Arquivo da seção ‘Tiago Franz’

Coluna do dia: Olhares sobre a mudança

11/04/2010

Por Tiago Franz*

Nesta segunda-feira, 12 de abril, minha coluna no Perspectiva chega ao primeiro aniversário. É uma enorme satisfação ser colaborador – e ter sido o primeiro colunista – deste conceituado blog. Agradeço a todos os leitores, comentaristas e colegas colunistas pela constante troca de experiências. E dedico um agradecimento especial ao editor e pai do Perspectiva, nosso estimado Bruno Kazuhiro, pela acolhida e prestatividade.

Ninguém que tenha vivido um intenso período de aprendizado, como o que eu vivi aqui no Perspectiva nos últimos doze meses, deixa de mudar ou amadurecer algumas opiniões. Mas, apesar de eu ter muito o que falar sobre mim, não é o que interessa aqui.

Tenho observado, em alguns políticos brasileiros, mudanças de postura assumidas com o tempo, muitas vezes vistas como incoerência ideológica ou sob outro aspecto negativo. No Brasil, as mudanças de pensamento e atitude por parte de pessoas públicas, no geral, têm sido muito mais objeto de críticas do que de elogios. É claro que também há recepções positivas. O que determina isso são as rivalidades históricas construídas a partir de divergências ideológicas, somadas a uma boa dose de conveniências eleitorais e de interesses diversos.

Alguns exemplos:

Na semana passada, o Senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), durante audiência pública sobre a política externa do Brasil, no Senado, questionou o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre as medidas e posições adotadas pelo atual governo. Quem acompanha a questão sabe muito bem que a oposição (PSDB/DEM), mesmo reconhecendo, até certo ponto, o prestígio internacional alcançado pelo Brasil neste governo, critica a forma com que a equipe de Lula conduz as relações com países como o Irã, Cuba e Venezuela.

O curioso foi o momento em que Virgílio falou sobre Cuba. O tucano lembrou o tempo em que foi militante do Partido Comunista do Brasil (PCB) e admirador da revolução cubana, quando, segundo ele próprio, Lula era apenas um torneiro mecânico sindicalista sem muita relação com o comunismo. Pois é. Inversamente, hoje Lula abraça os Castro e Virgílio os critica. Onde o tucano quis chegar com essa lembrança? Para Arthur Virgílio, Lula também deveria reconhecer os erros de Cuba e, ao manter relações com os Castro, aconselhá-los a mudar.

A mudança de posição do Senador amazonense é, para ele, um amadurecimento. E Virgílio faz questão de reconhecer seu passado, de certa forma para, espertamente, antecipar-se a possíveis questionamentos. E é claro que muita gente vê tal transformação pelo lado negativo. Afinal, é do jogo.

Com Marina Silva a coisa é mais interessante ainda. A Senadora e pré-candidata à Presidência pelo Partido Verde (PV) desfiliou-se do Partido dos Trabalhadores (PT) no ano passado, após militar por 30 anos na sigla. As críticas a ela vêm de todos os lados. Muitos “esquerdistas” a condenam por uma dita aproximação com empresários e com a direita. Muitos “direitistas” a condenam pelo passado comunista, que consideram ainda determinante em sua postura.

Mas, deixando de lado as parcialidades, até que ponto e quando as mudanças de pensamento e de postura devem ser consideradas ruins? Em que casos há um processo de transformação consciente e quando há apenas interesses escusos? Quando há honestidade intelectual e quando há mera infidelidade partidária ou incoerência ideológica?

Marina e Virgílio amadureceram ou apenas seguiram a tendência de despolarização pós-Muro de Berlim? Amadurecer significa encontrar um meio-termo?

Encerro por aqui, mais uma vez com muitas perguntas não respondidas.

Este sou eu, Tiago Franz, colunista do Perspectiva há um ano, indagador, sempre em movimento.

*Tiago Franz é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: Com quantas siglas se faz uma democracia?

04/04/2010

Por Tiago Franz*

Ouvi de um membro do Partido Progressista (PP) de minha cidade que a solução para o sistema partidário brasileiro é limitar o número de siglas a no máximo cinco ou seis. Instantes depois, o cara lembrou que seu partido está entre os três maiores do País. Na sequência, falou sobre a importância da fidelidade partidária e regozijou-se por nunca ter mudado de partido, mesmo reconhecendo que o PP passou por mudanças de nome e de postura desde o tempo em que era Arena, na época do bipartidarismo.

Para o tal progressista – e para muitos outros – o número de partidos políticos hoje legalizados no Brasil – são 27  – é a causa de grande parte dos problemas da nossa política. Promiscuidade na formação de alianças, ‘assassínio’ da ideologia, ‘troca-troca’ de partidos e negociação de cargos são alguns dos males mais citados.

O bipartidarismo era melhor?

Dois é pouco, 27 é demais, muitos acreditam.

E cinco ou seis seria bom?

Talvez. A quantidade de grêmios políticos não é o único fator na conjuntura toda.

Analisemos o seguinte cenário:

Cá em Santa Catarina, o PP conta com a pré-candidata líder em todas as pesquisas de intenção de voto para o governo do estado. Ela é a Deputada Estadual Angela Amin, esposa do ‘jurássico’ Esperidião Amin.

Entretanto, os progressistas catarinenses estão de mãos amarradas. Esta colocação nas pesquisas não é o suficiente para eleger a progressista. O próprio partido reconhece que sem um apoio significativo a candidatura não vinga.

Tudo dependerá do movimento das outras forças locais, que neste momento estão a mil em busca de definições.

Uma tríplice aliança entre DEM, PSDB e PMDB, formada no pleito ao governo catarinense de 2006, levou o PP a se coligar com o PT para disputar o segundo turno naquele ano. PP e PT juntos?! Sim.

Mas para quem tem memória curta ou já se acostumou com os vícios da nossa política, isso não significa nada demais. Enfim, as circunstâncias locais isolaram o PP e os Amin do restante da direita (se me permitem esta etiquetagem relativizada). Até mesmo o irmão gêmeo, filho da mesma Arena, o PFL, hoje rebatizado de Democratas, ficou do outro lado.

Para 2010, como em praticamente todo novo pleito, a coisa se redesenha, desta vez com traços mais tortuosos e indecisos. Santa Catarina é um dos estados de maior indefinição para as eleições vindouras.

O agora Governador Leonel Pavan (PSDB), que era Vice de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) até poucos dias atrás, deixou de ser o potencial sucessor do governo para o próximo mandato ao protagonizar o último grande escândalo político da região.

Restou a ele assumir, nestes nove meses restantes, o governo que Luiz Henrique deixou para concorrer ao Senado. De uma forma ou de outra, a caneta passou ao fanfarrão. Porém, o cenário eleitoral virou um imbróglio.

Para embaralhar de vez a cena, o DEM resolveu sair do governo há poucos dias, sob a justificativa de obter maior liberdade para negociar novas alianças e preparar o terreno para a candidatura do Senador Raimundo Colombo a Governador.

Logo após a decisão, intensificou-se um namorico entre democratas e progressistas, que podem, quem sabe, reatar o ‘laço de parentesco’. E se a eles juntar-se o PSDB de Pavan, o que é provável que aconteça, estará formada uma outra tríplice aliança, que já existiu tempos atrás em Santa Catarina.

Assim, o PMDB de Luiz Henrique, que já escolheu Eduardo Pinho Moreira como seu pré-candidato, pode sobrar. A rivalidade local com o PP, que pelas origens do bipartidarismo até se explica, não permite que as siglas se unam. Para o PMDB local, aliar-se com o PT da senadora Ideli Salvatti, pré-candidata da sigla ao governo, também é difícil, mas não impossível. Afinal, em nível nacional, Lula já se uniu a Sarney, não é mesmo?

O que esta análise de Santa Catarina tem a ver com o assunto apresentado no início da coluna? A meu ver, o cenário descrito acima ilustra bem a realidade do nosso modelo partidário, em que a ideologia política e a história cedem espaço às conveniências eleitorais e circunstâncias de poder locais, num jogo com regras espaçosas e tantos jogadores quanto cartas no baralho.

E retomando agora a linha central, menciono um dito de um membro do DEM da minha cidade, que ao anunciar a decisão do seu partido de insistir na candidatura de Colombo ao governo catarinense, defendeu que todas as siglas deveriam, sempre, lançar candidatura própria. Está correto? Teórica e utopicamente sim.

Mas aí eu pergunto:

Se a grande maioria dos brasileiros, conforme aponta pesquisa recente do Datafolha, não sabe nem atribuir virtudes ou defeitos a Serra e a Dilma, que são os dois principais presidenciáveis, saberiam diferenciar 27 candidatos? E, com o perdão da obviedade – é claro que um democrata do interior de Santa Catarina não fala por todo o partido – porque então o DEM não tem candidato próprio à Presidência?

E o motivo de citar o DEM aqui é circunstancial. Incoerências semelhantes fazem parte dos demais partidos.

Reduzir o número de partidos representa uma ameaça à democracia? O que mudaria quanto à representatividade? Os tais males do nosso sistema partidário seriam mesmo reduzidos com menos partidos? Não ficariam as novas agremiações repletas dos mesmos parasitas que hoje infestam a nossa política?

Não discordo totalmente da ideia de diminuir o número de siglas, mas também não estou convencido de que tal reforma, por si só, pode efetivamente melhorar o País. O problema é bem mais embaixo.

Enquanto isso, vejamos como se comportam as siglas no salão.

Quem vai tiram quem pra dançar neste baile?

*Tiago Franz é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: Dia do consumidor – Data para comemorar conquistas, cobrar direitos e rever atitudes

15/03/2010

Por Tiago Franz*

Hoje, 15 de março, se comemora o Dia Internacional do Consumidor. Dia de toda pessoa física ou jurídica que adquire produtos e serviços. Em outras palavras, dia de todos os que comem, vestem, se divertem, trabalham e por aí vai.

E quem não faz isso, o que é? É preciso ser um potencial consumidor para existir na sociedade atual? Bom, essa é uma questão à parte do que venho comentar aqui, mas serve como provocação para refletirmos.

O que pretendo hoje é lembrar os direitos conquistados – nem sempre respeitados – e, principalmente, os “deveres” dos consumidores.

E por que a data em que se comemora o Dia Internacional do Consumidor é 15 de março? Em 1962, nesta data, o Presidente estadunidense John Kennedy, em um discurso histórico, anunciou, pela primeira vez, os direitos básicos do consumidor: informação, segurança, escolha e participação. Vinte e três anos mais tarde, em 1985, a ONU deu legitimidade internacional a estes direitos.

No Brasil:

No embalo da Constituição de 1988, foi criado, em 1990, o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, que passou a vigorar em março de 1991. Passadas duas décadas, ainda há muito o que melhorar no País. Os direitos existem e são constantemente difundidos e relembrados, mas o desrespeito continua.

Mesmo com o trabalho realizado por associações civis e pelo Procon, que defendem os prejudicados e atuam na prevenção e divulgação de informações aos consumidores, ainda há muito a melhorar.

