Arquivo de 01/2010

Coluna do dia: Leonel Pavan e uma parceria público-privada “diferente” em Santa Catarina

31/01/2010

Por Tiago Franz*

Olá, meus caros. Saúdo os leitores e colegas do Perspectiva com a alegria de quem retorna à casa. A saudade bateu forte durante as semanas em que estive ausente. Entrementes, com viagem ao Mato Grosso (Estado onde cresci e onde devo viver novamente a partir de 2011), mudança de residência (ainda em Chapecó, Santa Catarina) e muito trabalho com meu violão e garganta, dei embalo e rumo ao meu 2010. Espero que estejamos todos bem embalados.

Pois bem. Sou natural de Santa Catarina e continuarei cidadão catarinense por mais um ano. Continuarei, do ponto de vista que mais interessa a ‘eles’, eleitor catarinense. E como é de meu costume, observador que sou, venho colocar aqui o ponto de vista do sujeito, cidadão e eleitor Tiago Franz a respeito do caso que abalou o cenário da sucessão catarinense: o escândalo envolvendo o Vice-Governador Leonel Pavan (PSDB), que, aliás, foi adiantado aos leitores pelo Perspectiva.

No próximo dia 3, a Assembleia Legislativa irá votar pela abertura do processo, para que o Tribunal de Justiça do Estado apure as denúncias feitas pelo Ministério Público. Pavan enviou carta aos deputados pedindo que votem a favor da abertura das investigações e declarou estar confiante no trabalho da Justiça. Espera-se que a votação seja unânime a favor da apuração. O tucano é acusado de corrupção passiva, advocacia administrativa e quebra de sigilo funcional.

Pode até ser que as acusações, como diz o lado do governo, sejam meramente oportunistas e estratégicas. A essa altura do jogo, a coisa começa mesmo a esquentar. Pavan era cogitado pelo Governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) para ser seu sucessor.

Mas não pretendo julgar Pavan antes da Justiça. Quero aqui colocar a impressão que guardei do Vice-Governador na ocasião em que o vi pela primeira vez, e que me fez não ficar surpreso com o surgimento do escândalo. Vamos lá.

O natal de 2008 estava próximo e a maior loja de departamentos de Chapecó, pertencente à rede Havan, realizou um evento em frente às suas instalações, na principal avenida da cidade. O ‘Natal Luz Havan’ reuniu cerca de 20 mil pessoas, que assistiram à apresentação da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina (OSSCA), ao show da banda de rock Dazaranha (Florianópolis), à inauguração da ‘mega’ iluminação natalina da loja e a diversas outras atrações. Tudo marcado por um forte apelo popular (no mau sentido), como de praxe. Até mesmo a conceituada OSSCA, que já pude prestigiar em outra ocasião, trocou os clássicos por ‘musiquinhas’ da moda. Em resumo, o evento foi quase um ‘festival da mediocridade’.

Lá estava eu, em meio à multidão, iluminado pela ‘Luz do Natal’ que irradiava do prédio da loja, quando anunciaram que o então Governador em exercício, Leonel Pavan, faria uso da palavra por alguns instantes.

Uatarréu! Embasbaquei! Eu já estava estranhando e me perguntando o que a orquestra do estado fazia ali, mas a presença do próprio Governador em exercício foi como um tapa na cara. Pensei: que diabos o Vice-Governador faz metido nisso aí? Será que o Luiz Henrique, que naqueles dias estava de licença, faria o mesmo se estivesse em exercício?

E foi assim que conheci o Vice-Governador Pavan, discursando informal e entusiasticamente sobre a magia do Natal e sobre a importância das lojas Havan para o Estado de Santa Catarina (será que a empresa paga corretamente seus impostos ou faz como a Arrows Petróleo do Brasil, que mesmo devendo 12 milhões em impostos quer continuar prestando serviço ao estado, e, se comprovadas as denúncias da PF, ainda contando com a ajuda do Vice-Governador para isso?). Afinal, “a iniciativa da empresa é um importante incentivo à cultura”.

É mesmo incentivo à cultura? Que cultura é essa? Feliz Natal e boas compras!? É ético que o estado ceda (ou venda) sua orquestra e participe dessa maneira de um evento de uma loja de confecções, brinquedos e ‘tudo para o seu lar’, por mais ‘importante’ que ela possa ser? Qual é a real importância disso para a economia e a cultura do estado?

