que mais me instiga no momento presente. Sei que o povo mais pobre, aquele sustentado pela bolsa-esmola oficial, não dá a menor importância para escolhas políticas e ideológicas. Escolheria um tirano (de esquerda ou de direita, tanto faz), se este garantisse o saldo do cartãozinho de benefício social ad eternum. Mas e a porção “pensante” do país? E a academia? E o jornalismo? Por que ainda há gente que não se escandaliza ao perceber que o principal partido do Brasil – assim como o principal líder político da atualidade – tem, sim, bandidos de estimação?

Não me assusta que o PT tente esconder o Foro de São Paulo, ou, por vias oblíquas, diminuir a importância dele. Não me assusta que marqueteiros de plantão se ocupem em fazer apenas a tal “campanha positiva”, exaltando até aquilo que nunca foi feito. Isso é do jogo. O que me assusta é notar que o mesmo país capaz de se escandalizar com o Fiat Elba de Collor, com os dólares de Roseana ou com a cueca daquele petista, não veja nada de errado em uma carta na qual Lula confessa sua relação direta (e antiga!) com a escória da América Latina.

Temos, assim, a prova de que o terror foi relativizado, criando-se, assim, o terrorismo – e o totalitarismo – “do bem”. Como é pra ajudar “ozoprimido”, na tentativa de construir o tal “outro mundo possível”, então tá tudo certo.

Em qualquer sociedade minimamente civilizada, aquela carta de Lula seria motivo para “impeachment”. Entraria para a história como “a carta testamento” do petista: aquilo que acabou com sua presidência e com as chances do seu partido de continuar no governo. Mas o Brasil atual, de civilizado, tem muito pouco.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Argentina aprova casamento homossexual

15/07/2010

Informa o Globo a respeito da legalização do casamento homossexual na Argentina:

“A Argentina tornou-se o primeiro país latino-americano a autorizar homossexuais a se casarem e adotarem filhos, desafiando a oposição católica para engrossar as fileiras dos poucos países, em sua maioria europeus, que já contam com leis semelhantes.

O Senado argentino aprovou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo na madrugada da quinta-feira, após mais de 14 horas de debates acirrados, enquanto centenas de manifestantes permaneciam reunidos diante do Congresso sob frio. Os senadores aprovaram a lei por 33 votos contra 27, com três abstenções.

‘Somos agora uma sociedade mais justa e democrática. Isso é algo que todos devemos festejar’, disse a destacada líder dos direitos dos homossexuais Maria Rachid, enquanto os defensores da lei se abraçavam e festejavam o resultado da votação.

 

[...]

País nominalmente católico, a Argentina agora se encontra na vanguarda dos direitos dos gays na região.

Líderes da Igreja Católica tinham feito campanha contra a lei, reunindo dezenas de milhares de manifestantes contrários a ela, desde crianças até freiras idosas, diante do Congresso na terça-feira.

Mas as pesquisas de opinião mostram que a maioria dos argentinos é a favor do casamento gay.

 

[...]

Analistas políticos dizem que a postura adotada pela presidente teve o objetivo de reforçar as credenciais de esquerda de seu partido. A expectativa ampla é que Nestor Kirchner, marido de Cristina e seu predecessor na Presidência, volte a candidatar-se para as eleições de outubro de 2011.”

Coluna do dia: Fidel?

15/07/2010

Por Felipe Liberal*

Nem parecia ele. Velho, pálido, seco e maltratado. Quando o vi na televisão, nem parecia aquele. Aquele gigante das “sierras”; aquele que derrubou montanhas de tamanhos incalculáveis; aquele que fez a Hora sem esperar nada, simplesmente nada acontecer.

Meu Deus, nem parecia. Não consigo enxergar naquele rosto enrugado e naquela barba transparente o que ele realmente representa pra mim. Não consigo pensar que tamanhas virtudes, que residem naquele corpo e mente, estejam reduzidas a um velho doente e semimorto. Como pode?

