Arquivo da seção ‘14. História’

Comerciais do PT: Defesa da eleição plebiscitária e um quê de messianismo

11/12/2009

Foi ao ar o programa institucional do PT. Foram 10 minutos, à noite, em rede nacional. As entrelas do comercial foram, como já era de se esperar, o Presidente Lula e a Ministra Dilma Rousseff.

A comparação entre o governo Fernando Henrique Cardoso e o governo Lula deu o tom da peça publicitária. Além disso, as falas de Dilma Rousseff procuravam, obviamente, aproximá-la mais e mais do Presidente, apresentando-a como a responsável pelo PAC, pelo Minha Casa, Minha Vida, etc.

Até aí, nada demais. É natural que o governo aposte na comparação com o governo tucano passado, afinal, a atual gestão é bem avaliada, enquanto a gestão passada tem uma memória ruim junto ao eleitorado. Parte desse memória é devida, parte não é, mas isso não vem ao caso no momento.

O que importa é que Dilma e Lula trouxeram a estratégia da eleição plebiscitária para a tela da televisão, além de tentarem fazer a Ministra nadar no mar de popularidade do Presidente.

Pois bem. Acontece que não foi só isso. Em tudo na vida existem nuances, tons, modos.

O comercial do PT não apenas comparou Lula a FHC e apresentou Dilma como a continuidade de Lula. Ele também valorizou ao extremo as conquistas do governo atual, tentando passar uma imagem de que, no Brasil, antes de Lula, só havia trevas.

Isso não é verdade. Conquistas brasileiras foram consolidadas desde os tempos de D. Pedro II, até os de Itamar Franco, passando por Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e, até mesmo, José Sarney.

Obviamente, o governo Fernando Henrique também teve sua parcela de contribuição. Pequena em alguns setores, mas grandiosa na economia.

Sendo assim, é um tanto falsa a mensagem petista de que Lula trouxe a luz e de que ela se apagará se Dilma não vencer.

Em suma, entendo como natural a comparação das gestões e a dobradinha feita por Lula e Dilma na frente das câmeras. O que não concordo é com o tom messiânico utilizado em alguns momentos, como se Lula fosse um ser fora do comum.

Nunca foi, não é e dificilmente será. Assim como FHC, assim como Dilma, assim como Serra, assim como eu e você.

A defesa da eleição plebiscitária é uma jogada política inteligente, natural.

O quê de messianismo é totalmente dispensável. Não faz nada bem para as instituições e traz um cheiro detestável de caudilhismo.

Análise: Rivais 20 anos atrás, Collor e Lula se aliam

17/11/2009

Diversos meios de comunicação têm lembrado um fato que realmente não poderia nunca passar desapercebido: Os 20 anos das eleições de 1989, o primeiro pleito presidencial direto depois de aproximadamente duas décadas de ditadura.

No dia 15 de novembro, dia da Proclamação da República, aquele primeiro turno completou vinte anos. Daqui a algumas semanas, será o segundo turno que completará duas décadas.

Quando alguém se lembra disso, lembra-se também que os contendores eram Fernando Collor e o nosso atual Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Daí para as rememorações das investidas não tão morais travadas por Collor contra Lula o caminho é curto.

Obviamente, a partir do momento que essas lembranças surgem, aparecem também as comparações com a realidade atual. E é nesse ponto que reside a ironia maior: Hoje, depois de tantas atitudes condenáveis por parte de Collor e tantas críticas e insultos por parte de Lula, os dois são aliados.

Diversos militantes históricos do PT ficaram, por exemplo, perplexos com a foto de um acalorado abraço de Lula em Collor, seguido de elogios do primeiro em direção ao segundo. Essa reação de muitos petistas dá uma noção de quão contraditória é a relação atual entre os dois se analisada à luz da história política nacional.

A aliança entre Collor e Lula é, para o ex-Presidente, uma comprovação de seu retorno à ribalta política, por mais que com menos intensidade, obviamente, do que em tempos passados. Para Lula, a união tem cheiro de traição de convicções, de rendição às conveniências, de absurdo.

Para quem assistiu o último debate presidencial das eleições de 1989 e assistiu a Collor estocando Lula verbalmente e para quem ouviu Lula afirmar que a Rede Globo favoreceu Collor na edição das imagens do debate, causa surpresa assistir os dois entre elogios e abraços.

Enquanto isso, Collor quer concorrer ao governo de Alagoas. Se o fizer, conta com o apoio incondicional de Lula.

Uma aliança entre Collor e Lula, 20 anos depois de 1989, demonstra duas coisas: Que Collor continua o mesmo e que Lula se peemedebizou.

20 anos da queda do muro de Berlim: Ainda perdura a divisão entre os homens

09/11/2009

A Guerra Fria foi, sem dúvida alguma, um dos momentos mais tensos da história da Humanidade. Durante algumas décadas, pessoas de diversos países temiam as consequências de se ter um mundo acirradamente bipolarizado.

As superpotências e suas ideologias rachavam o mundo. Uma briga de pensamentos se tornara uma guerra de indivíduos. As clandestinidades, a espionagem e os acordos ocultos destruíam a confiança mútua, tanto entre os povos, como entre os amigos.

Disputas como as guerras da Coreia e do Vietnã e corridas como a armamentista e a espacial agitaram os ânimos no período entre 1950 e 1990.

Todos esses ingredientes eram parte de uma receita nociva, contudo, poucos deles se tornavam tão latentes, quando o bolo era fatiado, quanto o muro de Berlim. Esta obra tornou física, real, uma separação fictícia, criada por nós, humanos, em nossas relações de poder. Por conta disso, tornou-se símbolo desta era de incertezas protagonizada por Estados Unidos e União Soviética.

Eram 66,5 km de grades, 302 torres, 127 cercas elétricas e 255 pistas para cães de guarda. Foram, oficialmente, 80 mortos, 112 feridos e milhares aprisionados nas tentativas de travessia. Porém, de certa forma, o muro de Berlim doía menos no corpo e mais na alma dos berlinenses.

Familiares foram separados de outros familiares. Mulheres foram distanciadas de seus maridos. Filhos foram afastados de seus pais. Uma cidade, historicamente una, se viu transformada em duas por uma parede que parecia intransponível e sem fim. Uma parede levantada única e exclusivamente por conta de uma luta por poder e influência. Uma guerra de vaidades que, na realidade, eram e sempre serão vãs.

Desde o bloqueio de Berlim até a destruição do muro se passaram 40 anos. Alemães nasceram e morreram aos milhões enquanto ele ainda fazia parte da paisagem. Os que nasceram não compreendiam uma vida sem ele. Os que morreram deixaram a vida sonhando com sua queda.

Com o desmantelamento do comunismo, processo gradual que culminou com o fim da divisão de Berlim, começaram as reivindicações contra o muro. Ronald Reagan disse a célebre frase: “Mr. Gorbachev, tear down this wall!”

Eventualmente, o muro foi destruído. O momento surpreendeu, mas o fato já era esperado. Por mais que até mesmo líderes ocidentais, como Margaret Thatcher  e François Mitterrand, temessem o que poderia advir do fim da existência de duas Berlins e de duas Alemanhas, o ímpeto dos cidadãos foi incontestável.

A Alemanha se reunificou e logo venceu, unida, uma Copa do Mundo, mas a desigualdade entre o oeste e o leste perduram e tomarão mais algumas décadas de esforço para serem dirimidas. A Guerra Fria terminou, mas o ranço, as consequências e o espírito ainda estão vivos. O mundo não é mais bipolar, mas a multipolaridade de hoje é explicada por esse passado. A CIA continua agindo e Vladimir Putin, que manda e desmanda na Rússia, é cria da KGB.

O monstro de pedra e arame ruiu, destruindo ilusões de comunistas ao redor do mundo e consolidando uma supremacia do capitalismo que se mantém até hoje, em uma atualidade onde o sistema enfrenta, dessa vez, inimigos ocultos, núcleos sem pátria e sem bandeiras, muito mais perigosos e covardes do que os soviéticos. Hoje, o adversário é desconhecido.

Na noite de 9 de novembro de 1989 o mundo evoluiu. Não necessariamente pela vitória do capitalismo, mas sim, pela pequena, mas representativa, diminuição da divisão entre os homens que, infelizmente, ainda perdura.

Que a lembrança da queda do muro sirva de exemplo para os atuais intolerantes.

Mussolini trabalhou a serviço da Inglaterra na 1ª Guerra

14/10/2009

Informa o jornal português Público, a respeito do fato de terem sido constatadas provas documentais de que Benito Mussolini, ainda nos tempos da Primeira Guerra Mundial, recebeu dividendos advindos da Inglaterra para defender, em seu jornal, que a Itália se mantivesse na guerra ao lado da terra da Rainha:

“O ditador italiano Benito Mussolini foi um agente secreto inglês antes de ter fundado o regime fascista que lutaria contra os exércitos do Reino Unido durante a II Guerra Mundial, revelou o diário britânico Guardian.

Um historiador de Cambridge, Peter Martland, descobriu nos arquivos britânicos documentos que provam que em 1917 Benito Mussolini foi pago pelo MI5, os serviços secretos de Londres, para escrever artigos a favor da continuação da Itália na I Guerra Mundial ao lado dos aliados e atacar manifestantes pacifistas.

Mussolini, então um jornalista de 34 anos, editava o jornal ‘Il Popolo d’ Italia’ e controlava grupos de antigos veteranos do exército, que atacavam manifestações contra a presença italiana na guerra em Milão.

‘Depois da Rússia revolucionária ter saído do conflito, a Itália era o aliado mais falível dos britânicos no conflito. Mussolini recebeu uma soma de cem libras por semana a partir do Outono de 1917 durante pelo menos um ano para manter a campanha pró-guerra – uma verba equivalente a seis mil libras hoje (cerca de 6400 euros)’, disse Peter Martland ao Guardian.

‘A última coisa que a Grã-Bretanha queria eram manifestações a favor da paz e greves que parassem as fábricas de armamento em Milão. Era muito dinheiro para um jornalista naquela época, mas comparado com o esforço financeiro britânico – quatro milhões de libras diários – eram apenas trocos’, acrescentou.

O caso já fora mencionado em 1954 nas memórias de Sir Samuel Hoare, o agente do MI5 que recrutou Mussolini, mas esta foi a primeira vez que foram encontradas provas documentais, como os pagamentos feitos ao ditador italiano.”

Revelada foto em que Hitler e Lenin jogam xadrez antes do estrelato político

04/09/2009

Informa o Globo:

“Uma imagem extraordinária que mostra um jovem Adolf Hitler jogando xadrez com Vladimir Lenin, há 100 anos, foi recentemente revelada e está sendo leiloada por cerca de R$ 122 mil. A foto, que teria sido tirada pela professora de arte do ditador alemão, a judia Emma Lowenstramm, em Viena, no ano de 1909, contém as assinaturas de ambos os políticos no verso.

Quando a gravura foi feita, Hitler tinha cerca de 20 anos e Lenin, aproximadamente o dobro de sua idade. O alemão era então um artista amador e Lenin encontrava-se exilado na capital austríaca. A casa onde os dois se encontraram para jogar – e discutir uma série de questões que permanecem uma incógnita – pertencia a uma família judia proeminente. Com a Segunda Guerra Mundial, a família precisou fugir e acabou dando muitos dos seus bens – incluindo a foto em questão – para os seus empregados. E é justamente o tataraneto da governantas desta família que agora tenta vender tanto o registro histórico, quando as peças do antigo jogo de xadrez.

Peritos, no entanto, questionam a autenticidade da imagem e das assinaturas que ela traz.”

Pode ser que a fotografia não seja autêntica, porém, se o for, será, com certeza, uma das maiores da história. Um registro em imagem de um encontro até então desconhecido entre dois dos maiores personagens políticos da história – e para jogar um jogo tão estratégico quanto o xadrez, diga-se de passagem – é algo sensacional.

Este blogueiro não louva Lênin e, muito menos, Hitler. Mas a fotografia é, sem dúvida, histórica, caso seja verdadeira.

Artigo: Fé demais não cheira bem – Lucio Mauro Filho

23/08/2009

Reproduzo ótimo e muito bem embasado artigo sobre a sensação atual dos que votaram no PT no passado escrito pelo ator Lucio Mauro Filho, herdeiro do grande Lucio Mauro e conhecido pelo personagem ‘Tuco’ da série global ‘A Grande Família’.

O artigo traz cronologia perfeita dos problemas éticos dos dois mandatos de Lula e ilustra com importantes fatos. Ele segue na íntegra e foi publicado em O Globo. Confiram:

Fé demais não cheira bem

Lucio Mauro Filho*

Em outubro de 2002, nós artistas fomos convidados a participar de um encontro com o então candidato à Presidência da República Luis Inácio Lula da Silva na casa de espetáculos Canecão, no Rio de Janeiro. Fui ao encontro como eleitor de Lula desde o meu primeiro voto e também como cidadão brasileiro ansioso por mudanças na forma de se fazer política no país. O clima era de festa, com muitos colegas confraternizando e um sentimento que desta vez a vitória viria.

Na porta principal da casa, uma tropa de políticos do PT e da coligação partidária recebia a todos com bottons, apertos de mãos firmes e palavras de ordem. E no meio de quadros tão interessantes da nossa política, este que vos fala foi recebido justamente por quem? Pelo Bispo Rodrigues (hoje ex-político e ex-religioso).

As pulgas correram todas para trás da minha orelha. Ser recebido no encontro do Lula com os artistas pelo bispo da Igreja Universal filiado ao extinto PL não era bem o que eu esperava daquela ocasião. Era um prenúncio claro do que viria a acontecer depois.

Veio o apoio do PTB de Roberto Jefferson, que tinha horror a Lula, mas que mesmo assim acabaria recomendando o voto no candidato do PT, como forma de desagravo ao então presidente do seu partido, José Carlos Martinez, que por sua vez tinha ódio por José Serra, a quem considerava culpado pela volta aos jornais da história do empréstimo que ele teria recebido de Paulo César Farias, no início dos anos 90. Com essa turma, a candidatura de Lula chegava à reta final.

A vitória veio e, com ela, uma onda de otimismo e de esperança em dias melhores, de mais inclusão, mais justiça social e menos corrupção e descaso. Éramos os pentacampeões mundiais no futebol e com Lula presidente ninguém segurava essa Nação. Pra frente Brasil!

Depois de dois anos de namoro, os ventos começaram a mudar com o surgimento de uma gravação onde Waldomiro Diniz, subchefe de assuntos parlamentares da Presidência da República, extorquia um bicheiro para arrecadar fundos para as campanhas eleitorais do PT e do PSB no Rio. O fato foi tratado como um deslize isolado de um funcionário de segundo escalão que de forma alguma representava a ideologia do Partido dos Trabalhadores. Waldomiro foi afastado do governo.

Em meados do ano seguinte surgiu uma nova gravação, onde o então funcionário dos correios Maurício Marinho aparecia recebendo dinheiro de empresários. Ele dizia ter autorização do deputado Roberto Jefferson do PTB. Em defesa de seu aliado, o presidente Lula afirmou na época que confiava tanto em Jefferson que lhe daria um “cheque em branco”.

As investigações foram aprofundadas e na base do “caio, mas levo todo mundo junto”, o deputado afirmou em entrevista à “Folha de São Paulo” que existia uma prática de mesada paga aos deputados para votarem a favor de projetos de interesse do governo. Lula deu o cheque em branco e recebeu de volta a crise que derrubaria, um por um, os homens fortes do seu partido. E de uma hora para outra, José Dirceu, José Genoíno, Antônio Palocci, João Paulo Cunha e outros políticos que tanto admirávamos, chafurdaram na lama da política suja, com histórias de abuso de poder, tráfico de influência e até coisas inimagináveis, como dólares transportados em cuecas e saques em boca de caixa totalmente suspeitos.

Acabou a inocência. O PT começou a desprezar quadros importantes do partido que não concordavam com as posições incoerentes com a luta pela ética e a moralização do país. Pior do que isso, acabou por expulsar alguns deles, como a senadora Heloísa Helena e os deputados Babá e Luciana Genro. Outros saíram por também não concordarem com as práticas até então impensáveis para um partido que se julgava detentor da bandeira da honestidade. E assim partiram Cristovam Buarque e Fernando Gabeira.

Apesar de toda uma nova geração de políticos interessados em refundar o partido e aprender com os erros, como José Eduardo Cardozo, Delcídio Amaral e Ideli Salvati, o PT preferiu manter a estratégia do aparelhamento, do fisiologismo e do poder a todo custo, elegendo o pau mandado Ricardo Berzoini novo presidente do partido. Ele representava o Campo Majoritário, grupo que sempre esteve na presidência do PT desde sua fundação.

Depois que nada foi provado na CPI do Mensalão, o Partido dos Trabalhadores percebeu que a bandeira da ética já não importava mesmo e começou novamente uma fase “rolo compressor” de conchavos e blindagens com o que há de pior na política brasileira. Veio o segundo mandato e com ele o fato. O presidente Lula cada vez mais nas mãos do PMDB, o partido que definitivamente não está nem aí com ideologias, ética ou qualquer coisa parecida.

Depois da derrocada dos grandes caciques do PT, restou Dilma Roussef, a super ministra, como única opção de candidatura para a sucessão do presidente Lula. Mas Dilma não tem carisma nenhum. É uma figura técnica, fria. Precisa desesperadamente do presidente preparando palanques com dois anos de antecedência, emprestando toda a sua popularidade, como uma espécie de “ghost charisma”. Precisa também do PMDB com seus acordos e chantagens como co-patrocinador político da candidatura.

Para isso, foi preciso o governo se meter em mais outra crise e comprovar que é muito mais PMDB que PT. Depois de Jefferson, Bispo Rodrigues, Severino Cavalcanti, os eleitores do Lula estão tendo que agüentar o pior. Ver o presidente de mãos dadas com Fernando Collor, Renan Calheiros e José Sarney. E ver um Conselho de Ética formado em sua maioria por suplentes como os senadores Wellington Salgado, Gim Argello e até o presidente do conselho, Paulo Duque, que afirmou que “adora decidir sozinho”.

No momento em que políticos como Aloizio Mercadante tentam juntar os cacos do PT, tomando atitudes coerentes com o que o partido sempre pregou, lá vem o executivo com sua emparedada já tradicional, desautorizando o líder de sua bancada, mais uma vez constrangido pela direção do PT. E as promessas as quais me referi lá atrás, Delcídio e Ideli, votaram a favor do arquivamento de tudo e da permanência do que aí está. Mais uma vez, o fim justifica os meios.

E assim, é a vez de Marina Silva abandonar o barco, cansada de guerra. A ex-ministra do Meio Ambiente que viu o presidente Lula entregar nas mãos do ministro extraordinário de assuntos estratégicos, Mangabeira Ünger, o Programa Amazônia Sustentável (PAS). Justo ela, uma cidadã da Amazônia. Foi a gota d’água. Desautorizada, Marina deixou o cargo. Agora, deixa o partido. E o Mangabeira Ünger? Voltou para Harvard para não perder o salário de professor (em dólar), deixando os assuntos estratégicos para o passado.

Esse é o atual panorama da política nacional. Deprimente. Políticos dizendo na cara de seus eleitores que realmente estão se lixando. Acabou o pudor. Com o presidente Lula corroborando tudo que é canalhice e uma oposição que é também responsável por tudo que aí está, pois governaram o país por todos esses anos e ajudaram a moldar todas as práticas que o governo do PT aperfeiçoou, talvez estejamos realmente precisando de uma terceira via.

Eu não sei se imaginei um cenário tão devastador quando constrangido evitei o aperto de mão do Bispo, lá na porta do Canecão. Mas um trocadilho não me sai da cabeça: “Fé demais não cheira bem”.

*Lucio Mauro Filho é ator e roteirista

Jorge Semprún, que lutou contra Franco, diz não ser vítima do franquismo

10/07/2009

Jorge Semprún, para quem não sabe, é espanhol e foi membro da resistência francesa durante a ocupação nazista, tendo sido detido e sobrevivendo ao Holocausto.

Mais tarde,  continuou na luta e passou a ser ativista contra o regime de Franco na Espanha, participando, na clandestinidade, do Partido Comunista espanhol.

Pois bem. Em uma entrevista recente, Semprún foi perguntado a respeito de se sentir, ou não, uma vítima do franquismo.

A resposta foi a seguinte: “Não me considero vítima do franquismo. As vítimas são aqueles que sofreram a repressão com passividade. É uma distinção que faço… mas, como lutei contra, não me considero vítima, mas ator nesse período histórico. A reconstrução da democracia na Espanha fez triunfar os valores democráticos que eram os dos vencidos na Guerra Civil.”

Faço este registro por um simples motivo: É um ótimo exemplo para aqueles que lutaram com coragem contra a ditadura brasileira, se opondo corretamente e heroicamente à repressão, mas que, mais tarde, entendendo que deveriam ser recompensados financeiramente, e não apenas  com a gratidão de todo um País, por uma batalha que empreenderam voluntariamente e por um ideal, requereram a “Bolsa-Ditadura”.

A pergunta que me vem à cabeça é sempre a mesma: Se a luta dos que batalharam contra o regime militar no Brasil era pela democracia e pelo nosso País, porque pedem compensação financeira? A abertura política, a democracia brasileira e a liberdade de expressão, conseguidas, não eram os objetivos da luta?

Entendo e defendo os que requerem indenização por terem perdido parentes, ficado inválidos ou sido torturados.

Mas não compreendo os que, por apenas terem participado de grupos clandestinos, ou até algo mais brando, querem ser sustentados pelo Estado brasileiro.

Vocês lutaram por algo e conquistaram. Sintam-se felizes e satisfeitos. Verdadeiros heróis. Mas não tentem levar vantagem, já na terceira idade, com isso.

Aprendam com Semprún.

Morre o marcante e controverso Robert McNamara

07/07/2009

Por mais que muitas de suas atitudes tenham sido extremamente duvidosas se levarmos em conta um critério moral e que outras possam ter sido equivocadas no quesito estratégia, é inegável que Robert McNamara marcou época.

Ele, que foi arquiteto da Guerra do Vietnã, passou anos tentando contornar as consequências morais do conflito que foi perdido pelos americanos. Um verdadeiro vexame, que ainda representou a perda de bilhões de dólares.

Como informa a Folha, McNamara foi secretário de Defesa por sete anos, entre 1961 e 1968, nas administrações dos presidentes John F. Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-69).

Durante este período, ele supervisionou centenas de missões militares, milhares de armas nucleares e bilhões de dólares em gastos militares de um dos países mais belicosas do mundo.

McNamara admitiu, muitos anos após a Guerra do Vietnã, que conduziu de forma equivocada o conflito. Ele foi ainda Presidente do Banco Mundial.

Alguns de seus movimentos geopolíticos são estudados como modelos de boa estratégia. Outros são observados com cuidado pelos estrategistas para saberem o que não deve ser feito.

Percebe-se que, seja no acerto ou no erro, McNamara é marcante, eterno, no que tange o seu setor de atuação: A geopolítica, a estratégia militar e a articulação.

É por isso que o Perspectiva Política faz o registro.

Plano Real completa 15 anos

01/07/2009

O Real, avanço inegável para a economia nacional, foi implantado no dia 1° de julho de 1994, ou seja, exatamente 15 anos atrás. Já existe, graças a ele, toda uma geração de jovens brasileiros que não conheceu a hiperinflação.

A mistura de lições econômicas aprendidas no passado com técnicas nunca antes aplicadas no País deu resultado e fez com  que o plano econômico tivesse sucesso e trouxesse a estabilidade econômica.

Independentemente de sermos tucanos, petistas ou nenhum dos dois, é necessário reconhecer os grande méritos do Plano Real que, de tão bem-sucedido, garantiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso.

Sendo assim, os 15 anos do Plano Real devem ser motivo de orgulho e comemoração para todos os brasileiros, de todos os pontos do espectro político. Afinal, foi o Real que rendeu dividendos políticos enormes e discurso eterno para o PSDB e que, ao mesmo tempo, permitiu que o País estivesse na situação econômica que possibilitou muitas medidas do PT.

Como informa a Folha, a entrada em circulação do real foi o passo final do Plano Real, que entrou em vigor em fevereiro do mesmo ano. Sua missão principal parecia inglória à época: eliminar a hiperinflação. Em junho de 1994, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) bateu em 47,43% ao mês, e estava em ritmo ascendente. Algo impensável nos dias de hoje, quando o mesmo índice subiu 0,47% na sua última leitura, de maio, e causa calafrios na equipe econômica quando ameaça passar dos 5% ao ano.

Mas é claro que o Real não é perfeito: O Plano trouxe um fim da inflação que também trazia problemas que atingiam as contas públicas e os bancos. Tudo estourou em janeiro de 1999, quando houve a maxidesvalorização do Real, no que é considerado o ponto mais crítico da história da moeda brasileira.

Para resolver o problema, o governo criou aquela que foi uma das instituições mais controversas deste período: o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional), que gastou R$ 30 bilhões. Alguns criticam o Proer até hoje, outros afirmam que foi ele que, anos mais tarde, permitiu que o Brasil não afundasse na crise que temos hoje, coisa que é creditada na conta do governo Lula.

Em suma, com muitos acertos e alguns erros, o Real foi sem dúvida uma das coisas mais importantes para o Brasil nas últimas décadas e é legado positivo deixado por Fernando Henrique, um dos que contrabalançam as heranças ruins.

Por isso, reproduzo abaixo um trecho de uma entrevista concedida por Fernando Henrique Cardoso à Folha, onde ele fala sobre o Real. Para manter a independência política do Perspectiva, me atenho aos comentários sobre o Plano Real em si.

Sem mais delongas, segue o trecho:

FOLHA – A que o sr. atribui o sucesso do Plano Real?
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
– Houve várias experiências antes do Real e aprendemos com elas a enfrentar a inflação. Aprendemos com os erros. A sociedade se cansou da inflação. As pessoas sentiram que era necessário mudar e que a mudança era possível. Depois, tomamos a decisão certa de fazermos um plano tecnocrático. Nos planos anteriores, as pessoas acordavam e liam no ‘Diário Oficial’ que tudo tinha mudado. Nós tomamos a decisão oposta. Nós fomos à mídia explicar o plano de uma forma muito didática e a população entendeu.

FOLHA – Houve resistências?
FHC
– Meus amigos economistas, na época subordinados, achavam que seria difícil a implementação do plano. Alegavam que o governo era fraco, tinha acabado de ocorrer o impeachment e o Congresso estava desorganizado com a crise dos anões do Orçamento. Minha posição era o contrário. Com o Congresso em desorganização e como o governo não tinha muita unidade naquele momento, foi possível uma certa hegemonia e tocar o plano adiante. O Congresso estava sem força, e o governo, procurando uma tábua de salvação. Havia muita gente, inclusive do governo, que queria o controle de preços e que se prendessem supermercadistas. Muitos defendiam a volta dos fiscais do Sarney. Mas não tiveram força para nos opor. Recebemos um apoio amplo de todos os setores econômicos e da mídia. Foi difícil ficar contra o plano. O PT e a CUT saíram com o slogan ‘Real é pesadelo, não é sonho’, mas imediatamente tiveram que tirar das ruas. As pessoas sentiram logo o aumento do poder aquisitivo, a vantagem de seus salários serem reajustados automaticamente. Logo depois do Real, o consumo cresceu imensamente com a queda da inflação. No início de 1995, a economia crescia a taxas anualizadas acima de 12%. Tivemos até que brecar esse crescimento. Como ocorre agora, se largar demais a economia sem investimento, vai haver problemas lá na frente.

FOLHA – Qual foi a principal marca deixada pelo Real?
FHC
– O Real deu sentido de proporção. Ninguém sabia o valor de nada. As pessoas aprenderam, por exemplo, o valor da moeda. Aprenderam que não se pode endividar além de um certo limite. Foi o Real que possibilitou, por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas as pessoas acham que a estabilização está garantida, e não está. É um trabalho permanente. Quantos anos levamos a chegar a esse ponto? Não houve milagre. Foi preciso trabalhar nos fundamentos, refazer orçamentos, ajustar os gastos públicos, o câmbio. Veja que só agora estamos conseguindo baixar as taxas de juros. Quando se tem uma economia doente e inchada como a nossa, a cura não é rápida. Você faz a operação e tem que ajustar todo o corpo à nova situação. Isso já está mais enraizado, nós aprendemos isso, mas mesmo assim neste exato momento as pessoas não estão prestando atenção aos aumentos de gastos públicos. Há uma certa anestesia geral. Não se pode fazer qualquer coisa na economia.”

Elio Gaspari: A burocracia e os poderes do Planalto

12/04/2009

Elio Gaspari conta em sua coluna de hoje história sensacional que comprova que a burocracia brasileira vergonhosamente desvirtua as ordens de qualquer governante, seja ele de esquerda ou de direita, alto ou baixo, magro ou gordo, barbudo ou careca, se é que vocês me entendem:

“Pela enésima vez Nosso Guia reuniu sua equipe para pedir que as coisas aconteçam. Sua queixa é a mesma: o governo decide, os burocratas aplaudem, o tempo passa e tudo continua na mesma. Trata-se de uma briga eterna.

Os poderes do Planalto, supostamente infinitos, às vezes são humilhados. Em 1966, o presidente Castelo Branco e o presidente da Câmara, Adauto Lúcio Cardoso, entraram num curso de colisão quando o deputado se recusou a aceitar a cassação do mandato de seis parlamentares.

O marechal achou que só havia um caminho: fechar a Câmara. Planejou-se a operação militar, a tropa cercou o Congresso e uma equipe foi mandada ao centro de distribuição de energia elétrica para que, à hora combinada, o prédio ficasse às escuras.

Tudo funcionava de acordo com o plano. As comunicações telefônicas já haviam sido cortadas e, quando chegou o momento do apagão, o chefe de Serviço Nacional de Informações, Golbery do Couto e Silva, e seu secretário, Heitor Ferreira, foram a uma janela do Planalto para ver o espetáculo. Tchan. Apagaram-se as luzes do Palácio do Planalto.”