O que eu tenho contra as lojas Havan? Nada. Escrevo sentado em uma almofada que comprei na Havan de Chapecó. Também não tenho nada contra as relações entre o público e o privado, desde que estas respeitem o limite do bom senso. O problema surge quando as coisas se misturam e formam o que eu chamo de ‘lambança público-privada’. Isso ocorre quando o oportunismo comercial e político-eleitoral se juntam para fazer… hmm… lambanças como a que narrei aqui. A Administração Pública deve tratar dos assuntos com a iniciativa privada com ética, bom senso, isenção e, principalmente, com o rigor da lei.

Não gostei nada do que vi há dois anos, e continuo não gostando. Por isso creio que a atual situação do Vice-Governador Leonel Pavan não seja apenas motivada por interesses eleitorais de opositores.

Mas esperemos para ver.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Análise geral – Vox Populi: José Serra 34%, Dilma Rousseff 27%

31/01/2010

Foi divulgada recentemente pesquisa do Instituto Vox Populi, a respeito das intenções de voto relacionadas à corrida presidencial.

O Governador paulista José Serra (PSDB) obteve 34% das intenções de voto, o que representa queda de 5 pontos percentuais com relação à pesquisa de dezembro do mesmo Vox Populi, quando Serra obteve 39%.

A Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff (PT) obteve 27% das intenções de voto, o que representa subida de 9 pontos percentuais com relação à mesma pesquisa de dezembro, quando Dilma obteve 18%.

Vale ressaltar que estes índices se referem a um cenário que conta ainda com o Deputado Federal Ciro Gomes e com a ex–Ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Estes obtiveram 11% e 6% respectivamente.

Em um cenário sem Ciro Gomes, Serra sobe para 38% e Dilma para 29%, o que comprova que os votos de Ciro migram mais para os indecisos e para José Serra do que para Dilma Rousseff, resultado que traz questionamentos para o entendimento do Presidente Lula de que uma eleição plebiscitária é melhor para sua candidata.

Por fim, vale ressaltar que na simulação de segundo turno entre José Serra e Dilma Rousseff, o resultado foi de 46% a 35% a favor de Serra.

Dito tudo isso, vale passar para uma pequena análise dos números e para uma listagem das conclusões que estes dados podem trazer:

Primeiramente, fica claro que, pelo menos de acordo com a metodologia do Vox Populi, fica aferida uma queda considerável do Governador José Serra e uma subida também relevante da Ministra Dilma Rousseff, afinal, a diferença caiu de 18 para 7 pontos percentuais.

Em segundo lugar, pode-se dizer que confirmam-se de certa forma as informações que correm de que o tucanato imagina que Dilma poderá empatar com José Serra nas pesquisas no final de março ou no início de abril. Com isso, ganham força os discursos daqueles oposicionistas que pregam que a aliança PSDB-DEM-PPS precisa urgentemente de um discurso, não podendo confiar apenas na manutenção, através de um jogo morno, da vantagem de votos que Serra supostamente teria sobre Dilma hoje.

Em terceiro lugar, é preciso ressaltar que existem aqueles que acreditam que Dilma Rousseff tem um teto de 30% dos votos, índice que representaria a capacidade de transferência de Lula. A partir daí, Dilma teria que se encaminhar para os desejados 50% através da conquista de votos próprios. Para empatar com Serra, a Ministra terá que, segundo esta tese, conseguir amealhar para si própria o apoio de 5% a 10% do eleitorado, dependendo do desempenho de Serra nas próximas semanas.

Por fim, vale salientar que não parecem proceder as informações de que Serra poderia, por conta do encurtamento da vantagem nas pesquisas de intenção de voto, desistir da corrida presidencial. O Governador tem corrido o País buscando fechar as alianças e os palanques regionais e Geraldo Alckmin cada vez se consolida mais como candidato tucano ao governo de São Paulo, descartando a possibilidade de Serra tentar a reeleição e abrir espaço para o retorno de Aécio Neves à corrida presidencial. A verdade é que, com a saída voluntária de Aécio da contenda, Serra se tornou candidato compulsório.

Sendo assim, de olho nessa situação e nas pesquisas, é provável que o Governador esteja em busca do discurso citado acima.

Me engana que eu gosto: Dilma nega que tenha se apresentado como candidata

31/01/2010

Informa o Globo:

“A Casa Civil da Presidência da República divulgou agora há pouco nota afirmando que a ministra Dilma Rousseff não se apresentou como candidata do governo à sucessão presidencial ao falar ontem em evento em Minas Gerais.