Segundo o Procon de Chapecó-SC (cidade onde resido), o maior número de reclamações atendidas pelo órgão é contra empresas de telefonia, principalmente sobre cobranças indevidas e descumprimento de contrato. As instituições financeiras vêm em seguida, com problemas em financiamentos e empréstimos, que na maioria das vezes ocorrem porque os consumidores são mal informados e deixam de ler os contratos que assinam.

Defender-se é importante, mas o consumidor não tem só direitos. A expressão “consumo consciente” é cada vez mais difundida. Organizações e iniciativas de diversas esferas têm alertado as pessoas sobre as responsabilidades que todos devem assumir enquanto consumidores. Essa responsabilidade envolve as escolhas que fazemos ao adquirir produtos e serviços, o aproveitamento e destino que damos aos bens adquiridos, entre outros cuidados.

O Instituto Akatu, entidade brasileira ativista que defende o consumo consciente, atua para transformar o comportamento das pessoas em relação ao consumo. Além de combater o consumismo, que é considerado uma das doenças sociais modernas, o Akatu dá dicas de como contribuir com a reciclagem do lixo e como economizar e aproveitar bem os alimentos, a água e a energia elétrica.

Como já fazem muitas outras organizações e iniciativas, é preciso cobrar, das empresas e das autoridades, políticas sustentáveis de produção de bens. É importante também pensarmos nas possíveis consequências sociais dos serviços que consumimos.

O Dia do Consumidor é uma ótima oportunidade para repensarmos nossas atitudes.

Reflitamos!

*Tiago Franz, escrevendo excepcionalmente em uma segunda, é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: Do direito à propriedade, em modestos versos

01/03/2010

Por Tiago Franz*

Sem recorrer a Rousseau e a bibliografia alguma, finalmente satisfaço minha vontade de escrever, de forma livre e pretensiosamente poética, sobre a questão do direito à propriedade.

Seguem ideias fragmentadas, em forma de versos, que me ocorrem ao pensar no tema. Por favor, permitam-me esta divagação, que, enfim, mais indaga do que responde.

Privado, particular, individual, restrito, reservado
Comum, público, plural, coletivo, universal
Finito, escasso, limitado
Necessário, vital, indispensável
Desejável

Pertencemos ao mundo ou o mundo nos pertence?
A quem o mundo pertence?
Somos muitos ou poucos?
Privilegiados? Merecedores? Dignos? Herdeiros?
Fortes e fracos?
Bons e maus?
Bons e ruins?
Vencedores e perdedores?

O espaço, as dimensões, o plano, a superfície
Alqueires, hectares, metros quadrados
Cerca, muro, marco, fronteira
Ar, água, subsolo
Litros, tanques, barris
Toneladas, quilos, quilates

Quanto custa a luz do sol? Quanto vale uma alvorada?
Qual é o preço de uma sombra ao meio-dia tropical?
Da beira-mar e de um terreno em Cuiabá?
Quanto custa uma terra em Mato Grosso?
E uma caçamba de terra do Mato Grosso?

Quanto vale um barril de suor? Um contêiner de esforço? Uma saca de conhecimento?
Um dom? Uma sequência genética? Um sobrenome?

Quanto custa o azar, o infortúnio, o imprevisto?
A hora errada no lugar errado?
Quanto vale uma oportunidade? Como se mede uma oportunidade?

Uma ilha, uma só fonte de água doce, seca
Mil habitantes, dez somente armados, ausência de leis
A força, o poder, o controle, a posse
A violência, a guerra, a terra manchada de sangue
O social, a política, o acordo
O Contrato Social
O Estado

O Estado Democrático de Direito
Uma nação, um povo, um território
A tripartição dos poderes
A democracia representativa
A lei, a moral, os costumes
As Forças Armadas, a polícia, a coerção
O militar e o civil
A praça pública, o jornal, a tela, as redes sociais
Os movimentos sociais, os grupos de pressão

Possuir um pedaço da superfície do planeta, setenta metros quadrados no quinto andar
Possuir um contrabaixo, um pedaço de papel com a frase “eu te amo”
Possuir um saco de feijão, uma dúzia de ovos
Possuir uma cabra, um rouxinol cantor
Possuir uma vida
Possuir um ser humano

Qual a diferença entre possuir um colar de sementes e possuir um colar de diamantes?
O que se pode produzir com sementes e o que se pode produzir com diamantes?
Quantas sementes valem um diamante?

As necessidades, os desejos
Os bens, o uso, o valor, a troca, a moeda, os mercados, a economia
A mais-valia, o lucro
O capital e o trabalho
A luta de classes

Um bem, muitos bens, todos
A propriedade privada
A função social da propriedade
Indivíduo e coletivo
Onde começa um e termina o outro?

*Tiago Franz, escrevendo excepcionalmente em uma segunda, é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

2ª Coluna do dia: Caso Arruda – Ponto para o sistema!

14/02/2010

Por Tiago Franz*

Em outras ocasiões, escrevi aqui no Perspectiva que, dos ideais republicanos e positivistas grafados na nossa Bandeira Nacional, “ordem e progresso”, o primeiro é anterior ao segundo, como causa e consequência. Mas isso parece óbvio, não? E é. Apenas relembro para que pensemos essa relação a partir de um recente e importantíssimo ocorrido da nossa República: o esquema de corrupção chamado por alguns de “mensalão do DF”.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acatou os pedidos do Ministério Público e decretou, nesta quinta-feira (11), a prisão do governador do DF, José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM), acusado de formação de quadrilha e corrupção de testemunha. A investigação do tal “mensalão do DF” já estava a cargo da Justiça e o Governador – apontado como mentor do esquema de compra de parlamentares – respondia em liberdade, mas eis que um de seus homens foi pego em flagrante pela Polícia Federal tentando subornar o jornalista conhecido como Edson Sombra, testemunha do esquema de corrupção.

