Arquivo da seção ‘Felipe Liberal’

Coluna do dia: O Germinal Chileno

02/09/2010

* Por Felipe Liberal

Germinal, na Revolução Francesa, correspondia ao início da primavera européia. O nosso início de primavera, aqui na América do Sul, o nosso germinal, começa igual a uma das melhores obras que o ser humano já escreveu: Germinal, de Émile Zola. Nosso germinal começa trágico e previsível.

Zola, na obra, conta a história das péssimas condições de trabalho dos mineiros franceses em meio à greve provocada por eles, em pleno século XIX. O livro tem um tom escurecido, mas acaba com uma olhar ensolarado sobre o futuro. Mas que futuro? O futuro, ao longo dos últimos 150 anos, foi um luxo de poucos países.

Os 33 mineiros presos embaixo da terra são o resultado do futuro que não chegou, do passado mais vivo mundo. O descuido que as grandes empresas têm nos países mais pobres não acontece nos países ricos. Mazelas produzidas pelas mesmas empresas em países sul-americanos e africanos não acontecem na Europa e Estados Unidos. Os “acidentes” são para nós, selvagens.

Não acredito no futuro, não acredito em mudanças no cenário global, sem uma enorme radicalização do presente. O presente tem que ser destruído, para construirmos um futuro novo e zerado. Em 2011 ou 2012, Hollywood provavelmente produzirá um milionário longa-metragem contando a história desses pobres operários enterrados, e nos contando o quanto a América (do norte) fez para salvá-los daquele enorme túmulo escuro e úmido. Vai ser sempre assim.

Entretanto, desejo toda sorte do mundo para aquelas pessoas e muita força para as famílias que estão na superfície. E desejo, mesmo que em vão, um germinal, um renascer para todos operários, camponeses ou qualquer outro cidadão do mundo soterrado por esse sistema desgraçado que é o capitalismo.

Que esse inverno, tenha sido o último.

*Felipe Liberal é colunista esporádico do Perspectiva às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

2º coluna do dia: Debate televisivo – a Era Jurássica da democracia

13/08/2010

*Por Felipe Liberal

O debate televisivo é a pior forma de se avaliar um candidato, principalmente pela formalidade, frieza e artificialidade dos argumentos e ideias. Tudo que acontece ali, nada tem a ver com o que vai acontecer depois das eleições e depois da posse. É um mero ritual macabro que está cristalizado nas entranhas da nossa perdida democracia.

As discussões pós-debate são: quem gaguejou mais? Quem sorriu mais? Quem estava mais nervoso? Isso é um absurdo. É o resultado de um sistema eleitoral e democrático falido e ultrapassado onde até os jornalistas e colunistas seguem a tendência jurássica atual.

Nem Serra, nem Dilma, nem Marina e nem Plínio apresentaram nada que prestasse diante das câmeras. Os três principais falaram tudo que um lulista quer ouvir: manutenção dos programas sociais, zero privatização e a famosa declaração de amor aos pobres e sofridos desse país. Mas por que dizem que Plínio ganhou o debate? Simplesmente porque ele rompeu com a formalidade, frieza e artificialidade históricas dos debates televisivos. Ele foi o que pareceu mais com o que chamamos de sinceridade. Talvez esse seja o problema central da política brasileira: a sinceridade só aparece quando não precisamos dela. Quem precisa de Plínio, ele não vai ganhar mesmo?

O debate tem que existir, mas não dessa forma pitoresca e burra. Tem que existir o combate de ideias, mas não da maneira repetitiva que é hoje.

Portanto, colunistas, sejam mais hábeis nos seus argumentos. Procurem mudança de mentalidade nos surrados leitores e eleitores brasileiros. Tentem ser uma ponta de esperança nesse mar negro que é a Vida. Ninguém aguenta análises políticas frias e superficiais como são os debates. A partir do momento que nos igualamos aos próprios políticos, nos tornamos um parafuso da engrenagem diabólica que é o nosso sistema eleitoral brasileiro.

Que a Democracia esteja com vocês!

*Felipe Liberal excepcionalmente escrevendo em uma sexta, é colunista do Perspectiva às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Fidel?

15/07/2010

Por Felipe Liberal*

Nem parecia ele. Velho, pálido, seco e maltratado. Quando o vi na televisão, nem parecia aquele. Aquele gigante das “sierras”; aquele que derrubou montanhas de tamanhos incalculáveis; aquele que fez a Hora sem esperar nada, simplesmente nada acontecer.

Meu Deus, nem parecia. Não consigo enxergar naquele rosto enrugado e naquela barba transparente o que ele realmente representa pra mim. Não consigo pensar que tamanhas virtudes, que residem naquele corpo e mente, estejam reduzidas a um velho doente e semimorto. Como pode?

Eu sei, não precisa falar que ele tem seus defeitos, óbvio. Ele não é Deus e nem se diz ser. E quem não tem defeitos, não é? Mas suas virtudes são gritantes. Não consigo ver que toda aquela genialidade está se acabando como um casebre abandonado, caindo aos poucos a ponto de desmoronar. Eu sempre dizia: “eu vou a Cuba antes de Fidel morrer”. Mas não vai dar tempo. Não sei nem se irei a Cuba. Não sei se terei estômago pra ver que tudo que aquele semimorto fez na ilha está se acabando por completo.

Por incrível que pareça, há “pouco” tempo atrás, pra quem não lembra, aquele velho fez um lado de todo um continente tremer, enquanto o outro lado o via como um exemplo a seguir. Aquele velho fez o mundo parar inúmeras vezes pra ouvir seus discursos, seja por medo ou admiração. Aquele velho salvou milhares de pessoas da fome, da prostituição e da ignorância. Aquele velho colocou sua vida em favor de seu país e seu povo. Aquele velho amou cada ser humano que passou por sua vida, indiretamente ou diretamente. Aquele velho não resolveu todos os problemas da ilha e muito menos do planeta, mas tudo que ele conseguiu fazer foi feito com amor, de dentro da alma. Aquele velho doente é um dos maiores Heróis da História da Humanidade.

Mas, de fato, nem parecia.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Sanções internacionais – Por quê?

17/06/2010

Por Felipe Liberal*

Eu odeio sanções. Podem ser econômicas ou políticas, eu as odeio. Tudo parece óbvio neste maldito planeta. É sempre a mesma coisa: sanções contra o Irã, Cuba e Coreia do Norte. Vindas de quem? Principalmente dos EUA. Eles, de fato, conseguem evitar que a evolução da História continue.

Quando vamos conseguir separar o sistema político adotado pelos iranianos, cubanos e coreanos do seu povo? Quando vamos entender que sanções só servem para prejudicar seres humanos que não tem nada a ver com interesses estúpidos e infinitos de alguns países? Até quando vamos suportar que cinco países decidam quem merece sofrer ou não?

Eu discordo de muita coisa que acontece nesses três “malditos” países, como também discordo de muita coisa que acontece nos EUA, Inglaterra e China, por exemplo. Nem por isso esses últimos mereceram ou merecem sanções por parte da ONU. Parece óbvio.

O Irã é totalitário? Sim. Mas a China também é. Cuba faz prisioneiros injustamente? Sim. Os EUA também fazem (vide Guantánamo e a “desativada” Abu Ghraib). A Coreia do Norte restringe a liberdade de informação? Sim. Mas todos os países europeus também fazem, inclusive comprando jornalistas e blogs (vide Yoani Sanchéz).

Então você deve estar se perguntando: portanto todos merecem sanções, né? Não. Discordaria totalmente de você. As sanções são a pior maneira de se tentar um acordo. O sistema socialista cubano sobrevive desde 1959 com fortes sanções estadunidenses, nem por isso a ilha cedeu ou aceitou as exigências internacionais. A Coreia do Norte passa pela mesma coisa, sofre sérios embargos dos países europeus e até asiáticos, na própria vizinhança, e nem por isso desistiu do seu isolamento exagerado.

Não é com o “big Stick” que as coisas se resolvem. Agressão gera agressividade. Até quando vamos conseguir ficar sem entender isso? Não podemos gerar paz com guerra. Não podemos construir um mundo melhor trazendo o que há de pior no ser humano, que é a raiva, a discórdia e a guerra.

A ONU é a maior farsa que o mundo já pôde ver. O organismo da paz é o maior gerador dos conflitos e problemas que temos hoje. Principalmente por ser comandada por países que precisam da guerra para sua própria sobrevivência, países sedentos por sangue e dinheiro. Meus caros, EUA, Inglaterra, China, Rússia e França querem tudo, menos a paz. Novamente parece óbvio.

E tudo isso só vai ser mudado, quando nós mudarmos também.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 5

20/05/2010

Monólogo

Por Felipe Liberal*

Deus, sábios são os mortos?

Deus, e os sábios vivos?

Isso, aqueles que não conhecem a Morte.

Como podem ser sábios se não conhecem a Morte,

mas apenas a Vida?

Se a Vida não é Tudo,

como podem saber de Tudo os que não sabem de Tudo?

Deus, não é justo que caminhemos para o fim da Vida.

Por que esse maldito empréstimo?

Por que tamanha dificuldade pra Nada?

Por que não tornas isso Tudo apenas em um grande Nada?

Por que nos ilude com hipóteses,

se a única verdade é a Morte?

Deus, se o amor não é Tudo,

pra que senti-lo?

Não é mais justo sentir Tudo que é Tudo sem desperdiçar Nada?

Se a Vida não é Tudo,

o amor o é menos ainda.

Deus se os sentimentos são menores que a Vida,

por que nos deste tantos prazeres,

tantas dores e tantas saudades?

Deus, se a Vida é menor que a Morte, por que a Vida e não logo a Morte?

Por que nos concede o morno e não o quente?

Por que não o êxtase?

Deus, às vezes tenho medo de que não nos reconheça mais.

Talvez seja isso?

Estamos muito diferentes do que você quis?

Somos o que pensaste?

Foi tudo como planejado?

Como podemos ajudar?

Desculpe qualquer coisa!

Deus, por favor,

perdoe-nos por algumas desconfianças e medo.

Mas a Vida é tão complexa que pra mim já seria suficientemente Tudo.

A Vida é tão Tudo,

mesmo sendo apenas parte do Tudo e outra parte do Nada.

Deus, eu não pedi pra nascer,

mas peço pra não morrer,

pois tenho medo que a Morte seja insuportavelmente Tudo

e que tudo que eu tenha vivido seja um verdadeiro Nada.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

3ª Coluna do dia: Dilma – Talvez uma boa escolha petista

14/05/2010

Por Felipe Liberal*

Pelos meus cálculos, Dilma Rousseff ganhará as eleições deste ano. Já posso escutar os gritos desesperados dos leitores desejando que minha alma queime no fogo do inferno. Mas calma, enquanto o inferno não chega, afirmo novamente: Dilma ganhará de Serra. Vamos ao fundamento.

Primeiro motivo: A América Latina do século XXI se comportou de uma maneira bem diferente diante das previsões futuristas da década de 90 que previam um conglomerado de países neoliberais e submissos aos estadunidenses e europeus. O continente caminhou contra a maré.

Hoje, a AL é sinônimo de integração, independência e crescimento, guardadas as devidas limitações. Há uma tendência para governos de esquerda social sem abandonar o capitalismo de mercado, buscando um equilíbrio socio-econômico, como acontece hoje no Vietnã e  em parte da China. Dilma, por ter o apoio de praticamente todos os presidentes da América do Sul, sai na frente quanto ao quesito “tendência regional”, como se fosse um princípio da continuidade.

Segundo motivo: Depois da Era FHC e sua baixa popularidade que precedeu a Era Lula, o povo brasileiro sente e procura a toda hora uma mudança significativa e representativa na figura do Presidente da República. Dilma novamente sai na frente por ser mulher. A possibilidade de termos pela primeira vez uma Presidente do sexo feminino traz novamente esse sentimento de “mudança continuada” dentro do Brasil, seguindo também uma tendência sul-americana (Argentina e Chile).

Terceiro motivo: O apoio de Lula. Talvez o mais importante dos motivos. O Presidente mais popular e influente da História do Brasil apóia a candidata Dilma. Isto, na minha modesta opinião, é monstruosamente determinante. Considero todos os defeitos “eleitoreiros” de Dilma: falta de carisma, seriedade exagerada, falta de experiência com candidaturas, etc. Mas duvido muito que com o apoio de Lula e o trabalho de marketing e publicidade do PT, isso não seja superado.

Último motivo: Ela foi do governo Lula. Como foi Ministra, ela tem a autoridade de dizer: “Eu fiz pelo Brasil”. Ou seja, ela participou do governo que tem 80% de popularidade. Isso tudo é um excelente argumento para a campanha junto a Lula.

Não digo que será fácil, porém, não vejo como Serra vencer uma chapa tão poderosa e popular como a do PT. Serra disputa contra Dilma, contra Lula e contra toda a América do Sul.

*Felipe Liberal, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Yoani Sanchéz, Fausto e o Diabo

29/04/2010

Por Felipe Liberal*

FAUSTO:

Se podes me enganar com coisas deliciosas, doçuras a sentir, prazeres! Alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas, que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo.

MEFISTÓFELES:

Aprovo. Pensa bem no que dizes. Diabo tem memória.

Este é o momento exato em que Fausto aceita a proposta do Diabo (Mefistófeles) e vende sua alma. Para quem não conhece “Fausto”, uma das maiores obras literárias e teatrais da história da Humanidade, escrita por Goethe, recomendo a ida a qualquer livraria mais próxima e a compra hoje mesmo, leiam e contem-me depois qual a sensação de devorar uma obra-prima.

Esta cena explodiu na minha mente essa semana, quando li a entrevista que a famosa blogueira cubana Yoani Sánchez concedeu ao jornalista francês Salim Lamranium. Entrevista que foi indicada pelo meu leitor e colega Alan de Freitas. Agradeço publicamente.

Já era lógico que existia alguma coisa estranha em toda essa raiva de Yoani contra Fidel e Raul. Já era óbvio que toda essa gritaria e pânico tinham alguma coisa de errado. Já era claro que toda essa “liberdade” de pensamento virtual não passava de mais uma criação americana, como na Guerra Fria, lembram? Aquela política de fabricar pensadores e intelectuais? Pois é, isso nunca acabou. A Guerra da Mentira continua quente e viva.

Só tem um problema: a “cria” foi mal treinada. Não suportou o bombardeio de perguntas do jornalista francês e entrou em contradição várias vezes durante a entrevista. Temas como censura, repressão, polícia cubana, Fidel, Raul, EUA, Obama e internet, foram abordados incansavelmente por Salim diante da blogueira, que não conseguia responder e algumas vezes entrava em contradição com suas próprias palavras ditas anteriormente.

Sabemos que dentro do seu blog existem reclamações pertinentes e válidas, sendo inclusive indagações da maioria esmagadora do povo cubano, mas o que me deixa triste são as mentiras contadas por ela contra seu próprio país. Mentiras essas que ferem a imagem e a identidade do seu povo, de seus irmãos. E tudo isso tendo ampla publicidade das grandes empresas jornalísticas em todo o planeta, mostrando o quanto é frágil esse dinamismo virtual e cibernético, o quanto é frágil a informação verdadeira.

Yoani Sanchéz vendeu a alma ao Diabo em troca de fama, prestígio e premiações internacionais. O Diabo azul e vermelho. O Diabo que fala inglês.

Yoani Sanchéz não é a primeira e nem será a última a interpretar Fausto na vida real. Muitos conseguiram esse papel no teatro do bem e do mal. E agora consigo lembrar-me qual foi o fim de outro que empreendeu interpretação do personagem há bem pouco tempo atrás: morte na forca, em Bagdá. Lembram?

Nem sempre o final é feliz.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Serra – Talvez uma má escolha tucana

22/04/2010

Por Felipe Liberal*

Pelos meus cálculos, José Serra não vencerá em outubro. Mas posso estar errado, incerto ou precipitado. Talvez esteja sendo apressado demais ou bastante parcial. Talvez.

O PSDB começou mal. A escolha de Serra para uma candidatura ao pós-Lula foi errada. Além de ter sido “surrado” em 2002 pelo mesmo Lula, o presidenciável não possui os requisitos para uma “mudança continuada” que provavelmente será o lema das próximas eleições desta década.

O tucano não tem programa e se esconde do papel de oposição, se apresentando a todo momento como a continuação do atual governo.

Mas ser contra Lula é ruim?

Óbvio, a popularidade do governo orbita em torno dos 75% no final do segundo mandato.

Mas não se pode esquecer que apesar das graves semelhanças entre os dois partidos, existem duas diferenças determinantes entre o PT e o PSDB: política externa e privatizações. E por mais que sejam omitidas tais divergências, o povo e o empresariado irão questionar.

O PSDB e a cúpula “direitista” (porque nesses dois pontos ser de esquerda ou de direita é interessante) já discutem sobre privatizações dos setores “desorganizados” como Infraero e Eletrobrás (esta que se fortaleceu com Lula), mudando e quebrando todo um sistema de contratos que essas duas entidades possuem com o setor particular, caso venham a acontecer as privatizações.

Uma nova onda de desemprego e instabilidade para incontáveis trabalhadores brasileiros virá com essa política que, em minha opinião, é abominável.

Lembrando: A privatização hoje é considerada impopular no Brasil.

Em relação à política externa, fato mais complexo de ser alterado, um provável governo tucano talvez não entendesse como viáveis alguns pactos comerciais importantes com Venezuela, Irã e parcialmente a China. Isso desestabilizaria totalmente a economia e a estrutura empresarial brasileira. Seria talvez o maior dos retrocessos que esse País já viu, e olha que não foram poucos. Por isso acho difícil um apoio maciço dos empresários à chapa tucana, mesmo parecendo ironia.

Serra, em 2002, expôs tudo isso diante das câmeras de TV e esse é um fator negativo na sua escolha para a candidatura. Claro que tudo isso já faz quase oito anos, mas as lembranças persistem numa parcela da população que tem poder e vota. Sua ideologia camuflada não vai conseguir se sustentar por muito tempo, pois Serra é oposição apesar da sua negação em relação a isso.

Mas Aécio Neves realmente seria um bom nome para o PSDB? Talvez. Domina de forma espetacular o 2º maior colégio eleitoral do País (Minas Gerais) e não está “desgastado” nacionalmente como Serra. Apareceria como “figura nova” assim como Dilma, porém mais carismático que a petista. O mineiro sempre foi mais próximo à Lula do que Serra, principalmente a partir de 2007, ou seja, mais recentemente.

Talvez eu esteja errado, mas não acredito numa vitória tucana. Dilma, mesmo sendo ainda “desconhecida” nas camadas mais pobres, já incomoda o tucano nas últimas pesquisas realizadas. Serra é uma incerteza certa.

Mas claro, talvez seja mais uma ilusão ou insanidade deste pobre colunista nordestino.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Ataque americano no Iraque – Bem-vindo ao mundo real

08/04/2010

Por Felipe Liberal*

Bastards, rebels and terrorists são as palavras que me fizeram chorar ontem à noite. Essas imagens acima são o reflexo de tudo que escrevi até hoje e que tento expressar, ostentando dias melhores.

É contra tudo isso que luto, que lutamos, nós, de esquerda, ultrapassados, retrógrados e “comedores de criancinhas”. É por conta disso que ainda insisto, que ainda sinto vontade de estar aqui, gritando nesse vazio interminável e denso onde estamos metidos 24 horas, todos os dias.

Essas imagens são de um helicóptero Apache estadunidense, em Bagdá, de onde se comunicam os bravos soldados democráticos e libertadores com a torre em terra. Através do rádio, os soldados avisam: “Have five or six individuals with AK 47s” e daí pedem permissão para atirar, pois eles disseram que os “tais” carregavam fuzis e lançadores de granada.

A permissão foi dada e junto com ela surgiram tiros e uma nuvem de fumaça e sangue. A fumaça suja de sangue vinha de dois civis, jornalistas da Reuters, Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh, mortos pelo exército norte-americano. Um deles ainda tenta, se arrastando, chegar a uma van preta que tenta também ajudá-lo, mas uma nova rajada de tiros detona o veículo, que possuía duas crianças no seu interior, que, por sorte, saíram apenas feridas.

Essa é só uma amostra do que acontece no Iraque. Milhares de vídeos como esse não são divulgados, por se tratarem as vítimas de civis anônimos e invisíveis.

O imperialismo é isso, para quem o defende. Os Estados Unidos da América são isso, para quem os defende. A democracia e a liberdade americanas são isso, para quem as cultua. Tudo que escrevo não é apenas raiva ou ódio do capitalismo ou imperialismo, mas indignação e tristeza com o que eles geram como consequência inevitável.

O maldito sistema pede sangue, morte e desprezo pela vida humana. Ninguém em sã consciência pode negar que isso é uma prática do capitalismo, e não apenas dos EUA. A guerra é um fator econômico, que compra vidas através da morte.

Declaração Universal dos Direitos Humanos? ONU? A maior democracia do mundo? Respeito pela dignidade humana? Paz? Tudo isso parece piada diante das imagens da verdade.

A mentira nos condena à moderação, aos caminhos da aceitação, à burra imparcialidade e à venenosa omissão. Essa é a verdade, meus amigos e amigas, essa é a mais pura verdade do que acontece todos os dias no planeta Terra.

Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad e Fidel Castro são criancinhas, comparados a pessoas como Reagan, Bush ou Obama.

O mundo precisa entender quem são os verdadeiros culpados pela nossa terrível situação como seres humanos. Saiamos desse conto de fadas falado em inglês e comprado em dólar. Precisamos entender e combater os verdadeiros Bastards, rebels and terrorists do mundo real.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 4

25/03/2010

Deus e criações

Por Felipe Liberal*

Deus é o criador de todas as coisas, onipotente, onipresente e onisciente. Deus é tudo, definitivamente tudo.

Deus criou o diabo, o inferno e a matemática. Deus criou o universo, o mundo e os africanos Adão e Eva. Criou a África. Esqueceu a África e criou os outros continentes que foram povoados por imigrantes da África. Deus criou a cor branca, posteriormente à cor negra. Deus inventou o vinho e depois a cerveja, ou foi a cerveja e depois o vinho? Brancos e negros bebiam vinho, e brancos e negros bebiam cerveja.

Deus criou os outros deuses: Osíris, Ísis, os gregos, os romanos, Odin, os corvos da putrefação Huguin e Munin, as valquírias da morte entre os vikings, Javé, Alá, os deuses amarelos da Ásia, a indiana Mitra e etc. Deus criou todos eles e declarou guerra entre eles, várias vezes, infinitas vezes. Deus criou uma seleção natural entre os deuses, onde o mais forte vence e transforma o outro em pó, em páginas de livros de História.

Deus criou Johann Friedrich Blumenbach, zoólogo que reuniu 245 crânios humanos, comprovando que a raça branca provinha da região do Cáucaso e tinha o direito de se assumir superior à raça negra. Deus também criou o norte-americano James Watson, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, que afirmou em suas teses, em 2007, que os negros são menos inteligentes que os brancos. Mas nós todos fomos negros, temos os dois pés na África e somos fisiologicamente idênticos, mas é claro, Deus também inventou a ironia e o paradoxo.

Deus também criou um assistente, ou melhor, um grande assistente para auxiliar em suas invenções: a China. Os chineses, com o dom de Deus, inventaram praticamente tudo de que se tem notícia: chá; bússola; papel; seda; extração de sal, petróleo e gás; moinhos de água; imprimiram livros seis séculos antes que Gutenberg; pólvora; timão; roca; acupuntura; porcelana; futebol; baralho; lanterna mágica; pirotecnia; sismógrafo; pipa; papel-moeda; relógio mecânico; laca; pintura fosforescente; carrinho de mão; guarda-chuva; leque; estribo; ferradura; chave; escova de dentes e mais algumas coisinhas. Deus também inventou a mentira, que alguns países contaram sobre essas invenções.

Inventou, em 1492, um novo continente, que seria fruto de experimentos humanos por 500 anos. O continente da morte e das contradições.

Deus sozinho criou Kafka, Dostoiévski, Maiakovski, Tom Jobim, Chico Buarque, Villa-Lobos, Monet, Picasso, Gandhi, Nijinski, Jesse Owens, Juan Rulfo, Fidel Castro, Che Guevara, Mao, Stalin, Lênin, Roosevelt, Hitler, Napoleão e outras figuras também moldadas pelas mãos iluminadas.

Deus inventou a escravidão, os campos de concentração e as guerras. Deus criou o ódio e o amor. Criou também a pistola, a espingarda, as bombas, o fuzil e outros modos de mostrar quem manda e tem poder. Deus criou o conformismo, a alienação e tudo que faz o ser humano não ser humano. Deus criou Hiroshima, depois destruiu Hiroshima. Criou o Vietnã, depois destruiu o Vietnã. Criou o Iraque, depois destruiu o Iraque. Deus inventou Bush, e também o ataque terrorista de Nova York e Washington. Inventou Bin Laden e criou uma justificativa para tudo que somos hoje.

Deus criou tudo, absolutamente tudo.

Mas e se Deus não existir? Quem criou tudo isso? O que existe e o que não existe? O que nós somos? O que nós sentimos? Quem explicaria tudo?

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal