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Chávez teria financiado, literalmente, atentado contra a democracia na Nicarágua

02/02/2010

O Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, tem passado guerrilheiro. Hoje, porém, segue, infelizmente, o caminho de muitos ex-guerrilheiros que conseguem chegar ao poder, seja pela via democrática ou não: O caminho do autoritarismo. Sendo assim, não surpreende a aliança existente atualmente entre ele e Hugo Chávez. Foi por conta dela que a Nicarágua passou a fazer parte da ALBA, Aliança Bolivariana das Américas, alternativa chavista à ALCA.

Como não poderia deixar de ser, o neo-bolivariano Ortega – que, diga-se de passagem, preside um país que na verdade é governado nos bastidores por sua esposa, Rosario Murillo – começou a assediar os meios de comunicação que, coincidentemente, dizem verdades que não agradam ao regime.

Agora, a situação chega ao extremo, com a compra por Ortega do Canal 8 nicaraguense, a Telenica. Está claro que o líder da Nicarágua tenta siienciar a oposição.

Mas a pior parte da história não é essa. O pior de tudo vem agora.

Foi Chávez quem deu dinheiro a Ortega para que este pudesse comprar o canal de televisão de seu país que era uma voz de oposição, calando assim as críticas.

Era da Albanisa (ALBA da Nicarágua S.A.), consórcio criado por Chávez para recompensar o apoio político dado pela Nicarágua ao bolivarianismo, o dinheiro utilizado para a compra. O gerente-geral da Albanisa, Rafael Paniagua, confirmou que foram fundos da sociedade que possibilitaram a compra do canal.

Trata-se de Chávez financiando, literalmente, os atentados contra a democracia na América Latina. Foi o dinheiro que a Venezuela transfere para a Nicarágua em troca de apoio político, através de empresas de fachada como a Albanisa, o utilizado para calar a oposição que Ortega enfrenta.

Ao invés de governar melhor, respeitar a democracia e os direitos da oposição e prezar a liberdade, Daniel Ortega preferiu pegar o dinheiro que a Venezuela lhe dá e calar a boca dos opositores. Levando em conta a índole de Chávez, este deve ter aplaudido e repetido a ladainha de que o tal canal de televisão era “representante das oligarquias entreguistas, do capitalismo selvagem e do imperialismo americano”. O fato de ele fazer oposição ao regime deve ser mera coincidência.

Por essas e por outras o ideário bolivariano, o comportamento de Chávez e a política expansionista do chavismo só podem ser encarados como nocivos.

Felizmente, Chávez enfrenta hoje dificuldades políticas internas e externas, que podem levar, no médio prazo, ao ocaso do chavismo.

As dificuldades econômicas do povo venezuelano, que ao contrário das dificuldades políticas de Chávez não podem ser comemoradas por ninguém, também colaboram para este quadro de derrocada.

Entendendo todo o momento instável de Honduras – Zelaya e Micheletti

29/06/2009

Está em todo o noticiário a repercussão das instabilidades políticas pelas quais está passando a região centro-americana de Honduras. Para que os leitores possam entender melhor tudo o que está ocorrendo, segue explicação:

O presidente Zelaya foi eleito pelo Partido Liberal, de direita e algum tempo depois se tornou chavista. Com eleições convocadas para novembro deste ano, tentou forçar o direito à reeleição. O Congresso rechaçou a proposta. Zelaya ignorou a decisão do Congresso e partiu para realizar o plebiscito de qualquer forma. Coisa que entendo como totalmente equivocada e condenável e que causou todo o problema. Zelaya desrespeitou a lei.

O promotor e defensor dos direitos humanos considerou o plebiscito ilegal. Os equivalentes locais do STF, TSE e MP o declararam inconstitucional. O parlamento votou uma lei o impedindo.

Para tentar manter as chances de conseguir a aprovação da possibilidade de reeleição, o governo tomou medida esdrúxula: Os comandantes das Forças Armadas, que pressionavam contra, foram exonerados. Com isso, o Supremo determinou que o general chefe do estado maior fosse restituído a seu posto.

Aí veio o pior: A intervenção de Chávez, mentor de Zelaya.

Ele mandou rodar as cédulas do plebiscito e fazer as urnas e as enviou a Tegucigalpa, capital de Honduras. Além disso, insultou as autoridades constituídas hondurenhas – judiciais, militares e parlamentares. Chamou o chefe do estado maior, general Vásquez, de “gorila e traidor”. E colocou suas Forças Armadas de prontidão.

O presidente Zelaya foi ao aeroporto com seus correligionários para receber o material que vinha de Caracas. As urnas foram distribuídas por uma frota de táxis contratados.

Estando configurada a tentativa de Zelaya de ir contra todo o ordenamento jurídico hondurenho e de deixar que um líder estrangeiro influenciasse uma questão de soberania nacional, o equivalente ao STF determinou a prisão dele. Com isso, Zelaya apresentou sua renúncia à presidência.

Pela manhã, o Congresso aceitou a renúncia e nomeou Presidente o presidente do Congresso, Roberto Micheletti. Zelaya foi detido pelo exército e transferido para a Costa Rica. Nesse momento, curiosamente, Zelaya negou a renúncia. Então Chávez, mais uma vez interferindo, o transferiu para a Nicarágua e convocou uma reunião dos países da ALBA, Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América.

Os EUA ainda não reconheceram o novo presidente, assim como o Brasil e o Chile. Ao contrário, Barack Obama condenou o modo como as coisas estão sendo conduzidas.

As outras nações entendem que o impasse, e mesmo os excessos inconstitucionais de Zelaya, não requereriam a destituição do mesmo.

Ora, meus caros leitores, está claríssimo o que ocorre:

As Forças Armadas hondurenhas, juntamente com a oposição ao governo, cometeram certos abusos inegáveis e que são condenados por este blogueiro. Manuel Zelaya não deveria ter sido retirado do poder sob armas e levado para fora do país.

Porém, os abusos são compreensíveis. Afinal, havia o receio totalmente correto de que Zelaya fizesse Honduras ser mais um país a trilhar o caminho do bolivarianismo. O que ele tentava empreender era exatamente isso.

Em suma, Zelaya realmente não deveria ter sido deposto pelo exército,  e sim, por pressão do Congresso, eleito pelo povo e legítimo, que aceitou sua renúncia. Mas, ao mesmo tempo, Zelaya é tão criticável quanto os militares, por ter tentado desrespeitar todo o ordenamento hondurenho para poder se reeleger. E mais, o novo Presidente não é militar. Ocupava ele o cargo que é, justamente, o que a lei prevê como sendo o que fornece o substituto do Presidente.

No fim das contas, o questão é que Zelaya encontrou instituições em Honduras que fizeram o que as venezuelanas, bolivianas e equatorianas deveriam ter feito: Barrado arroubos personalistas e autoritários. Honduras não permitiu, corretamente, uma coisa que, claramente, descambaria para o bolivarianismo. As instituições resistiram por conta do vislumbre se verem destruídas em um futuro próximo, protegendo a democracia.

O que o exército hondurenho fez foi muito errado no modo, mas não, na essência. Não deveria ter sido o exército a retirar Zelaya do poder, porém, aceita a renúncia deste pelo Congresso e nomeado o novo Presidente, Manuel Zelaya deveria sim, no fim das contas, deixar o governo. Melhor que tivesse sido voluntariamente.

Para os que me disserem que o povo hondurenho desejava mais um mandato do grupo de Zelaya, pergunto:

Por que então Zelaya não indicou sucessor e respeitou a lei?

Essa aí ficará sem resposta, não é mesmo? Sempre fica.