Por Felipe Liberal*
O neoliberalismo, que seria o rosto mais perverso do todo poderoso capitalismo, não se fixou. O sistema que globaliza mercados e culturas não se organizou e está começando a dar sinais de amadorismo, mostrando sua verdadeira face em vários momentos, coisa que a história já mostrou que não é aconselhável.
A Europa, com sua união mais desunida de todos os tempos, começa a mostrar que toda a fantasia harmoniosa que forma a comunidade europeia é apenas fachada. A Inglaterra e seu american way of life continuam com desejos de combater o que se tenta chamar de “Grande Império Europeu”, ratificando-se como eterna ponte entre os EUA e a Europa.
Do outro lado do canal, o chefe francês, Nicolas Sarkozy, já toma decisões protecionistas, visando defender o emprego dos franceses contra a globalização liberal, desestabilizando o euro e entrando em choque com o carro-chefe da UE, a Alemanha.
Angela Merkel, primeira-ministra alemã, quer o euro cada vez mais forte e começa uma integração econômica cada vez maior com a Rússia (esta que será a grande ameaça ao eixo “Washington-Londres” nos próximos anos, pois a perda de territórios em 1991 foi enorme e está longe de ser esquecida), de certa forma se distanciando do poderio britânico e criando tensões com a França.
Sarkozy, por sua vez, já fala em um novo bloco aliado a países norte-africanos e à Turquia, sob sua liderança. A Europa não está globalizada, como o mundo também não está. A fragmentação é o que há de mais real nesse momento da história mundial, portanto não é apenas na Europa.
Como não falar de um dos continentes mais complexos e extremos do mundo, a América Latina? Talvez o continente mais despolitizado do planeta e ao mesmo tempo um dos mais revolucionários também. Essa complexidade que nos cerca aqui embaixo está evidente nesse novo processo que está em andamento desde a virada do século. O neoliberalismo está sendo tão desgastante, através do seu genocídio silencioso, que o novo socialismo, ou o pós-neoliberalismo (não se sabe ainda), está rapidamente tomando as cabeças latino-americanas nos principais países.
A permissão que os povos como os da Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua deram aos seus novos governantes foi de grande coragem e uma determinante resposta ao imperialismo estadunidense. Essas pessoas simplesmente decidiram que o país pertence ao povo e não a empresas de nomes estranhos e sem rosto. As reformas sociais e as mudanças no cotidiano das pessoas são fatos inegáveis dentro do aspecto social. Porém, no lado político, as discussões são polêmicas e pertinentes sobre o desenrolar aqui no eterno caldeirão fervente que é a América do Sul.
É de extrema importância ratificar e ressaltar o nosso continente dentro do quadro mundial, principalmente por esse novo pensamento estar sendo contagiado para novos países e nações. A unificação da América Latina a torna fragmentada do resto do mundo e da América do Norte.
Não podemos também falar sobre complexidade sem falar do continente asiático. A efervescência econômica que vigora do outro lado do mundo é extremamente prejudicial a qualquer tentativa de progresso social em grande escala. Tudo o que foi conquistado na China para o povo está sendo devolvido de forma despótica para o desenvolvimento econômico, que não pode parar.
A China cresce em parceria com os EUA. Sem eles nada funciona no país de Mao. A dependência econômica mútua entre esses dois países elimina qualquer ameaça de conflito militar em um futuro próximo, transformando a Ásia em um continente indiscutivelmente capitalista. O Japão, representante estadunidense na localidade, funciona de forma muito semelhante à da Inglaterra, carregando as outras potências emergentes nas costas e defendendo com unhas e dentes a soberania imperialista americana.
Portanto, não estamos falando de um bloco mundial globalizado, e sim, de vários blocos heterogêneos ao redor do planeta. Isto não é novo, pelo contrário, sempre existiu em todos os períodos da história, porém sempre serviu como uma projeção de novos conflitos entre grandes países. O mundo está se desenhando novamente para esse novo velho quadro.
*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal











Felipe,
Permita-se discordar de alguns pontos:
1- No meu entendimento, o mundo passa por um momento de aumento de protecionismo, sim, porém, passageiro. O receio trazido pela crise irá, na minha opinião, amainar com o tempo, o que trará de volta o ímpeto globalizacionista, gerando novos aumentos dos blocos econômicos. Me parece invariável que tenhamos um futuro de enormes blocos econômicos disputando entre si, ao invés de termos países debatendo. Enfim, precisamos humanizar e potencializar os benefícios da globalização. A existência dela me parece fato consumado. Não vejo tendência de fragmentação.
2- Sobre a América Latina, o bolivarianismo não é apenas demonstração de que os países que o adotam dispõem de um anti-americanismo. Acredito que ele também demonstra que temos que evoluir, pois não basta ser nacionalista, é preciso ser democrático, ético e honesto. E isso tudo o bolivarianismo não é.
3- A China e os EUA são interdependentes. Mas tudo caminha para que a China vá deixando de ser, enquanto a dependência americana se aprofunda. Aí reside o perigo de conflito. Até porque os planos chineses são, notoriamente, focados em tomar o lugar dos EUA.
Felipe, o Bruno já comentou os pontos principais do seu artigo, inclusive fazendo, com propriedade, algumas observações de grande importância.
Devo discordar do “ponto 3″ do comentário acima. A China não vai substituir os EUA. Por quê? Bem, porque ela não é democrática e livre. A opção pela economia de mercado não substitui a opção pela democracia. Isso pode, até, representar uma armadinlha no longo prazo, pois a população torna-se mais inquieta e, por conseguinte, mais instável.
Felipe, um trecho do seu artigo me chamou particularmente a atenção:
“Como não falar de um dos continentes mais complexos e extremos do mundo, a América Latina? Talvez o continente mais despolitizado do planeta e ao mesmo tempo um dos mais revolucionários também.”
Saiba que é exatamente o que eu acho! Vou além: a construção acima representa a melhor e mais completa síntese acerca do caráter atrasado, caudilhesco e bananeiro da América latina. Não é, pois, óbvio que o lugar “mais revolucionário” seja, também, o “menos politizado”? Claro! É uma relação de causa e efeito indiscutível!
Parabéns pela análise!
Bruno,
Se não existe ética e honestidade no Bolivarianismo, nem vamos falar dos EUA, Inglaterra e etc.
Não vejo como a China sair dessa dependência com os americanos. Além da dependência comercial, existe também a financeira. Não existe disputa entre os dois.
Yashá,
Vejo um pouco dessa forma. A AL sempre foi um depósito de atrocidades e bizarrices, mas o processo revolucionário não vem da despolitização, mas sim, da miséria que o capitalismo trouxe, mais especificamente o imperialismo.
A globalização não tem apenas o aspecto econômico. Giddens foi muito feliz ao considerar o aspecto da destradicionalização dos indivíduos e de culturas, provocada principalmente pelo grande fluxo de informação que temos na contemporaneidade.Vejamos como isso vai mexer com os chineses, os sul-americanos e o resto do mundo nos próximos capítulos da história.
Creio que a fragmentação de blocos ocorrerá, mas a planificação do mundo, como defende T. Friedman, tornará os conflitos muito menos sangrentos que os do século XX. A tendência é que os mercados globlizados – que continuarão existindo apesar dos fragmentos – minimizem as guerras, e as disputas se dêem no campo político.
E espero que a “Sociedade em Rede” descrita por Castells humanize e ilumine esse cenário. Nada é melhor que a participação popular de indivíduos pensantes.
Ótima Coluna.
Abraços
Adorei, nunca tinha pensado nisso!
Franz,
Obrigado pelo comentário.
Concordo com você sobre globalização.
Volte sempre!
-
Felipe,
Obrigado pelo comentário.
Não há ética no bolivarianismo e não há ética nas práticas políticas internacionais americanas. Porém, no sistema americano há pessoas éticas, que defendem a legalidade e a integridade, os valores. No bolivarianismo estes são abafados.
Volte sempre!