A ordem de prisão foi decretada com base no artigo 312 do Código de Processo Penal: “A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria”.

O que dizer disso tudo?

Simples. A PF fez seu papel. O MP fez seu papel. O STJ, representado pelo ministro Fernando Gonçalves, que decretou a prisão de Arruda, fez seu papel. O jornalista Sombra, tanto como profissional como cidadão, fez seu papel.

O que acontece quando, em um Estado Democrático de Direito, as “peças do aparelho” cumprem devidamente seu papel? O que acontece quando um caso de corrupção por parte do Executivo e do Legislativo é apurado pelo Judiciário, a quem realmente compete tal função? O que acontece quando o Ministério Público encaminha as denúncias e medidas aos tribunais competentes e estes as acolhem e aplicam? E quando a imprensa dá a devida repercussão ao fato e, sendo testemunha, não se deixa subornar pelo acusado?

Eis o que acontece: a ordem se aplica, a máquina funciona, a democracia se fortalece e a sociedade progride. Ponto para o sistema!

Já que somos oficialmente uma República, um Estado Democrático de Direito, então que o sejamos mesmo, de fato.

O “caso Arruda” ainda vai longe, mas já se pode dizer que se trata de um ótimo exemplo para o Brasil.

*Tiago Franz é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: Marina Silva – o bom senso em pessoa

08/02/2010

Por Tiago Franz*

Ela enfrenta o próprio partido. Abandona o cargo. Rompe. Quantos são os políticos que agem dessa forma quando veem os princípios que sempre defenderam substituídos por outros interesses?

Ela é discreta e cuidadosa. Evita frases de efeito. Critica sem difamar ou baixar o nível. Quantos são, na política, os que preferem o recato e a seriedade à provocação e à criação de espetáculos?

Ela tem a ficha limpa. Quando Vereadora por Rio Branco (1988 a 1990), devolveu o dinheiro dos benefícios e mordomias. Quando Deputada Estadual do Acre (1990 a 1994), liderou um movimento contra a aposentadoria de ex-governadores. Sua única propriedade é uma casa, em Rio Branco. Até mesmo a revista Veja, acostumada a metralhar petistas e verdes, apelidou a Senadora e ex-Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, pré-candidata à Presidência da República pelo PV, de “A imaculada”.

Não é o passado difícil de Marina Silva que faz dela um bom exemplo para a política brasileira e global. A infância e juventude miseráveis, a alfabetização tardia e a série de problemas de saúde que enfrentou não são os responsáveis pelos méritos políticos conquistados pela acreana. O que engrandece Marina, assim como a todos os que, independentemente da origem social, fazem política com comprometimento público, é a sua vida pública.

A revista Piauí, edição 40, de janeiro deste ano, publicou um perfil de Marina Silva por Daniela Pinheiro. A jornalista perguntou à presidenciável se “a candidatura do empresário Guilherme Leal – fortuna de 1,2 bilhão de dólares estimada pela revista Forbes – como seu Vice não traria mais benefícios para a empresa dele, a Natura, do que para a candidatura dela”. Marina respondeu: “No Brasil, estamos acostumados com oligarquias. Mas não se pode confundir elite com oligarquia. O José Alencar, o Oded Grajew, o Israel Klabin, o Guilherme Leal, eles são elite. É gente que pensa o Brasil como nação, têm ideias, estão verdadeiramente empenhados e são bem-intencionados. Esse é um interesse legítimo. Por incrível que pareça”.

Bom senso é o termo adequado para qualificar Marina Silva. Os rótulos que lhe são atribuídos – ligados à esquerda, ao ativismo ambiental e à sua opção religiosa – ficam pequenos frente às atitudes da Senadora. A resposta dada à jornalista da Piauí é uma demonstração da maturidade política de Marina. Ela não pretende, ao contrário do que pensam alguns, criar uma luta de classes no Brasil, ou então estagnar o crescimento econômico do País em nome da preservação ambiental.

Ela é, por tudo que tem demonstrado, essencialmente democrata. Ela quer apresentar a viabilidade de um novo e sustentável modelo econômico. Ela quer moralizar a política nacional.

Como saber se, depois de eleita, não fará o mesmo que a cúpula do seu antigo partido fez ao assumir o governo? Não se pode saber antes da hora.

Fato é que ela não se prende a pessoas e grupos, e sim às causas em que acredita, como deve ser em qualquer atividade política de caráter público.

Fato é que ela abdicou da força política de que dispõe o PT para prosseguir em seus ideais. Deixou o cargo de Ministra do Meio Ambiente, durante o governo de Lula, quando este resolveu “pôr o dedo” nas políticas ambientais para facilitar o licenciamento de obras.

Fato é que ela tem, dentre os pré-candidatos já conhecidos, aquilo que o Brasil mais necessita: “vergonha na cara”.

Nota do Editor: É por isso que o Perspectiva Política estará, durante a campanha, apoiando o nome de Marina Silva para a Presidência.

*Tiago Franz, escrevendo excepcionalmente em uma segunda, é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: Leonel Pavan e uma parceria público-privada “diferente” em Santa Catarina

31/01/2010

Por Tiago Franz*

Olá, meus caros. Saúdo os leitores e colegas do Perspectiva com a alegria de quem retorna à casa. A saudade bateu forte durante as semanas em que estive ausente. Entrementes, com viagem ao Mato Grosso (Estado onde cresci e onde devo viver novamente a partir de 2011), mudança de residência (ainda em Chapecó, Santa Catarina) e muito trabalho com meu violão e garganta, dei embalo e rumo ao meu 2010. Espero que estejamos todos bem embalados.

