
Informa o Globo sobre a reviravolta nas eleições britânicas que deve ser observada e analisada por todos os estudiosos da política, principalmente pela interessantíssima correlação entre a implantação dos debates televisivos e a ascenção do liberal-democrata Nick Clegg:
“No ano passado, quando fez uma insistente campanha pela realização de debates televisivos entre os líderes dos principais partidos britânicos, David Cameron tinha a ideia fixa de expor em cadeia nacional as dificuldades de retórica do trabalhista Gordon Brown. Ambos aceitaram distraidamente a participação do líder liberal-democrata, Nick Clegg. Mas, além de terem-no revelado ótimo orador, as sessões foram o estopim de uma reviravolta que, na próxima quinta-feira, pode resultar numa guinada histórica no cenário político britânico: o fim do bipartidarismo – símbolo tão tradicional do Reino Unido como os táxis pretos e as cabines telefônicas vermelhas.
Os três partidos entraram na semana da eleição embaralhados nas projeções de institutos de pesquisa. Por mais distorcidos que sejam, por causa do complexo sistema eleitoral britânico, os levantamentos também revelam um momento de reflexão e rebelião de um eleitorado desgastado por décadas de desmandos das duas principais legendas. Para os conservadores, há a lembrança dos tempos de austeridade sob comando de Margaret Thatcher. Já os trabalhistas enfrentam a insatisfação com os efeitos da recessão, sobretudo o aumento do déficit público e do desemprego.
Ambos, porém, saíram feridos do escândalo de despesas parlamentares que no ano passado abalou seriamente a credibilidade da velha ordem. O equilíbrio foi posto novamente à prova quando Clegg ganhou uma tribuna para milhões de britânicos que dificilmente paravam em frente à TV para assistir à sabatina parlamentar semanal entre os líderes.
- Foi preciso dar um pouquinho de voz a Nick para que o público percebesse que não precisa ter medo de desafiar a velha ordem. É importante que o eleitor, não a mídia ou o status quo, decidam qual partido merece o voto. Há tempos que merecemos um pouco mais de oportunidades – afirma Paddy Ashdown, líder dos lib-dems entre 1989 e 1999.
Ashdown se refere ao fato de que o terceiro partido já vinha desafiando o duopólio conservador-trabalhista desde sua época. Clegg, porém, merece um pouco mais de crédito – tanto por ter ensaiado exaustivamente para os debates, quanto por saber avaliar a oportunidade de cativar o eleitorado com um discurso áspero nas críticas e audacioso em propostas como cortes de benefícios familiares e no programa nuclear do país. As mais recentes pesquisas preveem que os liberais-democratas chegarão a mais de 80 cadeiras no próximo Parlamento, mas sua presença pode ser maior que a sugerida pela matemática.
- A importância de Clegg não está no que diz, mas no que representa. Por anos seu partido foi invisível, ao ponto de alguns jornais britânicos sequer enviarem repórteres para as conferências nacionais – opina David Yelland, ex-editor do tabloide ‘The Sun’. – Simplesmente assumiu-se que o terceiro partido nunca ganharia uma eleição. Agora os lib-dems foram descobertos por um público afastado por décadas de mesmice e corporativismo.
A eleição caminha para um cenário de impasse, em que nem trabalhistas nem conservadores terão poder suficiente para um mandato sólido. Clegg poderá se transformar no que a mídia britânica chama de ‘fazedor de reis’ com seu apoio. Em troca, exigirá uma reforma eleitoral que ponha fim ao complexo sistema distrital em vigor.
Parte das possíveis barganhas vai incluir a presença de lib-dems num futuro Gabinete – no caso de uma aliança com os trabalhistas, os rumores são de que o terceiro partido exigiria ser representado nas pastas de Interior e Finanças, com Clegg assumindo também a vaga de vice-premier, levando ainda a cabeça de Gordon Brown como prêmio. Também não se descarta a hipótese de endosso aos conservadores, mesmo que sem coalizão.
- Imagine a fúria do público se, depois de semanas de campanha eleitoral, o Reino Unido aparecesse com um novo premier assumindo o cargo sem ser eleito. Os lib-dems simplesmente seriam vistos como cúmplices – analisa Mehdi Hasan, comentarista da ‘News Statesman’, uma das principais revistas políticas britânicas.
Temores de instabilidade nos moldes de sistemas caóticos como Israel e Bélgica já sinalizam novos tempos. De pedra no sapato, o terceiro partido abriu uma brecha na arena política britânica, provando que outros partidos minoritários – seja o extrema-direita BNP ou os progressistas ambientais do Partido Verde – ainda podem entrar no jogo.
O efeito parece chegar também às raízes do processo político: desde o início dos debates, distritos britânicos registraram um aumento médio de 17% no número de eleitores registrados, sobretudo no público de 18 a 24 anos. Os números surpreendem diante de tendência cada vez maior de evasão das urnas. Entre 1950 e 2005, o índice de comparecimento caiu de 83,9% para 61,4%, sendo que o pleito de 2001 registrou apenas 59,4%.
- As mudanças vão acontecer, por mais que as elites políticas conservadoras e trabalhistas lutem contra e tentem, de forma imoral, retratá-las como algo terrível ou arriscado para os interesses nacionais. Os tempos mudaram – garante o cientista político Patrick Dunleavy, da London School of Economics. “
Reforma eleitoral…
Palavra-chave que vale para lá e para cá.