Lembre: ‘O presidente Lula precisa de um sucessor a sua altura e eu gostaria de ser essa sucessora’, disse Dilma.

Segundo a assessoria de Dilma, a ministra apenas se limitou a responder questionamentos de repórteres e que o noticiário não teria incluído a ressalva feita por ela de que hoje não é candidata.

‘Alguns veículos de comunicação misturaram nas reportagens a fala da ministra na inauguração do gasoduto com a resposta à pergunta formulada pela jornalista em entrevista concedida depois, dando a entender, incorretamente, que a ministra se colocava como candidata’, diz a nota.”

Dilma não se apresenta como candidata?

Mais uma da série “me engana que eu gosto”.

Se esse tipo de declaração continuar proliferando, o Perspectiva vai ter um episódio dessa série por dia.

Requião: Temer alimenta o leão na esperança de ser o último a ser comido

31/01/2010

Disse o Governador do Paraná e peemedebista pré-candidato à Presidência, Roberto Requião:

“Michel Temer é um apaziguador, é aquele homem que alimenta o leão na esperança de ser o último a ser comido.”

Levando em conta que Requião está comentando o fato de Temer crer que, contemporizando e conciliando, conseguirá transformar em realidade seu favoritismo no que tange ser o Vice de Dilma…

…acho que o leão é Lula.

Análise Geral: Declarações contraditórias de Lula, a sucessão paulista e os rumos do PT em 2010

30/01/2010

Informa a Folha:

“O PT de São Paulo aposta que a eleição ao governo do Estado deste ano pode ser usada como um trampolim importante para as eleições municipais de 2012. Por esse motivo, integrantes do partido já não escondem mais sua insatisfação com o presidente Lula pela insistência em lançar o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) como candidato ao governo.

Além disso, eles dizem não entender qual a lógica deve ser seguida, já que Lula diz que o PT paulista erra por não repetir seus candidatos, mas, ao mesmo tempo, apela para que Ciro -um nome novo no Estado- aceite a missão de concorrer.

‘Não sabemos [o que seguir]. Mas tudo que fizermos será de acordo com ele [Lula], ele é o líder maior’, disse o deputado federal José Genoino (PT-SP).”

Lula dá declarações mutuamente excludentes pois quer deixar diferentes portar abertas. É da política.

Acontece que o tempo das definições já chegou e a indecisão prejudica os preparativos da campanha governista em São Paulo.

Lula sabe disso. Mas mantém as alternativas no ar. Faz isso porque o prejuízo do PT de São Paulo pode significar ganho para a candidatura de Dilma, dependendo de como a indecisão for trabalhada.

Já está mais do que comprovado que Lula submete fortemente as direções regionais do PT, a formação de novos quadros do partido e os espaços políticos estaduais da legenda às necessidades do projeto presidencial.

Se o PT perder no âmbito federal, corre o risco de minguar. Sobra Lula.

Por isso a preocupação do Presidente não é grande.

Erra quem se submete cegamente a ele.

Ou não. Afinal, se a revolta for de um homem só, será o suicídio político.

Seria necessário um motim.

Mas quem disse que os petistas fortes nos estados acreditam, no fundo, que é mais importante ter um partido estruturado do que as benesses de ocupar o governo federal?

Talvez um ímpeto mais forte do PT paulista resolvesse o problema, colocando um freio justo em um Lula centralizador e pai de uma filha só.

Talvez Lula até mesmo aguarde isso. Nunca se sabe.

Mas pela disposição do PT paulista continuaremos sem saber.

Quem sabe o raciocínio pragmático seja o de que vale muito mais sacrificar o PT em São Paulo e tentar encaixar Ciro na sucessão paulista, retirando-o do caminho de Dilma e privilegiando a disputa nacional, de olho no fato de que Geraldo Alckmin vai vencer no estado seja quem for o candidato governista.

Pode ser.

Mas levando em conta o que está sendo feito em outros estados, isso não muda o fato de que o PT estará em situação complicada se Dilma perder.

A ver.

As diferenças entre Lula e Dilma: Erenice Guerra substituirá a Ministra na Casa Civil

30/01/2010

Informa o Globo:

“Duas mulheres vão suceder à ministra Dilma Rousseff na Casa Civil a partir de abril, quando ela deixará o governo para disputar a eleição presidencial. Depois de forte resistência de setores do PT, a ministra vai emplacar como titular da pasta a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, que ganhou notoriedade no auge do escândalo do cartão corporativo .

Mas Erenice terá o cargo de ministra esvaziado. O comando do chamado G-PAC, a gerência do principal programa do governo Lula, ficará com a petista Miriam Belchior. Ela já é a atual coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento e subchefe de Articulação e Monitoramento da pasta. Erenice é muito próxima e pessoa de total confiança de Dilma. Miriam, da mesma forma, do presidente Lula.

Essa é a solução desenhada pelo presidente para manter o prestígio de Dilma no governo e também contemplar lideranças petistas incomodadas com a ascensão de Erenice. Com a definição, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que foi cotado para a Casa Civil e vinha sendo chamado por alguns de ‘Tio do PAC’, deve deixar o governo, também em abril, para disputar mandato de deputado federal.

O desgaste político que o governo pode sofrer com a efetivação de Erenice na Casa Civil não é mais motivo de preocupação de Lula nem de Dilma, garantem pessoas próximas dos dois. No auge do escândalo do cartão corporativo, há dois anos, ela foi apontada como a responsável por elaborar um dossiê com os gastos secretos da gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Erenice ficou no olho do furacão durante a CPI do Cartão Corporativo, mas, com apoio de Dilma, foi mantida à distância da investigação pelas forças governistas. A avaliação que se faz hoje no governo é que esse episódio não afetará sua nomeação.”

Sabem porque o cargo será esvaziado e Erenice Guerra terá de compartilhar seu espaço com Miriam Belchior?

Pois quanto mais poder tiver Erenice…

…mais se verá a diferença entre Lula e Dilma.

…mais se lembrará que Lula é da esquerda sindicalista, enquanto Dilma é da esquerda revolucionária.

…mais se recordará que se Lula não leu o Programa de Direitos Humanos, Dilma o aprovou.

…mais se perceberá o governo como menos Lula da Silva e mais Hugo Chávez.

…mais se concluirá que a candidata da continuidade operacional não é a da continuidade político-ideológica.

Coisas da política: Ao mesmo tempo, Lula quer Hélio Costa como candidato governista em Minas e como Vice de Dilma

30/01/2010

Informa a Veja:

“Qualquer conversa de político, mesmo privada, não deve ser comprada pelo seu valor de face.

Na semana passada, Lula deu um exemplo disso. Numa conversa com um importante político paulista, na segunda-feira, disse que faria de tudo para convencer o petista Fernando Pimentel a desistir de disputar o governo de Minas Gerais para abrir caminho para o peemedebista Hélio Costa.

Dois dias depois, o mesmo Lula, agora numa conversa com um dos mais eminentes congressistas do Nordeste, afirmou com todas as letras que Costa seria a melhor alternativa peemedebista para ser vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff.”

Coisas da política…

Artigo: Ruy Fabiano – Plebiscito de araque

30/01/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre as eleições que cada vez mais se avizinham e sobre o plebiscito entre PT e PSDB que vem sendo desenhado. Fabiano diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

Plebiscito de Araque

Ruy Fabiano*

A estratégia de dar conteúdo plebiscitário à campanha eleitoral, sustentada por Lula e PT, está em contradição com o próprio diagnóstico presidencial a respeito destas eleições.

Há algumas semanas, o presidente sublinhou, como aspecto positivo – e indicador de nossa evolução política –, o fato de não haver candidatos de direita. Todos, na sua ótica, seriam progressistas. E isso seria bom.

Mais de uma vez, elogiou a qualidade de cada candidato. De fato, todos – Dilma, Marina Silva e José Serra – vieram da esquerda.

Só Ciro veio da direita. Foi filiado à Arena, partido de sustentação ao regime militar. Mas já fez seu mea culpa e profissão de fé pública no socialismo, com uma veemência rara. É socialista – e ponto.

Nesses termos, o plebiscito não tem cunho ideológico, na base do direita versus esquerda, mas tão-somente personalista, dentro dos padrões populistas mais ortodoxos.

Lula é o referencial. A eleição seria Lula versus “o outro”. O outro é Fernando Henrique Cardoso.

Nenhum dos dois, porém, é candidato. O embate, em princípio, será entre José Serra e Dilma Roussef, que têm biografias distintas dos seus patronos. Mas o presidente fala claramente nas duas eras: a dele e a de FHC. Povão versus elites.

A era dele, porém, naquilo que apresenta de êxito e substância doutrinária – a política econômica –, decorre da era anterior.

