Arquivo da seção ‘Raphael M. Silva’

Coluna do dia: Política e manipulação moral

21/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

Pessoas em geral, independentemente da classe social e do nível educacional, são praticamente como robôs. Basta saber ‘que botões apertar’, que elas reagem exatamente da maneira como se pretendia inicialmente. E para saber ‘quais botões apertar’, basta sermos bons observadores dos homens e termos uma alta dose de frieza analítica. Obviamente, uma faculdade de psicologia ajuda muito.

É essa noção de que os homens, sujeitos a certos tipos de impressões sensíveis, sugestões e símbolos, podem ser levados a atuar de maneiras específicas, ou a comprar um objeto, ou então a endossar fanaticamente um certo projeto ou opinião, que alimenta áreas como o marketing, o jornalismo e, em uma democracia, inevitavelmente a política.

Em uma democracia, a massa manda. É ela que escolhe que homens deverão ocupar os cargos governamentais, para que estes homens satisfaçam os desejos egoístas dos componentes dessa massa. Ocorre, porém, que os candidatos a serem selecionados pela massa não permanecem inertes aguardando a boa vontade das massas.

O que fazem os políticos, então?

Apresentam racionalmente suas propostas e ideias às massas, para que elas possam fazer uma reflexão crítica, compará-las com as dos oponentes, pesar os prós e os contras, e tomar uma decisão?

Sejamos sinceros, a massa é simplesmente desinformada e acomodada demais. A inteligência de uma massa é sempre equivalente ao menor denominador comum da inteligência de seus componentes.

Se muitos têm dificuldade em se planejar economicamente de um mês a outro sem gastar tudo com bobagens e não conseguem traçar nem mesmo o número de filhos que terão, quanto mais conseguir fazer silogismos e juízos analíticos para se chegar a uma boa opção política.

Também não é interessante para o político ser objeto de reflexão crítica. É algo arriscado demais. O político simplesmente está interessado em receber o apreço das massas, que possa ser traduzido em votos, para que ele possa chegar ao poder, se perpetuar nele, e assim fazer carreira para si. Os políticos, em geral, simplesmente não têm mesmo quaisquer propostas razoáveis a oferecer. E mesmo que tenham boas propostas, boas ideias e uma visão de mundo acertada, as massas são tão ignorantes e egoístas que são capazes de não gostar ou de ignorar um ótimo político, preferindo os que a manipulam.

Não é uma questão de ‘educação’, como os apóstolos da engenharia social adoram pregar, como se fosse possível moldar os homens ao nosso bel-prazer. Também não estou me referindo ao ‘Brasil’. Isso não é um ‘problema nacional’. Esse é um problema institucional estrutural inato ao modelo político escolhido pelas sociedades ocidentais modernas. De Paraguai e Bolívia à Islândia e Suécia, é exatamente assim que funciona. Nesse elemento particular, as diferenças nacionais são mínimas, porque massa é massa onde quer que seja.

Afinal, existe algum exemplo que se encaixe melhor no fenômeno que eu estou descrevendo do que o comportamento robótico e fanático, reminiscente desses cultos messiânicos obscurantistas, ou dessas seitas haitianas de vodu e Santería, do que o dos adeptos políticos e do eleitorado de Barack Hussein Obama? O eleitorado americano se assemelha a uma horda aborígene perante um totem sagrado, o qual possui a propriedade mágica de revelar a ‘verdade’ e a ‘vontade dos deuses’.

Obama é o reductio ad absurdum da hipnose moral e psicológica característica das democracias pós-modernas. Enquanto, costumeiramente, a hipnose residia no subtexto do discurso político, com Obama e a nova geração de líderes políticos mundiais, deixou de haver qualquer subtexto e a hipnose e a repetição de ‘mantras’ se tornou o próprio discurso.

O discurso político na pós-modernidade se mediocrizou ainda mais, para assim poder melhor acompanhar a decadência intelectual das gerações humanas viciadas em televisão. Tendo em vista que a capacidade de atenção e concentração das massas se reduziu drasticamente, a eficiência hipnótica de um discurso composto de trechos longos e encadeados em formato narrativo seria ridiculamente baixa hoje. Oratórias como a de Fidel Castro são apenas resquícios paleoantropológicos.

O orador pós-moderno não discursa, no sentido autêntico da palavra, ele cospe ‘palavras-chave’ de modo pausado, para assim permitir os aplausos ou outras reações populares pré-planejadas, ligadas entre si por uma quantidade minúscula de pronomes, porém cercadas por quantidades gigantescas de adjetivos e advérbios.

A maior eficiência do discurso político e, também, o ponto no qual ele alcança o ápice da baixeza e da abjeção, está na falácia mágica de se traçar linhas morais entre o ‘Bem’ e o ‘Mal’ e se utilizar desses pseudo-conceitos esotéricos para se mobilizar as massas e as convencer a dar apoio a algum projeto político. A finalidade dessa forma falaciosa de discurso é a de basicamente construir alguma legitimidade para um projeto espúrio, quando simplesmente não há nenhum outro argumento que as massas poderiam considerar plausível.

Não é realmente difícil convencer as massas da ‘intrínseca malignidade’ de qualquer povo, ideologia ou conceito, basta despertar nas massas dois instintos básicos, o ‘medo do desconhecido’ e o instinto de auto-preservação. Basta convencer as massas de que esse algo ‘estranho’ representa uma enorme ameaça, ainda que esse algo seja um povo desprovido de armas nucleares habitando uma ilha vulcânica do outro lado do mundo.

Quem enxerga para além das aparências, porém, sabe que ‘Mal’ é apenas aquilo que se desenrola no sentido contrário de nossas expectativas e interesses.

Agora, quem tem qualquer esperança de que algum dia esse modus operandi se altere, pode as perder imediatamente. É assim que a política democrática funciona, é assim que tem sido desde sempre, e as coisas só tendem a piorar, como sempre.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quartas.

2ª Coluna do dia: A História e a verdade – Há certeza nos fatos históricos?

14/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

“Quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro.” – George Orwell

Difícil definir a História. Corre-se o risco de cair no simplismo de afirmar que “História é o estudo do passado”, ou que “História é aquilo que passou, aquilo que já aconteceu.” Essas definições não estão equivocadas, mas são insuficientes.

Não sendo a finalidade deste artigo a investigação do conceito de História, simplesmente afirmarei que a História é o fluir das configurações humanas (sejam individuais, coletivas, institucionais, intelectuais, enfim, tudo que deriva do homem) no Tempo. Nesse sentido, a História é um processo que constantemente realiza e atualiza a si mesmo. A História é sempre presente. Mas sendo um fluir contínuo, passado, presente e futuro nela se confundem.

Não obstante, o objeto da ciência histórica é o fato histórico, cuja ‘residência’ mais natural é o passado. E ainda que os desdobramentos de muitos fatos históricos continuem operando no presente, fazendo com que tais fatos permaneçam em aberto e não se possa discursar definitivamente sobre estes, pode-se afirmar com tranquilidade que a maioria dos fatos históricos, de natureza simples, já se concluíram, ou seja, se esgotaram e permanecem ‘fechados’. Sendo fatos históricos conclusos, estes existem de tal forma que se pode dizer que eles consistem em ‘verdades’. A ‘verdade’ de um fato histórico é a narrativa da configuração de entes que compõem esse fato.

É o resgate dessas ‘verdades’ para o presente o que caracteriza a função autêntica do historiador. A própria natureza da existência, porém, impede que se possa conceber o fato histórico em um estado de objetividade pura. Observar um ente já é participar da existência desse ente e influenciar o seu destino. O que se pode exigir asceticamente do historiador, porém, é um máximo de objetividade possível, a qual consistiria na ausência de uma vontade consciente de tentar moldar os fatos históricos, para fazer com que eles se conformem a uma visão pré-concebida ou a algum objetivo externo à história.

Se devo apregoar isso, é porque tal disposição histórica para a verdade é exatamente aquilo que praticamente inexiste. Nunca o discurso histórico foi tão ideologizado quanto é hoje. Se em outras eras, como no século XIX talvez, os historiadores tinham sua objetividade um pouco atrapalhada por conta de concepções internas inconscientes, a manipulação, a distorção e o uso da história para fins ideológicos hoje é algo absolutamente consciente e intencional.

