Arquivo da seção ‘15. FHC’

PSDB decide seus rumos de olho na sobrevivência

24/08/2010

Informa a Folha:

Preocupado com a queda do candidato José Serra nas pesquisas de opinião, o comando do PSDB já discute ajustes na campanha nacional e uma estratégia de sobrevivência da oposição em caso de derrota na corrida presidencial.

O partido apostará suas fichas na eleição de governadores de quatro Estados: São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás.

Além da correção de rumo para a Presidência, a cúpula tucana se reúne, amanhã em São Paulo, para discutir o futuro da campanha e o destino do partido.

Chamado a São Paulo a pretexto de gravar sua participação na propaganda de Serra, o ex-governador de Minas Aécio Neves tem encontro marcado com o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra (PE).

Segundo tucanos, está prevista ainda a participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na conversa. A assessoria de FHC afirma, porém, que ‘até o momento, não consta nada do tipo na agenda dele’.

Serra deve estar no Rio Grande do Norte amanhã, dia da reunião”.

É o PSDB de olho na sobrevivência da oposição no Brasil.

Pela democracia, seria saudável que ela sobrevivesse.

 

Artigo: Em nome dos fatos – Mírian Leitão

11/08/2010

Tenho algumas reticências quanto ao que escreve Mírian Leitão. O que ocorre é que não tenho a mesma visão político-econômica dela.

Contudo, o artigo que a analista escreveu para as páginas de hoje do jornal O Globo não traz conteúdo opinativo no meu entendimento, e sim factual.

E no que tange aos fatos, está corretíssimo. Mírian traz a verdade sobre a política econômica recente do País e, por isso, publico aqui o artigo, com o qual concordo.

Ressaltando que creio, sim, que o governo Lula manteve a política econômica mas avançou no social, reproduzo, sem mais delongas o texto.

Em Nome dos Fatos

Mírian Leitão

Inflação fora de controle quem enfrentou foi o Plano Real. O acumulado em 12 meses estava em 5.000% em julho de 1994. Quando a inflação subiu em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique, pela incerteza eleitoral criada pelo velho discurso radical do PT, ficou em 12%.

Ela foi reduzida pelo instrumental que o PT havia renegado. Isso é a História. O resto é propaganda e manipulação.

O PT e o governo Lula têm dito que receberam o país com descontrole inflacionário e a candidata Dilma Rousseff repetiu isso na entrevista do Jornal Nacional. O interesse é mexer com o imaginário popular que lembra do tormento da inflação.

A grande vitória contra a inflação foi conquistada no governo Itamar Franco, no plano elaborado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, como todos sabem. Nos primeiros anos do governo FH houve várias crises decorrentes, em parte, do sucesso no combate à inflação, como a crise bancária.

Foi necessário enfrentar todas essas ondas para garantir a estabilização. Nada daquela luta foi fácil. A inflação havia derrotado outros cinco planos, e feito o país perder duas décadas.

Todos sabem disso. Se por acaso a candidata Dilma Rousseff andava distraída nesta época, o seu principal assessor Antonio Palocci sabe muito bem o que foi que houve. Ele ajudou a convencer os integrantes do partido a ter uma atitude mais madura e séria no combate à inflação.

O PT votou contra o Plano Real e fez oposição a cada medida necessária para consolidar a nova ordem. As ideias que o partido tinha sobre como derrotar a alta dos preços eram rudimentares.

Em 2002, a inflação subiu principalmente nos dois últimos meses, após a eleição. A taxa, que havia ficado abaixo de 6% em 2000, subiu um pouco em 2001 e ficou quase todo o ano de 2002 em torno de 7%. Em outubro daquele ano, o acumulado em 12 meses foi para 8,5%. Em novembro, com Lula eleito, subiu para 10,9% e em dezembro fechou em 12,5%.

É tão falso culpar o governo Fernando Henrique por aquela alta da inflação — de 12,5% repita-se, e não os 5.000% que ele enfrentou — quanto culpar o governo Lula pela queda do PIB do ano passado, que foi provocada pela crise internacional.

Recentemente, conversei com um integrante do governo Lula que, longe dos holofotes e da campanha, admitiu que essa aceleração final foi decorrente do fato de que a maioria dos empresários não acreditava que o governo Lula fosse pagar o preço de manter a estabilização.

Esse foi o mérito do PT. Foi ter contrariado seu próprio discurso, abandonado suas próprias propostas, por ter percebido o valor da estabilização.

Esse esforço foi liderado por Palocci e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A inflação entraria numa rota de descontrole que poderia até ter destruído o esforço feito durante os oito anos anteriores se o governo Lula tivesse persistido nas suas propostas.

A História foi essa e não a que a candidata Dilma Rousseff apresentou.

Campanha de Dilma evitará confronto de currículo com Serra

06/06/2010

Informa Paulo Celso Pereira, na Veja:

“Apesar de Dilma Rousseff vir insistindo em focar seus discursos na exaltação dos feitos do governo Lula, o comando de sua campanha não vê como passar toda a eleição fugindo do debate de currículo proposto por José Serra. A questão já foi discutida em reuniões da coordenação.

A conclusão foi a seguinte: como a derrota na comparação dos currículos é inevitável, devido à maior experiência executiva de José Serra, o importante é ter gordura para queimar.

Portanto, a ordem é continuar empurrando com a barriga esse debate para garantir que, quando ele se tornar inadiável, Dilma já esteja segura na liderança.”

A estratégia é correta eleitoralmente.

Ser elogiável moralmente e até politicamente já são outros quinhentos.

O brasileiro merece conhecer totalmente a trajetória e a experiência daqueles que almejam presidir a nação.

Evitar esse debate pode ser apropriado para vencer a disputa, mas não é o mais ético.

Por um lado, todos têm que saber que José Serra foi líder estudantil, exilado político, Senador, Ministro de Fernando Henrique Cardoso, Prefeito e Governador de São Paulo.

Por outro lado, todos têm que saber que Dilma Rousseff foi guerrilheira, Secretária no Rio Grande do Sul e Ministra de Lula.

Se um currículo é maior que o outro, paciência. Compense-se em outro campo. Não esconda-se essa discussão.

Simples assim.

Este que vos fala, particularmente, crê que Dilma Rousseff não tem trajetória suficiente para ser Presidente. Não concordo com candidaturas biônicas.

Contudo, eu respeitaria mais Dilma se ela admitisse que nunca concorreu a nada na vida, mas dissesse que tem conhecimento técnico suficiente para fazer um bom governo.

Seria mais franco. Como deve ser.

Da mesma forma, Serra não deve esconder FHC. Não é honesto intelectualmente.

A realidade é que todos sabem o que é o certo a se fazer.

Não se faz por conveniência eleitoral.

Serra quer um debate de currículo contra currículo pois tem muito mais experiência e serviços prestados do que Dilma.

Dilma quer um debate de governo contra governo porque participou de um governo muito mais bem avaliado do que aquele que teve Serra.

É tão difícil abrir esse jogo?

Não.

Não se abre por culpa do eleitor. Sim, do eleitor.

Aprendeu-se com o tempo que o candidato que só diz a verdade perde a eleição.

Uma pena.

Artigo: Ruy Fabiano – O PT e o centenário de Tancredo

08/03/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre a história do PT e a comparação entre o início da trajetória do partido e a legenda de hoje. Com maestria, cita os fatos, sem ilações, demonstrando as mudanças de posicionamento que vão sendo justificadas sob a bandeira do “pragmatismo”.

Destaque para o trecho: “Na eleição anterior, o PT recusara convite de Fernando Henrique para figurar na sua chapa como vice, o que lhe abriria espaço para sucedê-lo e consolidar uma aliança progressista que dizia desejar. Preferiu, porém, combater o Plano Real, empurrar o PSDB para uma aliança conservadora com o PFL e continuar marchando sozinho, contra tudo e todos.”

Fabiano novamente diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

O PT e o centenário de Tancredo

Ruy Fabiano*

A ausência do PT nas celebrações, promovidas pelo Senado na quarta-feira, pelo centenário de Tancredo Neves, guarda coerência com a história do partido.

Embora hoje sustente o contrário, o PT foi beneficiário, mas não protagonista (em alguns momentos, nem coadjuvante) do processo de redemocratização.

Chegou a combater algumas de suas iniciativas, como a candidatura do próprio Tancredo Neves à Presidência pelo colégio eleitoral, em 1984. Além de não apoiá-lo – considerando que tanto fazia elegê-lo como a Paulo Maluf -, expulsou três de seus deputados (Beth Mendes, José Eudes e Airton Soares) que decidiram sufragá-lo.

Quando da promulgação da Constituição de 88, anunciou que não a assinaria, por achá-la conservadora. E só o fez, sob protesto, por instâncias de Ulysses Guimarães, que pedia uma chance para aquele momento que se inaugurava.

Mesmo na campanha das diretas – e isso é fato histórico -, não estava na sua gênese. Incorporou-se à campanha quando já estava nas ruas e atraía multidões.

Não obstante, todas essas iniciativas, de que manteve asséptica distância, o beneficiaram, deram-lhe visibilidade. Mas o partido sustentava que não lhe era conveniente manter proximidade de políticos tradicionais, como Franco Montoro, Leonel Brizola, Tancredo Neves ou Ulysses Guimarães. Considerava-os, sem distinção ideológica, farinhas do mesmo saco.

A política deles era promíscua, enquanto a do PT guiava-se por paradigmas de pureza. Lula desdenhava do trabalhismo varguista, de Brizola, considerando-o superado e de índole pelega. O seu era diferente, moderno, distanciado do Estado.

Recusou alianças e manteve-se, até chegar ao poder, numa redoma de impenetrável sacralidade. Recusou todas as frentes oposicionistas que se armaram para enfraquecer o último governo militar, do general João Figueiredo, o que suscitou suspeitas de que agia sob a inspiração do estrategista do regime, general Golbery.

O partido esteve na linha de frente do impeachment de Collor, mas recusou integrar o governo Itamar, expulsando Luiza Erundina, por tê-lo aceito.

Expulsaria mais tarde, em 1996, o deputado Eduardo Jorge, por ter votado a favor da CPMF, que o partido então combatia, mas que Lula, na Presidência, considerou imprescindível para governar o país. Só não expulsou os mensaleiros e aloprados.

A primeira aliança admitida foi com Leonel Brizola, que, embora com muito mais bagagem e história, se submeteu a ser vice na chapa de Lula, em 1998.

Na eleição anterior, o PT recusara convite de Fernando Henrique para figurar na sua chapa como vice, o que lhe abriria espaço para sucedê-lo e consolidar uma aliança progressista que dizia desejar. Preferiu, porém, combater o Plano Real, empurrar o PSDB para uma aliança conservadora com o PFL e continuar marchando sozinho, contra tudo e todos.

Ao finalmente se eleger, em 2002, incorporou-se ao “mesmo saco” das farinhas que execrara. Buscou alianças conservadoras com o PMDB, PL (hoje, PRB, do vice José Alencar), PTB et caterva.

Criticava o neoliberalismo dos tucanos, mas buscara o seu vice no Partido Liberal. Criticava a política monetarista do Banco Central, mas escolheu um banqueiro tucano, Henrique Meirelles, para presidi-lo.

Condenava a política assistencialista da Bolsa Educação e dos vale-gás e vale-alimentação, mas incorporou-as sob o rótulo Bolsa Família, que se transformaria no carro-chefe de seus dois governos.

Lula depois esclareceria, algo que antes não se percebera: que era (é) uma “metamorfose ambulante”. Mas, embora mostre sintonia com o que há de mais condenável nas tradições políticas nacionais, insiste em que refundou o Brasil, idéia que, sob o bordão “nunca antes neste país”, permeia a quase totalidade de seus discursos.

Ao revogar tudo o que se fez, de Cabral (o Pedro Alvarez, não o Sérgio) a FHC, não há mesmo por que celebrar o centenário de Tancredo, algo que, para os petistas, equivale a uma peça de ficção.

O Brasil petista começa com Lula e prossegue com Dilma. Apossa-se do que de bom produziu o Brasil anterior, sonegando-lhe a autoria, e atribui o que há de ruim, inclusive o produzido sob sua égide, aos antepassados. Vale-se do desconhecimento que o povo tem da história, recente e remota, para convencê-lo de sua encenação.

Pior: consegue.

*Ruy Fabiano é jornalista

PSDB estaria planejando carimbar contas externas do governo como “herança maldita”

19/02/2010

Informa o Estadão, a respeito da suposta intenção do PSDB de carimbar as contas externas do atual governo como uma “herança maldita”:

“Oito anos após a eleição de 2002, quando foram acusados por petistas de deixar uma ‘herança maldita’ na área econômica, os tucanos apostam agora na expressão para atacar pontos da política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva. No mais recente boletim de conjuntura, elaborado pelo Instituto Teotônio Vilela (ITV), espécie de think tank ligado aos tucanos, técnicos do partido alertam para a situação das contas externas, dando o tom do que será explorado politicamente pela oposição no debate econômico em ano eleitoral.

Intitulada Com PT, País torna-se mais dependente do exterior, a publicação quinzenal do instituto, chamada Brasil Real, ataca o atual déficit em conta corrente, ‘em franca deterioração’, prevendo um rombo de US$ 60 bilhões até dezembro – o mercado fala em US$ 50 bilhões. ‘O saldo da balança comercial só faz minguar. Tudo somado, parece certo que a gestão petista legará ao próximo presidente uma situação de déficit externo recorde, verdadeira ‘herança maldita’ para o futuro do País’, diz a carta, enviada semana passada para a bancada do partido no Congresso como subsídio ao discurso político do PSDB.

[...]

O texto publicado pelo ITV fala no ‘mais alto déficit externo da história’, ultrapassando os 4,3% do PIB, durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. ‘A gestão Lula está rifando o futuro e transferindo empregos para o exterior. Esta será mais uma das ‘heranças malditas’ que o governo do PT legará ao próximo presidente’, diz o texto.

Especialistas apontam uma combinação entre as políticas fiscal e monetária promovidas pelo governo como responsável pelo déficit – entre 2003 e 2007 houve superávit nas contas externas, que medem a capacidade do País se financiar e honrar seus compromissos externos.

‘Há uma mistura inadequada política fiscal com a política monetária que acaba terminando em déficit’, disse Simão Silber, professor do departamento de economia da Faculdade de Economia e Administração da USP. ‘Há gastos em demasia e poupança baixa. Com excesso de gastos, alguém de fora tem de trazer recursos para fechar a conta’, completou Silber. O governo aponta o alto nível das reservas internacionais – mais de US$ 240 bilhões – para dizer que a situação não é de risco.”

Torcer contra nunca é correto. De forma alguma. O interesse público tem que ser o interesse de todos os partidos.

Contudo, é natural que, quando algo capitaneado por um lado caminha errado, o outro explore a falha eleitoralmente.

Além disso, é fato que as contas externas do governo Lula realmente não vão bem após a crise que, se não foi gigantesca no Brasil, não foi simples marolinha. Isso faz com que surjam questionamentos a respeito do bom andamento da economia pré-crise. Será que as coisas estavam dando certo apenas pelo bom cenário internacional, como alegam os adversários do governo?

Talvez.

Fato é que, no fim das contas, a oposição não deve nunca comemorar uma falha do governo que prejudica a população, porém, é até esperado que este erro seja utilizado na campanha para basear uma crítica à gestão atual.

A artimanha da “herança maldita” é antiga. Mas continuará atual por um bom tempo.

Artigo: Marcos Coimbra – O comparável e o incomparável

17/02/2010

O blogueiro tem o hábito de ler diversos artigos de analistas políticos. Assim, acompanha as opiniões, observa os entendimentos divergentes e embasa seus posicionamentos a partir de uma interpretação própria do todo, somada à intuição que é trazida pela experiência que vai sendo acumulada com o blog.

De vez em quando, alguns artigos falam, exatamente, o que pensa o blogueiro sobre o momento político. Acontece muito com artigos do jornalista Ruy Fabiano. Dessa vez, ocorreu com artigo de Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox Populi e colunista do Correio Braziliense.

Quando isso acontece, reproduzo, no Perspectiva, o artigo, por tratar-se de opinião próxima à do blog, o que mantém um entendimento sistemático do cenário, além de ser texto que é útil para auxiliar a compreensão, pelo leitor, da conjuntura político-eleitoral.

Sendo assim, reproduzo abaixo o artigo de Marcos Coimbra, até porque este faz uma análise primorosa da cabeça do eleitor nos primeiros parágrafos:

O comparável e o incomparável

Marcos Coimbra*

Alguém imagina que Lula quer fazer, na eleição deste ano, uma guerra com Fernando Henrique em torno de números sobre o desempenho de seu governo? Que o plebiscito que persegue há tanto tempo consiste nisso, uma batalha de estatísticas de performance governamental?

Quem acha que é isso que Lula quer, se engana. Não é essa a eleição para a qual ele se prepara desde o fim de 2007, quando sua popularidade cresceu ao ponto de tornar possível que não só escolhesse sozinho quem representaria o governo na eleição, como que sua indicada tivesse boa chance de vitória.

O plebiscito que ele imaginou para vencer um candidato tão forte quanto José Serra é diferente. Nele, pode ser até necessário passar pela comparação do que fizeram os dois governos, área por área, política por política. Mas sem permanecer nesse plano, de resultados objetivos cotejados com resultados objetivos.

Lula, amplo conhecedor do eleitor brasileiro (não fosse ele calejado por oito experiências de buscar seu voto, contando apenas as candidaturas presidenciais, nos dois turnos que disputou), sabe que é ínfima a proporção de pessoas que escolhem assim seu candidato. Aliás, não é pequena apenas no Brasil, mas no mundo inteiro (países desenvolvidos incluídos), a parcela do eleitorado que opta em função de cálculos desse tipo.

Em primeiro lugar, é sempre pequena a fatia da população que se interessa por questões político-administrativas. Ainda menor é a que compreende estatísticas e raciocínios cheios de números, porcentagens e coisas do gênero. Um discurso sobre o tema, recheado com elas, entedia até o eleitor escandinavo.

Em segundo, o cidadão comum olha com cautela todo número que não entende bem. Nem que seja intuitivamente, sabe que as estatísticas podem dizer qualquer coisa, dependendo de quem as apresenta. Não há prefeitura, governo de estado ou administração federal que não desfile seus números para provar que faz tudo certo, assim como não há oposição que não exiba os dela para demonstrar o inverso.

Como o eleitor não confia inteiramente em ninguém e não tem elementos próprios para saber de que lado está a verdade, prefere, na maior parte das vezes, ignorar o bombardeio que sofre. Os números entram por um ouvido e saem por outro.

Mas o mais importante é que os eleitores que se interessam por essas comparações e que têm os requisitos de informação para compreendê-las são os que menos estão disponíveis para o proselitismo dos candidatos.

Eles costumam ser mais politizados, mais bem informados e mais posicionados em termos partidários e ideológicos. Por isso, costumam se definir eleitoralmente mais cedo e tendem a permanecer indiferentes ao discurso dos candidatos ao longo da campanha, pois já resolveram o que vão fazer.

Hoje, há lulistas e antilulistas entre essas pessoas e, se existe, uma minoria insignificante de eleitores “neutros” e disponíveis para a argumentação puramente racional. Seu impacto na eleição é irrelevante.

Na verdade, o plebiscito de Lula nunca foi em favor de si mesmo ou de Dilma. Nem, a rigor, contra Fernando Henrique. É apenas contra Serra.

O presidente sempre soube, ouvindo as pessoas, usando seu instinto, lendo as pesquisas, que a grande maioria do eleitorado está satisfeita com o governo e quer a continuidade.

Também sabe que Dilma não está em discussão por si mesma e que a imagem do ex-presidente vem piorando com a passagem do tempo. Só por isso pensou fazer um plebiscito em que o governador fica como representante de FHC e ela dele.

Nesse embate, importa pouco (ou nada) qual foi o governo que fez mais isso ou aquilo. Qual asfaltou mais, construiu mais, educou mais e assim por diante. Lula já ganhou o plebiscito com Fernando Henrique. O que ele apenas quer agora é que os eleitores estendam a Serra o julgamento que fizeram de FHC.

Não é por outra razão que Serra não quer nem saber do assunto. Comparar (para defender) Fernando Henrique contra Lula não é com ele.

*Marcos Coimbra é diretor do Instituto Vox Populi e articulista do Correio Braziliense

Análise Geral: Governo quer comparar gestões, oposição quer comparar biografias

11/02/2010

Informa o Estadão:

“O PSDB decidiu usar as armas do PT na disputa presidencial. Vai aceitar comparações – não entre os oito anos de gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com os de Luiz Inácio Lula da Silva, mas entre o tucano José Serra e a petista Dilma Rousseff.