Dá-lhe sequência. Não é casual que, à frente do Banco Central, esteja um ex-tucano, Henrique Meirelles, trazido para a política por Fernando Henrique, que o fez candidatar-se a deputado federal em 2002.

Para sinalizar ao mercado que não mexeria na política econômica – e não mexeu -, trouxe um tucano para o Banco Central. Hoje, Meirelles, filiado ao PMDB, é um dos ícones da Era Lula, que sonha em tê-lo como vice na chapa de Dilma Roussef.

O outro ponto forte da Era Lula é o Bolsa Família, seu principal cabo eleitoral, que, além de lhe render popularidade, serve para demonizar os adversários, acusados de planejar sua extinção.

Ocorre que mesmo essa polarização é artificial e não resiste a um retrospecto. Quem aderiu ao sistema de bolsas foi o governo Lula, que antes o criticava.

Esse sistema chegou ao formato atual inspirado no Bolsa Educação, concebido nos anos 90 pelo então prefeito de Campinas, hoje já falecido, Roberto Magalhães Teixeira, do PSDB.

O então governador do DF, Cristovam Buarque, encantou-se com a idéia e a trouxe a Brasília. Fernando Henrique gostou e a adotou nacionalmente. Lula, ao contrário, repudiou-a.

São palavras dele, em 2000, disponíveis no YouTube: “Lamentavelmente, no Brasil, o voto não é ideológico, e as pessoas lamentavelmente não votam partidariamente. E lamentavelmente você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento, é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça.

É por isso que se distribui tanta cesta básica. É por isso que se distribui tanto tíquete de leite. Porque isso, na verdade, é uma peça de troca, em época de eleição. E assim você despolitiza o processo eleitoral.

Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, tentando distribuir bijuterias e espelhos para tentar ganhar os índios. Você tem como lógica a política de dominação, que é secular no Brasil.”

O projeto social de Lula, quando assumiu – e está no discurso de posse –, era o Fome Zero, que não deu certo. O Bolsa Família reúne os programas da Rede de Proteção Social, concebido e conduzido por dona Ruth Cardoso, que incluía ainda itens como vale-gás e bolsa-alimentação.

Fundiu-se tudo num rótulo novo e ampliou-se o número de beneficiados, etapa seguinte à implantação da idéia.

Não há, pois, nem mesmo na política assistencialista, o contraste indispensável aos plebiscitos, que é o choque de idéias ou projetos antagônicos.

O que há é a velha luta por cargos entre PSDB e PT, cuja origem é São Paulo, berço de ambos. São os irmãos Karamazov da política brasileira. Não se entendem, mas se parecem.

O tom plebiscitário artificial que se quer impor à campanha serve, como dizia Lula em 2000, para “despolitizar o processo eleitoral” e manter “como lógica a política de dominação”.

A massa, atenta ao Bolsa Família, continuará a “pensar com o estômago”, já que as questões mais relevantes estarão à margem dos debates.

Pior para os debates. Pior para o eleitor.

*Ruy Fabiano é jornalista

PDT fecha de vez com Dilma para a corrida presidencial e cobra apoio a Jackson Lago no Maranhão

29/01/2010

O PDT, presidido pelo Ministro do Trabalho e Emprego Carlos Lupi, já havia anunciado que estaria com Dilma Rousseff na corrida presidencial. O Perspectiva, inclusive, comentou.

Agora, com o acordo alinhavado, resta aparar as arestas e cobrar as contrapartidas. Esse processo já começou.

O partido fundado por Leonel Brizola avisou que deverá estar com José Fogaça, candidato que poderá ter o apoio da oposição, no Rio Grande do Sul, e que tem dificuldades para se encaixar nos palanques governistas, de Sérgio Cabral e de Anthony Garotinho, no Rio de Janeiro.

Contudo, o principal fato novo da aliança entre Dilma e o PDT não são essas arestas, e sim o pedido mais contundente.

O PDT pediu que Dilma Rousseff esteja, com o Presidente Lula, no palanque maranhense de Jackson Lago. O pedetista era o Governador até ter sido cassado. Assumiu o governo em seu lugar a segunda colocada nas eleições, Roseana Sarney.

Em outubro, Lago tentará o retorno, fazendo justiça segundo os seus correligionários. Dilma e Lula, se quiserem cumprir a promessa feita ao PDT, terão que ter palanque duplo no Maranhão.

