
Não é novidade para ninguém que acompanha o cenário político com alguma frequência que o governo e sua candidata, Dilma Rousseff, estão em campanha aberta.
O curioso – para não usar outro termo – é que, mesmo assim, muitos governistas têm a capacidade nada louvável de dizer, de peito aberto, que não há campanha alguma.
Um certo deboche e uma certa ironia estão no ar constantemente quando se trata das respostas dos ocupantes do Planalto às perguntas a respeito da campanha antecipada feitas pela imprensa.
Continua valendo uma frase que digo e repito há meses: Digam-me que a campanha antecipada deveria ser permitida, mas não me digam que não está havendo campanha.
Em suma, afirmar que a pré-campanha escrachada deveria ser legítima é um argumento válido. Nos Estados Unidos, por exemplo, vigora um sistema onde os pré-candidatos têm grande exibição. Contudo, sendo a campanha antecipada hoje, no Brasil, uma infração eleitoral, não se pode dizer, sem se enganar, que Lula e Dilma não transgridem.
Recentemente chegou aos nossos ouvidos a notícia de que o Planalto pagou pesquisa sobre a repercussão e a popularidade, entre a população, dos programas do governo apontados como concebidos por Dilma Rousseff.
Nossos bolsos financiaram aferição de tendências que será utilizada como embasamento para estratégias eleitorais do governo. O que poderia ser mais uso da máquina do que isso?
Entretanto, o Planalto nega que tenha se valido de esperteza, afirma que não é bem assim.
E dá-lhe cinismo!
Também recentemente, Dilma Rousseff foi convidada pelo Governador Sérgio Cabral para inaugurar um hospital que não teve um centavo do governo federal empenhado em sua construção.
Por mais que Dilma nada tenha a ver com a obra – que, pelo menos, homenageia merecidamente Heloneida Studart -, a Ministra foi convidada para usufruir da vitrine.
Nenhum fiscal do TRE-RJ estava no evento, claramente utilizado como palanque.
E dá-lhe deboche!
Quando pensamos que não pode piorar, piora:
Em evento da Petrobras na Praia de Copacabana, a diretora de Gás e Energia, Graça Silva Foster, largou a fala institucional e partiu para a politicagem. Ela afirmou que terá uma candidata que é certamente mais talentosa que qualquer outra que esteja concorrendo.
Questionada por conta da campanha clara e cristalina, respondeu:
- Na minha opinião ela é mais competente que qualquer outra, mas não citei o nome dela. Só disse que há uma mais talentosa que as demais, mas não disse quem.
E dá-lhe ironia!
Por fim, surgiu também recentemente o boato de que Lula começou a cogitar mais fortemente se licenciar da Presidência para rodar o Brasil com Dilma, visando fortalecer a candidatura da Ministra.
O destaque dessa informação não era bem a licença de Lula, mas o fato de ela poder resultar, provavelmente, em termos José Sarney como Presidente interino, já que José Alencar e Michel Temer, antecessores de Sarney na linha sucessória, não poderiam assumir sob pena de não poderem ser candidatos a cargos eletivos em outubro.
Pois bem. A notícia veio, o governo pôde ter um termômetro da repercussão popular que a medida teria e, logo depois, o Planalto a desmentiu.
Fica claro o que houve e diversos analistas confirmam: O governo vazou a notícia propositadamente para “sentir” como seria a reação do grande público. Atingido o objetivo, negou de forma ferrenha a informação, dando uma “barriga” na imprensa e desrespeitando o cidadão que se surpreendeu sem motivo.
E dá-lhe desfaçatez!
Como se pode perceber, as estratégias do governo estão sendo claramente perpassadas pelo deboche e pela ironia.
Faz-se campanha escancarada e diz-se que não se está fazendo.
Faz-se referência velada a Dilma e diz-se que nenhum nome exato foi pronunciado.
Planta-se um furo de reportagem na imprensa e nega-se mais tarde, quando o objetivo real já foi alcançado.
Um governo, responsável pela administração dos nossos impostos, proteção das nossas fronteiras e defesa dos nossos interesses não poderia se portar dessa forma.
Presidência é coisa séria. A sucessão também.
Mas alguns não estão enxergando dessa forma. E isso é condenável.
Não podemos viver em um País onde o que vale é ser esperto, onde o que importa é driblar os obstáculos legais e onde o que interessa é contornar os problemas jurídicos.
Pior ainda quando essas máximas são pregadas nas entrelinhas pelo próprio governo da nação!
Qualquer um que se comportar assim merece duras críticas. Esteja no lado que estiver, no cargo que estiver, apoiado pelos aliados que tiver.
No caso de Lula, a comentadíssima foto reproduzida acima demonstra que ele, literalmente, leva Dilma pelo braço. E isso se dá pois só assim ela tem chances de vitória.
Acontece que não precisa ser da forma como tem sido: Cínica.
Pede-se apenas menos esperteza e mais republicanismo.
Simples assim.