Por Matheus Passos*
“Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível para os olhos.” Acredito que todos os leitores já tenham lido esta frase, ou já a tenham ouvido em algum momento de suas vidas. Da mesma forma, acredito que todos saibam de onde a frase vem: do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, um dos livros mais traduzidos no mundo.
Estranho, não é mesmo? Estranho começar uma coluna sobre política com algo tão poético quanto “O Pequeno Príncipe” – embora saibamos que tal livro não é um mero “livro para crianças”: possui conteúdo filosófico que serve para as “crianças de todas as idades”. Mas o objetivo da coluna não é falar da filosofia de “O Pequeno Príncipe”. O objetivo é levantar dois questionamentos a respeito de um fato que ocorre aqui “ao lado de casa”, há exatos 25,3 km de onde moro, segundo o Google Maps: a corrupção na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Antes de começar, quero deixar claro que não sou favorável a absolutamente nenhum tipo de corrupção. Apropriando-me das ideias de meu colega colunista Yashá Gallazzi, não me importa se o corrupto é de esquerda, de direita, de centro, de cima ou de baixo: corrupto bom é corrupto na cadeia, pagando pelos erros cometidos.
Feita tal ressalva, surge a primeira pergunta: notaram que quem lançou tudo “no ventilador” foi Durval Barbosa, uma das pessoas mais próximas de Joaquim Roriz? Quem mora no DF sabe a aura de “salvador da pátria” que Roriz tem por aqui. Quem mora no DF sabe que há uns 15 anos (talvez mais) a política local é plebiscitária – muito mais do que tem sido em âmbito nacional –, oscilando entre Roriz e seus aliados de um lado e o PT e seus aliados de outro. E quem mora no DF sabe que Roriz não quer largar o osso de jeito nenhum, tanto que saiu do PMDB e se filiou a um partido pequeno objetivando voltar nas eleições do próximo ano, com grandes chances de ser eleito – porque foi ele que fez a população do DF aumentar em mais ou menos um milhão de habitantes em 10 anos, graças à sua política de distribuição de lotes.
Que coincidência, não é mesmo? Justamente aquele que é um dos principais “braços-direito” de Joaquim Roriz resolve, há menos de um ano das eleições, abrir o bico a respeito de algo que teria acontecido antes mesmo da eleição de Arruda – portanto, ainda durante o mandato de Roriz.
Durval Barbosa resolveu falar no momento em que Arruda tinha índices de popularidade razoáveis, que, se não lhe garantiriam a reeleição no ano que vem, com certeza o colocava como um dos principais candidatos, ao lado de Roriz – com boas chances de vencer o mesmo.
Durval Barbosa resolveu falar no momento em que Arruda, se expulso do DEM, não poderá concorrer no ano que vem, por faltar menos de um ano para as eleições e não haver mais tempo hábil para a filiação a um novo partido.
Em suma: Durval Barbosa falou no momento exato de tirar Arruda da competição eleitoral do ano que vem, pavimentando o caminho para que Roriz vença – pois quem mora no DF sabe que no momento o PT não possui nenhum nome suficientemente forte por aqui para competir com Roriz (o deputado Geraldo Magela que o diga), e que o único que se encontrava no caminho do retorno de Roriz era Arruda.
O segundo questionamento também é simples: quem fez a investigação? A Polícia Federal, é claro. Que é comandada pelo governo federal, ou seja, pelo PT – cujo partido opositor é, dentre outros, o DEM. Que, por sua vez, vinha fazendo, ultimamente, uma forte campanha oposicionista ao governo federal, até mesmo com o lançamento – ainda que tímido, mas já uma evolução em relação à política brasileira – de propostas alternativas ao que o governo vem fazendo.
Claro está, neste caso, que o governo federal quis dar uma pequena mostra de sua força ao DEM, atacando o único governador que este partido possui – e que, como já falado, teria grandes chances de reeleição no próximo ano.
O governo federal quis dar uma pequena mostra de sua força ao DEM, atacando o único governador que este partido possui – e que vinha fazendo uma boa política de boa vizinhança com o governador de Goiás e o de Minas Gerais, no que diz respeito a políticas públicas para o Entorno do DF.
O governo federal quis dar uma pequena mostra de sua força ao DEM, atacando o único governador que este partido possui – bem como sua base aliada na Câmara Legislativa do Distrito Federal, cuja maioria apóia o governo de Arruda.
Em suma: o governo federal atacou na hora exata, no sentido de enfraquecer o único governador que o DEM – partido que vinha ultimamente cutucando demais o governo – possui.
Para terminar esta coluna, deixo um terceiro questionamento: em algum momento a grande mídia apresentou tais ideias ao público? Em algum momento a Rede Globo explicou as relações existentes entre DEM e PT? Em algum momento a Rede Globo falou a respeito da força que Roriz tem no DF, força esta fundamentada no mais retrógrado populismo-assistencialismo possível? Corrijam-me se eu estiver enganado, mas tais ideias, em nenhum momento, foram apresentadas claramente ao grande público. Mostraram-se apenas as imagens que chamam a atenção e causam indignação a qualquer um, em qualquer lugar do mundo: políticos recebendo dinheiro vivo. Mas nada, nenhuma análise a respeito das motivações da divulgação destas imagens. Nada, nenhuma palavra a respeito da vinculação de tais fatos às eleições do próximo ano. Nada, nenhuma palavra a respeito das motivações do governo federal.
É como diria Saint-Exupéry: “o essencial é invisível para os olhos”.
*Matheus Passos, escrevendo excepcionalmente em um domingo, é colunista do Perspectiva Política aos sábados, cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr.
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8 Responses to Coluna do dia: Escândalo no DF – Aquilo que é invisível para os olhos
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December 6th, 2009 at 11:59
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Alan
December 6th, 2009 at 12:48
Que a grande mídia brasileira é podre Deus e o diabo sabem muito bem.
Podre, mas não idiota. Ela não compraria uma briga perdida dessas, de ir contra a onda lulista, que como toda onda é burra, e bancar um custo político enorme apenas para defender seus eventuais protegidos.
É muito fácil cegar quem pensa que enxerga, mas quase impossível mudar o tipo de cegueira pré-existente.
Elda Alves
December 6th, 2009 at 13:55
Como sempre, bom demais, ler o que Você escreve!!! Ótima!!!
Verdadeiramente é subestimar demais a inteligência de alguns.
Você nos faz pensar, e traz bons questionamentos sobre o comportamento da mídia sobre o caso…
Infelismente é a minoria que questiona, que desejam um comportamento digno dos nossos politicos.
A maioria, elegem “politicos tão bonzinhos, que para dar um natal feliz aos seus eleitores, os entopem de panetonnes”.
A preocupação dessa maioria, é com seus umbigos,(bolsas…, empregos e cargos comissionados). Enfim, “politicos bozinhos” e a maioria se beneficiam mutuamente assim, infelismente.
Não gostaria de ver novamente tudo isso nas próximas eleições do DF.
Como sempre, excelente os questionamentos, e as colocações. Parabéns!!!
Elda Alves
Rogerio Cruz(1ºdireitoespam)
December 9th, 2009 at 16:28
GRANDE MESTRE!
situação já sabida por todos nós, não é mesmo? Esse é o “esquema” básico da ação partidária em todo o país, tanto na esfera federal quanto na estadual ou minicipal. Aprova-se no legislativo o orçamento anual, nele se disponibiliza verbas para “setores da economia”, os executivos executam essas verbas, geralmente com empresas já previamente conhecidas, na hora do empenho o executor já determina a quantia a ser “doada” e assim passam os dias.Concordo com o mestre quando diz “corrupto bom é corrupto na cadeia”seja ele de que agremiação for!Isso não é um problema de fianciamento de campanha é um problema de “ÌNDOLE”, de “HONESTIDDAE” e mais é CRIME pois é utlilizar dinheiro público em benefício próprio e em desacordo com a lei. mestre só muita aula de ciência política desde a creche até a pós graduação é que talvez um dia a coisa mude. Não é atoa que sobrou a ESPERANÇA dentro da caixa de Da. Pandora!
Escândalo no DF – Aquilo que é invisível para os olhos « Blog do Rabay
December 9th, 2009 at 21:16
[...] fazer um comentário » Mais um excelente texto do meu chapa Matheus Passos para o Blog Perspectiva Política [...]
Ulisses Juliano
December 9th, 2009 at 23:36
Acredito que há mais por baixo desse tapete. Não consigo ver as mãos do Roriz, digo isso porque essa história ainda vai cair no quintal dele. Óbvio q ele é mais articulado e influente que o Arruda, entretanto, mesmo assim vai sobrar lama para ele, se vai acontecer algo ou não só o tempo irá dizer.
Bruno Kazuhiro
December 10th, 2009 at 10:10
Ulisses,
Obrigado pelo comentário.
Concordo plenamente que Roriz tem envolvimento. O mais esdrúxulo é o fato de esse escândalo ter aumentado as chances de vitória, justamente, de Roriz, em 2010.
Volte sempre!
Alberto
December 10th, 2009 at 10:37
Desculpe. A Polícia Federal tem sido mais independente neste governo do que em qualquer outro (embora ainda esteja a um bom caminho do ideal).
Em um momento, você diz que “o governo atacou na hora exata” (sem apresentar sequer indícios disto). Em outro você diz que o ataque partiu de Roriz (aí, sim, você apresentou indícios). O que era claro, no seu texto, em determinado momento, deixou de sê-lo em outro.