O Partido da Social Democracia Brasileira e o Partido dos Trabalhadores protagonizam, hoje, um bipartidarismo de fato no que diz respeito à política nacional. Por mais que outras legendas tenham sob seus domínios municípios e estados da federação, é impossível imaginar, atualmente, um projeto de terceira via ocupando o Planalto em curto e até médio prazo.
Por mais que o maior partido do País seja, hoje, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro, isso não o coloca como o mais robusto e estruturado da nação. Ao contrário, o PMDB é o mais capilarizado, justamente, por ter se dividido, tornando-se uma federação de caciques que, regionalmente, lutam por seus próprios interesses e nada mais, mas todos sob o número 15. Resta a um PMDB gigantesco, porém essencialmente desunido, orbitar o poder federal, que já está há dezesseis anos – tendo tudo para continuar assim por mais alguns – nas mãos ou do número 45, ou do número 13.
Outras legendas, como o Partido Socialista Brasileiro e o Democratas, têm expressão suficiente para almejar, com o passar dos anos, a construção de um projeto presidencial com chances de ser bem-sucedido. Acontece que parece impensável um sucesso do PSB sem o apoio do PT. O mesmo se pode dizer com relação a um sucesso do DEM sem o apoio do PSDB. Portanto, resta comprovado que o espaço para a terceira via no âmbito federal é estreito ou até nenhum.
Fazendo, com o auxílio deste texto, uma reflexão acerca do cenário político-partidário brasileiro, o leitor pode acabar por chegar à conclusão de que PT e PSDB são os partidos que, atualmente, apresentam ao eleitorado tupiniquim projetos de nação embasados e alternativos. Pois bem. Estaria esta conclusão correta? Não.
Os projetos não são tão embasados assim, tendo lacunas visíveis, e, principalmente, não são nem de longe alternativos. Contrariamente, são complementares. O governo petista, que se iniciou em 2003, não pode ser enxergado como algo diferente de uma mescla de uma continuidade do governo tucano, vigente entre 1995 e 2002, e atenções maiores a certos setores como os movimentos sociais e os mais pobres. De igual forma, é completamente equivocado imaginar que um possível governo tucano futuro possa vir a direcionar o País de forma a empreender uma guinada brusca ou uma mudança de rota drástica.
O futuro do nosso Brasil promete ser melhor que o presente em grande medida. As previsões – por mais que os precedentes gerem desconfianças – apontam para tempos de desenvolvimento, de redução da pobreza, de aumento da qualidade de vida. Pois bem. Por acaso alguém já viu previsões de futuro condicionadas à presença do Partido dos Trabalhadores ou do Partido da Social Democracia Brasileira no poder? Certamente que não. E nem verá. Porque o Brasil já atingiu, ainda bem, uma maturidade política, pelo menos em nível federal, que inibe aventuras e arroubos. Esteja no poder o PT ou o PSDB, continuará a nação nos trilhos, rumo ao futuro previsto. Algumas mudanças de linha podem se dar, é verdade, mas o destino se manterá o mesmo, simplesmente pois a divergência entre trabalhistas e social-democratas brasileiros se dá na disputa por poder, e não na agenda.
As informações que chegam ao conhecimento do grande público são ótimas para ilustrar essa realidade: Em 1996, 48,5% dos brasileiros tinham água encanada, passando para 59,6% no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e para 68,3% agora, no final do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1996, 79,9% dos brasileiros tinham energia elétrica, passando para 90,8% sob FHC e para 96,2% sob Lula.
Outros dados seguem o mesmo script: Os telefones residenciais presentes nas casas dos mais pobres passaram de 5,1% para 28,6% e depois para 64,8% dos domicílios. As geladeiras, na mesma conjuntura, passaram de 46,9% para 66,1% e depois 80,1%.
Não poderia estar mais comprovada a continuidade. Obviamente existem as bifurcações leves, as ideologias dos mais extremados de cada grupo que se opõem e a política externa levada de maneira diferente. Contudo, o continuísmo no que vai bem, e até no que vai mal, está fortemente presente.
Daí serem absurdos os terrorismos eleitorais. Tanto o passado, como o atual. Ao divulgar a Carta aos Brasileiros e convidar José Alencar para ser seu Vice, Lula provou que o PSDB não foi fiel à verdade quando exibiu Regina Duarte em seu programa eleitoral afirmando ter medo de uma futura gestão petista. Da mesmíssima forma terá sido ludibriado aquele que crer no PT, quando a propaganda do partido afirmar que José Serra, se vencedor, encerrará os programas sociais vigentes hoje.
Alguns dirão que o PSDB faz uma oposição mais honesta intelectualmente. Talvez. Não se sabe se é por falta de discurso, por medo da popularidade do Presidente, ou por na realidade concordar com o que está sendo feito que os tucanos criticam Lula muito menos do que este criticou-os. Por outro lado, é necessário reconhecer que Lula usufruiu, hoje, de feitos do governo FHC que foram execrados pelo PT à época, coisa que não se dará se o PSDB retomar o poder e se utilizar de feitos petistas. Isso é fato, ponto pacífico. Porém, se é intencional ou não, existência de honestidade intelectual ou não, não se sabe. Cada um dirá o que mais lhe convém.
E o tal futuro? Bom, a previsão é a de que nos próximos cinco anos, o Brasil deve reduzir o número de miseráveis pela metade e aumentar em 50% as classes A e B. As estatísticas afirmam, igualmente, que o Brasil já tem dois trabalhadores para cada idoso ou criança, condição que só acontece raramente por questões óbvias e que favorece o crescimento. Nenhuma das previsões cita a necessidade de se ter o PT ou o PSDB no poder. E nem poderia.
Dito tudo isso, resta, obviamente, o pensamento a respeito de quem será o mais indicado para comandar o País a partir de janeiro de 2011. PT ou PSDB? Serra ou Dilma?
Entretanto, percebam que não há mais o questionamento sobre direita ou esquerda, entreguista ou nacionalista, progressista ou conservador, em nossa reflexão. Não há pois ele é artificial. Não existe na realidade, não procede, não se dá. Quem o incentiva procura lucros eleitorais por entender que ele o beneficia, e não a verdade das eleições. É balela o PSDB entreguista inventado por alguns petistas, que o tentam e tentarão reviver com a discussão do pré-sal partilhado ou concedido. É besteira o PT bolivariano criado por alguns tucanos, que o tentam ou tentarão comprovar citando a política externa brasileira recente.
Alguns dirão, nesse momento, que alguns fatos e episódios relevantes para estas caracterizações estão sendo deixados de lado. Mas não estão. Sabe-se muito bem que muitos tucanos são próximos da grande elite banqueira e empresarial paulista. Sabe-se, também, que a defesa de Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad, Manuel Zelaya, Cesare Battisti, etc, por diversos petistas graúdos não é mera coincidência.
O que se defende não é a irrelevância destes pontos, e sim a noção de que estas são correntes minoritárias que, como nos partidos americanos, não encontram ressonância junto à maioria do partido e, consequentemente, nas ações de condução do País mais decisivas, definidoras e irretratáveis.
Por fim, agora que nossa reflexão vai chegando ao final, a dúvida cruel pode ter tomado conta do leitor/eleitor. Em quem votar, se as semelhanças são tantas?
Ora, a decisão estará nas nuances diferentes, nos pequenos pontos divergentes, nos rumos mais apropriados para atingir o mesmo objetivo, enfim, nos detalhes que – percebam – não foram colocados como desimportantes em momento algum do texto, afinal, é neles que reside o inferno.
Se José Serra e Dilma Rousseff não defendem ou defenderão um programa diametralmente oposto nem de longe, resta decidir pelo melhor candidato, pela melhor equipe, pelo posicionamento preferido no que diz respeito aos tais detalhes.
Isso é pouco e muito ao mesmo tempo.