Coluna do dia: Os mensalões – Ser livre é não ter bandidos para proteger

Em 11/12/2009 Comente »

Por Yashá Gallazzi*

Na coluna da semana passada, escrevi sobre as duas éticas de certa esquerda brasileira. Mostrei, por exemplo, que os petistas conseguem transitar com desenvoltura entre dois mundos incompatíveis: negam o mensalão lulista, alegando que tudo não passou de “golpismo das oposições”, ao mesmo tempo em que saem às ruas para protestar contra o mensalão de Arruda.

A coluna em questão, vocês devem ter notado, despertou a ira de um ou outro leitor deste site. Os mais afoitos não buscaram meias palavras, e saíram logo acusando o “direitismo preconceituoso” deste escriba. No Brasil de Lula, as coisas andam um tanto engraçadas… Se você defende cadeia para todos os bandidos – independentemente da filiação ideológica que tenham -, é tratado como um conservador; um direitista. Se, porém, você defende o roubo feito em nome da “causa”, aí a coisa muda de figura. Você deixa de ser um “porco reacionário” e passa a integrar aquela turma do tal “outro mundo possível”.

Os leitores conhecem, estou certo, a dona Dilma Rousseff. Para quem não sabe, a senhora é a “mãe do PAC”. Que PAC? Bem, isso caberá aos petistas explicar, não é? Dilma também é aquela terrorista, que militou, durante muito tempo, em uma organização dada a sequestros e roubos. Sim, eu sei perfeitamente que dizer essas coisas é motivo bastante para ser chamado de “porcoreacionárioedireitista” pela gente do politicamente correto. Fazer o quê? Ela é chamada de terrorista não porque eu quero. É porque um dia escolheu sê-lo.

Pois Dilma, essa gigante moral, essa humanista que acreditava em um “outro mundo possível” – erguido sobre corpos de adversários políticos -, disse, outro dia, acerca do mensalão, o seguinte: “As imagens são estarrecedoras. Muito duras, muito claras.” Sim, é verdade. Mas estou cá com um dúvida, caros leitores… Espero que vocês possam me ajudar: Dilma se referia a qual mensalão exatamente? Aquele de Arruda? Aquele de Minas (de Azeredo e do PSDB)? Ou aquele de Lula, de Dirceu e do PT? Sim, é óbvio que estou sendo irônico – e um pouco sarcástico…

Eis aí. Menos de uma semana depois de publicada aquela minha coluna, podemos comprovar de forma empírica o funcionamento das duas éticas dessa gente sociopata. O que temos acima é Dilma mostrando de forma clara sua indignação com relação aos desmandos gravíssimos ocorridos no governo do Distrito Federal. Nada mais correto, afinal, toda pessoa de bem deve se erguer contra aquela barbárie.

Mas Dilma, não! Ela não tem direito de se indignar, porque, afinal, não é uma pessoa de bem! Quem sou eu para dizer isso? Ora, sou alguém que nunca tentou mudar o mundo por meio do roubo, do sequestro e do assassinato. Convenhamos: sou um anjo de candura se comparado à “mãe do PAC”.

Dilma se mostrou escandalizada com o mensalão de Arruda na mesma semana em que sentou à mesa com Dirceu e Genoino, dois dos principais nomes do mensalão petista. Desfaçatez? Oportunismo político? Trapaça ideológica? Que nada! Essa gente é assim simplesmente porque… é assim! É uma questão moral mesmo. Lembram? Gramsci, outro sujeito dado ao terrorismo, já falou sobre isso: a moral deles (revolucionária) é diferente da nossa (a “burguesa”). Sendo assim, os valentes do “outro mundo possível” não estão submetidos aos nossos códigos éticos e morais, afinal – vejam que mimo! – foram criados “pelazelite”.

Dilma, lá no fundo do seu coração, sabe por que aceita dividir a mesma mesa junto com gângsters do calibre de Dirceu. Ela o faz porque não vê no sujeito crime algum. É por isso que vai à imprensa repetir o velho mantra petista: “ninguém ainda foi condenado por nada.” Verdade… Arruda também não… “Ah, mas é diferente!”, grita o petista. Pois é… Para eles, é diferente mesmo! Não é mentira oportunista, não! Eles realmente acham que o roubo – ou o mensalão, como queiram -, quando promovido em nome da “causa”, é justificável.

Eu já me vejo como um sujeito um tanto mais ortodoxo… Aos meus olhos, um roubo continua sendo só… um roubo! Percebam: sempre que a ordem jurídica for solapada, o resultado será um número muito maior de injustiças. Logo, não existe verdade alguma nessa psicopatia da esquerda revolucionária, segundo a qual as trapaças de hoje só seriam erradas segundo a “ótica burguesa”. Ou então, mostrem-me que estou errado. Demonstrem, empiricamente, onde os desmandos dessa gente foram exitosos.

De minha parte, prefiro um mundo onde gente como Dilma esteja na cadeia. De preferência, juntinho com gente como Arruda. Aliás, essa é a parte que mais enerva os esquerdistas que se debruçam sobre as minhas linhas… Essa gente é acostumada a medir os outros pela própria régua. Assim, como eles protegem seus mensaleiros petistas, ficam revoltados quando percebem que “os direitistas” não protegem Arruda. Pois é, não mesmo! Quero mais é que Arruda vá para os diabos, juntamente com Lula! E você, amigo esquerdista? Manda Lula para os diabos também? Ou vai ficar falando nas tais conquistas sociais?

Curiosa a mente deles… Em nome da redenção gloriosa, aceitam qualquer tipo de bandalheira torpe. Experimente jogar na cara de um esquerdista que Guevara e Castro foram dois assassinos vagabundos, responsáveis por campos de trabalhos forçados na América Latina. O sujeito, babando de ódio, imeditamente vai desenrolar os tais números virtuosos de Cuba. A educação, a saúde, e todas essas patacoadas que o regime fornece para os idiotas úteis. Mas não conseguem condenar o regime. Não adianta, é mais forte que eles.

Pobres diabos… Não os invejo em nada. Não deve ser fácil carregar nas costas, ao longo de toda a vida, uma infinidade de bandidos, ditadores e terroristas de estimação. E tudo isso ao mesmo tempo em que se combate os bandidos, ditadores e terroristas dos outros. Eu, prisioneiro apenas da minha liberdade individual, não tenho assassinos, terroristas ou ditadores de estimação para defender. Quero mais é que todos se dirijam para o mais profundo dos infernos! E isso vale para Guevara, Castro, Pinochet, Franco, Costa e Silva e, em uma escala um tantinho menor, Dilma e Arruda.

Os humanistas do “outro mundo possível” que carreguem seus criminosos nas costas. Não tenho bandidos para proteger.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

10 comentários

  1. Yashá,

    Bom texto. Descreve com precisão a parcela da esquerda que entende que os fins justificam os meios.

    É preciso apenas lembrar que nem todos os que se situam na esquerda tem esse pensamento.

    Nem toda esquerda é gramscista. Assim como nem toda direita é nazista.

    Se o direitista não merece ser sempre apontado como nazista, não é todo esquerdista que tem moral dupla.

    Mas eles existem sim, como os neonazistas existem. Daí o acerto de seu texto.

    Para esta parcela da esquerda, ele cai como uma luva.

    No Perspectiva, felizmente, esse tipo de esquerda não está presente.

  2. Bruno, estou plenamente de acordo. É por isso, aliás, que uso o termo “pogreçista”, cunhado pelo Reinaldo Azevedo. Ele serve muito bem para designar a esquerda órfã do Muro de Berlim, que defende ditadores e terroristas. O contraponto dela não é a direita, mas os “conçervadores”, se é que me faço entender.

    Aliás, não deixa de ser curioso que aqui, no Brasil, qualquer um que se coloque frontalmente contra o comunismo e o socialismo seja imediatamente chamado de direitista. Eu, de minha parte, não me vejo assim. Acho que estou muito mais próximo do reformismo moderado, muito bem trabalhado por Anthony Giddens.

  3. Yashá,

    Obrigado pelo comentário.

    Ideologicamente você pode se colocar na centro-direita, ou até na centro-esquerda, porém, sua veemência ao criticar algumas esquerdas deve levar ao entendimento de que você quer distância de todas elas, entendimento esse que o situa, invariavelmente, na direita. Provavelmente é isso.

    Volte sempre!

  4. Alan says:

    Não conheço a opinião do Yashá de antes do governo Lula, mas acredito que pela própria moral que defende, ele iria continuar criticando com a mesma veemência que critica Lula, não por ser o Lula, e sim por ele ser governo, e por conta disso, estar em maior evidência.

    O asco, supostamente, maior que ele tem pela “esquerda” é graças, acredito eu, ao discurso quase sempre falho que ela mantém. Acredito que o autor até possa votar em Serra ou Aécio, mesmo que Serra seja, na conceituação de Yashá, tão podre quanto Lula. Embora ache que ele tampouco é inocente o suficiente para achar que o neto de Tancredo é o que ele espera de um político.

    Penso que Yashá jamais falará bem de governo algum, porque o tipo de homem que ele defende jamais chegará ao poder no Brasil, nem na Suíça, Dinamarca, Mônaco e demais micro-países europeus com IDH inversamente proporcional ao território.

    Mas isso é só opinião.

  5. Alan, obrigado pelo comentário.

    Olhe, não me escondo em dizer que, a meu aviso, o governo FHC foi melhor que o governo Lula. Isso não me impede, porém, de ser crítico a algumas medidas do tucano. Por exemplo, não apoiei a reeleição. Acho trapaça mudar as regras no meio do jogo. Algumas das outras ressalvas que tenho são, suponho, diferentes daquelas nutridas pela maioria. Eu, por exemplo, recrimino a timidez do programa de provatizações de FHC. Acho que ele deveria ter privatizado mais.

    Eu aproveito seu comentário para, uma vez mais, esclarecer: não tenho problemas com a esquerda. Meu problema é com certa esquerda – aquela “pogreçista”, órfã do muro de Berlim. Por exemplo: não tenho nada contra a social-democracia nórdica, em particular aquela de Goran Persson, na Suécia. Da mesma forma, tenho muito mais convergências do que divergências com a “Concertación” chilena, liderada por Bachelet.

    Não nutro preconceitos com a esquerda em si. As ideias progressistas e reformistas, desde que democráticas, não são de se jogar fora. O que não consigo admitir é a defesa intransigente de coisas abjetas como o socialismo e o comunismo. Pra mim é tudo muito simples: se banimos – acertadamente, diga-se – o nazismo e o fascismo, por que toleramos o comunismo?

    Eu não penso que Serra seja a salvação do país. Aliás, não acredito que alguém possa sê-lo. Mas acho, sim, que ele pode fazer um governo melhor que o de Lula. É matéria de opinião. Da mesma forma, acho que Aécio também seria melhor para o país do que o PT, apesar de preferir o paulista ao mineiro.

    Você só se engana ao supor que não posso me satisfazer com governo algum. Posso, sim. Veja: ao aceitar a vida em sociedade, os homens livres (como eu e você) concordam em cercear parte de sua liberdade absoluta. É aquela velha história do meu direito que termina onde começa o seu. Fazendo isso, damos à luz a democracia e, com ela, o governo representativo. Isso é o ideal? Quem sabem? Particularmente, acho que ainda não encontraram nada melhor para oferecer.

    Mas há, sim, políticos que admiro muito. Gente como Churchill, Thatcher, Lincoln, Persson e tantos outros. São políticos que não tiveram bandidos nem terroristas de estimação para defender, compreende? Foram perfeitos? Ah, isso não. Nenhum jamais o será. Mas deixaram um legado muito positivo para o mundo democrático.

  6. Bruno Medina says:

    O PT mandou em Porto Alegre por 16 anos. Depois, assumiu o governo do Estado com o Olívio Dutra – “bigodão”. E tudo, que sempre se ouviu aqui no RS, foi: “nós sómos éticos”, “nós temos moral”, “nós não somos como os outros políticos, que só estão preocupados com o capital financeiro externo”, “nossão gestão tem participação social” e blá, blá, blá, blá… E, toda e qualquer crítica feita à gestão petista, ainda que não fosse a respeito de alguma irregularidade administrativa – que foram muitas, na verdade – se rebatia com represálias econômicas, atentados à liberdade de expressão, tentando impedir a publicação de reportagens da RBS e outros meios de comunicação gaúchos sobre envolimentos escusos dos “movimentos sociais” com o Governo do Estado ou a Prefeitura da capital, alegando, que tudo não passava de um “golpedazelite” para prejudicar a “administração ética” petista.

    A gestão do PT no RS era de um desmando sem igual, “como nunca antes na história desse país…”

    O PT e todos os demais desta mesma linha de esquerda – que levantam a “bandeira da moralidade” -, são, a vanguarda do atraso, e não a da prosperidade.

    Excelente artigo Gaslazzi!

  7. Amigos,

    Obrigado pelo comentário.

    Nem sempre a esquerda comete esse tipo de erro. Ele existe, mas não podemos generalizar. É como eu sempre digo, elogio aos acertos e crítica aos erros. Na política, temos que olhar as nuances e peculiaridades. Não há como fugir disso. Yashá, por exemplo, vai nessa linha, quando diz que seu problema não é com a esquerda, mas com certa esquerda.

    Volte sempre!

  8. Medina, obrigado pelo comentário e pelas palavras elogiosas.

  9. Bob Jegg says:

    É complicado o debate democrático com esse pensamento Olavesco Carvalhesco e essa visão I love ditadura, mas vamos lá.
    As palavras do Bruno comentando o texto foram perfeitas. Os artigos dos xiitas esquerdistas são tão engraçadas e ridículas quanto dos botinudos noturnos e Olavos “foro de são paulo” Carvalhos da vida.
    Não há duas éticas. O chamado Mensalão do PT foi um financiamento de campanha, que acho errado, mas o PT foi o único partido que foi a favor do financiamento público de campanha. O mensalão do DEM está mais para assalto, e o mineiro foi um patrocínio forçado da Cemig e Copasa. O tempo dirá, e você ainda vai reconhecer os verdadeiros safados.
    Yashá, eu sou pacífico e não comungo com o terrorismo , mas chamar alguém que combateu a Ditabranda (“erguido sobre corpos de adversários políticos”) de terrorista é compactuar com a publicação da ficha falsa da Dilma pela Folha (Aliás, o que você acha dessa publicação? E o uso de veículos da Folha para transporte de presos políticos?).
    Sobre o PAC, só não enxerga o pior cego.
    Vamos falar sobre os dois filhos de FHC fora do casamento? Sobre a Alstom? Buraco do metrô? Rodoanel? A empresa da Filha do Serra que é sócia da irmã do Daniel Dantas?
    Sobre as privatizações, só eu enxergo que o que eu pagava por uma linha telefônica é o que pago anualmente depois da privatização? Essa porcaria que FHC fez “no limite da irresponsabilidade” foi uma desgraça. Na conta de luz foi um desastre. Além do racionamento com direito a multa, FHC colocou mais 8 impostos.
    Yashá, não sei em qual camada da pirâmide você se encontra, mas achar que FHC deveria ter privatizado mais e que Serra será o modelo de administração ideal para o país, te coloca no topo da pirâmide, ou és um papagaio de pirata que Tio Rei tenta recrutar contra o BRAZIL, ou se encaixa numa das pontas do comentário do Bruno.

  10. Bob,

    Obrigado pelo comentário.

    Realmente as pontas são caricaturais e devem ser de pronto invalidadas em suas alegações. Radicalismo nunca traz razão.

    Porém, isso não quer dizer que o colunista Yashá se coloca em uma delas. Não vejo assim. Com certeza as opinões dele são contundentes, porém, não o perfilam entre os que se comportam como torcedores de um time, seja ele o PTFC ou o PSDBFC.

    A respeito de chamar Dilma de terrorista, concordo que esse pode não ser o melhor termo. Eu mesmo não o utilizo. Porém, precisamos ter a noção de que, à época, Dilma queria derrubar a ditadura militar para instituir uma ditadura stalinista. Isso é fato. Ela não lutava pela democracia. E isso não quer dizer que seja correto chamar a ditadura de ditabranda, apenas quer dizer que Dilma também queria a sua ditabranda.

    Volte sempre!

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