Coluna do dia: Plebiscito sobre o desarmamento – Se é bom para Sarney, é ruim para o Brasil
Por Yashá Gallazzi*
José Sarney quer uma nova consulta pública sobre a proibição do comércio legal de armas de fogo no Brasil. O maranhense que precisou ser candidato pelo Amapá para ser eleito deu a entender que é a favor do desarmamento civil. Se Sarney é a favor, eu sou contra. Não importa o assunto: se é bom para o autor de “Brejal dos Guajás”, é ruim para o Brasil. A história está aí para demonstrar isso.
Sarney, quando Presidente, foi a favor de um plano econômico que provocou uma das maiores escaladas inflacionárias da história. À época, suponho que a idéia tenha parecido boa aos olhos dele, mas os fatos mostraram que ela era muito ruim para o país. Como dito, não importa qual seja o tema: se Sarney é a favor, cumpre ao resto de nós ser contra. Se o imortal senador é contra, que todos sejamos a favor.
Sarney acha que “a população foi induzida em erro” no referendo de 2005, quando decidiu rejeitar a proibição total do comércio de armas de fogo e munição no Brasil. Eu acho que a população é induzida em erro sempre que vota em Sarney. Defendo que seja feito um plebiscito imediato, para que a sociedade diga se quer que o mandato de Sarney continue, ou se prefere que seja imediatamente interrompido.
O presidente do Senado deve acreditar na patacoada de que “armas matam”. Bobagem! Armas não matam ninguém. Os que matam são os indivíduos, e apenas eles. Proibir o comércio legal de armas de fogo sem acabar de uma vez por todas com o tráfico é uma medida tão inócua quanto ridícula. Vai evitar, na melhor das hipóteses, algumas dezenas de lamentáveis acidentes domésticos, que ocorrem todos os anos quando uma criança encontra a arma do pai irresponsável, mas ficará longe de resolver o problema da violência urbana, que parece motivar os “pacifistas do fato consumado”, como Sarney.
“Ah, mas salvar dezenas de crianças da morte não é um motivo louvável?”, poderão indagar alguns. Ô, se é! Mas se a lógica for evitar mortes acidentais de crianças dentro de suas casas, é mais urgente proibir as piscinas, onde cerca de mil crianças morrem afogadas a cada ano. E aí, Sarney? Cadê o plebiscito sobre esse dramático assunto?
Que nada! Ninguém se preocupa em acabar com as piscinas, estas cruéis ceifadoras de vidas infantis. O que os “especialistas a posteriori” querem é acabar com as armas de fogo mesmo, para evitar que o Brasil se torne um país tão violento quanto a América. Nessa hora não resisto e lanço luz sobre o debate turvo lembrando que o nosso é um dos países do mundo onde comprar legalmente uma arma de fogo é mais difícil. Vou além: é praticamente impossível! Ainda assim, ocorrem 25 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, onde pode-se comprar uma pistola automática no supermercado da esquina, são apenas seis. De repente parece que virar um país como os EUA não seria lá tão ruim, quanto querem fazer crer os ongueiros…
Sim, eu sei que um civil armado por levar a pior no confronto com um bandido. Sei até mesmo que o meliante pode acabar roubando a arma legal do civil e usando-a para cometer outros delitos. Mas essas armas legais que passam à criminalidade seriam assim tão significativas? Dando ouvidos a José Eduardo Cardozo e José Sarney, ficamos com a impressão de que todos os crimes do país são praticados com armas que um dia estiveram na legalidade. Eis aí outra trapaça intelectual gigantesca!
Acompanhem meu raciocínio – ele é bastante objetivo e linear: segundo o IBGE, há 52.183.528 de residências no Brasil e em 3,5% delas há armas de fogo (dados de uma edição de Veja de outubro de 2005). Isso quer dizer que existem 1.826.423 de residências com armas de fogo, ou seja, uma a cada 29 casas. Isso quer dizer que para conseguir mil armas, os bandidos precisariam assaltar 29 mil residências! Não preciso dizer o quanto isso é improdutivo, não é mesmo? Fica evidente que a bandidagem brasileira se arma, em regra, por meio do tráfico, isto é, do comércio ilegal. Proibir o legal torna-se, pois, absolutamente inútil. Por favor, não acreditem em mim! Acreditem na boa e velha matemática…
Parece bastante claro que acabar com o comércio legal de armas de fogo não influenciaria praticamente nada na redução da criminalidade. Poder-se-á sempre lembrar que sem armas em casa, menos crianças morreriam vítimas de acidentes domésticos, é fato. Mas aí voltamos pro que chamo de “paradoxo da piscina”: onde está a “Viva Rio”, a “Sou da paz” e o José Sarney, que não se mobilizam para colocar um fim nelas?
Não tenho certeza, mas aposto um dedo da mão esquerda que Sarney tem piscina em uma de suas tantas casa. Eu não tenho uma na minha. Se é bom para Sarney, é ruim para mim.
*Yashá Gallazzi, escrevendo excepcionalmente em uma terça, é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi














