Coluna do dia: Aécio Neves e o seu presente de Natal

25/12/2009 em Yashá Gallazzi | (16) Comentários

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Por Yashá Gallazzi*

Estou certo de que há leitores os mais ecléticos neste nobre site. Há, por exemplo, aqueles que provavelmente concordam com alguma coisa do que é escrito por mim. E há, como não poderia deixar de ser, os que guardam divergências inconciliáveis comigo.

Os que acreditam que minhas colunas semanais são – vá lá… – insatisfatórias, deveriam agradecer aos céus o fato de eu não ser jornalista. Como jornalista, acreditem, sou um colunista maravilhoso! Eu não conseguiria jamais uma “notícia em primeira mão”. Nunca traria para os leitores um “furo de reportagem”. Eu estaria sempre atrasado, sendo engolido pelo rápido desenrolar dos fatos.

A coluna desta semana, acredite quem quiser, já estava escrita há algum tempo. Nela, eu pretendia trazer para os leitores uma análise do cenário pré-eleitoral de 2010, inclusive com um veredicto que, tolamente, esperava fosse surpreendente: Aécio Neves desistiria de disputar a Presidência da República, fazendo de José Serra o candidato, de fato, das oposições ao PT.

Como disse anteriormente, sou um péssimo jornalista. Meu furo foi – se me permitem a construção – furado por… Aécio Neves! Se isso não é a prova definitiva de minha pobreza jornalística, não sei mais o que poderia ser. Aécio se antecipou a mim em cerca de uma semana, e resolveu tirar o time de campo.

Não era partidário da candidatura do Governador de Minas, mas reconheço sua astúcia política. Aécio, depois de perceber que não consegue se fazer apreciar para além das montanhas mineiras, preferiu tirar o time de campo e não trocar o certo – triunfo em Minas – pelo duvidoso – uma disputa nacional.

A maioria da imprensa brasileira, refém da agenda petista – e, por consequência, “pogreçista” -, tratou de construir uma análise no mínimo curiosa: a desistência de Aécio seria ruim para… Serra! Segundo os moleques de recado do lulismo, Aécio teria mostrado, com seu ato, toda a altivez e desprendimento próprios de um verdadeiro estadista. Sim, pode ser… Não deixa de ser muito nobre que o preferido do segundo maior colégio eleitoral do País desista em favor do preferido do maior colégio eleitoral…

A verdade é que Aécio sabe perfeitamente o terreno no qual está transitando. Ele entendeu – com algum atraso – que é impossível transitar entre a oposição a Lula e o governo Lula. Essa retórica bonitinha do “pós-Lula” vinga apenas até certo ponto, afinal, boa parte dos eleitores da oposição deseja – vejam que coisa! – uma… oposição!

O mineiro notou, por exemplo, que se render a convescotes com Ciro Gomes – um oligarca sem grife – não renderia dividendos, mas prejuízo. Ou Aécio achou que estar ao lado de um sujeito que sabe apenas atacar o PSDB seria visto como sinal de suprapartidarismo? Que nada! É, isso sim, sinal de esquizofrenia.

Em minha “coluna furada” – aquela que, tal qual Inês de Castro, foi, sem nunca ter sido -, eu dizia que só restava a desistência a Aécio Neves. Forçar um vale a pena ver de novo do “fenômeno Alckmin” era enterrar, de uma vez por todas, as chances de um futuro para o PSDB e para as forças de oposição ao PT como um todo. Ou alguém acha que, perdendo para Dilma, Aécio teria mais chances contra um eventual retorno de Lula, em 2014? Ou então que, desistindo de apoiar Serra, poderia ter mais chances de vitória no futuro, estando em um partido alquebrado?

Ainda que por uma via oblíqua, o Brasil ganhou ares de País civilizado neste final de ano. Com razoável antecedência, os eleitores já sabem que a disputa de 2010 – aquela verdadeira – se dará entre Serra e Dilma. Isso é bom. É muito bom! Ciro Gomes é uma nulidade. Ainda que tivesse alguma chance eleitoral, o neopaulista se encarregaria de promover a própria sabotagem, falando – sei lá… – que o eleitor é mentecapto. Marina Silva, a rainha dos povos da floresta, só conseguirá seduzir os que acreditam na Igreja do aquecimento global dos últimos dias. E isso, acreditem, é muito pouco. Restam Serra e Dilma.

O que eu acho? Ah, vocês estão brincando, certo? Eu sou pela melhor saída para apear o PT do poder. Serra e Dilma? Fico com Serra. Ficaria com Aécio, caso o mineiro fosse candidato. No mais, dizer o quê? Serra provoca as enchentes de São Paulo, como gosta de escrever o colunismo petista? Bem, Dilma provocava assaltos, sequestros e assassinatos…

Serra não é o meu candidato ideal. Ele é – e aqui vai uma pequena provocação aos “pogreçistas” – muito de esquerda para o meu gosto… Mas é o que há. E, acreditem: não se pode desperdiçar uma chance de dar uma sonora sova no lulo-petismo. Mesmo sabendo que o próximo governo será, muito provavelmente, sofrível, afinal as milícias do PT não darão sossego ao vencedor – a menos que seja uma vencedora, e que está não seja Marina…

Com o Natal, me permito ser um tantinho mais otimista que o habitual: acho que Aécio, com sua desistência, pode ter dado ao Brasil o melhor presente de todos. Se o PSDB – e as oposições em geral – jogar direito o jogo, leva o mineiro ao único caminho possível: a Vice de Serra.

Aquilo que chamo de “modelo americano” é a melhor saída para as forças que se unem contra Lula e o PT: um candidato a Presidente com amplas chances de vitória, aliado a um vice forte, carismático, jovem e pronto para se qualificar para a sucessão seguinte. Com São Paulo e Minas unidos realmente, as oposições passariam, finalmente, a imagem de união que tanto perseguem. E mais: O PT quer dividir o Brasil entre ricos e pobres? Entre norte/nordeste e centro-sul? Pois uma chapa Serra-Aécio diria de forma cristalina que o Brasil é um só!

Mas esta, meus caros e pacientes leitores, é apenas a opinião pessoal de alguém que seria um péssimo jornalista. Um jornalista tão rastaquera, que seria “furado” por um político. E, apesar disso, é tudo tão óbvio… Tão evidente…

É isso! Deixem os jornalistas consagrados e os analistas políticos renomados de lado de vez em quando! Tapem os ouvidos diante dessa gente por alguns minutos! O negócio, em alguns momentos, é ouvir o que este “jornalista furado” tem a dizer.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento


16 Comentários em “Coluna do dia: Aécio Neves e o seu presente de Natal”

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  1. Comment by Guilherme — 25/12/2009 at 23:46   Reply

    Olá, ótimo texto. Só queria comentar a seguinte frase:
    “Essa retórica bonitinha do “pós-Lula” vinga apenas até certo ponto, afinal, boa parte dos eleitores da oposição deseja – vejam que coisa! – uma… oposição!”
    Eu consigo enxergar que essa parte dos eleitores existem (como você!), mas infelizmente não consigo enxergá-la significativa o suficiente em uma eleição. Por isso acho esse discurso de Aécio teria realmente menos chances de dar errado (concordando ou não com seu conteúdo).
    Um abraço.

    • Comment by Bruno Kazuhiro25/12/2009 at 23:56   Reply

      Guilherme,

      Obrigado pelo comentário.

      Acho que o ponto que você levanta é muito válido. Concordo que talvez, dependendo do clima na época da eleição, o pós-Lula colasse mais que o anti-Lula. Talvez Serra venha com esse viés também, embora seja muito mais facilmente colado ao anti-Lula pelo PT por ter sido parte da gestão de FHC.

      Volte sempre!

  2. Comment by Marcelo Gladson Pires — 26/12/2009 at 00:16   Reply

    Prezada Colunista,

    Acompanho o Perspectiva Política e gosto muito do conteúdo. Mas, esta sua coluna, além de ter ser extremamente prolixa, foi de um direitismo sem limites.
    Quando pessoas querem reconhecimento ou tem problemas de aceitação, ficam tecendo críticas a si mesmas, na busca por elogios. Acho que você agiu assim.
    Além do conteúdo direitista rasteiro, vc falou muito de si mesma, que tem pouca ou nenhuma importância para o Brasil.
    Suas considerações sobre Marina Silva foram, numa tentativa de gracejo trocadilhista, pejorativos para uma pessoa que luta efetivamente pela causa ambiental.
    A não ser que para vc esta questão não seja importante.
    Desculpe se fui um pouco grosseiro mas, toda ação gera uma reação em sentido contrário e de mesma intensidade.

    Marcelo Gladson Pires

  3. Comment by Yashá Gallazzi26/12/2009 at 11:08   Reply

    Guilherme, obrigado pelo comentário.

    Como ressaltado pelo Bruno, sua colocação é muito válida. Não tenho dúvidas de que o chamado “eleitor de oposição” é, sim minoria. Não me arrisco a dizer que ele seria eleitoralmente irrelevante, afinal já vimos eleições decididas por menos de um ponto porcentual.