Crê-se na possibilidade de o ‘bem’ e a ‘verdade’ poderem existir separadamente. E, nesse caso, crê-se na possibilidade de se sacrificar a ‘verdade’ em nome do ‘bem’. Sendo assim, seria válido distorcer e manipular a história, se tal manipulação tiver uma finalidade moral ou servir para favorecer a vitória de uma utopia moral.

Sabe-se que o ditador Josef Stalin (tio Joe, como Roosevelt o chamava, sem ironia ou sarcasmo), neurótico e volúvel como era, alterava seus súditos favoritos como se muda de trajes. E o destino da maior parte dos que caíam em seu desfavor era a execução ou o gulag. Mas mais perturbador do que o destino físico de seus inimigos era o destino histórico dos mesmos.

Stálin simplesmente ordenava que todos os registros fotográficos da existência de certos inimigos fossem apagados. Assim, ocorreu que todas as fotos de Trótski com Lênin fossem alteradas, com a exclusão de Trótski delas.

Um outro famoso caso foi o do Chefe da NKVD, antecessora da KGB, Nikolay Yezhov, absolutamente leal a Stálin, mas que teve o azar de ser bem-sucedido demais e incorrer nas desconfianças paranóicas do Grande Camarada. Não satisfeito em ordenar sua execução, Stálin ordenou que Yezhov fosse expurgado da memória histórica, como se ele nunca tivesse existido.

Se nós não temos acesso direto aos fatos históricos por meio de nossa presença neles, ou seja, se nós apenas recebemos tais fatos históricos a partir de terceiros, como podemos garantir a veracidade da narrativa histórica?

Simples, não podemos.

A princípio, nada garante a ocorrência de qualquer dos fatos históricos ‘famosos’ que supostamente conhecemos. Eles simplesmente são considerados ‘dados’, porque nós possuímos uma ingênua confiança nas ‘autoridades’. Nesse caso, cremos nos indivíduos encarregados em investigar e narrar a História.

Pode ser que a maioria desses fatos seja genericamente verdadeira. Mas e quanto a seus detalhes? Não bastasse a possibilidade natural de erros inconscientes, e quanto ao fato de os historiadores serem indivíduos que recebem salários, possuem ideologias, têm um emprego a preservar e uma reputação a defender?

Poucas coisas são tão fortes e, ao mesmo tempo, tão frágeis quanto a verdade.

Se o monopólio do conhecimento pertence a uma mídia e a uma academia radicalmente ideologizadas (ambas em uma direção esquerdista e politicamente correta), devemos ter em mente que o que nós recebemos é o discurso histórico de uma ideologia específica e não uma narrativa histórica objetiva.

E se, inevitavelmente, nós só temos contato com narrativas históricas ideológicas, como ter confiança em qualquer suposto fato histórico?

Fica a dúvida.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: A flexibilização das leis trabalhistas e a sociedade do espetáculo

05/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

Os últimos anos têm visto ataques cada vez mais encarniçados e fanáticos contra os chamados ‘direitos trabalhistas’. Todas as forças do parasitismo econômico nacional e internacional (e seus ‘intelectuais’ de estimação) concentram seus esforços no sentido de fazer voltar o tempo ao período paradisíaco (para o parasita econômico) no qual o empresário não tinha qualquer compromisso para com os seus empregados ou para com a sociedade em geral.

Um período que mesmo comparado com a Baixa Idade Média só pode ser visto como involução e degeneração, posto que mesmo os senhores feudais mais tirânicos ainda assim possuíam várias obrigações para com seus servos, principalmente a de segurança, cujo cumprimento era garantido pela honra do nobre em questão, elemento vinculante muito mais forte e coercitivo do que qualquer contrato lavrado em cartório, ao menos em períodos e civilizações em que a virulência liberal e burguesa ainda não havia adquirido a supremacia entre os outros valores.

É possível imaginar a sensação de prazer que sente o empresariado liberal ao conceber o paraíso da irresponsabilidade total. Provavelmente deve ser a mesma sensação que sentiam os capitães piratas do século XVI. Em verdade, os parasitas econômicos (ou seja, a classe capitalista pseudo-produtiva) são exatamente como os corsários ingleses: possuem a licença legal e oficial para a realização de saques e rapinagens. A liberdade econômica burguesa liberal é a liberdade para a rapina e o saque irrestritos.

Mas parece, porém, que essa licença para saquear é o que há de relevante para o parasita econômico em suas relações para com o Estado e a Sociedade. Se está dentro da legalidade jurídica, então não há nada mais a ser discutido, a não ser a maximização dos lucros. Se o parasita é ‘respeitador dos Direitos Humanos’ (principalmente da santíssima trindade burguesa: vida, liberdade e propriedade) e atua dentro da legalidade do ordenamento jurídico, então ele deve ser livre para atuar segundo a ‘autonomia de sua vontade’.

Com a total desintegração dos laços comunitários, a decadência dos costumes e o estado de despotismo imposto pela classe capitalista industrial, seria natural que no seio da sociedade industrial lentamente começasse a se desenvolver um espírito de reação contra a ameaça burguesa.

Não é possível romper tão radicalmente um estado de harmonia, ainda que frágil, como o era a comunidade feudal, sem que isso provoque a tentativa de se tentar restaurar a harmonia comunitária da maneira que for possível.

A harmonia comunitária, porém, só pode ser restaurada por meio de uma Revolução. Esse é o autêntico sentido da Revolução: re-voltar é promover o retorno a uma forma superior que reside em um passado tradicional. ‘Progresso’ e ‘Revolução’ são antíteses.

Por isso é que é ilógico e absurdo afirmar que há qualquer tipo de ímpeto revolucionário no marxismo. O marxismo é exatamente a ideologia mais contrarrevolucionária possível, posto objetivar ele o aprofundamento exatamente das tendências mais obscurantistas de toda forma de progressismo e modernismo.

Conquanto seja o inimigo um parasita econômico, a Revolução é simplesmente uma medida essencial para se restaurar o vigor, a saúde e a harmonia do organismo social. Se os inimigos da sociedade industrial foram apropriados por homens maliciosos adeptos de ideologias funestas, isso em nada interfere ou influi no sentido da revolução. As forças revolucionárias, então, começaram a pressionar e combater os inimigos parasitários da sociedade, de modo a extirpá-los como se fossem um tumor cancerígeno. O parasita, por sua vez, encastelado e em posse do Estado, combateu a Revolução por meio do aparato repressivo do Estado.

Continuasse o duelo de forças, a vitória seria certamente das forças revolucionárias. Os parasitas econômicos, porém, maliciosos por natureza graças a sua origem plebéia de mascates, chegaram à conclusão de que havia um meio melhor de se afastar definitivamente a ameaça revolucionária.

O fato é que nada é mais difícil do que professar uma completa rejeição do statu quo. Apenas homens de vontade férrea e moral inabalável são capazes de sustentar uma rejeição radical a uma estrutura político-econômica por tempo indeterminado. As massas são por natureza inconstantes e acomodadas. Ademais, elas são incapazes de visualizar objetivos a longo prazo. Quando a massa se mobiliza, ela o faz para resolver um problema que a afeta naquele momento. E nada mais.

Foi assim estabelecido um ‘compromisso’. Certas benesses passaram a ser lentamente concedidas aos trabalhadores, com o objetivo de afastar a ameaça revolucionária. A estratégia foi um sucesso absoluto. A maioria esmagadora das massas, incapaz de sustentar uma ética revolucionária, se vendeu por migalhas, liderados por traidores covardes, os pais da ‘social-democracia’. A ‘social-democracia’, portanto, surgiu da traição das aspirações revolucionárias.

Não há, portanto, idealismo algum inserido nos ‘direitos trabalhistas’. Eles são, e sempre foram, meios de apaziguar as massas por meio de certas concessões. Ainda assim, estabelecem, indubitavelmente, uma conjuntura existencial menos pior do que a que a precedeu. Deve-se sempre ter em mente a finalidade pragmática contida na essência desses direitos.

Assim sendo, a existência dos direitos trabalhistas, ou sua rigidez e coercitividade, estão diretamente ligados à necessidade de seu uso para a consecução de sua finalidade original. A questão, portanto, da flexibilização dos direitos trabalhistas passa absolutamente distante de qualquer preocupação econômica pontual. Não é a ‘eficácia’ da economia, ou a lucratividade alcançada pelo empresariado que reside na essência dessa questão.

Ocorre que o desenvolvimento tecnológico e o desdobrar da ideologia capitalista deram origem ao que se chama ‘Sociedade do Espetáculo’, na qual o entretenimento e o fetichismo das commodities culminaram no surgimento de uma ‘cultura do consumo’, a qual propicia inevitavelmente a homogeneização cultural e, principalmente, a alienação.

A submissão do homem moderno à mídia de massa e à ideologia do consumo o mantém perpetuamente em um estado de espectador passivo do mundo ao seu redor. Seu meio de ‘interferência’ nas estruturas políticas de poder se dá basicamente por meios ineficazes e superficiais como o ‘voto’, fúteis passeatas de rua e os meios jurídicos de postular direitos. Todos estes métodos oferecidos pela própria estrutura de poder vigente e, portanto, incapazes de alterar a essência da mesma.

Não há situação mais contrarrevolucionária do que esta na qual os únicos interesses do homem são seu conforto, seu prazer e sua segurança. Seu processo de apaziguamento se tornou completo e foi efetivado de modo muito mais satisfatório do que seria possível através de quaisquer benefícios jurídicos. Assim sendo, que função poderiam exercer os ‘rígidos’ direitos trabalhistas? A partir de um ponto de vista pragmático, nenhum. De meio de defesa, eles passaram a ser um estorvo caro, posto não serem mais necessários para alcançar sua finalidade original.

Nada mais lógico, portanto, do que suprimi-los lentamente. Não haverá sérias consequências. Não haverá nenhuma revolução.

A televisão já é suficiente para impedir isso.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: A utopia moral e a ideologia pacifista

15/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Em um âmbito social mais localizado, o Pacifismo como ideologia moral é subversivo. Fundado no misticismo e no hocus-pocus liberal, o pacifista considera a vida humana individual como o maior dos bens. Se a vida é o maior dos bens, não há mal maior do que a perda ou retirada de uma vida, ou que a ameaça a sua integridade por meio da violência. Para o pacifista, absolutamente nada é pior do que a violência.

O pacifismo é o fruto de uma doença espiritual do homem. O progenitor do pacifismo é o burguês urbano e cosmopolita. Estando completamente alienado dos autênticos processos da Vida, por meio dos artifícios da vida cômoda, o burguês é incapaz de compreender a Natureza e, portanto, a falsifica moralizando-a. Foge à compreensão do pacifista que tudo no Universo se constrói por meio do embate entre forças que estão constantemente tentando se sobrepôr umas às outras.

Ou, quando ele visualiza a ‘Guerra Total’ que é a existência, ele vê isso como um Mal, porque sua Utopia Moral é ‘extra-mundo’, reside fora do Mundo. Então, ele não julga seus Ideais segundo a Natureza. Ao contrário, o utopista moral, o pacifista burguês, quer julgar a Natureza segundo sua Utopia, e impor essa Utopia ao mundo, independentemente das consequências. Ele é incapaz de contemplar as possíveis consequências, ou quando é capaz, nada disso importa, porque a Utopia Moral é o Bem Absoluto e qualquer mal na direção de sua consecução não passa de um ‘mal menor’.

Não há ‘barbárie’ na Natureza. Há apenas as diversas manifestações da ‘Vontade de Poder’. E, mais importante ainda, a Natureza não é um ‘Outro’ a respeito do qual seja possível ao Homem falar ‘à distância’ como se a mesma fosse um objeto. O Homem é perpetuamente parte disso a que se chama Natureza e está submetido a todas as suas leis e processos.

Isso não quer dizer que ‘a guerra é melhor do que a paz’, como alguma pessoa demente ou com dissonância cognitiva poderia (mal) interpretar essas considerações.

O que se quer dizer é que, para a realização de seus objetivos, os homens possuem ao seu dispor uma grande gama de possíveis métodos. Entre esses métodos estão a violência e a guerra, as quais podem ser tranquilamente vistas como meios válidos de resolução de problemas e conquista de objetivos, dependendo das circunstâncias. E não é nem necessário moralizar e postular: ‘Violência só em último caso’.

Para além da violência como fato, está a postura ética do Homem como Guerreiro. Essa postura não se define pela aplicação efetiva da violência, mas sim por uma disposição constante para fazer uso dela em defesa de seus direitos, no cumprimento de seu dever, ou para conquistar seus objetivos e realizar seus ideais em geral.

Toda tentativa de se impor uma visão sobre o Mundo, toda Ação é uma forma de violência. O artista, o guerreiro e o estadista, são animados por esse mesmo ímpeto, o de transformar a realidade por meio da Ação. E o que anima essa possibilidade de Ação é a ‘Vontade de Poder’ do Homem, que sempre quer se expandir e se impôr sobre o mundo e sobre todos os outros Homens.

É a ‘Vontade de Poder’ com sua vitalidade beligerante e disposta a tudo o fator essencial capaz de erguer das areias do deserto uma nova civilização. Todas as civilizações foram criadas e preservadas por homens ‘violentos, beligerantes’. Nenhuma foi criada por pacifistas. É unicamente a disposição para fazer tudo o que for necessário para conquistar e superar, a disposição capaz de gerar belas obras. E essa disposição, mesmo no poeta e no filósofo está associada à beligerância e à mais pura testosterona, mesmo que o referido poeta nunca pegue em armas. Que sirva como testemunha o maior poeta da língua inglesa, Lord Byron, que partiu para a Grécia para participar na guerra de liberação do berço da civilização ocidental contra os turcos e lá encontrou sua morte.

Alguém tentará ‘normalizar’ essas reflexões dizendo: ‘Não sei porque você está escrevendo essas coisas, quando o pacifismo só busca que haja um pouco menos de violência no mundo!’. Esse tipo de intervenção só pode surgir de alguma mente míope demais para ver qualquer coisa para além de objetivos declarados.

Ocorre que, e eu tenho que repetir isso, para a consecução da Utopia Moral, não há meio indigno e imoral. Ora, a Paz Perpétua não pode ser simplesmente alcançada evitando ou impedindo que as instâncias individuais de violência ocorram, porque isso é simplesmente impossível. Então, o que se deve fazer? A resposta é óbvia, descobrir porque os indivíduos são violentos, porque eles são predispostos à violência, que fatores psicológicos, sociais, culturais e biológicos os levam a querer usar da força para conquistar seus objetivos.

Nenhuma manipulação social, então, é imoral se o objetivo é tornar os homens mais ‘tolerantes’, ou seja, passivos, moscas-mortas, incapazes de conquistar qualquer coisa. Hoje, o Ocidente é bombardeado por uma pesada propaganda cultural que associa os valores combativos e beligerantes a símbolos e figuras indesejados. O único herói admissível hoje é o ‘herói moralista’, ou seja, o herói que se vinga em nome da Utopia Moral. A esse é permitida toda barbárie, como se pode verificar no filme mais nojento e demente já feito por Quentin Tarantino. A moralidade é legitimadora da barbárie.

Os valores viris, ativos, beligerantes, são marginalizados em prol de uma figura humana afeminada, meio andrógina, ultra-tolerante, dialética, conciliadora, que passa a ser vista como o tipo humano ideal. Experiências psicossociais já são realizadas em locais como a Suécia, por exemplo, onde meninos desde a tenra idade são obrigados a se vestirem de menina, e vice-versa, com a finalidade de ensinar a ‘tolerância’.

Quanto tempo irá demorar até que se resolva, por meio de mudanças na alimentação, reduzir a taxa de testosterona dos homens? Que isso já está sendo feito, é fato. A taxa de testosterona masculina tem se reduzido na maioria dos países ‘desenvolvidos’. Não é à toa que poucos ‘homens’ hoje são capazes de desenvolver uma barba de verdade.

A única questão discutível é se essa redução tem sido intencional, ou se é apenas produto das porcarias plásticas e artificiais que passam por ‘comida’ na dieta ocidental. Isso sem falar na possibilidade futura de manipulações e experiências genéticas com a finalidade de impôr a paz no mundo, por meio da castração hormonal da humanidade. O mundo caminha na direção de uma eugenia inversa, uma autêntica disgenia.

Surreal? Ninguém iria tão longe para conquistar a ‘Paz Perpétua’? Por que, se esse objetivo é o mais moral que há, e se é o Bem Absoluto? Se alguém tem a possibilidade material de impelir o mundo nessa direção, por que não o faria?

A violência, a guerra, a morte e o sofrimento, podem ser aspectos feios, horríveis, da existência humana. Porém, ainda assim, possuem seu lugar nessa existência. Todos esses aspectos cumprem uma função, de algum modo possuem um sentido relevante para as experiências humanas.

Não é ‘banindo a morte’, rejeitando os aspectos da realidade que nos são desagradáveis, que vamos aprender a lidar e crescer por meio dessas experiências.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

2ª Coluna do dia: Quando a paz não passa de uma utopia moral

07/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Dentre as constantes expectativas das massas humanas, as quais são expressas por meio de manifestações populares, desejos natalinos, discursos sentimentais ou modos insignificantes de auto-expressão, talvez a mais característica e onipresente seja a ‘Paz’ ou, melhor dizendo, aquilo que Kant chama de ‘Paz Perpétua’, uma espécie de Utopia vindoura, consequência natural da razão humana, na qual toda a Humanidade estaria unificada sob um mesmo sistema e a paz reinaria completa entre os homens.

É fácil traçar a genealogia dessa expectativa. Se analisarmos friamente, veremos que ela não passa de uma secularização iluminista das expectativas messiânicas relacionadas ao ‘Reino de Deus’ na Terra, no qual todas as aspirações e promessas dos Evangelhos se veriam realizadas. Todo o mundo se veria unificado sob o ‘Despotismo Esclarecido’ de um Messias, o qual imporia um perpétuo estado de paz entre os homens, e poria fim a todos os sofrimentos humanos por meio de uma espécie de ‘Comunismo Sagrado’.

Obviamente, não há lugar nessa Utopia para aqueles que simplesmente não estejam dispostos a se submeter. Essas expectativas são, supostamente, tão absolutamente boas e perfeitas, que qualquer um que se oponha é um monstro, um demônio, e seu destino só poderia ser o Inferno. Para os adeptos das Utopias Morais, todo opositor e dissidente é uma encarnação do Mal Absoluto e, portanto, toda violência e barbárie é completamente legítima e justificável.

Para testar e descobrir um desses adeptos, pode-se, por exemplo, citar a Destruição de Dresden por bombardeios anglo-americanos, que levou à morte de 500.000 civis alemães, ou o estupro de mais de 2 milhões de mulheres alemães pelas tropas soviéticas, e outros atos de barbárie tomados pelos Aliados durante e após a guerra que levaram à morte de 7 milhões de civis alemães; ou ainda o gradual processo de genocídio pelo qual passam os brancos na África do Sul e no Zimbábue. A reação de um indivíduo a esses fatos será revelador de seu caráter.

Em nome da Democracia Liberal e da Igualdade, não há extermínio e barbárie que seja injustificável, ainda mais quando a barbárie é travestida e mitificada como uma espécie de ‘justa vingança’ da ‘inocente vítima’. Como poderia dizer Nietzsche, o ressentimento mesquinho dos tipos humanos fracos contra tipos vistos como poderosos, quando alimentado pela ilusão auto-criada da própria ‘inocência’ e ‘bondade’, impele o Homem para os mais profundos dos ódios. Um erro passa a justificar o outro.

A Utopia da Paz em seu âmbito global só é possível por meio da sujeição de todos os Estados a uma única autoridade supra-estatal. Mas para que essa sujeição não culmine em uma ‘Guerra Civil Global’, para que a Ditadura Utópica Global perdure, toda e qualquer percepção de ‘Alteridade’ deve ser extirpada. Ou seja, qualquer noção de um ‘Outro’ deve deixar de existir, e ser substituída pela noção de um ‘Eu’ coletivo e absoluto que englobe toda a Humanidade.

Mas a percepção de ‘Alteridade’ deriva exatamente do fato das infinitas diferenças que existem entre os agrupamentos etno-culturais humanos. Então, para que a ‘Paz Perpétua’ seja instaurada entre os Homens, toda Diferença deve ser desintegrada. A Igualdade absoluta é a pré-condição necessária para a Paz Perpétua.

Mas vejam só, se a Utopia Moral da Paz Perpétua é absolutamente boa e desejável, não há, em absoluto, metodologia que não possa ser utilizada para alcançá-la, independentemente das supostas implicações morais de tais métodos. A Utopia Moral se sobrepõe a toda e qualquer outra consideração moral. Nada pode ser tão moral quanto a Utopia, e qualquer imoralidade, à serviço da Utopia, passa por tamanha transformação alquímica que é vista como absolutamente moral. É o tal “bem maior” justificando o “mal menor”.

O oposto também é verdadeiro. Atos, posicionamentos e comportamentos completamente naturais, quando estão dirigidos contra a consecução da Utopia Moral, são vistos como monstruosidades, mesmo quando os adeptos da Utopia realizam os mesmos atos. Se inimigos da Utopia prendem ou fuzilam terroristas e espiões que atuavam para desestabilização do governo e a realização de um golpe ‘democrático’, então eles estão realizando um ‘massacre’, ou ‘perseguindo opositores políticos’. Se adeptos da Utopia perseguem, prendem e condenam à morte, ativistas, pensadores e políticos, que lutam para impedir que sua cultura seja destruida pela globalização, então esses adeptos estão ‘combatendo a intolerância’, ou alguma falácia similar.

Para que a Paz Perpétua seja conquistada então, é necessária que toda a Humanidade seja transformada em uma massa amorfa, desprovida de características singulares. E para que isso seja efetivado não há medida que possa ser considerada imoral. E, considerando que hoje não há lobby mais poderoso do que esse, o lobby do ‘Governo Mundial’, não é ‘teoria da conspiração’ dizer que obviamente as pessoas influentes envolvidas nesse lobby vão usar essa influência, seja na economia, na política ou na mídia, para esmagar as Diferenças e impor sua Utopia Moral. É a pasteurização.

E, para isso, curiosamente, não é necessário realizar qualquer movimentação na direção da ‘Igualdade econômica’.

Essa modalidade de ‘Igualdade’ é colocada como a mais medíocre e irrelevante de todas elas, exatamente pelo fato de que seu objeto, a Diferença determinada pelo Dinheiro é a diferença mais ‘igualitária’ de todas e de modo nenhum impede ou dificulta a ascensão do ‘Governo Mundial’.

Ao contrário.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: O mito da igualdade (Parte II)

23/03/2010

Continuando o texto iniciado na coluna passada. Confira-o aqui

A ‘Igualdade’ é uma impossibilidade ontológica. Um ente é ele mesmo por conta de suas características individualizadoras. Eu sou ‘eu’, por conta daquilo que me diferencia de tudo que é ‘não-Eu’.

Toda a multiplicidade de entes se realiza como multiplicidade pela Diferença, pela Individualidade. Assim, retirando-se os elementos individualizadores, a ‘Diferença’, que é o meio de alcançarmos a ‘Igualdade’, a partir do momento que tivermos dois entes idênticos, não teremos mais dois entes, mas apenas um.

Se a Diferenciação é o que gera a multiplicidade de entes, ou seja, aquilo a que chamamos ‘Universo’, ‘Realidade’, a desconstrução das diferenças entre os entes só pode ser vista como uma tentativa de se engajar em um processo de destruição do Universo. O ‘Igualitarismo’, é uma teologia ‘Anti-Vida’, uma teologia da destruição.

Não possuindo base natural, ou seja real, o Mito da Igualdade só pode se sustentar por meio da coação oficial do Estado, ou por meio das formas difusas de coação, originadas da infra-estrutura social, principalmente dos meios de comunicação e da educação. A principal demência derivada do Mito da Igualdade consiste exatamente na crença de que ‘se não há igualdade, isso é um erro, pois deveria haver’, e agir com base nesse preceito teológico, sustentando e tentando impor a ‘Igualdade’ frente a uma Realidade indiferente e hostil aos retardos supersticiosos dos homens.

‘Se não há igualdade, deveria haver’. Por quê? Por quê deveria haver igualdade? De onde se pode retirar a legitimidade para se estabelecer como Juiz da Natureza? Não se pode. Isso não existe onde há qualquer tipo de reflexão autêntica. E como se pode derivar um ‘dever ser’, de um ‘não ser’? Não se pode. Não há qualquer elo de necessidade, seja lógico, ontológico ou existencial, entre esses dois juízos.

Inevitavelmente, a única fundação possível, a única fonte de legitimidade para esse juízo falso, é novamente a teologia cristã, a superstição bárbara. Se os homens possuem uma ‘essência’ igual.

Se todos os homens são iguais em um plano abstrato, seja teológico, seja racional, então deve-se fazer o possível para atualizar essa potência igualitária metafísica na realidade, como se estivesse a criar um ‘Paraíso na Terra’, como se quisesse promover a materialização da ‘Jerusalém Celeste’.

Vê-se, portanto, que o ‘Mito da Igualdade’ possui fortes características messiânicas e escatológicas, principalmente por estar intimamente associada a outro Mito, o do ‘Progresso’.

As consequências sociais dessa teologia anti-humana são evidentes. Todos os entes só podem ser aquilo que são, e nada mais. Sendo as diferenças entre os entes ontológicas e essenciais, qualquer tentativa de se gerar igualdade só pode ser efetuada nos entes que se diferenciam nos graus de uma mesma qualidade.

Ocorre, porém, que o que é inferior em grau em uma certa característica, não pode se elevar para além dos limites da própria capacidade. Ao contrário, o que é superior em grau, pode se rebaixar, pois já guarda consigo, a priori,  todas as gradações que lhe são inferiores.

Isso significa basicamente que todo processo de equalização se realiza exclusivamente mediante uma ‘nivelação por baixo’, por uma mediocrização imposta ao que é superior, para que ele se aproxime do que é inferior.

Pensemos um cavalo de corrida e um ‘burrico’. Queremos torná-los iguais. ‘É injusto que o cavalo de corrida possa correr mais que o burrico! O burrico não merece isso!’. Que faremos então?

Poderemos tentar ‘educar’ o burrico a correr como um cavalo de corrida.

Logo perceberemos, porém, que isso é impossível.

O ‘burrico’ poderá correr um pouco mais do que já corre, mas apenas dentro das limitações apriorísticas já contidas nas próprias potencialidades dele mesmo.

Se ao invés de nesse momento percebermos que a ‘Igualdade’ é um engodo e resolvermos sabiamente que o cavalo de corrida e o ‘burrico’ devem ser utilizados naquilo que cada um tem de seu, ao invés de equalizados, quisermos continuar nesse projeto igualitário demente, qual será a opção restante? Aleijar o cavalo de corrida. Apenas assim será conquistada a Igualdade.

Parece, porém, que a maioria das pessoas crê em algo que não só é impossível, como também prejudicial para a sociedade. As razões para essa crença são duas apenas.

A primeira é a soma do ressentimento e da inveja daqueles que enxergam a si mesmos como incapazes frente a semelhantes mais afortunados. O desejo pela ‘Igualdade’ nesse caso não passa de manifestação de um medíocre sentimento vingativo.

A segunda, o desejo por ‘Igualdade’ dos que não são incapazes, surge a partir de um auto-destrutivo senso de ‘piedade’, e de uma deficiência mental, uma ‘dissonância cognitiva’.

Inevitavelmente, esse Mito levará o Ocidente à ruína. Será uma ruína merecida, porém. Restará, para os que sobrarem, a missão de construir uma nova civilização sobre fundações mais sólidas.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: O mito da igualdade (Parte I)

17/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

“A pior forma de injustiça é tentar tornar iguais coisas desiguais” – Aristóteles

Toda sociedade se estrutura ao redor de Mitos fundadores. Mito não é, como pressupõe o vulgar vernáculo racionalista, sinônimo de ‘mentira’. Não é uma ‘mentira’ porque não é uma narrativa de um fato histórico, e não sendo narrativa de um fato histórico não pode ser dito nem ‘verdadeiro’, nem ‘falso’, a partir de uma perspectiva historicista.

Um Mito é um continente (no sentido de uma forma que contém um conteúdo, não no sentido geográfico, obviamente…) de relações entre entes, dotado de máxima significação por uma valoração realizada pela Vontade de um Povo.

Um Mito é uma representação simbólica do impulso fundador e conduzente de uma sociedade, justificando o surgimento daquela sociedade e estabelecendo todas as pautas culturais, as quais a mesma deverá obedecer em seu desenvolvimento.

O fato de não ser uma narrativa de um fato histórico, porém, não isenta um Mito de ser objeto de um juízo de ‘verdade’. Apenas altera o âmbito no qual tal juízo deve ser realizado.

A ‘verdade’ de um Mito está contida em sua capacidade de ‘afirmar a Vida’ do Povo no seio do qual ele surgiu, ou seja, de promover a expansão e fortalecimento das potencialidades criativas de um Povo e de sua vitalidade. Um Mito incapaz de afirmar a Vida, ou que faça o contrário, é necessariamente auto-contraditório e, portanto, falso.

O Mito, portanto, para ser válido deve ser eminentemente realista enquanto Idéia. A negação das verdades existenciais eternas do Homem, dos seus fundamentos existenciais, constitui propriamente ‘negação da Vida’ e já identifica intuitivamente um Mito como absolutamente falso.

Um Mito é uma realidade simbólica eternamente presente em todas as sociedades, independentemente de seu ‘nível tecnológico’, de seu ‘progresso material’, ou de seu posicionamento frente à religiosidade. Existirá tanto em tribos primitivas e supersticiosas quanto em sociedades cientificistas e atéias.

Entre os muitos Mitos que ocupam uma posição central nas sociedades ocidentais modernas, o principal e o mais nefasto de todos é o Mito da Igualdade. Nenhum outro Mito é mais fanaticamente defendido, e nenhum pode ser tão ridiculamente falso e prejudicial às sociedades nas quais ele virulentamente se instala, como este.

Esse Mito pode ser formulado de duas maneiras. Ou ‘todos os Homens são iguais’, ou então, ‘todos os Homens não são iguais, mas deveriam ser.’ A primeira é simplesmente uma formulação míope e selvagem, a segunda é uma formulação covarde dos que, tendo sido forçados a reconhecer a surrealidade da crença na Igualdade, tentam salvar o Mito transplantando-o retoricamente para o âmbito do ‘dever-ser’.

Esse afastamento metafísico da Igualdade, que constitui verdadeira sacralização, possui o interessante condão de nos revelar as autênticas origens desse curioso Mito.

Tendo sido apresentado ‘filosoficamente’ ao Ocidente por meio da tradição iluminista, a qual supostamente deveria ser superior à tradição medieval por ser ‘racionalista’ e ‘atéia’, o Mito de Igualdade parece possuir algum tipo de ‘aura de respeitabilidade’, como se o fato desse Mito se originar de uma tradição racionalista o tornasse ‘real’, ou ‘mais real’.

O Mito da Igualdade, desconhecido na Antiguidade, está originariamente enraizado, porém, exatamente na tradição teológica da cristandade medieval e são exatamente as ciências empíricas as fontes dos principais ‘embaraços’ constrangedores dos seguidores dessa teologia contemporânea. Aparentemente, os iluministas e todos os seus herdeiros simplesmente rejeitaram aquilo que há de mais acessório no Cristianismo, a crença em Deus, permanecendo profundamente supersticiosos e cristãos em tudo aquilo que é filosoficamente relevante.

Constantemente, porém, nós somos colocados frente à realidade da profunda e radical desigualdade entre todos os homens em suas aptidões, e com o ‘problema’ de que, inevitavelmente, haja homens mais capazes do que outros.

Não digo apenas homens capazes em uma certa atividade, e outros homens capazes em outras, mas sim homens absolutamente mais capazes do que muitos outros em todas as áreas. Poucos exemplos são tão simples e claros, como o da criança que consegue notas excelentes sem estudar, enquanto seu colega se esforça profundamente em seus estudos conseguindo no máximo apenas resultados medianos.

Como subterfúgio covarde, os igualitaristas então são obrigados a recorrer a uma variação da ‘igualdade metafísica’ da teologia cristã. Segundo a teologia cristã, os homens são ‘iguais diante de Deus’, possuem exatamente ‘almas idênticas’, e, portanto, todas as diferenças entre os homens são apenas contingentes, relativas e efêmeras. Os homens seriam iguais no Paraíso, na Eternidade.

Analogamente, os igualitaristas que reconhecem a desigualdade natural entre os homens, afirmam que por sua vez existe algum nebuloso tipo de ‘igualdade moral’, que reside em algum ‘plano abstrato’ e que, por isso, os homens deveriam ser ‘tratados’ com igualdade, formulações metafísicas estas que eles são incapazes de explicar e justificar. Em verdade, dificilmente alguém verá um (pseudo) filósofo ou pensador igualitarista até mesmo se dispor a justificar suas crenças. Nem Rousseau, nem qualquer dos iluministas fez algo similar, para além de balbuciarem algumas semi-explicações insatisfatórias.

Em geral, tais justificativas tentam se apoiar na noção de uma ‘Razão’ como faculdade abstrata e universal. Ocorre que a tal ‘Razão’ como faculdade abstrata tampouco existe. O que existe é a ‘Razão’ como instrumento cognitivo prático, a qual é tão universal aos homens quanto sua ‘Altura’. Todos possuem alguma ‘Altura’. Também, todos possuem algo como uma ‘Razão’. Porém, assim como os homens possuem alturas variáveis, a qualidade desse instrumento cognitivo chamado ‘Razão’, também é absolutamente individual e variável entre os homens.

Não há, portanto, qualquer parâmetro possível para um estabelecimento de uma Igualdade entre os homens, a não ser recorrendo-se às superstições teológicas. Repetindo mais claramente: A Igualdade é uma mentira, uma farsa, um engodo, uma trapaça, uma tramóia. Não possui qualquer fundamento real, jamais teve, nem jamais poderá ter. Quem crê na ‘Igualdade’, ou está fingindo, ou simplesmente sofre de dissonância cognitiva. As sociedades modernas estão, então, fundadas numa farsa e são, consequentemente, eminentemente decadentes e filosoficamente ‘más’.

Continua na semana que vem…

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: A ação e a verdade – Observando a realidade objetiva

10/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

Toda Ação se origina de uma resolução interna de causar certos efeitos sobre a realidade objetiva do mundo exterior. Assim, toda Ação possui um caráter subjetivo e volitivo, restando necessariamente fundada na representação interna que o ‘agente’ tem da realidade, assim como em sua ‘Visão-de-Mundo’, ou seja, na maneira pela qual ele valora e impõe sentido aos infindos entes da realidade objetiva.

Uma Ação (ou um conjunto de ações) pode ser dita ‘Verdadeira’ ou ‘Falsa’, não só na medida em que ela seja capaz de realizar os efeitos pretendidos, mas principalmente na medida em que a Representação e a Visão que a fundam possuam uma correlação positiva e o mais aproximada possível da realidade objetiva.

A despeito do que afirmam os relativistas, a impossibilidade de se conhecer racionalmente a realidade objetiva em sua pureza absoluta não refuta a sua existência, na medida em que ao estar o Homem sempre e necessariamente integrado nessa realidade objetiva (ou seja, inexistindo o Indivíduo, o ‘Átomo Humano’, a ‘Pessoa Humana’) ele é constantemente ‘afetado’ pelas relações de entes e forças, as quais não se originam dele mesmo.

Necessariamente, portanto, a Ação fundada no ‘Ilusório’ deverá, no mínimo, culminar em resultados negativos, ou mesmo funestos, para o ‘agente’, quando não em resultados negativos para a própria realidade objetiva na qual o Homem está absolutamente integrado. O Erro leva à Tragédia. É simples assim. Mas nem sempre essa verdade é fácil de ser percebida.

Se eu estiver caminhando, e houver um buraco no meu caminho e eu ‘representar falsamente’ esse aspecto da realidade objetiva, eu simplesmente vou cair e me ferir. Esse é um exemplo claro e óbvio de como toda Ação fundada no Erro leva à Tragédia. Situações como essa, que lidam com aspectos mecânicos e visíveis da realidade objetiva, e cujos efeitos surgem a curto prazo e diretamente, nos permitem visualizar com facilidade a estreita associação entre o ‘agir’ e a retidão dos juízos prévios à ação.

Infelizmente, porém, a realidade objetiva é muito mais complexa e a maior parte de seus aspectos é composta por redes e camadas de relações entre entes, as quais muitas vezes não são perceptíveis pelos sentidos, possuem uma natureza diluída e fragmentada, e que exercem influências mútuas, que só podem ser percebidas a longo prazo. Isso se aplica, por exemplo, a tudo que concerne à sociedade, à cultura e à história, entre outros âmbitos da realidade objetiva.

Não é de surpreender, portanto, que seja mais fácil cometer e sustentar absurdos infundados em tudo aquilo que concerne às relações do Homem com as suas criações culturais e sociais. Para a maioria dos animais, a incapacidade de representar e perceber corretamente a realidade, a incapacidade de se adaptar à realidade e de responder corretamente aos seus estímulos, culmina em sua morte e, quando a nível coletivo, na extinção de uma espécie. Os Homens, porém, ao longo dos milênios, desenvolveram inúmeros artifícios, principalmente a tecnologia, os quais lhes permitem ‘adiar as contas que eles têm que prestar’ com a Realidade Objetiva.

Uma certa medida ou orientação de política governamental, ou então uma ideologia, podem ser aplicadas por décadas, até mesmo séculos, até que sua inocuidade ou sua falsidade sejam percebidas claramente. Isso é um fato, mesmo que a falsidade essencial de referida orientação ou ideologia já sejam perceptíveis, aos que tem rigor, desde a sua concepção.

O principal problema é que, por conta dessa natureza dilatada dos efeitos das ‘ações políticas’, na maior parte das vezes simplesmente é tarde demais para se consertar os erros, depois que eles são percebidos.

Esse problema é agravado pelo fato de que a maioria dos membros da ‘classe intelectual’, ou por incapacidade, ou mais provavelmente por estarem completamente hipnotizados por pautas moralistas e sentimentalóides, nutrem um completo desprezo pela ‘Realidade’ e pelas Ciências, quando as mesmas, inevitavelmente, refutam de modo avassalador suas crenças pífias e esclerosadas.

Não saberia precisar se o desprezo pelas Ciências deriva da ignorância moral-sentimentalista, ou se o que ocorre é o contrário. Provavelmente a primeira opção é a mais acertada. Os espíritos fracos são impelidos na direção de sistemas morais de pensamento que invertem os valores tradicionais, exaltando a ‘vítima’ e condenando os ‘dominadores’. Sobre essa inversão, erguem-se religiões, ideologias políticas, conceitos filosóficos e projetos sociais e econômicos.

Quando as verdades da realidade objetiva, como interpretadas pelas Ciências (das Humanas às Exatas), não se adequam às fantasias humanistas dos ditos ‘intelectuais’, ou eles simplesmente ignoram a Ciência, limitando seus efeitos a um campo extremamente restrito (como fazem com as Exatas, e principalmente com a Biologia), ou então, simplesmente as distorcem e as manipulam, para fazer com que elas confirmem seus ‘ideais’ surreais (como fazem com todas as Ciências Humanas).

O desprezo visto nesses ‘intelectuais’ burgueses, nesses ‘homens de bem’ em geral, em relação à Verdade e à Ciência, deveria causar tanto nojo generalizado quanto me é causado. Isso, porém, não se verifica. Parece que, desde que os egos, individuais ou coletivos, sejam ‘massageados’, desde que todos ouçam exatamente aquilo que querem ouvir, então ‘simplesmente está tudo bem’.

Se tais ideais humanistas são falsos, ou não, é de pouca monta para essa intelectualidade. Me surpreende com desgosto ver que quando eu refuto com perfeição analítica alguns desses ideais, como o da Igualdade por exemplo, a face do adversário demonstra uma absoluta ‘nulidade’.

A face dos que são crentes fanáticos em ideais falsos e estéreis é vazia, oca e cinzenta como a de zumbis. Eles só são acesos, tornando-se hordas furiosas e enlouquecidas quando os referidos falsos ideais são desintegrados por certos filósofos, cientistas e pensadores em geral.

A diferença entre um seguidor das modernas ideologias humanitárias e sentimentais e o seguidor de uma das religiões sacerdotais abraâmicas é difícil de se detectar.

As primeiras, derivam das segundas, apesar de renegarem seus ‘genitores ideológicos’. São todos sistemas de pensamento que desprezam a ‘Realidade Objetiva’, posicionando a obediência a dogmas moralistas infundados acima de qualquer outra preocupação. E seus seguidores se transformam subitamente em hordas sanguinárias e enlouquecidas quando enfrentados.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: O politicamente correto, o marxismo cultural e as suas origens comuns

03/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

Feminismo, “movimento” gay, “movimento” negro. Parece que, quanto mais o tempo passa, mais brotam esses grupos de interesse, ditos minoritários, cuja única e exclusiva finalidade é extrair vantagens e benefícios da sociedade como um todo, esmagando, legalmente ou não, toda e qualquer oposição queapareça.

Em verdade, a proliferação desses lobbies das “minorias vitimizadas” é de tal monta que, contraditoriamente, às vezes chega a ser possível supor que essas tais minorias, dignas de adulação, são majoritárias. Subitamente, todos começam a se sentir no direito de fazer exigências absurdas para assim satisfazerem seu patético senso de auto-importância.

A existência desses grupos minoritários, dignos de vantagens e benefícios, por conta de alguma suposta injustiça histórica a qual os “dignifica” moralmente a tal ponto de ser impensável criticá-los, é parte essencial do fenômeno aberrante do Politicamente Correto, uma praga ideológica totalitária que tomou o Ocidente de assalto, submetendo-o de tal modo a até mesmo paralisar suas forças.

Mas será esse fenômeno um desenvolvimento natural e espontâneo de nossa civilização, ou terá seu surgimento tido um caráter intencional? Pois bem, o conhecimento do histórico dessa ideologia só poderá fazer com que nos inclinemos à segunda opção.

Ocorre que, o próprio termo ‘Politicamente Correto’ é demasiado recente, e surgiu como uma espécie de ‘sarcasmo’ com relação às incongruências irracionais e aberrantes geradas pela referida ideologia. Seu nome original era ‘Marxismo Cultural’, ou seja, Marxismo transplantado da economia para o âmbito da cultura. Isso pode ser confirmado tranquilamente caso se realize uma comparação entre os elementos fundamentais do Marxismo Ortodoxo e os do ‘Politicamente Correto’. As analogias são claras.

Em primeiro lugar, ambas ideologias possuem confiança em um único fator como sendo supostamente capaz de explicar o todo da História. Para o Marxismo Ortodoxo, todo o devir histórico é determinado pela posse dos meios de produção, e apenas por isso. Para o Marxismo Cultural, apenas a noção de ‘poder’ é capaz de explicar a história. Tudo se remete a ‘quem tem poder sobre quem’, ‘quem submete quem’. Tudo na história deve ser entendido com base nesse conceito superficial.

Em segundo lugar, assim como no Marxismo Ortodoxo alguns grupos são, a priori, absolutamente bons, como o campesinato e o proletariado, enquanto outros são absolutamente maléficos, como os burgueses e os donos dos meios de produção, no Marxismo Cultural alguns grupos também são absolutamente bons, como as mulheres feministas, os negros e os homossexuais. Esses ao construírem artificialmente para si o papel de ‘vítimas históricas’, automaticamente se convertem em ‘bons’ e todos os seus atos são excusáveis, não importa quais sejam, já que, o que quer que eles façam é feito apenas em ‘reação aos opressores’. No Politicamente Correto, portanto, homens brancos e heterossexuais são a personificação do Mal, sendo o equivalente cultural da Burguesia.

Em terceiro lugar, tanto a prática comunista ortodoxa como a prática marxista cultural se dão por meio da expropriação. Os comunistas em todos os países em que eles chegaram ao poder se impuseram por meio da expropriação forçada dos bens de praticamente todas as classes, incluindo até mesmo os dos camponeses. A expropriação do Politicamente Correto, por sua vez, se dá por meio das ‘ações afirmativas’. Quando um aluno branco, superiormente qualificado, tem sua admissão a uma universidade negada em razão de cotas ele está sendo expropriado de um direito seu.

A expropriação do Marxismo Cultural pode se dar ainda por meios mais maléficos e sorrateiros. Quando acadêmicos acéfalos ou lobbies de minorias histéricas impõem a demonização do suposto ‘opressor’, por meio da distorsão da história, da invenção de vitimizações e sofrimentos míticos e pela falsa representação de aspectos e características de um povo, o que está ocorrendo é uma autêntica expropriação histórico-cultural. O ‘opressor’ tem sua história e sua cultura roubadas de si, e passa a ser obrigado a aceitar a versão de sua própria história construída pela ‘vítima’, não importando o quanto esta versão seja distorcida, e se submeter a martírios e auto-flagelos de arrependimento e culpa, entregando voluntariamente toda forma de vantagens e benesses às vítimas como forma de ‘compensação’ por ‘crimes desumanos’. Nesse aspecto, a lavagem cerebral completa exercida contra o povo alemão após 1945 é o melhor exemplo.

Outras analogias podem ser encontradas, como o fato de ambas ideologias utilizarem métodos de ‘análise’ designados para apresentarem apenas os resultados já previamente esperados, ou de ambas ideologias serem eminentemente totalitárias e seus adversários serem perseguidos, mesmo no âmbito do ‘Estado Democrático de Direito’, haja vista a crucificação moral e profissional nos altares totalitários do Politicamente Correto de James Watson, um dos maiores biólogos do século XX, ganhador do Nobel, apenas pelo mesmo ter feito afirmações completamente factuais e comprovadas a respeito do QI.

As analogias, porém, não são coincidências, mas sim completamente intencionais. Mais: O Marxismo Cultural é a evolução do Marxismo Ortodoxo, tendo sido exatamente o meio pelo qual o Marxismo alcançou sua vitória absoluta sobre o mundo.

Tudo deriva do fato de que o Marxismo Ortodoxo estava eivado de incontáveis falhas, principalmente no que concerne sua previsão do futuro. Supostamente, as guerras geradas pelo imperialismo europeu levariam necessariamente a uma revolução mundial. A guerra veio em 1914, a revolução russa em 1917. Mas a Revolução Mundial nunca veio. O proletariado escolheu o Nacionalismo, ao invés de míticas elocubrações falsas e abstratas a respeito de internacionalismos e ‘solidariedade de classe’. Marx estava, como em quase tudo o mais, redondamente enganado.

Que fizeram então os Marxistas mais inteligentes, como Antonio Gramsci? Chegaram à conclusão de que o proletariado jamais visualizaria seus interesses até que fosse ‘libertado das amarras da Cultura Ocidental’.

Começa assim a defesa e propagação intencional de todos os ímpetos antagônicos em relação ao superior Espírito da Civilização Ocidental. Por meio da fusão alquímica entre Marx e Freud, os teóricos do Marxismo Cultural começam seu ataque sobre as instituições tradicionais do Ocidente.

O Marxismo Cultural entende que todos os laços identitários involuntários, como sexo, raça ou nação, são ‘tirânicos’ e que, portanto, esses laços devem ser ‘desconstruídos’.

A Identidade sexual, por exemplo, por meio da invenção de um antagonismo entre os sexos, por meio da defesa do homossexualismo, pelo incentivo à promiscuidade (‘liberação sexual’) e pela inversão dos papéis sexuais tradicionais. Temos aí a “grande” contribuição de Sigmund Freud para a Humanidade.

Inúmeras outras formas de estratégias de destruição foram desenvolvidas para desintegrar as diversas formas de Identidade: incentivo à imigração, à miscigenação e ao multiculturalismo; defesa de um promíscuo ‘ecumenismo’ religioso, de bizarrices esotéricas new age e do ateísmo materialista; defesa de um ‘mundo sem fronteiras’ e do ‘fim dos Estados-Nações’; defesa do aborto; defesa do pacifismo e do desarmamento civil; assim como várias outras estratégias cuja única finalidade é dissolver as instituições tradicionais, enfraquecer a resolução, os ímpetos e instintos dos ocidentais e lhes empurrar semi-voluntariamente na direção do ‘Paraíso Marxista’.

Esse é exatamente o nosso statu quo ideológico. Pior: A maior parte dos itens acima são hoje vistos como parte de um ‘senso comum’, para o horror, estupefação e gargalhadas histéricas de nossos ancestrais, os quais sabiam mui acertadamente que cada um dos pontos acima é radicalmente anti-natural, anti-produtivo e completamente contrário à manutenção de sociedades estáveis, saudáveis, fortes e civilizadas.

A maior glória e a maior prova do sucesso estratégico marxista é que o Marxismo Cultural é absolutamente compatível com o Capitalismo. É exatamente essa a Síntese Hegeliana que supostamente colocará um ‘Fim na História’. O Marxismo Político-Econômico está completamente morto. Existe apenas em suas formas tribalistas nos sub-mundos bárbaros da América Latina e da África.

Enquanto ‘direitistas’ tolos se preocupam com o pateta Chávez, Hollywood realiza bombardeios contínuos de material Marxista Cultural, desde que Theodor Adorno, um dos principais ideólogos do neo-marxismo, se tornou ‘Consultor’ na Babel do Cinema na década de 30.

Em verdade, a atuação dos marxistas apenas eleva o poder e os lucros dos Grandes Capitalistas já que a dissolução dos laços identitários contribui enormemente para a formação de uma horda de escravos-consumidores completamente maleáveis, sensíveis a quaisquer estímulos propagandísticos, e que não se recusam a comprar um certo produto pelo mesmo ser ‘estrangeiro’.

A Tirania tem muitas faces. Não é por não cometer genocídios ou por ser ‘libertária’ que ela deixa de ser uma Tirania.

Basta apenas que ela esteja fundada na Ilusão.

*Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Reflexões sobre o politicamente correto e a liberdade da palavra

24/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Todo pensar se dá por meio da Linguagem. Ao longo dos tempos o ato de ‘dar nome aos entes’ tem sido o meio pelo qual o Homem integra um dado ente à sua Macro-Estrutura Cultural. Assim, as coisas existem para o Homem na medida em que elas possam ser representadas por signos linguísticos. A apropriação do ente pelo Homem por meio da Linguagem possui necessariamente um caráter coletivo, como o próprio Homem, o qual é reforçado pelas instituições sociais responsáveis por integrar um indivíduo na Macro-Estrutura Cultural.

A partir de então, todo o pensar do Homem sobre um ente integrado na Macro-Estrutura Cultural jamais será um pensar sobre o próprio ente, mas sobre a ‘Palavra’, o ‘termo’, o ‘signo’, o qual representa o ente, e que é apreendido culturalmente pela coletividade ao longo das gerações. Os limites do pensar humano são, portanto, os limites de sua linguagem. A Linguagem, por isso, não é apenas resultado de uma construção cultural coletiva, mas é ela própria fator de orientação e determinação da Cultura e Destino de um Povo, na medida em que representa absolutamente determinados valores, ideais, inclinações e aspirações.

Altera-se a Linguagem de um Povo, seja pela adição ou supressão de certas palavras, ou pela alteração das semânticas das palavras, e todo seu pensar, sentir e viver se verão radicalmente alterados. A Linguagem não é um mero instrumento de trocas, como sem dúvida supõem todos os pragmáticos, materialistas e racionalistas, mas mais do que os outros elementos culturais, é ela a própria fundação sobre a qual se ergue uma Civilização. Como afirmava Heidegger: ‘A Linguagem é a casa do Ser.’

Ab initio, por isso, toda iniciativa de se realizar qualquer alteração na Linguagem de um Povo, qualquer intromissão em seu ‘dicionário oficial’, já deveria ser vista com a mais intransigente e provinciana suspeita e aversão. Só deveria ser permissível uma tão audaciosa e perigosa iniciativa, após a realização e a autorização de um ‘Conselho de Sábios’, composto por filósofos, psicólogos, teólogos, sociólogos, antropólogos e todos os maiores especialistas do ‘Espírito’ humano, onde se verificaria com anos e anos de estudo exatamente que efeitos teriam tais alterações sobre a totalidade das experiências existenciais humanas.

Infelizmente, porém, isso é inconcebível quando os povos são governados por trôpegos e abismados proletários, ou por burgueses usurários e glutões. É completamente evidente que alterações com vistas a ‘simplificar’ uma Linguagem, ou ‘integrar e aproximar os povos’ terão inevitavelmente como efeitos a própria mediocrização do pensamento e o desenraizamento cultural dos povos vítimas dessa violência humana, demasiado humana.

Mas há males muito mais insidiosos na manipulação da Linguagem, principalmente no que concerne à semântica das palavras. Ocorre que, se as palavras por sua natureza como representativos símbolicos de entes, inclusive de Idéias, é garantidamente possível se realizar uma pesada e totalitária doutrinação ideológica por meio de alterações da Linguagem.

Se os limites da Linguagem, são os limites de nosso pensamento, então basta uma palavra representativa de uma Ideologia ‘tabu’ ou ‘perseguida’ ser riscada do dicionário e das menções oficiais, principalmente nos meios escolares e acadêmicos, para que aquela Visão de Mundo particular deixe de existir em algumas gerações, simplesmente por não poder mais ser ‘pensável’, ‘concebível’, ‘falável’.

Orwell, então, só pode ser visto como um verdadeiro visionário ou profeta. Ele com extrema argúcia descreveu esse instrumento do mais diabólico totalitarismo, o qual prescinde absolutamente de autoritarismos políticos, e que pode conviver tranquilamente com sistemas demo-liberais. A prova disso é que exatamente essa é a realidade em que vivemos, e são as instituições mais centrais do establishment demo-liberal as propagandistas mais fanáticas da ‘novilíngua’ politicamente correta, e os maiores inimigos das ‘verdades desagradáveis’, já desde os fins do século XIX, e mais aberta e fanática desde a década de 60 nos EUA e na Europa Ocidental.

Não há Liberdade quando se pré-determina que palavras podemos usar, que ideias podemos ter. A escravidão é absoluta quando certos elementos parasitários da sociedade realizam sua subversão por meio de distorsões semânticas. A ofensa, a rejeição, a raiva, a aversão, a diferenciação, o alto e sonoro NÃO!, são partes integrantes e essenciais da Vida e da Liberdade.

Heinrich Himmler, um dos principais líderes do Terceiro Reich, havia dito em uma entrevista a um repórter americano que ele não se importava com as crenças e opiniões pessoais dos alemães, mesmo as contrárias, desde que essas discordâncias não se expressassem de modo aberto a ponto de atrapalhar a condução do Reich pelos Nacional-Socialistas. Para ele, líder da Gestapo e das SS, os alemães podiam ser livres para pensarem o que quisessem.

Na Modernidade Totalitária Demo-Liberal, a última trincheira de combate, nosso interior, nosso ‘Eu’, fonte de todas as Liberdades, foi tomado de assalto pelas distorsões históricas e pelas semânticas subversivas, cuja finalidade é fazer com que a ‘Revolução’ desabroche naturalmente a partir da própria ‘consciência’ das pessoas. Na Modernidade Totalitária ninguém é livre para pensar o que quiser. Aquele que pensa os ‘tabus’ é convencido a se submeter a um sentimento de culpa e vergonha, cuja única expiação é realizar a auto-violência mental de destruir a própria Identidade, os próprios ‘preconceitos’.

Todo discurso sobre ‘Liberdade’ em uma Tirania como a do Politicamente Correto, a qual governa todos os países do Ocidente, não passa de uma farsa quando a Liberdade Original, aquela que se origina da Ideia, do Logos, foi banida para ‘campos de reeducação’ ou calada violentamente por ser ‘fascista’ demais.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.