2ª Coluna do dia: Crônica – A verdade sobre a verdade

Em 29/11/2009 Comente »

Deus, os homens e a honestidade intelectual

Por Tiago Franz*

- Ateu?

- Sim. Se considerado for que ateu é quem nega a existência de divindades tais quais os teísmos pregam. Por quê? O que é um ateu pra você?

- Se diz de quem não acredita em Deus. Mas significa ser contra Ele. Anti-Deus.

- Definitivamente não significa ser contra Deus. É possível ser contra algo que se nega? Já ouvi falar em antiteísmo, que dizem ser uma oposição direta a divindades. Mas pra ser anti-Deus é preciso acreditar que Ele existe, penso.

- Mas…

- Não podemos confundir! Acho que há um erro conceitual aí. Teísta é aquele que crê que Deus existe. Ateísta, ou seja, ‘a’ mais ‘teísta’, é quem não crê. É simples.

- Humm!

O ‘a’ indica a negação. Mas essa negação não significa necessariamente ser contrário, como um antagonista ou adversário. Assexuado, por exemplo, não é ser contra o sexo. E analfabeto não é quem faz oposição à alfabetização.

- Tá certo.

- Uma vez assisti a uma palestra de um filósofo, que definiu e diferenciou ateus, céticos, fideístas, gnósticos…

- Hum!? Fideístas!? Gnósticos!?

- Calma! Vamos por partes. Ele disse que a palavra ‘ateu’, do grego ‘a’ mais ‘théos’, significa a negação do conceito de Deus. É contra a mentalidade de que há um ou mais deuses que nos avaliam pelos ditames do “certo e errado”, como muitas religiões teístas doutrinam. É contra a imposição da “verdade divina”.

- Então pro ateu não existe uma só verdade?

- Não existe a afirmação de uma só verdade. Mas acho melhor não ampliarmos e complicarmos muito a definição de ateísmo. Vamos limitá-la à negação do conceito de Deus e ver as outras definições. O ceticismo, por exemplo, é ligado à noção de “septo”, de olhar à distância, examinar, observar, desconfiar até mesmo da capacidade que a razão tem de conhecer alguma coisa, disse o filósofo. Já o fideísmo busca ignorar ou minimizar o papel da razão para se chegar à verdade suprema. E o gnosticismo, ao contrário do fideísmo, busca alcançar a plena realização humana a partir do desenvolvimento pleno do conhecimento, a razão…

- Nossa! Vá devagar aí senão eu não acompanho. Isso tudo tem a ver com acreditar ou não em Deus?

- São algumas das formas de pensar que orientam as pessoas a crer ou não na existência de Deus ou de qualquer outra entidade divina. Mas eu ainda não falei da definição que eu acho mais interessante: o agnosticismo.

- Olha o ‘a’ aí de novo! Gnosticismo e agnosticismo!?

- Sim. O agnóstico é aquele que professa a ignorância sobre a existência de Deus. E esta é uma das definições em que eu me encaixo. Sou o que chamam de ateu agnóstico. Nego a existência de Deus por achar que nunca saberemos se Deus existe ou não.

- Mas como assim? Se o agnosticismo considera a existência de Deus improvável e o ateísmo simplesmente a nega, não se pode ser agnóstico e ateu ao mesmo tempo.

- Mas posso estar próximo de ambos e sentir-me um pouco em cada lado. Afinal, essa coisa do improvável tem a ver com movimento, reflexão e mudança de pensamento. Não nego de todo a possibilidade de existir uma força relacionada ao equilíbrio universal. O que eu nego é a existência de um Deus à imagem de um cabeludo e barbudo grisalho, sentado num trono nas nuvens e rodeado de querubins e serafins e tudo mais. Isso, a meu ver, é mitologia. Invenção humana.

- Mas você não era assim. Você já foi um cristão como eu. O que te fez mudar?

- É aquilo que eu disse sobre estar em movimento. Eu não nasci cristão. Nasci numa família e numa comunidade cristã. Minha cultura é cristã. Porém, há uma questão de honestidade intelectual nisso. Você acredita que Deus existe e que Jesus Cristo é seu filho, certo?

- Certo. Mas estou meio abalado com toda essa conversa. E como é isso de honestidade intelectual? Por acaso você acha que eu sou desonesto?

- Não é isso, não! Se você confessa que está com suas convicções um tanto abaladas, é sinal de honestidade intelectual. Mas acho melhor falar por mim. Ser honesto intelectualmente é aceitar a dúvida e conviver com ela. É assumir que somos incapazes de solucionar tais questões. É dessa forma que eu me oriento.

- Me parece que a solução que você encontrou é negar tudo e pronto. Você é ateu e agnóstico, isto é, um “não teísta” e “não gnóstico”. E outra coisa que não entendo: essa tendência de negação não tem uma pitada de ceticismo? E se você chegou a esse ponto através da reflexão e da tal honestidade intelectual, não tem muito de gnosticismo no teu pensamento?

- Tem sim. Como eu já disse, o ‘a’ não significa ser contrário. Os agnósticos não são necessariamente contra os gnósticos, ou seja, não são contra a razão e o conhecimento. O que sei é que os agnósticos acham que o conhecimento e a razão são incapazes de responder à questão da existência de Deus. Até pode ser que haja um pouco de ceticismo aí também. Enfim, as formas de pensamento se aproximam e se afastam em diferentes pontos. E para ser bem honesto, comigo, com você e com todo mundo, repito o que disse Sócrates antes ainda de Jesus ter nascido, se é que eles existiram mesmo:

“Só sei que nada sei.”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

19 comentários

  1. Ótimo texto! Uma aula sobre os conceitos, além de ter o clássico formato de diálogo à la Platão e Sócrates tão perdido hoje em dia.

  2. tiagofranz says:

    Bruno e Felipe,

    Que bom que vocês entenderam a proposta.

    Muito o Brigado!

    Abraços.

  3. Tiago, seu texto não deixa de levantar algo curioso… A tal linha que divide aqueles “que negam a existência de Deus”, daqueles “que são contrário a Deus”.

    Não deixa de ser interessante notar que um teísta – ou um crente, como eu prefiro – não precisa ficar se convencendo da existência de Deus. Ele simplesmente crê. E isso, acreditem no meu depoimento, é libertador.

    Já um ateu – ou afim – está sempre procurando demonstrar a inviabilidade de Deus e da fé. Deve ser um tanto escravizante…

    Lembrei de Chesterton: “Quando o homem deixa de acreditar em Deus, ele passa a não acreditar em nada. Ou, pior: ele passa a acreditar em qualquer coisa.”

    • Yashá,

      Obrigado pelo comentário.

      Eu não creio que quando alguém não crê em Deus, passa a acreditar em qualquer coisa. Acho que é totalmente possível ser ateu e ter critério, embora eu não seja ateu.

      Volte sempre!

  4. tiagofranz says:

    Gallazzi,

    Obrigado pelo comentário.

    Chesterton falou de quando o homem deixa de acreditar em Deus.
    E eu questiono: quando o homem começa a acreditar em Deus?

    Vejo isso de não acreditar em nada ou acreditar em qualquer coisa como algo neutro, e não maléfico, melhor ou pior. Assim como crer em Deus ou em qualquer outra força superior é, para mim, neutro.

    Abraços!

  5. Filipe Calvario says:

    Acreditar simplesmente por acreditar é algo no mínimo estranho para pessoas racionais. Dawkins uma vez disse: “Faith is the great cop-out, the great excuse to evade the need to think and evaluate evidence. Faith is belief in spite of, even perhaps because of, the lack of evidence.” Todos os grandes homens que praticaram o uso da razão, e afirmaram ou rejeitaram a crença em divindades, argumentaram sustentando a sua opinião. Um exemplo foi Voltaire, que dizia acreditar em Deus, e dedicou capítulos de seus livros defendendo suas posições.
    Se bem, que hoje em dia, com o avanço da ciência, defender essa posição está ficando cada vez mais difícil…

  6. Filipe, quem disse que a religião precisa competir com a ciência? São campos distintos e, a meu ver, conciliáveis.

    Santo Tomás de Aquino já pacificou isso há séculos, em sua Suma Teológica.

    Há uma frase que eu acho emblemática: não é que a ciência não conheça as coisas do universo. Ela é só muito nova pra entendê-las…

    • Yashá e Filipe,

      Obrigado pelo comentário.

      Algumas formas de ser religioso são conciliávies com a ciência. Algumas não são, notoriamente. Criacionismo e darwinismo são opostos totalmente. Amantes da ciência não podem ouvir sem gargalhar a respeito do criacionismo. Criacionistas rejeitam totalmente terem vindo dos macacos. Existem religiosos que acreditam em Deus, mas não no criacionismo. Com esses há diálogo. Com os criacionistas não há.

      Fica comprovado que Filipe e Yashá acertam. Os dois. Depende de que religiosidade estamos falando.

      Aproveito para elogiar as citações de Filipe. Dawkins merece ser lido, por mais que também mereça ser questionado. E Voltaire é um clássico. Indispensável.

      Voltem sempre!

  7. Marcelo says:

    esse yahsa parece aquele povo compulsivo..nao pára de criticar todo mundo, qd não sabe o problema ta nele mermo. coitado.
    Tiago..adorei, um monte de coisas que nem sabia, obrigado pelas informações de uma maneira tao clara.

  8. É curioso isso… Afinal, os que se declaram livres das amarras religiosas costumam rotular os crentes como “obscurantistas e extremistas”.

    E, apesar disso, quem tenta cercear o debate são os “iluminados”…

    O texto do Tiago é muito bom. Pensei que isso já tivesse ficado claro. A qualidade dele não me impede de discordar de alguns aspectos. Pelo contrário: ela me estimula a isso! É bom discordar e debater – civilizadamente – com alguém inteligente.

    E mais: no meu mundo, alguém como o Tiago pode perfeitamente estar, emitindo suas opiniões livremente. E – vejam que coisa! – isso não seria considerado ofensa, perseguição ou qualquer coisa do gênero.

    E olhem que eu sou o “obscurantista” que tem os olhos “fechados” pela fé.

  9. Marcelo says:

    yahsa, ninguem disse que vc é reacionario ou extremista, e sim, disse que vc é compulsivo e parece nao ter oque fazer o dia todo. Vc trabalha?

  10. Qual seria a compulsão? De participar do debate? De expor as opiniões? De querer responder quando sou indagado, a fim de fomentar a discussão?

    Se for isso, bem, então a coisa me parece até boa. Perceba: antes isso do que a compulsão pela mentira e pela roubalheira, de certos políticos brasileiros, não acha?

    E, sim. Eu trabalho. E também sou casado. E tenho filho. Agora, com as vênias de estilo, por que isso seria importante para o debate? Enfim…

  11. tiagofranz says:

    Marcelo,

    Obrigado pelo comentário e pelo elogio. Fico feliz que meu texto tenha contribuído.
    Apenas peço que seja cordial com os demais comentaristas e que o debate se dê através da exposição de ideias e não de provocações pessoais.
    Sabemos o quanto o tema “religião” afasta a humanidade. Não façamos o mesmo aqui.

    ——-
    Yashá,

    Obrigado pela participação.

    Sobre a questão “religião versus ciência”, lembrei de outra frase famosa, do Einstein, mais ou menos assim: “A ciência sem religião é manca e a religião sem ciência é cega.”

    A física quântica tem se mostrado uma experiência muito interessante de conciliação entre espiritualidade e ciência. Talvez você saiba algo a respeito.

    Abraços!

  12. tiagofranz says:

    Filipe,

    Obrigado pelo comentário.

    Ainda não li Dawkins, mas ouvi falar muito do livro “Deus, um delírio”.
    Já li “Deus não é grande”, de Hitchens, que segue linha semelhante.

    Identifico-me com os autores em grande parte, mas, como disse o Bruno, precisam ser questionados. Os títulos, bem como o teor das obras, sugerem até mesmo uma posição antiteísta.

    O que você acha disso?

    Volte sempre.

    • Franz,

      Obrigado pelo comentário.

      O livro de Dawkins que você cita já foi alvo da minha leitura. Achei interessante. Traz questões inegavelmente lógicas. Mas há, sim, um quê de antiteísmo. Hitchens e Dawkins veem não só erro no teísmo, mas prejuízo para a Humanidade. Daí a oposição.

      Volte sempre!

  13. Marcelo,

    Obrigado pelo comentário.

    Franz diz: “Sabemos o quanto o tema ‘religião’ afasta a humanidade. Não façamos o mesmo aqui.”

    Assino embaixo. Yashá é um grande nome deste blog. Seu trabalho é orgulho, e não compulsão.

    Volte sempre!

  14. Agnus says:

    Quanto ao que foi dito na postagem.
    Olha o ‘a’ aí de novo! Gnosticismo e agnosticismo!?

    - Sim. O agnóstico é aquele que professa a ignorância sobre a existência de Deus. E esta é uma das definições em que eu me encaixo. Sou o que chamam de ateu agnóstico. Nego a existência de Deus por achar que nunca saberemos se Deus existe ou não.

    Sou agnóstico, filho de pais gnóstico (católicos) fervorosos, e não acredito que qualquer ser vivo humanos ou não sejam capazes de afirmar se existe ou não um deus.
    Acredito na força e na vontade de cada um, acredito que se eu quiser chegar em algum lugar será com minhas próprias pernas e que posso morrer rezando e implorando pra qualquer deus me levar que não sairei do lugar, então meu deus esta em mim mesmo, tenho livre arbitrio para decidir o bom do ruim e fazer da minha liberdade e minha capacidade aquilo que julgar certo ou errado, pois nem tudo que é certo ou bom para mim tem o mesmo efeito sobre meu próximo.
    Não sou melhor que ninguém nem mesmo para julgar o que é certo ou o que é errado. Se nem esta capacidade temos não conseguimos estar certos se existe ou não um deus.
    Alcorão ou Bíblia, qual o melhor? Antes faziam parte de uma mesma coleçaõ, comece por aí….

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