    O discurso dito conciliatório de Aécio, fixado no tal pós-Lula, teria até mais força de sedução do que um discurso puro de confronto. Mas eu pergunto: até que ponto Aécio estaria preparado para tocar um governo na prática? Uma coisa é fazer uma aliança para vencer Lula. Outra, muito diferente, é conciliar uma enormidade de partidos e interesses em torno de um projeto comum.

    Na ideia que tenho da sociedade brasileira, vou até um pouco além: acho que há muitos moderados que não compram o discurso da oposição simplesmente porque não existe um… discurso da oposição! Lembra de 2006? No final do primeiro turno Alckmin cresceu e encostou em Lula quando decidiu abrir o confronto. E, no segundo, foi engolido quando resolveu cair no paz e amor torno, vestindo colete de estatais e se abraçando ao Garotinho.

    Enfim, concluo apenas dizendo o óbvio: toda democracia de verdade sempre teve governo e oposição. O confronto de ideias é vital. Aceitar que existe uma verdade insofismável (o lulismo e sua herança) e que todo o debate político deve se dar em torno disso é diminui a democracia.

    • Comment by Bruno Kazuhiro26/12/2009 at 12:34   Reply

      Yashá,

      Obrigado pelo comentário.

      É claro que a população que deseja ouvir um discurso de oposição, questionador dessa unanimidade que pode ser burra, seria um bom receptor para um discurso anti-Lula. Acontece que a maioria que se opõe a Lula se opõe aos erros, mas deseja a continuidade dos acertos. Daí o trunfo do pós-Lula, representado por Aécio e Ciro. Daí o medo de Lula de Ciro concorrer, pois o pós-Lula pode vencer o Lula de novo e tirar Dilma do segundo turno. Sobre a questão de governar, concordo com você: Aécio poderia ser um melhor candidato, mas se vencesse, seria em 1 de janeiro um Presidente menos capacitado do que Serra seria.

      Volte sempre!

  4. Comment by Yashá Gallazzi26/12/2009 at 11:21   Reply

    Marcelo, obrigado pelo comentário.

    Você acha que falei muito de mim no texto? Eu já acho que não falei o bastante… Faltou dizer, por exemplo, que sou UM colunista, não UMA colunista. Mas está tudo certo… É um erro absolutamente escusável, dada a natureza peculiar do nome.

    Eu não me critiquei aqui esperando elogios, meu caro. Na verdade, eu nem me critiquei. O texto todo – ATENÇÃO AGORA! – é uma grande ironia.

    Uma dúvida: você disse que meu texo é muito direitista. Por quê? Porque falei muito de mim mesmo? Bom, então Lula seria o maior direitista “dessepaiz”, não é mesmo?

    Ou seria porque critiquei a Igreja do aquecimento global dos últimos dias? Hum… Acho que é isso… Sabe como descobri? Você deixou vestígios, caro. Ao tascar lá em cima a expressão “causa ambiental”, marcou a página com a digital indelével da seita.

    Não, eu não levo a sério essa história. Agora, que se entenda: eu questiono é a retórica do fim do mundo, que certo pensamento politicamente correto emprega. Mudanças climáticas, degelo em algum canto, resfriamento em outro? Ah, isso existe mesmo. Sempre existiu, desde que o mundo é mundo. E o mundo – veja só! – continua aí… Por que agora seria o caso de acreditar que estamos às portas de um armagedom?

    Isso pra não comentar os dados furados de East Anglia, um dos maiores templos da tal igreja…

    • Comment by Bruno Kazuhiro26/12/2009 at 12:37   Reply

      Yashá e Marcelo,

      Obrigado pelos comentários.

      O aquecimento global existe. Todos os colunistas do Perspectiva acreditam nisso. A questão é a respeito do alarmismo. Uns concordam que é necessário, outros pensam que é exagero. Quanto aos termos utilizados por Yashá para caracterizar Marina Silva, eu não usaria, tenho outro estilo, que fica claro em meus textos, mas não repreendo o colunista. Ele é livre para dizer o que quiser.

      Voltem sempre!

  5. Comment by Tweets that mention Coluna do dia: Aécio Neves e o seu presente de Natal | Perspectiva Política -- Topsy.com26/12/2009 at 11:26   Reply

    [...] This post was mentioned on Twitter by Perspectiva Política, Yashá Gallazzi. Yashá Gallazzi said: Já está no ar minha mais nova coluna semanal, publicada lá no @perspectiva –> http://migre.me/f2AR Não deixem de ler. [...]

  6. Comment by Guilherme Segal — 27/12/2009 at 11:46   Reply

    Parece que qdo alguem no Brasil se coloca mais alinhado, melhor dizendo, adota as ideias da direita o mundo por aqui cai. Interessante esse comportamento, seria a influencia de nossas aulas de historia no 2 grau ?

    Tem coisas que concordo com o Yasha, outras meu pensamento se junta ao do Bruno, assim como o do Felipe, e isso a meu ver nao tem o menor problema.

    Em qualquer sociedade em que exista divergencia de ideologia o debate cresce positivamente, por aqui, a exclusao é dada como uma vitoria. Que tipo de debate politico teremos dessa forma ?

    Uma das coisas mais bacana do blog é justamente ver de perto esse confronto, sem que haja a necessidade de excluir o pensamento contrario, parabens ao Bruno e demais colunista pelo nivel das discussoes.

    • Comment by Bruno Kazuhiro28/12/2009 at 12:17   Reply

      Guilherme,

      Obrigado pelo comentário.

      Agradeço pelo elogio e fico feliz que você tenha captado a essência do propósito do Perspectiva. É local único na blogosfera política brasileira.

      Volte sempre!

      -

      Yashá e Filipe,

      Obrigado pelos comentário.

      Há, sim, doutrinação. Mas acredito que o erro se encontra mais longe. Não é o professor de ensino médio que doutrina os alunos e ponto final. Ele é doutrinado na faculdade em qualquer curso de ciências humanas propositalmente para que se comporte como se comporta no trabalho.

      Voltem sempre!

  7. Comment by Yashá Gallazzi27/12/2009 at 22:15   Reply

    Guilherme, obrigado pelo comentário.

    Você escreveu algo que é o cerne de uma sociedade civilizada: concordamos em algumas coisas e discordamos em outras tantas. O mais importante, porém, é que concordamos em discordar. Seria ótimo que todos pensassem assim também.

    Não tenho dúvidas de que as aulas ideologicamente engajadas de nossas escolas explicam muito disso. Aqui, o professor quer “libertar o aluno” e ensiná-lo a “ser cidadão”. Eu, preso às minhas convicções, acho que os professores deveriam nos libertar apenas da ignorância, e cuidar de ensinar a conjugar verbos. Mas querer isso – você sabe – é ser reacionário…

  8. Comment by Filipe Calvario — 28/12/2009 at 11:14   Reply

    Concordo que a adoutrinação nas escolas deve ser evitada. Mas, certamente, sou a favor de que se estimule o pensamento crítico sobre questões da sociedade e a leitura de autores impotantes. E que, tudo quanto for conenso científico (valorização da razão em detrimento da superstição, evolução das espécies, ou homossexualidade como não-patologia,e sim como orientação sexual) seja ensinado em momentos oportunos.

  9. Comment by Yashá Gallazzi29/12/2009 at 11:00   Reply

    Filipe, o problema de se apoiar o tal “ensino crítico”, é definir quais são suas diretrizes.

    Da mesma forma que é correto ensinar que o homossexualismo não é uma doença, também seria possível encontrar um Estado interessado em professar o contrário… Quem guardaria os guardiões?

    É por isso que insisto: uma escola de verdade deve se ocupar de libertar, sim, os estudantes. Mas apenas da ignorância.

    • Comment by Bruno Kazuhiro30/12/2009 at 14:17   Reply

      Yashá,

      Obrigado pelo comentário.

      O que você ressalta é corretíssimo, seria muito difícil averiguar que “crítica” está sendo ensinada. Porém, por outro lado, um ensino meramente de conteúdo poderia ser pobre na formação do caráter. Com a estrutura desmantelada de família que temos hoje, poderia faltar algo na formação. Enfim, é polêmico, ambos os lados têm prós e contras.

      Volte sempre!

  10. Comment by Yashá Gallazzi30/12/2009 at 18:29   Reply

    Mas é aí que eu divirjo, Bruno. Não penso que a escola deva formar caráteres, pois isso foge muito facilmente ao controle. Todos os regimes totalitários, você lembra, eram entusiastas dessa ideia da “educação libertadora”. Deu no que deu…

    Além disso, não acho que o Estado deva se substitui à família. Nunca! Quando isso acontece, escolas e professores acabam relativizando coisas como o aborto, fingindo que não há diferença entre isso e um assassinato.

  11. Comment by Bruno Kazuhiro30/12/2009 at 19:04   Reply

    Yashá,

    Obrigado pelo comentário.

    Concordo que a escola não é a família. O que eu quis dizer é que não podemos, na realidade de hoje, dizer que o fato de a escola auxiliar na formação de caráteres é inaceitável, porque se o fizermos, estaremos defendendo a falta de caráter. Hoje a família está desmantelada. Primeiro que a instituição da família se reconfigure, para depois podermos reclamar de quem, sem culpa, assumiu o papel dela. A escola não é culpada, é vítima. E sobre o Estado, eu penso mais na escola privada quando digo isso.

    Volte sempre!

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