Como vocês já devem saber, Manuel Zelaya, Presidente hondurenho deposto, está asilado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, capital do país. Zelaya havia sido deportado e, tendo retornado a Honduras clandestinamente, encontrou abrigo no solo brasileiro da embaixada, que está cercado por solo hondurenho por todos os lados.
Pois bem. E o que este blogueiro que vos fala tem a dizer sobre isso? Por enquanto nada.
Vocês devem estar se perguntando: Por enquanto nada? Como assim?
Explico: O que acontece é que, antes de mais nada, eu gostaria de divagar a respeito dos motivos que fizeram Zelaya se dirigir à embaixada brasileira. Depois comentarei a estadia de Zelaya na embaixada em si.
Bom, então vamos lá. Por partes:
Primeiramente, alguém acredita que Zelaya poderia arriscar dirigir-se à embaixada brasileira e receber um não como resposta, estando assim passível de ser preso pelas autoridades hondurenhas?
Se alguém acredita que Zelaya foi para a embaixada brasileira sem a certeza de que seria acolhido, é ingênuo demais.
Obviamente, o pedido de Zelaya foi feito com antecedência e aceito.
É aí que se encontra o ponto crucial de meu comentário: O pedido de Zelaya foi aceito.
Muito antes de discutirmos o que deve ser feito agora e de criticarmos os comícios que Zelaya fez na sacada da embaixa brasileira, é importante que pensemos no seguinte: Por que o Brasil aceitou o pedido de Zelaya?
Alguns dirão: Ora, meu caro Bruno, o Brasil é um país democrático, não poderia negar este auxílio a alguém que alega perseguição política. Certo?
Errado!
Acompanhem meu raciocínio:
Embaixadas normalmente concedem asilos a pessoas que, encontrando-se perseguidas dentro de seu próprio país e temendo os atentados que podem ser feitos contra elas no período de tempo que seria dispendido por elas para que pudessem deixar o país, preferem recorrer ao solo estrangeiro presente dentro de seus países, as embaixadas, em busca de auxílio.
Países normalmente concedem asilos a pessoas que, tendo deixado seu próprio país por conta de perseguições políticas e temendo retornar a este ou tendo sido deportadas de seu país e sendo proibidas de retornar, recorrem a governos estrangeiros em busca de um local para residir e subsistir.
Pois bem. Perceberam a contradição? De qualquer forma a explicitarei:
Zelaya já havia deixado o solo hondurenho. Ele não se encontrava em perigo iminente. Sendo assim, se fosse para o Brasil conceder asilo a ele, que permitisse que ele viesse viver no Brasil, e não, que concordasse com seu plano de entrar infiltrado em Honduras e se utilizar da inviolabilidade da embaixada brasileira para não ser capturado pelas forças hondurenhas que, diga-se de passagem, dispõem de uma ordem de prisão contra ele.
Houve uma inversão. Zelaya veio do exterior para pedir asilo à embaixada.
Se Zelaya tivesse fugido do palácio governamental na noite em que veio a ser deportado antes da chegada dos militares e pedido asilo na embaixada brasileira, o caso seria totalmente diferente.
O Brasil concordou com um plano de Zelaya, não apenas concedeu a um perseguido um asilo político. É ridícula a alegação de que a embaixada brasileira foi surpreendida pela chegada de Zelaya e de seu chapéu em sua porta.
Autoridades brasileiras foram consultadas antes e concordaram em apoiar um plano que envolvia a entrada clandestina de Zelaya em Honduras.
Neste momento, alguns dirão: Mas Bruno, Zelaya é hondurenho, é direito dele retornar a Honduras.
Concordo. Em gênero, número e grau. Mas que isso fosse feito oficialmente. Que a diplomacia, com auxílio do Brasil se fosse o caso, conseguisse um retorno negociado de Zelaya e a garantia de que sua liberdade de ir e vir e sua vida não estariam em perigo após o retorno.
Isso era o certo a se fazer, e não, assentir em fazer parte do esquema esperto.
O gesto foi equivocado. Zelaya não deveria ter recebido o aval brasileiro desde o início. Agora, com o fato já consumado, nada mais pode ser feito a não ser proteger o hondurenho.
O Brasil não pode, e nem deve, expulsar Zelaya da embaixada, por mais que ele esteja utilizando o local para abrigar partidários que não precisam de asilo, para proferir discursos políticos e para incitar a população que lhe apóia, ainda que, empreedendo estes atos, Zelaya esteja, até mesmo, infringindo as regras de asilo brasileiras e causando indiretamente conflitos que geram mortos e feridos.
Está colocado o meu ponto de vista. O Brasil errou ao permitir que o plano fosse levado adiante. As autoridades brasileiras deveriam ter dito: “Não, não concordamos, façamos as coisas do modo correto, com diálogo”. Ao contrário, disseram: “Pode ir, o pessoal vai tomar um susto”.
Lula diz na ONU que Zelaya deveria voltar ao poder e que o ato que o retirou do mesmo configurou um golpe. Tudo bem. Os militares realmente se equivocaram muito no modo, embora, na minha opinião, não o tenham feito na essência, ou seja, Zelaya deveria mesmo ser retirado do poder por ter tentado se perpetuar nele e por isso configurar perda de mandato imediata de acordo com a Constituição hondurenha, porém, isso deveria ter sido feito dentro da lei e dos devidos trâmites, e não, por força das armas.
Mas retornemos a Lula. O que o fato de Zelaya dever voltar ao poder tem a ver com o fato de as autoridades brasileiras darem sua autorização para que Zelaya empreendesse seu plano?
Quem foi que disse que se uma coisa é devida, também é correto apoiar meios errôneos que visam perseguir esta coisa? Os fins não justificam os meios, meus caros.
Agora o Brasil paga o preço. Corre o risco de sair mal do episódio por ter se imiscuído em assuntos que dizem respeito à soberania de outra nação, podendo, até mesmo, se desgastar com os vizinhos de Honduras, perde a possibilidade de mediar as discussões entre Zelaya e o atual governo hondurenho por ter tomado partido de um dos lados e ainda assiste a Zelaya usando e abusando da hospitalidade brasileira, tendo este, inclusive, discursado aos seus partidários direto da embaixada.
Resumindo, a embaixada brasileira se transformou em base de operações de Zelaya, algo inimaginável. Celso Amorim afirma que o uso político da embaixada brasileira não irá ocorrer. Só pode estar dizendo isso motivado pelo fato de que o uso já ocorreu. Nesse caso, o uso não irá ser feito, no futuro, pois já está sendo feito, no presente.
Para fechar com chave de ouro, para não dizer o contrário, preciso lembrar a vocês que o Brasil, que nunca deu motivos para que Honduras lhe fosse hostil, foi obrigado a ver sua embaixada no país ter os fornecimentos de água e luz cortados, além das linhas de telefone.
Esta é a posição deste blogueiro que vos fala. O asilo concedido a Zelaya é correto, sem dúvida, mas ele só teria motivo para existir se Zelaya se encontrasse em solo hondurenho e estivesse sendo perseguido. Tendo Zelaya desenhado o plano de trocar um asilo no exterior por um asilo em uma embaixada dentro de Honduras, o Brasil não deveria ter anuído.
O asilo é correto, mas ter concordado com o plano que tornou o asilo necessário e permitir que a embaixada seja utilizada como base de operações política está muito longe de ser o certo.
Agora já está feito e cabe ao Brasil proteger o hondurenho, comportando-se diretamente como país democrático mas, ao mesmo tempo, indiretamente, como aliado do chavismo e benfeitor de um Presidente deposto que trouxe para si próprio todas as suas desventuras.
Até o momento, o plano só gerou insegurança, confusão e cadáveres hondurenhos. A pressão pela restituição de Zelaya no poder poderia, muito bem, ser feita sem o advento desta entrada clandestina dele no país.
A dúvida que fica pairando no ar é a seguinte:
Por que o Brasil deu seu aval para o plano de Zelaya? Por que nosso País auxiliou a atitude que varreu qualquer sossego que houvesse em Honduras e que desautorizou o diálogo?
Quem descobrir ganha um doce. A entrega fica por conta de Lula, Celso Amorim e, principalmente, Marco Aurélio Garcia.