Postagens com a palavra-chave ‘Agricultura Familiar’

2ª Coluna do dia: Programas sociais e a pescaria

08/11/2009

Por Jessica Riegg*

Segundo pesquisa desenvolvida pela Action Aid, uma organização não-governamental (ONG) que atua em 40 países no combate à pobreza, entre os países em desenvolvimento, o Brasil é o que mais tem combatido a fome e a desnutrição.

O trabalho elogiou os programas Bolsa Família e Fome Zero, além da criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e a aprovação da Lei de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan).

Eu acredito que programas como este não são totalmente eficazes. O que acontece aqui é o mesmo que acontece com as cotas sociais: Tapar o sol com a peneira.

Como já dizia minha avó: Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. O governo ajuda muito quem não tem o que comer, mas também permite que raras pessoas que não lutam para sair da sua condição social aproveitem a falta de fiscalização para ganhar dinheiro desses programas.

O mais adequado para um País tão grande e com terras tão férteis seria investir em agricultura familiar ao invés de incentivar as monoculturas que só dão dinheiro aos patrões e ao governo.

Além disso, o governo poderia incentivar a criação de empregos dignos e fiscalizar para que todos os salários sejam adequados.

A fome é uma realidade em nosso País e em muitos outros e esses projetos estão minimizando o problema. Mas eles seriam louváveis se fossem bem fiscalizados e combatessem completamente a fome, coisa que não acontece, pois ainda existem milhares de crianças morrendo por falta de comida.

Acredito que as forças políticas possam modificar completamente um País. Este elogio da Action Aid serve apenas para que o Presidente se esforce para manter esse combate à fome com melhorias nas campanhas já existentes.

Agora resta-nos torcer para que o próximo Presidente, além de continuar dando o peixe, ensine a população a pescar! Cabe a nós, eleitores, colocar nos cargos competentes as pessoas que buscarão esse objetivo…

*Jessica Riegg é colunista do Perspectiva Política aos domingos

Coluna do dia: Reforma agrária ou dilúvio – Agricultura familiar e agronegócio não cabem na mesma arca

10/05/2009

Por Tiago Franz*

Você já se perguntou por que o poder executivo do Brasil tem dois Ministérios para os assuntos da terra, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)? Boa pergunta.

Na última sexta-feira, 08 de maio, cá em Chapecó, no Oeste Catarinense, um ato público nacional reuniu entidades de agricultores, do agronegócio e empresariais, membros do executivo e do legislativo de municípios, de estados e do país, e outros setores da sociedade. Razão do encontro: defender o novo Código Ambiental de Santa Catarina e a autonomia para os entes federados criarem suas próprias leis de meio ambiente, de acordo com suas realidades sócio-econômicas. Autonomia essa que questiono por motivos que já comentei aqui no Perspectiva.

Retomo rapidamente a principal questão, que envolve o tamanho das matas ciliares: “Enquanto a Lei Federal determina a largura mínima de 30 metros para as faixas de vegetação que protegem as margens dos rios, o que já é pouco se considerada a capacidade da natureza de se recompor, o Código de Santa Catarina permite a redução para dez metros em propriedades acima de 50 hectares e cinco metros nas áreas menores. O argumento do governo do estado é o de que o Código Federal inviabiliza as pequenas propriedades, que compreendem cerca de 90% dos agricultores catarinenses. Com a nova lei, 26 mil propriedades deixariam a situação de irregularidade.”

Contrários às alterações aprovadas pela Assembleia catarinense, “os Ministérios Públicos, Federal e Estadual, o Ministério do Meio Ambiente, a Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas do Senado, o Partido Verde, movimentos ambientalistas e diversos outros atores sociais já formalizaram ações judiciais, que apontam ilegalidade e inconstitucionalidade do novo código”. A decisão caberá ao Supremo Tribunal Federal.

Voltemos à manifestação em Chapecó.

Em apoio ao Governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), de Santa Catarina, disse a Governadora Yeda Crusius (PSDB), do Rio Grande do Sul: “O Código Ambiental Brasileiro é um problema”. A governadora se refere aos itens da Lei Federal que impedem as mudanças desejadas por alguns estados. Além de Yeda, participaram do ato o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB), e o Vice-Governador do Mato Grosso do Sul, Murilo Zauith (DEM). O Governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), estava entre os convidados, mas não compareceu.

Ora, só o “currículo” de Maggi – que inclui o prêmio Motosserra de Ouro, do Greenpeace – já é o bastante para traçar o perfil das principais lideranças apoiadoras da causa. Será que os maiores interessados em flexibilizar o Código Ambiental Brasileiro são os setores da agricultura familiar e pequenos proprietários, ou é o setor do agronegócio?

À propósito, você já se perguntou por que o poder executivo do Brasil tem dois Ministérios para os assuntos da terra, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)? Ao MAPA compete cuidar de políticas para o desenvolvimento do agronegócio, enquanto o MDA se ocupa da reforma agrária, agricultura familiar e desenvolvimento sustentável. Porque essas duas coisas, em essência tão complementares, são separadas no Brasil? É óbvio. Os interesses são totalmente opostos.

Disse à imprensa o Deputado Federal Celso Maldaner (PMDB/SC), que “o único país do mundo que oferece hoje 2/3 do seu território nacional para preservação é o Brasil”. Só faltou dizer que o mundo vai bem. O deputado, ao se dirigir à opinião pública, parece ter esquecido que o assunto do momento é a crise mundial. E a crise, todos sabem, tem duas faces que se interligam: uma financeira e outra ambiental. O atual modelo econômico, neoliberal, não permite uma gestão sustentável do meio ambiente. Do mesmo modo, as políticas ambientais que se fazem urgentes para a preservação dos recursos naturais impedem o desenvolvimento da economia tradicional.

O que fazer então? Investir nas tendências “verdes”, a exemplo do que pedem os ambientalistas, para dar novos rumos a economia mundial? Sim. O mundo inteiro deve seguir neste rumo de agora em diante, e o Brasil, enquanto aspirante a país desenvolvido, não pode rumar na direção oposta.

A economia brasileira, para ter saúde, precisa do mesmo remédio que o sistema político partidário do país: Reforma. Para o segundo caso, o nome é Reforma Política. Para o primeiro, Reforma Agrária.

Entre os pontos apresentados pelos defensores do Código Ambiental catarinense, um único faz sentido. É o de que a pequena agricultura, que no estado é tão significativa, não pode ser inviabilizada pelo Código Federal. Mas isso não quer dizer que a lei tenha que mudar para que as propriedades irregulares sejam legalizadas. Aí é que está o equívoco da nova lei catarinense. A realidade é que tem que ser mudada, através da correção de leis realmente erradas, para não competir com a tão salutar proteção dos recursos hídricos e florestais.

A solução ideal, mas que não interessa nem um pouco aos setores mais abastados da agricultura e pecuária, é uma reforma agrária que dê conta de corrigir a má distribuição das propriedades – distribuição no espaço físico e entre as pessoas, que deve incluir sem-terras, pequenos e grandes proprietários. Além disso, tão acostumados estamos com o decadente modo de usar a terra e seus recursos, que pouco valor damos às possibilidades econômicas que o ambiente natural preservado oferece.

É lamentável que representantes da agricultura familiar estejam lutando do lado errado. Deveriam saber que o máximo que podem conseguir desta forma é se eternizar na dependência a que estão sujeitos, enquanto os “maggis” e cia., com seus colossais latifúndios, crescem cada vez mais. Podem até regularizar suas terras perante a lei, mas não podem evitar as estiagens. Até quando os subsídios do governo irão amenizar as perdas?

Primeiro se cria um deserto, para que depois venha a água e leve tudo. Quem sabe só mesmo um dilúvio faria uma reforma de verdade.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo