O saldo da tragédia de Angra dos Reis, município litorâneo do Rio de Janeiro, dificilmente poderia ser pior. Mortes, pessoas desabrigadas, irresponsabilidade do poder público, inércia quanto a um desastre anunciado e a noção de que não se pode confiar em um Governador que, simplesmente, desapareceu.
Toda a catátrofe ocorrida por conta das fortes chuvas, noticiada largamente nos jornais, era de certa forma prevista. Laudos e estudos mostravam a fragilidade da região há tempos. Nada foi feito por um poder público chefiado por um Governador que, pasmem, até mesmo afrouxou fortemente, há pouco tempo, as regras para a ocupação da região atingida.
É isso mesmo que está escrito. O Governador Sérgio Cabral (PMDB) assinou decreto em meados do ano passado permitindo a construção de edificações - normalmente mansões de ricos e famosos – na área de preservação ambiental que engloba os pontos mais calamitosos de hoje.
Meses após a assinatura do decreto, que modificou as regras da APA Tamoios, o Ministério Público Federal apontou irregularidades nestas mudanças. Nenhuma providência foi tomada.
O decreto, por beneficiar as celebridades, ficou conhecido jocosamente como “decreto Luciano Huck”, em alusão à mansão que o apresentador possui na região.
Pois bem. Como se já não bastasse toda a inércia com relação a um problema grave, que poderia ter sido evitado se os estudiosos fossem ouvidos e as precauções necessárias empreendidas, e a irresponsabilidade de aprovar a ampliação da ocupação justamente desta área, o Governador ainda nos brinda com o sumiço.
Embora continue alegando que estava em Mangaratiba – município vizinho a Angra dos Reis -, em detrimento dos boatos de que teria passado o réveillon no exterior secretamente para não ser mais criticado pelas inúmeras viagens, o Governador Sérgio Cabral ainda não explicou o porquê de não ter comparecido à região da tragédia. A alegação de que a presença do Vice-Governador, Luiz Fernando Pezão, era suficiente não cola. Até mesmo aliados afirmam isso e sabem que o desaparecimento do Governador foi uma terrível bola fora.
Aliás, toda essa questão demonstra porque Cabral reluta tanto em ceder a vaga de Vice na sua chapa que concorrerá à reeleição neste ano para o PT fluminense – o que facilitaria um acordo – e comprova o que este que vos fala vem dizendo há meses: Quem entende os meandros do governo é Pezão. Se o Rio tivesse apenas Cabral estaria mais perdido ainda. É Pezão o real gestor e Cabral até mesmo não compreende como funcionam algumas áreas do governo. Para os que questionam essa tese, vale citar que analistas políticos renomados já estão fazendo chacota e pedindo a candidatura de Pezão, ao invés da de Cabral.
Em suma, fica o povo fluminense com a noção de que tudo poderia ter sido evitado pelo governo estadual cabralino, de que o Vice-Governador entende mais do estado do que o Governador, de que a mudança das regras de ocupação da área de preservação ambiental da região atingida pelos deslizamentos foi extremamente irresponsável e de que, como citou a Senadora Marina Silva sobre o caso, após o fim da comoção a inércia retornará e as tragédias se repetirão.
Resta ainda a vergonha de ter um Governador que é alvo de chacotas triplamente: É motivo de zombaria por atuar menos que o Vice, é chamado de Wally – personagem de livros infantis – por ter dado um sumiço quando a população mais precisava de sua presença e tem seu decreto caracterizado como o “decreto Luciano Huck”.
Não é preciso falar mais nada. Aliás, um ponto ainda tem mais uma citação necessária:
Afinal de contas, se Cabral estava em Mangaratiba, porque não se solidarizou com os que perderam bens, moradias e familiares? Se não estava em Mangaratiba e por isso não teve tempo de chegar a Angra logo após a tragédia, estava aonde?
Cabral pode até não responder estes questionamentos. Mas o eleitor pode dar sua resposta nas urnas.











Bruno,
depois aponto o viés tucano do blog e você acha ruim.
Quer dizer que a culpa de toda tragédia no RJ é do Governador Sérgio Cabral e em SP a chuva e São Pedro são culpados?
Vocês acreditam cegamente que “Toda a catátrofe ocorrida por conta das fortes chuvas, noticiada largamente nos jornais, era de certa forma prevista. Laudos e estudos mostravam a fragilidade da região há tempos. Nada foi feito por um poder público chefiado por um Governador”?
Em SP ninguém sabia? http://www.youtube.com/watch?v=iWpjykFbk08&feature
Não há decretos errados em SP? E a construção do CEU na Zona Leste que empoçou água de esgoto?
E Serra ainda joga a culpa na prefeitura. A responsabilidade sobre rios é estadual.
Porquê Serra só visita Paraitinga (2 vezes e ainda tem a pérola: “Se a prefeita topar nós ajudamos até a ter o Carnaval este ano em São Luiz”)?
Ele já visitou a Zona Leste?
Há 30 dias as casas e ruas do Jardim Paulistano estão alagadas, viram Serra por lá?
Esse post é hilário?
PS: Vocês não viram uma gafezinha do seu amiguinho Boris Casoy por aí? Se quiser eu posto o link pra vocês.
Bob,
Obrigado pelo comentário.
Eu não acho ruim que você aponte viés tucano. Eu apenas não concordo. O blog elogia acertos do PT diversas vezes. Se fosse tucano, não o faria. Não é possível que um blog seja tucano apenas por não criticar fortemente José Serra toda semana. Não faço com Lula também, portanto devo ser petista ao mesmo tempo.
Quanto à enchente, concordo plenamente, totalmente, que Serra tem parcela de culpa. Não discordo em nada. Apenas não escrevi falando sobre isso. Isso não quer dizer que eu o defendo.
Aí surgirá a pergunta: Por que não comentou e comentou de Cabral? Não comentei as enchentes de Paraitinga por serem menos graves e pelo destaque ser menor. Diversas outras enchentes ocorreram, inclusive no Rio, e também em outras épocas, e não comentei. O Perspectiva se pauta pelo interesse dos leitores no assunto. E por que comentei sobre Cabral? Porque o tema tomou o noticiário, porque o Governador não compareceu a um local do qual estava a pouquíssimos quilômetros de distância e, admito, porque sou do Rio. O tema do governo fluminense me sensibiliza mais naturalmente.
Sobre Boris Casoy, não tenho conexão alguma com ele ou com quem tem.
Obrigado pelos questionamentos. Dão-me a chance de explicar minhas escolhas e pontos de vista. Eu acho, diferentemente de muitos, que tenho, sim, que me justificar para os leitores.
Volte sempre!
Esqueci de um link:
http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL357432-5605,00-SAO+LUIZ+DO+PARAITINGA+ENFRENTA+PIOR+ENCHENTE+DOS+ULTIMOS+ANOS.html
Essa notícia é de 2008. O que foi feito para evitar a atual catástrofe?
Se o G1 não fosse Serra de carteirinha, o título poderia ser:
José Serra: Tragédia anunciada, carnaval e irresponsabilidade em Paraitinga
Bruno,
meus questionamentos se fazem pela repetição da ladainha da mídia pelo blog. Pode até ser que o viés tucano que enxergo no blog seja pela pauta na mídia. Até porque para achar notícias contra Serra na mídia, você tem que ir muito fundo. Esse é o propalado “golpismo” que muitos não enxergam. Ainda bem que são os muitos que leem jornais, um publico cada vez menor.
Os motivos explicitados para a matéria são justificáveis, mas vejo uma massante campanha de demonização de tudo e todos que não bebem na fonte do José Serra. Até sua candidata Marina Silva se enquadra nesse aspecto. Deixou de ser a matuta verde que impede o progresso para a ser a queridinha “Salvadora do Planeta Terra” da mídia.
A atitude de Cabral é injustificável. Não gosto dele e acho que ele é adesista. Assim como a atitude de Serra no desabamento do metrô e não visitando a Zona Leste também foi injustificável. Mas porque cobranças diferenciadas da mídia? Imagina se fosse o Cabral (ou o Lula) propondo ajudar a realização do carnaval em Angra?
A menção do pulha do Boris CCC Casoy, foi somente provocativa.
E o Dodô?? Será??
Bob,
Obrigado pelo comentário.
Realmente o Perspectiva se pauta pela grande mídia em parte. As colunas nem sempre e os meus comentários também não, mas as notícias são as dos grande jornais. O Perspectiva não tem recursos para ter uma cobertura própria. Daí o conteúdo opinativo ser totalmente independente, mas o informativo ter temas, mas não opiniões necessariamente, próximas da imprensa em geral.
Sobre o público ser cada vez menor no que tange os jornais, não sei se é bom. Estão migrando para onde? Internet? Será que tudo o que leem é melhor? É mais democrático, com certeza, mas será que agora têm mais cultura? Depende do que estão lendo. Na internet o controle é menor e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom pela liberdade, ruim pela qualidade duvidosa de 70% do conteúdo.
As cobranças diferenciadas, no meu caso, se deram por Cabral ter estado mais perto do desastre segundo ele, por correr um forte boato de que mentiu sobre onde estava, pelas baboseiras que ele falou depois para tentar se justificar e por eu ser carioca. Além do principal: O fato de Cabral ter assinado decreto, contrariando os conselhos dos especialistas, permitindo a expansão da ocupação imobiliária justamente da região da tragédia. Curiosamente, os que lucram com estes empreendimentos estavam na lista de doadores da campanha de 2006.
Volte sempre!