
Ciro Gomes retirou sua candidatura à Presidência. Não oficialmente, mas nas entrelinhas. Para os bons entendedores, já está sacramentado. Os institutos de pesquisa excluirão seu nome das próxima aferições. Já era de se esperar.
Há tempos percebe-se que a eleição de outubro será polarizada. Tudo tem indicado, nos últimos meses, que José Serra e Dilma Rousseff dominarão o debate que, por sinal, não será muito debatido.
Marina Silva provavelmente verá seus votos minguarem por conta do voto útil, ou seja, perderá eleitores que preferirão tentar garantir a vitória de Serra ou de Dilma ao invés de darem seu voto a ela, a real preferida destes.
Quanto a Ciro Gomes, os sinais de que sua candidatura não vingaria vêm de longe. Sempre foi notório que o Presidente Lula buscava inviabilizar sua candidatura, trazendo partidos que poderiam apoiar Ciro para a base de Dilma e defendendo, em todas as oportunidades que tinha, a eleição plebiscitária.
Lula pediu a Ciro que transferisse seu domicílio eleitoral para São Paulo. Ciro o fez. A intenção de Lula era lançá-lo candidato ao governo de São Paulo, retirando-o, dessa forma, da corrida presidencial e, ao mesmo tempo, utilizando-o como crítico feroz de José Serra, visando reverberar no País inteiro os ataques que seriam feitos à gestão tucana em nível estadual. Dessa vez, Ciro não assentiu. Foi sensato. A candidatura seria absurdamente artificial.
No fim das contas, o fato de Ciro ter transferido o domicílio eleitoral a seu pedido não comoveu Lula. O Presidente continuou a negociar com Eduardo Campos, Governador de Pernambuco e Presidente do PSB, o apoio do partido de Ciro a Dilma. As outras legendas da base aliada que poderiam caminhar ao lado de Ciro, como PDT, PC do B e PRB, já estavam praticamente fechados com a petista. Isso esvaziava ainda mais o ex-Governador do Ceará.
Sentindo o cheiro de queimado, Ciro começou a criticar duramente a aliança entre PT e PMDB. Dizia que esta tinha “moral frouxa”. Não se sabe se falava isso por ser a verdade ou por ter a esperança de, ocorrido um rompimento entre PT e PMDB, se tornar o Vice de Dilma.
Foi aí que os petistas começaram a direcionar olhares mais enviesados ainda a Ciro. Antes, ele precisava sair da corrida presidencial porque Lula dizia que isso era melhor para Dilma. Passou a ser desejado seu fracasso também por falar mal dos companheiros.
Com isso, o jogo já estava jogado e Ciro, percebendo isso, resolveu perder de vez as papas na língua, que, aliás, nunca foram característica sua. Começou a dizer o que tinha vontade e a deixar claro que o PSB teria que demonstrar sua preferência por Dilma de forma clara, sofrendo o desgaste de preterir um presidenciável próprio, se quisesse o tirar da jogada.
Pois foi o que aconteceu. Ciro sai da corrida, mas fica claro que de forma forçada. Sai porque Lula o inviabilizou e porque o PSB não quis ir adiante e enfrentar o Presidente dos 80% de popularidade. Não sai porque quis. Já faz tempo que era apenas isso que Ciro queria deixar claro. Dizia que mantinha a candidatura, mas até as paredes sabiam que era balela. O que ele desejava mesmo era mostrar a todos que não é mais um mandado por Lula e que o PSB foi covarde.
Muitos dos socialistas alegam que estava sendo complicado alinhavar alianças nos estados tendo a candidatura própria a Presidente. Pode ser. Mas a pressão de Lula falou muito mais alto do que isso. Só não vê quem não quer.
Campos, por exemplo, dizia que o PSB decidiria seus próprios rumos, mas, ao mesmo tempo, admite que Lula “é o coordenador do processo de sucessão” e afirma que o Presidente “deu a direção” ao PSB.
Como se fosse correto um Presidente ser “coordenador do processo de sucessão”. Que dirá de um partido que não é o seu.
Ao fim e ao cabo, Ciro poderá até ter espaço em um eventual governo Dilma. Como bem disse, com muita lucidez, Marina Silva, “buscam eliminar os adversários que querem disputar legitimamente a preferência dos eleitores. Depois, tentam se colocar como o único hospedeiro possível para que os expurgados consigam sobreviver na vida pública”.
Contudo, Ciro só será “assimilado” se pedir arrego. E isso não faz, definitivamente, o seu tipo.
Se por um lado Ciro teria espaço em um possível governo petista se pedisse, por outro, isso é justamente o que ele não fará. Ao contrário, já tendo perdido o que tinha para perder, vai falar o que se quer ouvir e o que não se quer.
Aliás, já começou. Disse ao Portal IG que PT e PMDB não conseguirão controlar a provável crise cambial e fiscal que o Brasil sofrerá a partir de 2012. Afirmou também que Serra, embora pior como pessoa do que Dilma, é mais preparado e capaz para enfrentar os desafios nacionais futuros.
Ciro também deixou claro que não apoiará Dilma. Muito lógico, afinal, foi o PT que o inviabilizou. Ele não aceitará sofrer uma rasteira para depois ser “assimilado”.
Curiosamente, isso auxiliará José Serra que é tido por Ciro, há tempos, como inimigo.
Acontece que, no fim das contas, a ironia do destino se fez presente e foi Lula, o “amigo”, e não Serra, o “monstro”, que, como disse Lucia Hippolito, jogou Ciro ao mar.
E sem boia.