Pois bem. Sou natural de Santa Catarina e continuarei cidadão catarinense por mais um ano. Continuarei, do ponto de vista que mais interessa a ‘eles’, eleitor catarinense. E como é de meu costume, observador que sou, venho colocar aqui o ponto de vista do sujeito, cidadão e eleitor Tiago Franz a respeito do caso que abalou o cenário da sucessão catarinense: o escândalo envolvendo o Vice-Governador Leonel Pavan (PSDB), que, aliás, foi adiantado aos leitores pelo Perspectiva.

No próximo dia 3, a Assembleia Legislativa irá votar pela abertura do processo, para que o Tribunal de Justiça do Estado apure as denúncias feitas pelo Ministério Público. Pavan enviou carta aos deputados pedindo que votem a favor da abertura das investigações e declarou estar confiante no trabalho da Justiça. Espera-se que a votação seja unânime a favor da apuração. O tucano é acusado de corrupção passiva, advocacia administrativa e quebra de sigilo funcional.

Pode até ser que as acusações, como diz o lado do governo, sejam meramente oportunistas e estratégicas. A essa altura do jogo, a coisa começa mesmo a esquentar. Pavan era cogitado pelo Governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) para ser seu sucessor.

Mas não pretendo julgar Pavan antes da Justiça. Quero aqui colocar a impressão que guardei do Vice-Governador na ocasião em que o vi pela primeira vez, e que me fez não ficar surpreso com o surgimento do escândalo. Vamos lá.

O natal de 2008 estava próximo e a maior loja de departamentos de Chapecó, pertencente à rede Havan, realizou um evento em frente às suas instalações, na principal avenida da cidade. O ‘Natal Luz Havan’ reuniu cerca de 20 mil pessoas, que assistiram à apresentação da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina (OSSCA), ao show da banda de rock Dazaranha (Florianópolis), à inauguração da ‘mega’ iluminação natalina da loja e a diversas outras atrações. Tudo marcado por um forte apelo popular (no mau sentido), como de praxe. Até mesmo a conceituada OSSCA, que já pude prestigiar em outra ocasião, trocou os clássicos por ‘musiquinhas’ da moda. Em resumo, o evento foi quase um ‘festival da mediocridade’.

Lá estava eu, em meio à multidão, iluminado pela ‘Luz do Natal’ que irradiava do prédio da loja, quando anunciaram que o então Governador em exercício, Leonel Pavan, faria uso da palavra por alguns instantes.

Uatarréu! Embasbaquei! Eu já estava estranhando e me perguntando o que a orquestra do estado fazia ali, mas a presença do próprio Governador em exercício foi como um tapa na cara. Pensei: que diabos o Vice-Governador faz metido nisso aí? Será que o Luiz Henrique, que naqueles dias estava de licença, faria o mesmo se estivesse em exercício?

E foi assim que conheci o Vice-Governador Pavan, discursando informal e entusiasticamente sobre a magia do Natal e sobre a importância das lojas Havan para o Estado de Santa Catarina (será que a empresa paga corretamente seus impostos ou faz como a Arrows Petróleo do Brasil, que mesmo devendo 12 milhões em impostos quer continuar prestando serviço ao estado, e, se comprovadas as denúncias da PF, ainda contando com a ajuda do Vice-Governador para isso?). Afinal, “a iniciativa da empresa é um importante incentivo à cultura”.

É mesmo incentivo à cultura? Que cultura é essa? Feliz Natal e boas compras!? É ético que o estado ceda (ou venda) sua orquestra e participe dessa maneira de um evento de uma loja de confecções, brinquedos e ‘tudo para o seu lar’, por mais ‘importante’ que ela possa ser? Qual é a real importância disso para a economia e a cultura do estado?

O que eu tenho contra as lojas Havan? Nada. Escrevo sentado em uma almofada que comprei na Havan de Chapecó. Também não tenho nada contra as relações entre o público e o privado, desde que estas respeitem o limite do bom senso. O problema surge quando as coisas se misturam e formam o que eu chamo de ‘lambança público-privada’. Isso ocorre quando o oportunismo comercial e político-eleitoral se juntam para fazer… hmm… lambanças como a que narrei aqui. A Administração Pública deve tratar dos assuntos com a iniciativa privada com ética, bom senso, isenção e, principalmente, com o rigor da lei.

Não gostei nada do que vi há dois anos, e continuo não gostando. Por isso creio que a atual situação do Vice-Governador Leonel Pavan não seja apenas motivada por interesses eleitorais de opositores.

Mas esperemos para ver.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

2ª Coluna do dia: Crônica – A verdade sobre a verdade

29/11/2009

Deus, os homens e a honestidade intelectual

Por Tiago Franz*

- Ateu?

- Sim. Se considerado for que ateu é quem nega a existência de divindades tais quais os teísmos pregam. Por quê? O que é um ateu pra você?

- Se diz de quem não acredita em Deus. Mas significa ser contra Ele. Anti-Deus.

- Definitivamente não significa ser contra Deus. É possível ser contra algo que se nega? Já ouvi falar em antiteísmo, que dizem ser uma oposição direta a divindades. Mas pra ser anti-Deus é preciso acreditar que Ele existe, penso.

- Mas…

- Não podemos confundir! Acho que há um erro conceitual aí. Teísta é aquele que crê que Deus existe. Ateísta, ou seja, ‘a’ mais ‘teísta’, é quem não crê. É simples.

- Humm!

O ‘a’ indica a negação. Mas essa negação não significa necessariamente ser contrário, como um antagonista ou adversário. Assexuado, por exemplo, não é ser contra o sexo. E analfabeto não é quem faz oposição à alfabetização.

- Tá certo.

- Uma vez assisti a uma palestra de um filósofo, que definiu e diferenciou ateus, céticos, fideístas, gnósticos…

- Hum!? Fideístas!? Gnósticos!?

- Calma! Vamos por partes. Ele disse que a palavra ‘ateu’, do grego ‘a’ mais ‘théos’, significa a negação do conceito de Deus. É contra a mentalidade de que há um ou mais deuses que nos avaliam pelos ditames do “certo e errado”, como muitas religiões teístas doutrinam. É contra a imposição da “verdade divina”.

- Então pro ateu não existe uma só verdade?

- Não existe a afirmação de uma só verdade. Mas acho melhor não ampliarmos e complicarmos muito a definição de ateísmo. Vamos limitá-la à negação do conceito de Deus e ver as outras definições. O ceticismo, por exemplo, é ligado à noção de “septo”, de olhar à distância, examinar, observar, desconfiar até mesmo da capacidade que a razão tem de conhecer alguma coisa, disse o filósofo. Já o fideísmo busca ignorar ou minimizar o papel da razão para se chegar à verdade suprema. E o gnosticismo, ao contrário do fideísmo, busca alcançar a plena realização humana a partir do desenvolvimento pleno do conhecimento, a razão…

- Nossa! Vá devagar aí senão eu não acompanho. Isso tudo tem a ver com acreditar ou não em Deus?

- São algumas das formas de pensar que orientam as pessoas a crer ou não na existência de Deus ou de qualquer outra entidade divina. Mas eu ainda não falei da definição que eu acho mais interessante: o agnosticismo.

- Olha o ‘a’ aí de novo! Gnosticismo e agnosticismo!?

- Sim. O agnóstico é aquele que professa a ignorância sobre a existência de Deus. E esta é uma das definições em que eu me encaixo. Sou o que chamam de ateu agnóstico. Nego a existência de Deus por achar que nunca saberemos se Deus existe ou não.

- Mas como assim? Se o agnosticismo considera a existência de Deus improvável e o ateísmo simplesmente a nega, não se pode ser agnóstico e ateu ao mesmo tempo.

- Mas posso estar próximo de ambos e sentir-me um pouco em cada lado. Afinal, essa coisa do improvável tem a ver com movimento, reflexão e mudança de pensamento. Não nego de todo a possibilidade de existir uma força relacionada ao equilíbrio universal. O que eu nego é a existência de um Deus à imagem de um cabeludo e barbudo grisalho, sentado num trono nas nuvens e rodeado de querubins e serafins e tudo mais. Isso, a meu ver, é mitologia. Invenção humana.

- Mas você não era assim. Você já foi um cristão como eu. O que te fez mudar?

- É aquilo que eu disse sobre estar em movimento. Eu não nasci cristão. Nasci numa família e numa comunidade cristã. Minha cultura é cristã. Porém, há uma questão de honestidade intelectual nisso. Você acredita que Deus existe e que Jesus Cristo é seu filho, certo?

- Certo. Mas estou meio abalado com toda essa conversa. E como é isso de honestidade intelectual? Por acaso você acha que eu sou desonesto?

- Não é isso, não! Se você confessa que está com suas convicções um tanto abaladas, é sinal de honestidade intelectual. Mas acho melhor falar por mim. Ser honesto intelectualmente é aceitar a dúvida e conviver com ela. É assumir que somos incapazes de solucionar tais questões. É dessa forma que eu me oriento.

- Me parece que a solução que você encontrou é negar tudo e pronto. Você é ateu e agnóstico, isto é, um “não teísta” e “não gnóstico”. E outra coisa que não entendo: essa tendência de negação não tem uma pitada de ceticismo? E se você chegou a esse ponto através da reflexão e da tal honestidade intelectual, não tem muito de gnosticismo no teu pensamento?

- Tem sim. Como eu já disse, o ‘a’ não significa ser contrário. Os agnósticos não são necessariamente contra os gnósticos, ou seja, não são contra a razão e o conhecimento. O que sei é que os agnósticos acham que o conhecimento e a razão são incapazes de responder à questão da existência de Deus. Até pode ser que haja um pouco de ceticismo aí também. Enfim, as formas de pensamento se aproximam e se afastam em diferentes pontos. E para ser bem honesto, comigo, com você e com todo mundo, repito o que disse Sócrates antes ainda de Jesus ter nascido, se é que eles existiram mesmo:

“Só sei que nada sei.”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

5ª Coluna do dia: Bibliotecas estão para chicórias, assim como “xópins” estão para sorvetes

23/11/2009

Por Tiago Franz*

Informou Lísia Gusmão, repórter da Agência Brasil, na manhã de ontem:

Brasileiro lê um livro por ano, revela pesquisa

Um levantamento do Instituto Pró-Livro confirma que o brasileiro lê pouco. São 77 milhões de não leitores, dos quais 21 milhões são analfabetos. Já os leitores, que somam 95 milhões, leem, em média, 1,3 livro por ano. Incluídas as obras didáticas e pedagógicas, o número sobe para 4,7 – ainda assim baixo. Os dados estão na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita com 5.012 pessoas em 311 municípios de todos os estados em 2007. [...] Leia a íntegra aqui.

Estes números não me causam surpresa alguma. Ao contrário, refletem a realidade nua e crua tal qual me bate à porta. Há pessoas próximas de mim habituadas à leitura frequente, mas também conheço pessoas que concluíram o Ensino Médio sem ter lido, em toda a vida, um livro do começo ao fim. E não são poucos os “não leitores” – para usar o termo da pesquisa supracitada – que conheço.

Qual a relação entre essa realidade e a política do País?

Pelo menos algo é coerente: na hora de definir o orçamento público, as autoridades “representam muito bem” a população, pois destinam à educação e à leitura recursos proporcionais ao interesse dos brasileiros pelos livros.

Na semana que passou, a Biblioteca Municipal de Chapecó, cidade catarinense onde resido, completou seu 69º aniversário. Um pedacinho da imprensa local, provavelmente motivado por um release oficial, publicou o fato. Uma matéria informou que a biblioteca já conta com 17 mil cadastros de pessoas (a cidade têm cerca de 180 mil habitantes) e cerca de 40 mil volumes no acervo. Um dos 17 mil cadastrados sou eu. Visitei a biblioteca na tarde de sexta-feira e lá estavam os surrados 40 mil volumes.

O acervo da biblioteca é atualizado principalmente com doações de livros. Quando entro lá, tenho a impressão de estar em um depósito de livros indesejados por quem os doou. Mas e daí? O que importa não é o acesso ao conhecimento? Afinal, não são 17 mil pessoas que pelo menos uma vez já se beneficiaram daquele material? E quantos municípios não têm nem uma pequena parte daquilo?

Eu mesmo já li muitos livros emprestados da biblioteca… Uma edição de mais de 40 anos de Os Miseráveis, de Victor Hugo; um exemplar de um volume da série O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, praticamente se desintegrando; uma edição de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, comida pelas traças; e tantos outros. Apesar das condições, eu gosto daquele lugar.

Muito mais comentada e comemorada em Chapecó neste mês de novembro foi a inauguração de um super mercado e atacado, juntamente com o anúncio de que vai sair em breve o tão aguardado e primeiro “Xópin Center” da cidade. “Até que enfim! A gente merece!”, estão a dizer muitos dos chapecoenses. É para atender a esse tipo de anseio que os políticos locais movem seus “pauzinhos”.

É. As bibliotecas competem com os “xópins” tal qual um pé de chicória compete com um sorvete à preferência de uma criança. E a questão fica: se investe pouco em leitura porque não há interesse popular ou não há interesse popular porque não se investe corretamente?

Mais uma vez – como fiz em outras edições da minha coluna, sobre temas semelhantes – ressalto: a responsabilidade é sempre coletiva; indivíduos e instituições precisam estar interessados. Contudo, o Estado (em todas as suas instâncias), para corresponder à sua razão de ser, precisa assumir a frente. A Constituição determina que o Poder Público deve garantir o acesso ao conhecimento e promover a difusão de bens culturais.

São 180 mil habitantes no município, 40 mil volumes no acervo da biblioteca, 17 mil pessoas cadastradas, sabe-se lá quantos frequentadores. Para quem achou até razoável, dado o resultado da pesquisa referenciada acima, vou dar um salto de Chapecó para Nova Mutum, no Mato Grosso, onde morei dos 3 aos 18 anos de idade. Nova Mutum tem apenas 20 anos contra os 92 de Chapecó, mas tem um índice de crescimento dos maiores do País. A população do município está próxima dos 30 mil habitantes.

Sempre que visito a cidade, pelo menos uma vez por ano, dou uma passada na Biblioteca Pública Municipal. No início da década de 90, a biblioteca ocupava um prédio próprio e muito espaçoso. Em 2003, quando me mudei da cidade, a biblioteca já havia sido transferida para um local pelo menos três vezes menor que o anterior. Na minha última visita à cidade, em janeiro deste ano, encontrei a biblioteca “instalada” em uma sala de aula de uma escola pública desativada, em situação de total descaso. Não há bibliotecário com formação específica e o atendimento é péssimo. O acervo está mal cuidado e mal organizado. Havia no local dois ou três estudantes de escola pública, que utilizavam computadores destinados à pesquisa.

Naqueles dias, um conhecido meu que trabalha em uma das três emissoras de televisão da cidade me perguntou se eu por acaso tinha uma sugestão de pauta para uma reportagem. Sugeri: que tal uma matéria sobre a situação de abandono da Biblioteca Municipal? E ele: Onde fica mesmo a Biblioteca?

*Tiago Franz, escrevendo excepcionalmente em uma segunda-feira, é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

3ª Coluna do dia: “Proclamarim” a República!

15/11/2009

Por Tiago Franz*

Ainda acho que não sei escrever. Quando me meti a tentar os primeiros “textinhos”, há pouco mais de dois anos, eu definitivamente não sabia. Revirando escritos – ou melhor, tentativas de escritos – desse meu anteontem, encontrei algo que me fez parar e pensar profundamente. O quanto caminhamos quando praticamos!

O texto que encontrei foi escrito há dois anos – para ser mais exato, no dia 17 de novembro de 2007 – e aborda o mesmo assunto da minha coluna do último domingo, que tratou dos 120 anos da Proclamação da República no Brasil, completos no dia de hoje, 15 de novembro.

O enfoque da coluna passada foi a ausência de participação popular que marcou o fato histórico e o atual desinteresse das pessoas para com a data comemorativa: praticamente o mesmo enfoque do texto que escrevi na ocasião do 118º aniversário da República. Notei também que alguns elementos permaneceram. O estilo, por outro lado, está bem diferente. O novo está bem menos “solto” e muito mais ponderado ideologicamente que o velho.

Pode-se dizer que, conforme os gêneros de jornalismo opinativo, o velho está mais para crônica e o novo mais para ensaio ou artigo. Nada disso quer dizer que eu ache um estilo melhor que o outro. Adoro crônicas. A diferença é mesmo a experiência de quem, tentando, aprende um pouco mais a cada dia.

Pois bem. Já que a data tem tudo a ver e já que estamos na 30ª edição da minha coluna aqui no Perspectiva, resolvi resgatar esse passado não tão distante da minha curta vida de “escrevedor”. A vontade de alterar todo o texto é grande, mas me contive. Segue o original. A personagem é criação minha, porém os fatos comentados por ela são reais. Quanto às passagens polêmicas ou confusas, creio que estou preparado para explicá-las. Fiquem à vontade para me questionar.

Enfim, essa iniciativa de expor meu aprendizado e amadurecimento é para mim um exercício e tanto.

“Proclamarim” a República!

Tiago Franz

Dezessete de novembro. O feriadão vai acabar. É quase domingo e Sophia se lamenta por não ter lido nada durante a folga. O desânimo aumenta quando pensa no tempo que passou assistindo TV. Que tarde de sábado! Depois do Caldeirão do Huck – mais um carro velho que fica novinho em folha emociona o Brasil -, um filminho pra relaxar – pra variar, uma “nobre” missão norte-americana no Vietnã.

Nada disso a agrada, mas a garota é positiva. Sua consciência melhora quando percebe que está sempre a refletir sobre o que vê. Orgulha-se disso. Ainda bem que eu não engulo qualquer coisa. E volta a pensar no que o Prates disse, sexta, no jornal da RBS. Até que ele tinha razão… As pessoas ficam em casa e não sabem nem ao menos o porquê! Sabem que não precisam trabalhar, e mais nada! Dessa vez Sophia teve que concordar com o comentarista – aquele arrogante “moralistazinho” com postura de “sou Deus e estou aqui para julgar os homens”. Pelo menos ele a fez pensar se as pessoas realmente conhecem o significado do feriado que acabaram de passar. Será que as pessoas sabem conjugar o verbo proclamar? Parece ser um verbo regular.

República… Nacionalismo… Patriotismo… Soberania nacional… Todos esses “velhos conceitos modernos” voltam a atormentar a cabeça da jovem universitária, que já leu e releu mil coisas a respeito.

Esparramada no sofá, com o corpo inerte, na sensação de anestesia geral, Sophia continua seu exercício mental de encontrar algum proveito em tudo que acompanhou pela TV durante seu feriado de ressaca das madrugadas boêmias. Devia ter lido alguma coisa. Que merda! Pelo menos eu pude sair pra beber com o pessoal. Amanhã vou recuperar uma parte do tempo…

Agora seus pensamentos são “invadidos” pelo rosto que mais a perseguiu, da tela da televisão, nas últimas horas: Roberto Jefferson. Hummm… Propaganda política partidária em horário nobre… Já perdi a conta de quantas vezes repetiu… Coitado do povo… Para todas as noites para se deleitar com a novela das oito e ainda é tentado pelo “belo” palavreado do “senhor presidente” do PTB. Ta aí! Outra coisa que talvez noventa por cento desse povo não saiba é que o “T” da sigla do partido não faz mais sentido, e o “B” então… Deixa pra lá. O Getúlio e o Brizola já foram enterrados mais de uma vez! Não se faz mais políticos como antigamente… Pelo menos não no Brasil.

Olha só! Não acredito que ele disse aquilo do Evo Morales… Esse índio é um herói!!! Quando foi que ele expulsou os brasileiros da Bolívia? Que calúnia! Só porque alguém finalmente conseguiu enfrentar a exploração abusiva, esse Jefferson vem dizer aí que o Brasil precisa recuperar a “soberania nacional”… Que náusea!!!! E ainda usa Bush e Blair como exemplos… “Eles invadiram o Iraque para conseguir petróleo”. Ou seja, o Brasil precisa invadir a Bolívia e recuperar o Gás, pois o atual governo não está dando a mínima para a “perda” que sofreu.

Palhaço! Invadiu minha casa pela TV falando esse monte de bosta. Mas ainda bem que eu não engulo qualquer coisa. Sophia pausa, suspira e cai na gargalhada. Ahahahahahah! Mas o Jornal Nacional deu na cara do Jefferson… Ou será que foi o jornal da Record? Não lembro agora, é tudo parecido… Adorei a matéria… “Milhares de brasileiros atravessam a fronteira com a Bolívia em busca de atendimento de saúde gratuito”. Ahahahahahah! Essa é boa. Não foi esse “miserável país” aí que expulsou o Brasil de suas terras? Que coincidência! Não temos nem o gás, e nem um serviço público de saúde melhor que o dos “vizinhos pobres”. Mas que nada… A copa do mundo é nossa. O circo está garantido para 2014. Viva Morales! Viva viva viva! Ahahahahahah!

Dezessete de novembro. O feriadão vai acabar. É quase domingo e Sophia lembra que na segunda, apesar de não ser feriado, comemora-se mais uma data importante para o Brasil: o Dia da Bandeira. Novamente aqueles “velhos conceitos modernos” atormentam sua cabeça, que dói por causa da ressaca e das gargalhadas incontroláveis. Preciso ler alguma coisa. O Hino da Bandeira sempre foi seu favorito. Que melodia! Que glória! Que tudo! “Salve lindo pendão da esperança / Salve símbolo augusto da paz……”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo