Artigo: Ruy Fabiano – O artifício plebiscitário

In: 01. Análise Política| 02. Corrida 2010| 06. Governo Lula| 08. Lula| 15. FHC| Dilma Rousseff| José Serra| PSDB| PT

26 Dec 2009

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Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre as eleições que cada vez mais se avizinham e sobre o plebiscito entre PT e PSDB que vem sendo desenhado. Fabiano diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

O artifício plebiscitário

Ruy Fabiano*

As pesquisas, sobretudo quando o seu objeto está distante de uma definição – caso das próximas eleições -, costumam ser inconsistentes e provisórias.

São mais ou menos como o que o falecido Magalhães Pinto dizia da própria política, comparando-a às nuvens, que a cada momento assumem desenho diverso.

Faltam dez meses para as próximas eleições presidenciais e a campanha, oficialmente, nem começou, embora seja de uns meses para cá o tema predominante entre os políticos.

O público, porém, não está ainda motivado para o assunto. Mal conhece os candidatos.

Portanto, tudo o que até aqui as pesquisas têm informado é muito pouco para autorizar profecias.

Basta lembrar que, nas eleições de 1989, o vencedor, Fernando Collor de Mello, só começou a figurar entre os primeiros quando a campanha já estava avançada.

No início, era apenas um traço nas avaliações dos institutos.

O que se pode especular, pela última pesquisa do Datafolha, é que a tendência plebiscitária, pretendida pelo governo, já se esboça.

Dilma Roussef cresceu, sem que seu oponente principal, José Serra, tenha perdido espaço.

Caíram os demais – Ciro Gomes e Marina Silva. Como não há propriamente embate ideológico, já que todos os candidatos colocam-se à esquerda, o que se pretende é opor dois personagens que não estão na disputa, Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Dois governos que, em vez de se opor, são na verdade continuidade de um mesmo roteiro.

O governo Lula, no entanto, quer mostrar-se como o da ruptura, o que, pela primeira vez na história do país, teria colocado o povo no centro da cena, em contraponto ao anterior, que teria privilegiado as elites.

A tese não resiste a um exame superficial.

O governo Lula manteve o modelo econômico do anterior e expandiu programas sociais que já estavam em curso no governo FHC, caso do Bolsa Família, que integrava o programa assistencialista Rede de Solidariedade, concebido e comandado por Ruth Cardoso.

Foi, inclusive, uma iniciativa tomada já com o primeiro mandato de Lula em curso. O projeto social do governo Lula, no início, era o Fome Zero, anunciado com alarde já no discurso de posse.

Mas não deu certo, o que fez com que o governo ressuscitasse o Bolsa Educação e o agregasse às outras bolsas que vigoraram anteriormente (bolsa-gás, bolsa-transporte etc.) e as agregasse sob o rótulo único de Bolsa Família, expandindo-a.

Na economia, embora critique as privatizações, o governo Lula é beneficiário dos resultados por elas proporcionados, sendo a telefonia a mais notória de todas.

A universalização dos seus benefícios consta hoje de todas as propagandas governistas.

A evidência maior da continuidade está mesmo na economia, em que, para presidir o Banco Central, foi chamado o deputado tucano Henrique Meirelles, que renunciou ao mandato para assumir o comando da política monetária.

Entrou em rota de colisão com o PT, que pretendia subjugá-la às políticas sociais.

Lula, porém, bancou Meirelles – isto é, a política monetária dos tucanos – e esse tem sido o seu mérito maior, reconhecido pelos próprios adversários. Todas as análises que se fazem no exterior do êxito do governo Lula ressaltam a continuidade que deu às políticas decorrentes do Plano Real.

São análises eminentemente técnicas, que desprezam o embate político-partidário e atêm-se aos dados objetivos da realidade.

Marina Silva tem mencionado esse aspecto continuísta de ambos os governos, ao criticar a tendência plebiscitária que Lula e Dilma querem dar à campanha. PSDB e PT – e Fernando Henrique enfatiza sempre isso – são partidos convergentes. Só os separa a ambição de poder.

A luta por cargos. Não fosse isso, estariam juntos desde a primeira eleição direta. Mas São Paulo, base maior de ambos, os separa.

Essa divergência pontual os empurra para alianças contraditórias e, frequentemente, espúrias.

O PSDB aliou-se ao DEM e ao PMDB para governar, enquanto Lula, em busca da mesma governabilidade, alia-se ao mesmo PMDB, além de partidos periféricos, como PP, PR e PTB.

Se tivessem se aliado desde o princípio, a história teria sido outra.

Hoje, porém, a divisão é irreversível, com prejuízos irremediáveis para a própria qualidade da política que se pratica no Brasil.

Quem quer que se eleja – e isso não é profecia – terá que recorrer à mesma periferia fisiológica que gravita em torno dos dois principais partidos brasileiros, comprometendo na origem o governo que vier a se instalar.

O artifício plebiscitário não muda essa realidade e sugere que as eleições não irão alterar o padrão fisiológico que tem marcado as administrações deste período democrático da história do Brasil.

Pior para a democracia. Pior para o Brasil.

*Ruy Fabiano é jornalista

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