‘Fernando Henrique é passado; Lula também o será daqui a pouco. Vamos então mostrar a capacidade administrativa de Serra e da ministra Dilma’, afirmou o líder tucano na Câmara, João Almeida (BA).’Vamos mostrar a história de Serra, o que fez no Ministério da Saúde, na Prefeitura de São Paulo e, agora, no governo’, completou o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), ex-líder do partido e um dos principais articuladores da candidatura do governador.”

Trata-se de comprovação do que tenho dito aqui no Perspectiva.

A comparação de gestões é pró-PT e a comparação das biografias dos candidatos é pró-PSDB.

É melhor para o governo comparar a memória de sua administração com a memória do governo Fernando Henrique Cardoso.

Pessoalmente, acredito que o governo FHC estabeleceu as bases da economia e da responsabilidade fiscal de hoje e que, portanto, não foi ruim, embora no social o governo Lula tenha sido, realmente, melhor.

Acontece que o que está cristalizado na mente da população em geral, que normalmente não estuda a política nacional com afinco, é que o governo FHC foi pior que o governo Lula. E ponto final.

Sendo assim, comparar gestões é a agenda do PT.

Por outro lado, é melhor para a oposição comparar a ficha corrida de José Serra com a ficha corrida de Dilma Rousseff.

Nesse caso, concordo com os preceitos apresentados pela estratégia. José Serra é mais experiente, mais vivido politicamente, mais confiável como gestor e, principalmente, mais dono de sua própria trajetória, não tendo uma candidatura a Presidente marcada pelo artificialismo, como a de Dilma.

Dilma é biônica. É marionete de Lula. Não tem trajetória suficiente para chegar à Presidência se analisarmos apenas o âmbito pessoal.

Acontece que ninguém governa sozinho. Pois bem. E se trouxermos para as reflexões o entendimento de que quem governa é uma equipe inteira, pautada por certos preceitos? Será que nesse caso a vontade de se ter continuidade da equipe petista prevalece sobre a de termos novamente a tucana? Talvez sim.

Aí voltamos à comparação de gestões, comprovando de vez o cenário: A agenda petista é a de Lula versus FHC e essa agenda dará a vitória a Dilma. A agenda tucana é a de Serra versus Dilma e essa agenda concederá o triunfo a José Serra.

Parece estranho prever a vitória de dois candidatos?

Explico: Nas campanhas, um lado tenta impor sua agenda ao outro. Quem for bem sucedido na disputa entre governo e oposição, leva a eleição. A agenda vencedora durante a campanha dá o tom dos debates. Quem escolhe o tom, se o tiver planejado direito, vê seu candidato vitorioso no dia da eleição.

O desafio do PSDB, hoje, é trazer para o holofote a comparação entre a trajetória de Serra e a de Dilma, pois, embora alguns afirmem fortemente que a imprensa é totalmente tucana, tem prevalecido até agora nas manchetes dos jornais a comparação de administrações pretendida pelo governo.

Ao mesmo tempo, para fazer uma agenda sua prevalecer, o PSDB tem que entrar na briga. E a entrada pode acabar tendo que se dar  através de um discurso de comparação de gestões feita pelo lado tucanos. Percebam que esta foi iniciada pelo ex-Presidente Fernando Henrique recentemente. Uma vez na dança, seria o momento do PSDB pedir para mudar a música.

Alguns tucanos não compreendem o cenário assim. Acreditam que qualquer comparação de governos ou crítica a Lula é maléfica. Querem buscar outro caminho para impor um Serra contra Dilma puro e simples. Em suma, querem pedir a nova música direto ao DJ, sem passar pela pista de dança.

Esse é o dilema do tucanato e da oposição como um todo hoje. Está difícil achar um rumo único.

Lula, que já impôs a todos os seus uma nota só, se regozija.

Artigo: Ruy Fabiano – Plebiscito de araque

30/01/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre as eleições que cada vez mais se avizinham e sobre o plebiscito entre PT e PSDB que vem sendo desenhado. Fabiano diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

Plebiscito de Araque

Ruy Fabiano*

A estratégia de dar conteúdo plebiscitário à campanha eleitoral, sustentada por Lula e PT, está em contradição com o próprio diagnóstico presidencial a respeito destas eleições.

Há algumas semanas, o presidente sublinhou, como aspecto positivo – e indicador de nossa evolução política –, o fato de não haver candidatos de direita. Todos, na sua ótica, seriam progressistas. E isso seria bom.

Mais de uma vez, elogiou a qualidade de cada candidato. De fato, todos – Dilma, Marina Silva e José Serra – vieram da esquerda.

Só Ciro veio da direita. Foi filiado à Arena, partido de sustentação ao regime militar. Mas já fez seu mea culpa e profissão de fé pública no socialismo, com uma veemência rara. É socialista – e ponto.

Nesses termos, o plebiscito não tem cunho ideológico, na base do direita versus esquerda, mas tão-somente personalista, dentro dos padrões populistas mais ortodoxos.

Lula é o referencial. A eleição seria Lula versus “o outro”. O outro é Fernando Henrique Cardoso.

Nenhum dos dois, porém, é candidato. O embate, em princípio, será entre José Serra e Dilma Roussef, que têm biografias distintas dos seus patronos. Mas o presidente fala claramente nas duas eras: a dele e a de FHC. Povão versus elites.

A era dele, porém, naquilo que apresenta de êxito e substância doutrinária – a política econômica –, decorre da era anterior.

Dá-lhe sequência. Não é casual que, à frente do Banco Central, esteja um ex-tucano, Henrique Meirelles, trazido para a política por Fernando Henrique, que o fez candidatar-se a deputado federal em 2002.

Para sinalizar ao mercado que não mexeria na política econômica – e não mexeu -, trouxe um tucano para o Banco Central. Hoje, Meirelles, filiado ao PMDB, é um dos ícones da Era Lula, que sonha em tê-lo como vice na chapa de Dilma Roussef.

O outro ponto forte da Era Lula é o Bolsa Família, seu principal cabo eleitoral, que, além de lhe render popularidade, serve para demonizar os adversários, acusados de planejar sua extinção.

Ocorre que mesmo essa polarização é artificial e não resiste a um retrospecto. Quem aderiu ao sistema de bolsas foi o governo Lula, que antes o criticava.

Esse sistema chegou ao formato atual inspirado no Bolsa Educação, concebido nos anos 90 pelo então prefeito de Campinas, hoje já falecido, Roberto Magalhães Teixeira, do PSDB.

O então governador do DF, Cristovam Buarque, encantou-se com a idéia e a trouxe a Brasília. Fernando Henrique gostou e a adotou nacionalmente. Lula, ao contrário, repudiou-a.

São palavras dele, em 2000, disponíveis no YouTube: “Lamentavelmente, no Brasil, o voto não é ideológico, e as pessoas lamentavelmente não votam partidariamente. E lamentavelmente você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento, é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça.

É por isso que se distribui tanta cesta básica. É por isso que se distribui tanto tíquete de leite. Porque isso, na verdade, é uma peça de troca, em época de eleição. E assim você despolitiza o processo eleitoral.

Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, tentando distribuir bijuterias e espelhos para tentar ganhar os índios. Você tem como lógica a política de dominação, que é secular no Brasil.”

O projeto social de Lula, quando assumiu – e está no discurso de posse –, era o Fome Zero, que não deu certo. O Bolsa Família reúne os programas da Rede de Proteção Social, concebido e conduzido por dona Ruth Cardoso, que incluía ainda itens como vale-gás e bolsa-alimentação.

Fundiu-se tudo num rótulo novo e ampliou-se o número de beneficiados, etapa seguinte à implantação da idéia.

Não há, pois, nem mesmo na política assistencialista, o contraste indispensável aos plebiscitos, que é o choque de idéias ou projetos antagônicos.

O que há é a velha luta por cargos entre PSDB e PT, cuja origem é São Paulo, berço de ambos. São os irmãos Karamazov da política brasileira. Não se entendem, mas se parecem.

O tom plebiscitário artificial que se quer impor à campanha serve, como dizia Lula em 2000, para “despolitizar o processo eleitoral” e manter “como lógica a política de dominação”.

A massa, atenta ao Bolsa Família, continuará a “pensar com o estômago”, já que as questões mais relevantes estarão à margem dos debates.

Pior para os debates. Pior para o eleitor.

*Ruy Fabiano é jornalista

Déficit externo bate em R$ 5,9 bilhões, o maior desde 1947 – Como interpretar isso politicamente?

21/01/2010

Informa o Estadão:

“O efeito do crescimento econômico nas contas externas brasileiras já começou a ser sentido com mais intensidade. Dados do Banco Central mostram que o aumento dos ganhos das empresas estrangeiras fez o envio de lucros e dividendos atingir recorde em dezembro de 2009: US$ 5,32 bilhões, ou 21% de todas as remessas do ano. Com isso, o déficit de transações correntes – resultado das operações de comércio de bens e serviços do Brasil com o exterior – atingiu US$ 5,94 bilhões no último mês do ano, o pior resultado da série, iniciada em 1947.

Em todo o ano de 2009, as transações correntes ficaram negativas em US$ 24,34 bilhões, valor inferior aos US$ 28,19 bilhões de 2008. A queda refletiu o impacto da crise na atividade econômica, especialmente no primeiro semestre, quando o Brasil experimentou uma recessão. Os números de dezembro, no entanto, deixam claro que a tendência é de rápido e substancial aumento do déficit externo do País.

Ontem, analistas foram pegos de surpresa com o saldo da remessa de lucros ao exterior em dezembro. A transferência de dólares foi 164% maior que a de novembro e 69,3% superior à cifra de dezembro de 2008, no auge da crise, quando empresas estrangeiras aumentaram fortemente as remessas para cobrir prejuízos das matrizes nos Estados Unidos e Europa.”

Obviamente, o déficit externo é péssimo. É muito ruim que o nosso País mais perca do que ganhe no comércio internacional. Também é motivo de preocupação o aumento do montante das remessas de lucros e dividendos enviadas para o exterior pelas multinacionais aqui instaladas. Por estarem estas empresas explorando o mercado consumidor brasileiro, utilizando nossa infra-estrutura e contratando nossa mão-de-obra, é de esperar que grande parte dos lucros fique por aqui na forma de investimento ou, até mesmo, de impostos ou ações de contrapartida social e ambiental.

Contudo, a situação não é alarmante. O Brasil não está nadando de braçada no cenário financeiro mundial, mas não chega a inspirar cuidados ou algo parecido. Em suma, não há motivo para crítica dura à política econômica governamental por enquanto. Apenas algumas ressalvas – importantes é verdade – mas não argumentações de apoio a guinadas ou mudanças profundas.

Portanto, o que chama a atenção não é bem o viés econômico do aumento do déficit externo, e sim o viés político. O que atrai olhares é o fato de o governo Lula, apoiado por grande parte da esquerda, pelos movimentos sociais e pelo sindicalismo, deter o recorde de déficit externo, ou seja, de lucros obtidos por multinacionais no País e remetidos ao exterior.

Não se trata de uma crítica ao governo em si, mas de uma constatação: Como poderia o governo Lula ser interpretado como grande paladino em confronto com o capitalismo? De onde surgem declarações sobre o governo que afirmam que ele mudou o que vinha sendo feito por Fernando Henrique Cardoso e passou a atrapalhar os planos do “capitalismo ianque, imperialista, selvagem e assassino”, como diz a esquerda caricata? Em resumo, que lógica têm as falas de setores governistas da sociedade que, desconectados da realidade, afirmam que o Presidente Lula e seu governo deixaram de “governar para os banqueiros e para o capital estrangeiro”?

O capital estrangeiro, que traz investimentos muitas vezes necessários para o Brasil e que não poderiam ser feitos por capital interno, lucra tanto ou mais no governo Lula quanto no governo FHC. A existência do Bolsa Família, a cooptação da CUT, da UNE e do MST e os posicionamentos “pré-queda do Muro de Berlim” de Tarso Genro, Marco Aurélio Garcia e afins não muda isso. Distribui-se mais, é verdade, mas o capitalismo nunca lucrou tanto. Aqueles que trabalham em coberturas na Avenida Paulista gostam mais de FHC, mas não odeiam Lula nem um pouco. Quem sabe por isso o PSOL faça oposição ao governo.

Não se critica aqui o governo por incompreensão ou desaprovação da política econômica. Trata-se de dúvida a respeito de como podem alguns entender que a mesma coisa, sob Lula, deixa de ser a mesma coisa.

Talvez a resposta esteja em uma irracionalidade que surge a partir do momento em que não se quer aceitar que aquele em quem se confiou por eleições e mais eleições não fez aquilo que se esperava dele, sendo mais fácil se enganar.

Ou talvez o rótulo de entreguista – injusto – sirva para FHC e para Lula não. Simples assim. Incompreensível assim.

Análise Geral: PSDB, PT e o futuro do nosso Brasil

03/01/2010

O Partido da Social Democracia Brasileira e o Partido dos Trabalhadores protagonizam, hoje, um bipartidarismo de fato no que diz respeito à política nacional. Por mais que outras legendas tenham sob seus domínios municípios e estados da federação, é impossível imaginar, atualmente, um projeto de terceira via ocupando o Planalto em curto e até médio prazo.

Por mais que o maior partido do País seja, hoje, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro, isso não o coloca como o mais robusto e estruturado da nação. Ao contrário, o PMDB é o mais capilarizado, justamente, por ter se dividido, tornando-se uma federação de caciques que, regionalmente, lutam por seus próprios interesses e nada mais, mas todos sob o número 15. Resta a um PMDB gigantesco, porém essencialmente desunido, orbitar o poder federal, que já está há dezesseis anos – tendo tudo para continuar assim por mais alguns – nas mãos ou do número 45, ou do número 13.

Outras legendas, como o Partido Socialista Brasileiro e o Democratas, têm expressão suficiente para almejar, com o passar dos anos, a construção de um projeto presidencial com chances de ser bem-sucedido. Acontece que parece impensável um sucesso do PSB sem o apoio do PT. O mesmo se pode dizer com relação a um sucesso do DEM sem o apoio do PSDB. Portanto, resta comprovado que o espaço para a terceira via no âmbito federal é estreito ou até nenhum.

Fazendo, com o auxílio deste texto, uma reflexão acerca do cenário político-partidário brasileiro, o leitor pode acabar por chegar à conclusão de que PT e PSDB são os partidos que, atualmente, apresentam ao eleitorado tupiniquim projetos de nação embasados e alternativos. Pois bem. Estaria esta conclusão correta? Não.

Os projetos não são tão embasados assim, tendo lacunas visíveis, e, principalmente, não são nem de longe alternativos. Contrariamente, são complementares. O governo petista, que se iniciou em 2003, não pode ser enxergado como algo diferente de uma mescla de uma continuidade do governo tucano, vigente entre 1995 e 2002, e atenções maiores a certos setores como os movimentos sociais e os mais pobres. De igual forma, é completamente equivocado imaginar que um possível governo tucano futuro possa vir a direcionar o País de forma a empreender uma guinada brusca ou uma mudança de rota drástica.

O futuro do nosso Brasil promete ser melhor que o presente em grande medida. As previsões – por mais que os precedentes gerem desconfianças – apontam para tempos de desenvolvimento, de redução da pobreza, de aumento da qualidade de vida. Pois bem. Por acaso alguém já viu previsões de futuro condicionadas à presença do Partido dos Trabalhadores ou do Partido da Social Democracia Brasileira no poder? Certamente que não. E nem verá. Porque o Brasil já atingiu, ainda bem, uma maturidade política, pelo menos em nível federal, que inibe aventuras e arroubos. Esteja no poder o PT ou o PSDB, continuará a nação nos trilhos, rumo ao futuro previsto. Algumas mudanças de linha podem se dar, é verdade, mas o destino se manterá o mesmo, simplesmente pois a divergência entre trabalhistas e social-democratas brasileiros se dá na disputa por poder, e não na agenda.

As informações que chegam ao conhecimento do grande público são ótimas para ilustrar essa realidade: Em 1996, 48,5% dos brasileiros tinham água encanada, passando para 59,6% no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e para 68,3% agora, no final do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1996, 79,9% dos brasileiros tinham energia elétrica, passando para 90,8% sob FHC e para 96,2% sob Lula.

Outros dados seguem o mesmo script: Os telefones residenciais presentes nas casas dos mais pobres passaram de 5,1% para 28,6% e depois para 64,8% dos domicílios. As geladeiras, na mesma conjuntura, passaram de 46,9% para 66,1% e depois 80,1%.

Não poderia estar mais comprovada a continuidade. Obviamente existem as bifurcações leves, as ideologias dos mais extremados de cada grupo que se opõem e a política externa levada de maneira diferente. Contudo, o continuísmo no que vai bem, e até no que vai mal, está fortemente presente.

Daí serem absurdos os terrorismos eleitorais. Tanto o passado, como o atual. Ao divulgar a Carta aos Brasileiros e convidar José Alencar para ser seu Vice, Lula provou que o PSDB não foi fiel à verdade quando exibiu Regina Duarte em seu programa eleitoral afirmando ter medo de uma futura gestão petista. Da mesmíssima forma terá sido ludibriado aquele que crer no PT, quando a propaganda do partido afirmar que José Serra, se vencedor, encerrará os programas sociais vigentes hoje.

Alguns dirão que o PSDB faz uma oposição mais honesta intelectualmente. Talvez. Não se sabe se é por falta de discurso, por medo da popularidade do Presidente, ou por na realidade concordar com o que está sendo feito que os tucanos criticam Lula muito menos do que este criticou-os. Por outro lado, é necessário reconhecer que Lula usufruiu, hoje, de feitos do governo FHC que foram execrados pelo PT à época, coisa que não se dará se o PSDB retomar o poder e se utilizar de feitos petistas. Isso é fato, ponto pacífico. Porém, se é intencional ou não, existência de honestidade intelectual ou não, não se sabe. Cada um dirá o que mais lhe convém.

E o tal futuro? Bom, a previsão é a de que nos próximos cinco anos, o Brasil deve reduzir o número de miseráveis pela metade e aumentar em 50% as classes A e B. As estatísticas afirmam, igualmente, que o Brasil já tem dois trabalhadores para cada idoso ou criança, condição que só acontece raramente por questões óbvias e que favorece o crescimento. Nenhuma das previsões cita a necessidade de se ter o PT ou o PSDB no poder. E nem poderia.

Dito tudo isso, resta, obviamente, o pensamento a respeito de quem será o mais indicado para comandar o País a partir de janeiro de 2011. PT ou PSDB? Serra ou Dilma?

Entretanto, percebam que não há mais o questionamento sobre direita ou esquerda, entreguista ou nacionalista, progressista ou conservador, em nossa reflexão. Não há pois ele é artificial. Não existe na realidade, não procede, não se dá. Quem o incentiva procura lucros eleitorais por entender que ele o beneficia, e não a verdade das eleições. É balela o PSDB entreguista inventado por alguns petistas, que o tentam e tentarão reviver com a discussão do pré-sal partilhado ou concedido. É besteira o PT bolivariano criado por alguns tucanos, que o tentam ou tentarão comprovar citando a política externa brasileira recente.

Alguns dirão, nesse momento, que alguns fatos e episódios relevantes para estas caracterizações estão sendo deixados de lado. Mas não estão. Sabe-se muito bem que muitos tucanos são próximos da grande elite banqueira e empresarial paulista. Sabe-se, também, que a defesa de Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad, Manuel Zelaya, Cesare Battisti, etc, por diversos petistas graúdos não é mera coincidência.

O que se defende não é a irrelevância destes pontos, e sim a noção de que estas são correntes minoritárias que, como nos partidos americanos, não encontram ressonância junto à maioria do partido e, consequentemente, nas ações de condução do País mais decisivas, definidoras e irretratáveis.

Por fim, agora que nossa reflexão vai chegando ao final, a dúvida cruel pode ter tomado conta do leitor/eleitor. Em quem votar, se as semelhanças são tantas?

Ora, a decisão estará nas nuances diferentes, nos pequenos pontos divergentes, nos rumos mais apropriados para atingir o mesmo objetivo, enfim, nos detalhes que – percebam – não foram colocados como desimportantes em momento algum do texto, afinal, é neles que reside o inferno.

Se José Serra e Dilma Rousseff não defendem ou defenderão um programa diametralmente oposto nem de longe, resta decidir pelo melhor candidato, pela melhor equipe, pelo posicionamento preferido no que diz respeito aos tais detalhes.

Isso é pouco e muito ao mesmo tempo.