Eu sei, não precisa falar que ele tem seus defeitos, óbvio. Ele não é Deus e nem se diz ser. E quem não tem defeitos, não é? Mas suas virtudes são gritantes. Não consigo ver que toda aquela genialidade está se acabando como um casebre abandonado, caindo aos poucos a ponto de desmoronar. Eu sempre dizia: “eu vou a Cuba antes de Fidel morrer”. Mas não vai dar tempo. Não sei nem se irei a Cuba. Não sei se terei estômago pra ver que tudo que aquele semimorto fez na ilha está se acabando por completo.

Por incrível que pareça, há “pouco” tempo atrás, pra quem não lembra, aquele velho fez um lado de todo um continente tremer, enquanto o outro lado o via como um exemplo a seguir. Aquele velho fez o mundo parar inúmeras vezes pra ouvir seus discursos, seja por medo ou admiração. Aquele velho salvou milhares de pessoas da fome, da prostituição e da ignorância. Aquele velho colocou sua vida em favor de seu país e seu povo. Aquele velho amou cada ser humano que passou por sua vida, indiretamente ou diretamente. Aquele velho não resolveu todos os problemas da ilha e muito menos do planeta, mas tudo que ele conseguiu fazer foi feito com amor, de dentro da alma. Aquele velho doente é um dos maiores Heróis da História da Humanidade.

Mas, de fato, nem parecia.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: José Serra, Bolívia e as coisas que não devem ser faladas

31/05/2010

Por Arthurius Maximus*

Nesta semana que passou, a grande polêmica ficou por conta das declarações feitas por José Serra a respeito do Governo Boliviano. Ao afirmar, com todas as letras, que o Presidente Evo Morales favorece o tráfico de drogas e faz vista grossa para a exportação de cocaína da Bolívia para o Brasil e para o mundo sem combatê-la, Serra lançou um mal-estar desnecessário. Mesmo não concordando em nada com o governo boliviano e achando que Serra está completamente certo em suas afirmações, existem certas coisas que não acrescentam nada ao debate.

Uma das funções básicas do Presidente é a manutenção de boas relações internacionais com os vizinhos. Mesmo criticando abertamente as benesses exageradas dadas por Lula aos bolivianos, paraguaios e argentinos – muitas vezes em detrimento dos interesses do Brasil e dos brasileiros – creio que a postura de José Serra foi desnecessária e criou um constrangimento evitável para o Estado Brasileiro como entidade.

É claro que, como grande produtor de coca, Evo Morales tem como clientes principais os traficantes bolivianos. Só quem não conhece como funciona o mercado de folhas de coca naquele país pode afirmar o contrário. As folhas colhidas são enviadas para mercados nas proximidades das fazendas onde são compradas pelo maior preço – independentemente de quem pague por elas. Além disso, a única riqueza boliviana além do gás e de um pouco de minério é a coca. Sem a venda das folhas, segundo os bolivianos utilizadas apenas para uso nas beberagens culturais, a economia rural boliviana entraria em colapso.

Por isso mesmo, dizer que um dos principais produtores de coca da Bolívia, o Presidente Evo, combateria o tráfico local e a mola propulsora de sua economia é uma piada. Contudo, dizer isso abertamente é como mostrar uma tremenda falta de educação e de “toque” diplomático, municiando a concorrência.

O que Serra fez é mais ou menos como você receber uma visita em casa e o sujeito ficar dizendo para os amigos que sua casa fede, é feia ou suja. Ela até pode ser tudo isso, mas ninguém tem o direito de dizer isso.

Os caminhos a serem tomados são simples. Basta endurecer a fiscalização e desmoralizar o gordinho Evo com a verdade: sua inação no combate ao tráfico. Se a Bolívia nada faz, o Brasil então que cumpra a sua parte e a parte da Bolívia.

Bastaria, para calar as vozes contrárias, intensificar o patrulhamento nos rios, estradas e na selva fronteiriça. Infelizmente, o governo atual deixa muito a desejar nesse aspecto e, a exemplo do que fez com o Paraguai, afrouxou a fiscalização de fronteira nessas áreas críticas a pedido dos nossos vizinhos.

Serra fala uma verdade que não deve ser escondida. No entanto, o meio utilizado para propagá-la não foi o adequado. Faltou a necessária “tarimba” e a esperteza de agir antes de falar para que, depois, a coisa não fique apenas no discurso ou na letra morta.

E você leitor, o que pensa disso?

*Arthurius Maximus, escrevendo excepcionalmente em uma terça, é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica.

Análise: Vitória folgada do governista Santos contraria pesquisas e levanta suspeitas na Colômbia – Abstenção explica

30/05/2010

Há algumas semanas, Antanas Mockus, candidato do Partido Verde colombiano à Presidência do país, surgia nas pesquisas com boa vantagem. Surpreendentemente, liderava. Era a sensação das eleições colombianas. O fenômeno da vez.

Nos últimos dias, Juan Manuel Santos, candidato governista apoiado pelo Presidente Álvaro Uribe e membro do Partido Social da Unidade Nacional, encostou. Com o apoio da máquina administrativa e pregando a continuidade do elogiado governo de Uribe, Santos caminhou até o empate técnico, estando à frente em algumas simulações e pesquisas.

Mockus se perdeu um pouco. Patinou. Esqueceu-se de que, uma vez conhecido, teria que levar sua campanha para um novo nível.

Contudo, de qualquer forma, um primeiro turno acirrado era previsto.

Eis que surgem os resultados: Santos teve 46,5% dos votos. Mockus conseguiu 21,5%. Vitória folgada do governo.

Algo deu errado.

Uns começam a questionar as pesquisas.

Outros iniciam os boatos negativos sobre a lisura do processo eleitoral.

Discordo de todos eles.

Mockus e Santos tinham, nas pesquisas, índices que correspondiam, sim, ao número de simpatizantes de cada um. E as eleições não parecem ter sido fraudadas.

A resposta está na abstenção: 56%.

Foram votar mais simpatizantes de Santos do que simpatizantes de Mockus. Simples assim.

Os votos das pesquisas e da internet não se tornaram votos reais. Declarar voto não é votar.

Os interessados em que a máquina administrativa continue nas mãos dos mesmos compareceram bem motivados.

Mockus emocionou, mas aparentemente não motivou.

Perderá no segundo turno.

Fim do sonho verde colombiano.

Lição para Mockus e para muitos.

3ª Coluna do dia: Dilma – Talvez uma boa escolha petista

14/05/2010

Por Felipe Liberal*

Pelos meus cálculos, Dilma Rousseff ganhará as eleições deste ano. Já posso escutar os gritos desesperados dos leitores desejando que minha alma queime no fogo do inferno. Mas calma, enquanto o inferno não chega, afirmo novamente: Dilma ganhará de Serra. Vamos ao fundamento.

Primeiro motivo: A América Latina do século XXI se comportou de uma maneira bem diferente diante das previsões futuristas da década de 90 que previam um conglomerado de países neoliberais e submissos aos estadunidenses e europeus. O continente caminhou contra a maré.

Hoje, a AL é sinônimo de integração, independência e crescimento, guardadas as devidas limitações. Há uma tendência para governos de esquerda social sem abandonar o capitalismo de mercado, buscando um equilíbrio socio-econômico, como acontece hoje no Vietnã e  em parte da China. Dilma, por ter o apoio de praticamente todos os presidentes da América do Sul, sai na frente quanto ao quesito “tendência regional”, como se fosse um princípio da continuidade.

Segundo motivo: Depois da Era FHC e sua baixa popularidade que precedeu a Era Lula, o povo brasileiro sente e procura a toda hora uma mudança significativa e representativa na figura do Presidente da República. Dilma novamente sai na frente por ser mulher. A possibilidade de termos pela primeira vez uma Presidente do sexo feminino traz novamente esse sentimento de “mudança continuada” dentro do Brasil, seguindo também uma tendência sul-americana (Argentina e Chile).

Terceiro motivo: O apoio de Lula. Talvez o mais importante dos motivos. O Presidente mais popular e influente da História do Brasil apóia a candidata Dilma. Isto, na minha modesta opinião, é monstruosamente determinante. Considero todos os defeitos “eleitoreiros” de Dilma: falta de carisma, seriedade exagerada, falta de experiência com candidaturas, etc. Mas duvido muito que com o apoio de Lula e o trabalho de marketing e publicidade do PT, isso não seja superado.

Último motivo: Ela foi do governo Lula. Como foi Ministra, ela tem a autoridade de dizer: “Eu fiz pelo Brasil”. Ou seja, ela participou do governo que tem 80% de popularidade. Isso tudo é um excelente argumento para a campanha junto a Lula.

Não digo que será fácil, porém, não vejo como Serra vencer uma chapa tão poderosa e popular como a do PT. Serra disputa contra Dilma, contra Lula e contra toda a América do Sul.

*Felipe Liberal, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Yoani Sanchéz, Fausto e o Diabo

29/04/2010

Por Felipe Liberal*

FAUSTO:

Se podes me enganar com coisas deliciosas, doçuras a sentir, prazeres! Alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas, que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo.

MEFISTÓFELES:

Aprovo. Pensa bem no que dizes. Diabo tem memória.

Este é o momento exato em que Fausto aceita a proposta do Diabo (Mefistófeles) e vende sua alma. Para quem não conhece “Fausto”, uma das maiores obras literárias e teatrais da história da Humanidade, escrita por Goethe, recomendo a ida a qualquer livraria mais próxima e a compra hoje mesmo, leiam e contem-me depois qual a sensação de devorar uma obra-prima.

Esta cena explodiu na minha mente essa semana, quando li a entrevista que a famosa blogueira cubana Yoani Sánchez concedeu ao jornalista francês Salim Lamranium. Entrevista que foi indicada pelo meu leitor e colega Alan de Freitas. Agradeço publicamente.

Já era lógico que existia alguma coisa estranha em toda essa raiva de Yoani contra Fidel e Raul. Já era óbvio que toda essa gritaria e pânico tinham alguma coisa de errado. Já era claro que toda essa “liberdade” de pensamento virtual não passava de mais uma criação americana, como na Guerra Fria, lembram? Aquela política de fabricar pensadores e intelectuais? Pois é, isso nunca acabou. A Guerra da Mentira continua quente e viva.

Só tem um problema: a “cria” foi mal treinada. Não suportou o bombardeio de perguntas do jornalista francês e entrou em contradição várias vezes durante a entrevista. Temas como censura, repressão, polícia cubana, Fidel, Raul, EUA, Obama e internet, foram abordados incansavelmente por Salim diante da blogueira, que não conseguia responder e algumas vezes entrava em contradição com suas próprias palavras ditas anteriormente.

Sabemos que dentro do seu blog existem reclamações pertinentes e válidas, sendo inclusive indagações da maioria esmagadora do povo cubano, mas o que me deixa triste são as mentiras contadas por ela contra seu próprio país. Mentiras essas que ferem a imagem e a identidade do seu povo, de seus irmãos. E tudo isso tendo ampla publicidade das grandes empresas jornalísticas em todo o planeta, mostrando o quanto é frágil esse dinamismo virtual e cibernético, o quanto é frágil a informação verdadeira.

Yoani Sanchéz vendeu a alma ao Diabo em troca de fama, prestígio e premiações internacionais. O Diabo azul e vermelho. O Diabo que fala inglês.

Yoani Sanchéz não é a primeira e nem será a última a interpretar Fausto na vida real. Muitos conseguiram esse papel no teatro do bem e do mal. E agora consigo lembrar-me qual foi o fim de outro que empreendeu interpretação do personagem há bem pouco tempo atrás: morte na forca, em Bagdá. Lembram?

Nem sempre o final é feliz.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: “Nenhuma delas é cubana”

12/03/2010

Por Yashá Gallazzi*

Certa vez, numa discussão um tanto acalorada com alguns conhecidos, perguntaram-me quando exatamente eu me tornei um “porco direitista”. Na ocasião, ri da pergunta e nem dei muita importância, afinal estamos em um País onde qualquer um que critique o socialismo é automaticamente chamado de “direitista”.

Mas eis que hoje descobri quando me tornei um “porco direitista”. Foi no momento exato em que compreendi que Alexander Soljenitsin não é igual a Marcola; que Wladmir Herzog não é igual a Fernandinho Beira-Mar; e que Nelson Mandela não é igual a Elias Maluco. Em outras palavras, diferentemente dos esquerdistas que hoje governam o Brasil, este “porco direitista” aqui sabe bem a diferença entre um preso político e um delinquente vagabundo.

Lula, que assentou boa parte de sua mitologia pessoal na personagem do operário perseguido pela ditadura militar, resolveu mostrar ao mundo sua verdadeira face. Munido de seu cinismo sem limites, rasgou as vestes elegantes do “pobre-coitado-que-bebia-água-com-caramujo-e-virou-Presidente”, olhou na cara dos jornalistas e disse, “sem medo de ser feliz”, que Cuba tem direito de ter suas próprias leis e que o Brasil não se meterá nos assuntos internos daquela ilha.

É um democrata, esse Lula! Respeitador da tal autonomia dos povos, desde que – é claro! – os povos em questão sejam esquerdistas… Afinal, quando se tratou de defender a democracia de Honduras, Lula preferiu se alinhar aos golpistas, na esperança de criar mais uma “republiqueta bolivariana”, onde há mais igualdade, fraternidade e justiça social, mas falta sabonete e papel-higiênico…

Eu, como todo “porco direitista” que se preza, dou a maior importância para produtos de higiene pessoal. A civilização deles – dos esquerdistas – é aquela que pretende criar o “outro mundo possível”, o “novo homem”, a “igualdade plena”. A nossa civilização, por outro lado, é aquela dos antibióticos, da água encanada, da escrita e da literatura. Por isso somos incompatíveis, da mesma forma que nossas visões de mundo jamais poderão conviver pacificamente.

Mas há outra variante de tal “pensamento”. A “lógica” de Lula poderia servir para justificar até mesmo o horror nazista! Imaginem um repórter entrevistando Lula nos idos da década de 1930: “Senhor Presidente, dizem que há judeus sendo presos, torturados e mortos na Alemanha. O que o Sr. tem a dizer?”

E Lula, do alto de sua sabedoria de boteco, mandaria ver: “Veja bem, meu caro: eu estou convencido de que cada país tem direito a ter suas leis, e nenhum outro deve ficar dando pitaco de fora. Ou seja, quem sabe da situação da Alemanha direito é o meu querido Hitler, e só ele pode dizer com precisão as razões das medidas que ele toma. Eu só acho que se as leis da Alemanha estão sendo respeitadas, não cabe ao Brasil dizer o que é certo fazer, da mesma forma que o técnico do São Paulo não pode dizer pro meu querido Mano Menezes que esquema tático ele deve usar num jogo do Corinthians.”

Exagero? Não creio… Alguns dos leitores, conhecendo Lula e tendo lido o que ele disse sobre o regime cubano, não conseguem imaginá-lo dizendo o que vai acima? Eu consigo. E consigo por um motivo simples: é algo perfeitamente coerente com o caráter pedestre dele. Com sua moral maleável. Ou, melhor dizendo: com suas várias morais.

Morais, eu disse? Sim. Costumo dizer que tenho apenas uma moral, ainda que isso possa soar um tanto aborrecido ao leitor. Os “esquerdistas modernos”, como Lula, são melhores que eu: têm várias morais! Querem ver? Pois bem, se os presos políticos cubanos são iguais aos assassinos, sequestradores e traficantes presos em São Paulo, a “lógica” lulista me leva a concluir que Lula, Dilma e os demais presos políticos subjugados pelos militares brasileiros eram, também, iguais aos bandidos paulistas. Há alguma falha lógica nisso?

Mas isso valeria se essa gente tivesse uma moral só – como nós, os “porcos direitistas”. Como, porém, eles possuem várias, cada uma aplicável a um determinado caso específico, dirão que não! Os esquerdistas tupiniquins aprisionados pelos militares eram homens bons. Humanistas, dispostos a – como é mesmo? – “dar a vida em nome da democracia”. Em outras palavras, eles dividem os presos entre os que têm “pedigree” esquerdista, e os demais.

Quando você aceita a tese de Lula, aceita que um homem como Mandela pode ser, eventualmente, igualado a um vagabundo como Elias Maluco. Isso porque, segundo a “moral” torta desses “humanistas”, qualquer um que ouse se levantar contra a “revolução socialista” tem mais é que ser preso mesmo! Lênin, um dos maiores facínoras que o mundo já conheceu, não era menos sutil: todos precisam tomar parte na revolução. E quem não quiser? Simples: passa-se fogo!

Eu, não! Não aceito que Soljenitsin seja igualado a Marcola. Não admito que Herzog seja tratado como um Fernandinho Beira-Mar. De acordo com a minha única moral de “porco direitista”, uma pessoa aprisionada apenas por suas ideias políticas não é apenas um atentado à democracia: é uma humilhação para a espécie humana! Quem condescende com isso empresta justificativas para a barbárie mais abjeta. Flerta com a escória do mundo!

Hoje, os esquerdistas que defendem a maior e mais sangrenta tirania das Américas podem livremente pregar seu “outro mundo possível”, amparados pelas garantias do Estado democrático de direito que eles tanto abominam. Em Cuba, a ilha-prisão dos irmãos Castro, quem ousa contestar o regime assassino é preso e torturado. Isso se tiver sorte! Caso contrário, pode acabar sumariamente fuzilado.

Eis aí a diferença essencial entre nós – que eles chamam de “burguesia” – e eles, os esquerdistas: abraçamos a democracia e a liberdade como valores básicos, perenes e inegociáveis. Não consideramos as instituições democráticas meras “invenções da classe dominante”. Sabemos, ao contrário, que são criações da sociedade civilizada, aquela que tem por obrigação conter os bárbaros revolucionários.

Me tornei um “porco direitista”, aos olhos da realidade política brasileira, a partir do momento em que compreendi que as garantias e liberdades do indivíduo estão acima de qualquer distopia coletivista pregada por uma manada acéfala. Por isso acho que nenhum cidadão deve ser tolhido em seu legítimo direito de protestar contra qualquer governo. Mesmo quando se arvora a criticar os irmãos Castro, aqueles redentores que querem apenas nos salvar do jugo capitalista.

Meu – se me permitem a construção – “porco-direitismo” nada tem a ver, pois, com crenças econômicas. No caso específico do Brasil, você será automaticamente um “porco direitista” sempre que se recusar a igualar bandidos comuns a pessoas que pregam, pacificamente, o fim de uma ditadura sanguinária e a instalação de um regime democrático. E, acreditem: isso é libertador! Esqueçam o consenso progressista e politicamente correto que tomou conta “dessepaiz”: a sensação de defender quem combate os tiranos é revigorante. Não quer ser chamado de “porco direitista”? Ah, deixe disso! “O que é um nome?”, diria Shakespeare? “Aquilo que chamamos de rosa, caso tivesse outro nome, guardaria o mesmo perfume.”

Há milhares de ativistas políticos espalhados pelo mundo militando em favor da democracia. Estão na Europa, na Ásia e na Oceania. Nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, na Argentina e na Venezuela. Onde há liberdade – ainda que um filete dela apenas -, há um ser humano exercendo seu direito legítimo de contestar o governo. Há pessoas de várias nacionalidades, crenças, etnias e religiões protestando livremente por todo o globo.

E, como diria Fidel Castro em sua frase célebre, “nenhuma delas é cubana”.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Amélias no poder

14/02/2010

Por Jessica Riegg*

Com 71,1% dos votos apurados, Laura Chinchilla obteve 46,8% dos votos e foi eleita como a primeira Presidente da Costa Rica. Ela promete melhorar a qualidade da saúde, da educação e da segurança. Em seu discurso, Laura agradeceu às pioneiras que abriram o caminho da participação política da mulher na Costa Rica.

É uma grande vitória uma mulher se consagrar como presidente de um país, coisa impossível de acontecer há poucas décadas atrás, já que eram proibidas até mesmo de votar. Elas, que sempre viviam nas costas dos maridos, muitas vezes compulsoriamente, agora podem impor a sua voz e mostrar o verdadeiro poder da mulher atual.

Elas agora também trabalham, mas ainda cuidam da casa e dos filhos, mostrando que têm capacidade para todos os serviços que os homens também executam. Cada dia vemos mais mulheres se tornando pedreiras, engenheiras e empresárias, concorrendo no mercado essencialmente masculino e lutando para ter o direito de um salário igual.

Apesar do crescimento da independência, o Brasil votou e colocou no poder em 2008 apenas 506 mulheres para liderar as cidades, cerca de 9,1% de todas as prefeituras do País. A cidade do divino também possui a sua representante feminina, é a delegada regional Aparecida Dutra, que lidera entre tantos homens que a cercam.

Michelle Bachelet, eleita no Chile, foi a primeira mulher a liderar um país na América do Sul. Seus passos foram seguidos por Cristina Kirchner, atual presidente da Argentina. Agora Dilma Rousseff e Marina Silva tentam a Presidência do Brasil neste ano, País que nunca foi liderado por uma mulher.

O preconceito é grande, mas a cada dia as mulheres provam que é possível vencer mais esse desafio e deixar de serem “Amélias” para se tornarem donas do próprio nariz e do próprio destino, surpreendendo os homens.

Nota do Editor: Michelle Bachelet é exemplo forte e elogiável da luta de uma mulher para chegar ao posto mais alto da nação. Merece palmas. Contudo, Cristina Kirchner não o é. Só governa a Argentina por conta de ser esposa de Néstor Kirchner. É algo como uma Evita Perón. Não deixa de ser símbolo de uma mulher no poder, mas não da luta das mulheres em si.

*Jessica Riegg é colunista do Perspectiva aos domingos e escreve diariamente no Twitter em @jessicariegg

Hugo Chávez não quer vitória do PSDB no Brasil: Com um amigo desses, Dilma não precisa de inimigos

07/02/2010

Informa a Agência de Notícias EFE:

“O presidente venezuelano, Hugo Chávez, indicou hoje que seria ‘nefasto’ para a América Latina se a direita recuperasse o Governo do Brasil nas próximas eleições presidenciais, em outubro.

‘Neste ano há eleições no Brasil e temos certeza de que o império americano vai apostar tudo na direita brasileira, para ter desde 1º de janeiro do ano que vem um Governo subordinado às ordens americanas. Isso seria nefasto para a união da América do Sul’, disse Chávez em seu programa dominical ‘Alô Presidente’.

‘Não nos intrometemos nos assuntos internos, mas cabe a nós saber o que acontece nos países irmãos da América Latina e do Caribe’, acrescentou o presidente venezuelano.

Em primeiro lugar, é uma hipocrisia danada se meter descaradamente  nos assuntos que envolvem o processo eleitoral brasileiro e depois afirmar que não se intromete em assuntos internos dos países vizinhos. Até parece que resolve assoprar depois de bater.

Em segundo lugar, esse discurso de que uma vitória da oposição seria a vitória dos “ianques” é equivocado e atrasadíssimo. A direita latino-americana já não é mais marionete, pelo menos não nos países mais desenvolvidos, há muito tempo. E o PSDB nem mesmo de direita é, na verdade. Talvez seja possível dizer que é próximo do empresariado, mas isso não é necessariamente ser de direita e muito menos estar subordinado aos EUA. Trata-se de acusação patética. Dizer que o PSDB é entreguista é conversa de uma esquerda órfã do Muro de Berlim. Não convence. Dizer que o governo Lula foi bem melhor no lado social é muito mais interessante.

Por fim, a realidade é que, sinceramente, quando vejo Hugo Chávez dizendo estas baboseiras sobre a oposição e quando lembro que ele já pediu que os brasileiros elejam Dilma Rousseff, ganho pelo menos um motivo para preferir José Serra.

O apoio de Chávez é prejuízo. E ainda bem que é assim. É sensato. Não poderia ser diferente.

Depois de ter apoiado tacitamente um Programa Nacional de Direitos Humanos com certo cunho chavista em diversos pontos, Dilma não pode nem pensar em ser apoiada efusivamente pelo ditador venezuelano. Seria a confirmação de que a esquerda da Ministra não é a de Lula.

E não é mesmo.