Lembremos que o outro será o de Roseana, tentando a reeleição. José Sarney provavelmente não gostará nada de saber que o governo, em cujos braços ele planeja jogar o tempo de televisão do PMDB nacional, cogita não apoiar exclusivamente sua filha.

Dará panos para manga.

Enquanto isso, Ciro Gomes vê a solidificação do acordo entre PT e PDT afastando de vez a legenda trabalhista de uma possível base futura de sua cogitada candidatura.

Artigo do leitor: A crença no controle e o valor da liberdade

29/01/2010

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto que me foi enviado pelo leitor Marco Antonio Reis, que me orgulho em publicar por ser prova do alto nível dos leitores do meu Perspectiva Política:

A crença no controle e o valor da liberdade

Marco Antonio Reis*

O que há de mal em buscar segurança, ou, ao menos, a sensação de estar seguro? Aparentemente nada. Animais não caçam para garantir a própria sobrevivência e de sua prole? Assim também não opera o ser humano, que através do desenvolvimento de tecnologia logra dominar e transformar, em certa medida, os recursos naturais à disposição a fim de garantir uma vida mais “segura”? A rigor, o homem é uma criatura frágil, limitada e historicamente inserida em uma luta contra adversidades, sejam as suas ou as do meio. Contudo, uma asserção é inescapável: não foi um ente abstrato e dotado do monopólio pretensamente legítimo da violência que logrou tornar a vida dos homens mais fácil diante de tais obstáculos, senão os próprios homens que, envidando esforços conjuntos porém, determinados livremente por cada indivíduo –, conseguiram pouco a pouco ultrapassar os referidos desafios.

O cenário atual, sequioso de mais segurança e controle de adversidades muito mais complexas, e marcado por uma irrefletida confiança no poder das autoridades, parece vinculado a um nível mais profundo da experiência humana. E talvez esta seja a razão determinante para o recrudescimento da cultura do controle em detrimento da liberdade.

Se o ser humano possui uma natureza essencial, eu diria que ela consiste na ignorância. Podemos ser mais ou menos egoístas, mais ou menos solidários, mas somos definitivamente ignorantes, no sentido de que precisamos constantemente aprender algo, seja para sobrevivermos num ambiente de escassez de recursos, seja para aprendermos a respeitar as liberdades alheias. Ao ignorante, contudo, assusta a possibilidade de haver algo para além da escura caverna em que habita, e mesmo quando alguém obtém um átimo de luz, o impacto da razão não basta para desanuviar uma mentalidade mítica. Para que algo possa ser aprendido a liberdade é condição necessária, mas não suficiente.

Daí a possibilidade permanente do erro. Liberdade é a possibilidade de aprender, mas também possibilidade de errar. E ninguém gosta de errar. Ninguém gosta de ter de abandonar convicções convenientes e aventurar-se em um mundo livre e, por isso mesmo, suscetível ao erro. Considero que a compreensão deste ponto é indispensável, pois aquele que renuncia ao aprendizado também o faz em relação à liberdade. E quem não está disposto a usar da própria liberdade para aprender renuncia à responsabilidade de seus atos e entrega, conscientemente ou não, a decisão acerca dos rumos de sua vida a outro que se julgue no direito de escolher pelo renunciante. Quem age por si está sujeito ao erro, mas é um indivíduo livre; quem delega decisões, quer queira ou não, assume as responsabilidades, mas jamais os méritos do ato e, tampouco, a liberdade. A ignorância é a escassez interior que pode resultar na experiência do aprendizado (mesmo que por tentativa e erro), possibilitada pela liberdade; ou resultar no medo e no escapismo, possibilitados pela busca de segurança. Os exemplos são fartos.

Em busca de uma sociedade menos violenta e mais segura, o Estado brasileiro proibiu o comércio de armas, mas as mortes violentas por arma de fogo permanecem. O apelo por uma sociedade livre das drogas conduziu ao agravamento da resposta penal ao tráfico de drogas, mas não só as pessoas continuam a consumi-las como a violência ínsita a um aparato que procura sobreviver na ilegalidade não parou de fazer vítimas. Da mesma forma, a Lei Seca não foi capaz de deter as estatísticas que colocam o Brasil no quinto lugar das mortes no trânsito segundo a OMS, com destaque para as vítimas jovens.

Na tentativa de prover maior segurança aos trabalhadores, o Estado instituiu um programa de previdência social, mediante o pagamento forçado e periódico de quantias (ironicamente chamadas de contribuição) para, ao final, “garantir” uma aposentadoria muito aquém da remuneração recebida pelo trabalhador enquanto ainda ativo, bem como um déficit (preocupante, mas de modo algum surpreendente).

No nobre intuito de promover justiça “social” e prover maior segurança à população carente, o governo brasileiro arrecadou um trilhão de reais em 2009 em tributos. Os resultados sociais tão esperados pelo ideário igualitário-distributivo parecem, contudo, longe das expectativas social-democráticas, exceto pela política assistencialista e demagógica que só faz aumentar as chances de perpetuação do PT e demais partidos envolvidos no poder e expandir a economia informal às custas, mais uma vez, do “contribuinte”.

Enquanto expande artificialmente a base monetária da economia nacional por meio do Banco Central, controlador da taxa básica de juros (SELIC), sob o argumento falacioso de prover crédito e, com isso, maior segurança à economia, ao ritmo de consumo e à vida do cidadão, o Estado, em verdade, engendra um processo inflacionário imperceptível aos olhos do leigo, além de garantir uma ótima estrutura para a manutenção de seu déficit, causado, em última instância, pelo binômio ineficiência-corrupção.

A lista é interminável, entretanto, o ponto nodal e comum a todas essas experiências fracassadas é o seguinte: troca-se a falsa sensação de segurança (às vezes nem isso) pela progressiva intervenção governamental naquilo que o ser humano tem de mais precioso para aprender: a liberdade.

Mas todas essas experiências escondem um fato importante, a saber: a concessão da gestão e controle de nossos medos e inseguranças ao Estado. Uma entidade aparentemente abstrata e dotada de faculdades especiais para administrar tantos problemas. O dado concreto e realista, porém, é que o Estado não passa de um conjunto de outros seres humanos igualmente ignorantes e falíveis, conhecidos pela alcunha de “autoridade pública”. Como bem salientou Bastiat, não é incomum às veneráveis autoridades a sede pelo poder, uma imaginação afetada por devaneios napoleônicos de condicionamento, adestramento e, como epílogo perfeito, de salvação da humanidade (que nada mais é do que a espoliação do conceito de indivíduo ou pessoa).

Este misto de adoração, condicionamento milenar e renúncia à liberdade individual conduz, a meu ver, a um panorama angustiante: se o Estado arroga para si e com a anuência das pessoas obrigações – positivas de efetivar uma série de supostos direitos e de gerar o famigerado bem estar social, tal premissa leva a duas conclusões. A primeira é o fato de que tornamo-nos dependentes. Escolhemos permanecer vivendo numa fase pueril, em que as regras são ditadas pelo pai, pelo príncipe ou por qualquer outra autoridade “competente”. Para retomar uma idéia contida nos parágrafos iniciais: renunciamos à possibilidade de aprender e permanecemos ignorantes pelo medo de errar. Não há responsabilidade pelos fracassos ou méritos, mas em contrapartida haverá sempre a possibilidade de depositar nossas frustrações na conta do outro, o que nos leva ao segundo efeito: se o Estado é incapaz de realizar tais obrigações, a culpa é dele, Estado, o que só fomenta este círculo vicioso.

Com efeito, o que gera perplexidade não é a coleção de fracassos estatais, mas a crença das pessoas de que o Estado continua a ser a melhor alternativa. Historicamente, o povo brasileiro não costuma primar pelo associativismo e pela valorização das liberdades individuais. O brasileiro, via de regra, costuma ser pródigo em críticas e inconformismos quanto aos rumos do “país do futebol”. O mensalão, o apagão, a imoral e insuportável tributação, o voto obrigatório, os desvios de conduta de seus governantes parecem lhe alarmar por alguns poucos momentos, mas não passa disto. É só. É com pesar que faço tal constatação, mas o brasileiro é passivo e acomodado.

À conclusão semelhante chega, por exemplo, o excelente trabalho do antropólogo Roberto DaMatta, que perguntou aos entrevistados o que eles achavam do brasileiro que costumava cumprir as leis e tratar todos como iguais perante a lei. O resultado foi implacável: a maioria dos brasileiros reputam este brasileiro, alheio a privilégios e cumpridor de seus deveres, um “otário”, que provavelmente não possui uma rede forte de influências.

Este é outro ponto inolvidável que, quero crer, vincula-se à insistência no messianismo estatal e ao poderio que as doutrinas coletivistas possuem em terras tupiniquins. Não se ignora que o “jeitinho brasileiro” encerra uma manifestação cultural promotora do círculo de amizades e interesses em detrimento da igualdade perante a lei; que faz da autoridade e da coerção um manto sob o qual todo o tipo de interesse é negociável, não à base de liberdade de escolha, tratamento uniforme e livre competição, mas às custas do “contribuinte otário” que paga seus impostos e não pertence (e nem deseja pertencer, pelo caráter nefasto que revela tal comportamento) a um círculo de poder capaz de distribuir vantagens, renda e posição com recursos alheios.

Considero que este expediente também decorre do medo e da necessidade desenfreada por segurança do indivíduo. Estaríamos sendo injustos ao afirmar que o Estado é incapaz de gerar algum grau satisfatório de segurança e controle (pelo menos material). De fato, o Estado gera. Mas só para alguns poucos amigos do rei. Aos inimigos, a lei, como diz o ditado.

As características de um Estado intervencionista, sobretudo na economia, são um convite à constituição de um círculo promíscuo de interesses. Naturalmente, os seres humanos menos escrupulosos enxergam nesta circunstância uma chance única de enriquecer, conseguir prestígio e poder. No fim das contas, garantem a si mesmos a segurança de manter seus próprios interesses intactos e, o principal, a segurança de não serem importunados neste cenário. Como pontuava Edmund Burke, para que o mal triunfe, basta a omissão dos bons. Basta que os indivíduos escrupulosos, porém amedrontados e passivos, continuem a reclamar da ineficiência estatal da boca para fora, apenas. É para estes, sobretudo, que a mensagem libertária se faz imperiosa.

Estas e outras questões serão objeto de análise e crítica, não só por mim, nesta coluna libertária. Pareceu-me, todavia, promissor um roteiro que começasse pela premissa básica, da qual não posso me furtar, ainda que em poucas linhas: o valor da liberdade.

Liberdade é o agir livre de coerção externa. É a possibilidade de livre participação pessoal no mundo (do indivíduo em suas relações com os recursos naturais e demais seres humanos). Esta possibilidade de livre participação no mundo pressupõe o exercício ou disposição da propriedade que o ser humano tem sobre seu corpo e mente, e que encontra limite na possibilidade de o outro exercer ou dispor livremente dessa mesma propriedade.

Para que tal liberdade se exerça de modo compatível com as demais liberdades e possa valer como máxima universal é condição necessária a interiorização do valor da autonomia individual (a garantia de um núcleo inatacável e insuscetível de intervenções forçadas, a saber: a possibilidade de livre participação da pessoa no mundo por meio do exercício e disposição da propriedade de seu corpo e mente).

Ora, se é reconhecida à pessoa a possibilidade de livre disposição para estabelecer relações com o mundo em razão de uma autonomia moral individual, a noção de responsabilidade pela escolha dentre um rol de possibilidades é complementar ao fundamento aqui defendido. A partir do momento em que se pode estabelecer uma relação “X” com o mundo, a pessoa efetua uma escolha. Tal escolha pode ou não coincidir com a escolha necessária para que um certo âmbito inatacável de autonomia individual de outras pessoas seja respeitado. Este núcleo de autonomia individual é um imperativo categórico, na medida em que manifesta uma exigência incondicional de respeito, e sua razão de ser é possibilitar às pessoas uma coexistência livre e responsável. Todo desrespeito a este núcleo, exige, pois, uma atribuição de responsabilidades, sob pena de se quebrar o universo equilibrado de possibilidades de livre disposição das relações individuais.

Em síntese, compreendida a liberdade como esta possibilidade de livre exercício da propriedade que o ser possui sobre seu corpo e mente, é evidente que quando se fala em liberdade, também se fala em liberdade para errar. Liberdade para escolher possibilidades que podem ou não se demonstrar corretas. Seja a realização de um investimento inviável, seja o dedicar tempo e trabalho a uma atividade que no futuro se mostra infecunda ou seja a liberdade para se aproximar de outros indivíduos e com eles se decepcionar. Liberdade é, pois, possibilidade lastreada pela atribuição de responsabilidade. Possibilidade de livre participação pessoal no mundo e responsabilização pelas consequências dessa participação.

De cada qual conforme sua escolha, e jamais à força violar a possibilidade de escolha alheia. De cada qual conforme seus erros, para que também o mérito do aprendizado seja verdadeiro.A cada qual conforme seja escolhido, jamais pela força, mas à luz da liberdade alheia. A cada qual conforme seus feitos, e feliz da liberdade que não cede em face do medo.

*Marco Antonio Reis é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog