Análise: Dilma poderia significar guinada à esquerda

Em 17/11/2009 Comente »

Quando Lula liderava as pesquisas para a eleição presidencial de 2002, o mercado estava receoso. Temia o que um Presidente de esquerda poderia fazer no comando do País.

Sabendo disso, o PT arregaçou as mangas. Divulgou a Carta aos Brasileiros, que nada mais era do que um documento onde o partido assumia certos compromissos, visando deixar o mercado e a sociedade em geral mais calmos quanto aos rumos que um possível governo petista daria ao País. A noção de que Antonio Palocci seria o Ministro da Fazenda alentava o empresariado. O fato de o candidato a Vice-Presidente ser um empresário bem-sucedido, José Alencar, também ajudava.

O resto todos já sabem. O PT venceu as eleições presidenciais, manteve a agenda econômica tucana salvo algumas mudanças, Palocci foi confirmado na Fazenda, Henrique Meirelles, um tucano, foi colocado no Banco Central que, ainda bem, continuou autônomo e a estabilidade foi mantida. Tudo muito diferente do que Lula pregava no início de sua carreira política. Tudo muito afastado do que poderia ser chamado de esquerda.

Um governo predominantemente de centro surgiu e ele, somado aos escândalos, expulsou a esquerda mais radical do PT. O PSOL se formou e passou a ocupar um lócus já ocupado pelo PSTU, outra dissidência petista mais radical.

Pois bem. Acontece que Lula nunca fora, realmente, um radical. Lula adveio do sindicalismo, e não da esquerda revolucionária. Lula via com bons olhos o crescimento das fábricas que empregavam os sindicalistas, ao invés de defender a revolução armada.

Contudo, Dilma Rousseff não tem as mesmas raízes. Ao contrário, foi guerrilheira. Cometeu crimes que foram anistiados. Aparentemente, matou.

Longe de mim querer espalhar algum tipo de temor, até porque sabemos que, em um eventual governo de Dilma, o controle continuaria sendo de Lula e sua equipe. O establishment não seria muito alterado.

Porém, é passível de questionamento se haverá ou não uma guinada à esquerda. Recentemente, como na questão do pré-sal, velhos jargões foram ressucitados, o nacionalismo versus entreguismo voltou à baila e a ampliação do Estado vem se fazendo latente.

Muito desse posicionamento advém da intenção de diferenciar o governo Lula do governo FHC, polarizando a eleição, que é vista pelos petistas, por conta da má avaliação popular de FHC, como uma boa ideia.

Ao mesmo tempo, um pouco deste posicionamento é, sim, ideológico, o que pode nos levar a imaginar que Dilma pode, realmente, representar alguém mais à esquerda que Lula. Na verdade, é praticamente unânime a visão de que ela é alguém mais esquerdista que nosso atual Presidente.

Não sei até que ponto é interessante para o Brasil discutir temas como reestatizações, Consenso de Washington, etc. Eles pareciam superados e seria bom que estivessem. Não é Lula que se gaba tanto de agora sermos credores do FMI?

Por fim, vale citar que Hugo Chávez já disse, mais de uma vez, que Dilma Rousseff é sua candidata, se intrometendo onde não deve e, com certeza, dando armas à oposição pois, ao contrário do que o bolivariano pode pensar, ele não é bem visto no Brasil.

Em suma, parece que Dilma pode representar a instalação de um cenário ruim: Intensificação dos defeitos do discurso petista antigo e diminuição dos posicionamentos corretos e cautelosos. Afinal, Lula não deixa exatamente um legado, e sim um pragmatismo, que pode, ou não, ser seguido por sua sucessora.

Esperemos que, caso seja ela a vencedora em 2010, estas previsões não se confirmem.

Aguardemos.

15 comentários

  1. Sem falar que Dilma no Planalto faria com que o nível do português despencasse brutalmente…

  2. Thulio says:

    são esses colunistas que temos aqui?? baseado no comentário acima?? Esse Yashá é muito ruimm!!!! muito reducionista!!!

  3. Thulio, deixa ver se entendi: você está me considerando um colunista “muito ruim” apenas “baseado no comentário acima”? É isso?! E eu é que seria o reducionista?

    Estou certo que você entendeu a ironia daquele meu comentário, afinal todo homo sapiens sabe – em tese – manejar ironia e sarcasmo. Está posto que não fiz uma análise política, mas apenas uma pilhéria.

    Quer algo mais amplo? Bom, com Dilma no Planalto não é só o nível do português que vai cair. A política externa deve piorar muito. O número de terroristas empregados no primeiro escalão do governo deve crescer exponencialmente. A desenvoltura com que o PT tratará de solapar a democracia ficará mais evidente, pois Dilma não terá tanto pudor quanto Lula – ela é mais crente no Partido.

    Há outros argumentos, é claro. Eu poderia dizer que, já que se pretende eleger a “primeira mulher” Presidente, seria melhor encontrar alguém mais parecida com uma… mulher! Não sei você, mas esse jeito “sargentona” da Dilma não me agrada. Só que eu não diria isso, afinal algumas pessoas poderiam não entender a ironia, né?

    Saudações e obrigado pelo comentário.

  4. Alan says:

    Não sou contra o aumento da máquina estatal, muito menos da estatização, ou pelo menos um maior controle do Estado sobre as empresas privatizadas. Nem por isso me sinto de esquerda, muito longe disso, aliás.

  5. Alan,

    Concordo contigo. Mas problema é que parece que não saimos da Guerra Fria ainda.

    E por favor, vamos parar com o “momento Regina Duarte”. O texto está muito radical.

  6. Alan, o que você coloca é muito coerente.

    Veja, a esquerda – digamos… – “clássica” não se caracteriza propriamente pela intervenção do Estado. Ela prega mesmo uma planificação centrada da economia. Um dirigismo completo. Não se trata, pois, de mero aumento da máquina.

    Não há dúvida que, historicamente, um Estado maior pode, sim, ser identificado ao ideal centralizador da esquerda. Mas não é sua bandeira principal. Tanto é assim, que os vários fascismos – relacionados com a direita – também se caracterizaram por um Estado enorme.

    Eu, que sou muitas vezes chamado de direitista, conservador, reacionário, “neocon”, etc., também acho que o Estado deve se fazer presente. Acredito que ele deve regular a economia, atuando quando necessário – como no caso da crise financeira mundial. Além disso, acho que deve manter sob seu monopólio a segurança pública e a defesa externa e, sob seu controle, a saúde e a educação. Perceba: algo assim só é considerado “de direita” aqui, “nessepaiz”.

    O mesmo se dá em relação a você: ser tratado como esquerdista apenas porque defende uma atuação maior do Estado é coisa de quem não entendeu nada a respeito das concepções ideológicas e políticas.

  7. Felipe, interessante que você tenha lembrado da Regina Duarte agora.

    Outra noite, eu conversava com um amigo, petista, sobre o governo Lula. Ele, partidário da esquerda mais radical (está no PSOL hoje), se dizia decepcionado com os rumos tomados pelo PT. Falamos da campanha, de algumas medidas adotadas e, também, da Regina Duarte.

    Lembro que disse a ele: “O tal ‘medo’ da Regina era econômico. Ela temia que o PT colocasse em prática aquilo que sempre denfedeu. Nem de longe ela imaginava coisas vagabundas como o mensalão, os dossiês, as alianças com Collor, Sarney, Maluf e Renan. O medo dela, enfim, por mais aterrorizante que fosse, não conseguiu retratar o pavor da realidade.”

    Por falar nisso, não deixa de ser curioso o preconceito contra a Regina, né? Aqui no Brasil, todo artista se acha no direito de fazer análise política. É meio que uma tradição. Pois bem, lembra do Paulo Betti, fazendo contorcionismo retórico para justificar a corrupção de Lula? Não lembro de vê-lo sofrendo tanta repreensão quanto a Regina Duarte sofreu.

    E olha que ela estava certa – na forma, não no mérito!

  8. Tulio says:

    Essa Dilma é terrorista não pode ser presidenta e vc Yashá vai votar no Serra também???

  9. Túlio, votar na Dilma é fora de questão. Não só por ela ser candidata de um governo que não me representa e que, a meu aviso, é ruim para o país. Mas pelo passado também. Quem se deu ao terrorismo, não abraça a democracia. Simples assim.

    Sobre votar em Serra, como saber? Nem os tucanos – supostamente os mais interessados em vencer – parecem decididos por ele. Dado o cenário atual, eu o considero o mais preparado para suceder Lula. Votaria nele sem problema algum.

    Mas não sabemos quem serão os candidatos, não é? Eu, muito provavelmente, votarei na oposição. A menos que Aécio apareça mesmo abraçado a Ciro Gomes. Em tal caso, a única alternativa seria emigrar.

  10. Este blogueiro que vos fala sabia que o texto causaria polêmica. Eu já esperava ter que responder a diversos comentários e questionamentos. Pois bem. Vamos lá:

    Yashá,

    Obrigado pelos comentários.

    Acho que o nível do português não pioraria. Ele está baixo. Sobre o estilo sargentona, também não gosto, embora eu ache que dizer que Dilma tem pouco de mulher é ir longe demais. Dilma é uma mulher de um certo estilo, só isso. Quanto ao fato de as pessoas não entenderem que é possível defender certos pontos e não pertencer a um “grupinho” ideológico específico, concordo plenamente. Aliás, já aproveito o gancho para responder ao Felipe:

    Felipe,

    Obrigado pelo comentário.

    Acredito que não se trata de ainda estar na Guerra Fria. A questão é que quem é centrista não concorda com uma esquerda radical. Simples assim. Se há a possibilidade de Dilma radicalizar o viés de esquerda do governo, há o receio de quem é de centro, afinal, os rumos do País não seriam os que os centristas entendem como corretos. Petistas receiam neoliberais pelo mesmo motivo. É apenas isso. Se no texto houvesse terrorismo eleitoral, eu me retrataria. Mas não há, ao contrário, há o reconhecimento da cautela de Lula, da credibilidade técnica de Palocci e do fato de esta equipe provavelmente vir a ter influência em um possível governo de Dilma.

    Volte sempre!

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    Tulio,

    Obrigado pelo comentário.

    Ela não é terrorista. Há indícios de que ela foi.

    Volte sempre!

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    Alan,

    Obrigado pelo comentário.

    Lhe respondo de forma concisa: Aumento da máquina não é aparelhamento da máquina. Não sou defensor de nenhum dos dois, mas quem é defensor do primeiro deve saber diferenciar do segundo.

    Volte sempre!

  11. Bruno, é fato que ela tortura a gramática mais do que Lula. Nem os petistas podem negar isso. Isso faria dela uma Presidente ruim? De per si, não. Reagan, que considero um grande estadista, tropeçava – e muito! – na gramática inglesa.

    Claro que ela é mulher. Foi só mesmo uma pilhéria, nada além. O estilo durona dela não me incomoda. Thatcher, que admiro muito, era pior que Dilma nesse aspecto.

    Sobre a sua resposta para o Túlio, faço um questionamento: os militares que torturaram durande o regime são torturadores, ou ex-torturadores? Se você os considerar ex-torturadores, então Dilma é ex-terrorista. Tratar-se-ia de questão de concepção etimológica, nada mais. Porém, se você os considerar torturadores, então Dilma – e sua turma – são… terroristas!

  12. Alan says:

    Sou defensor do aparelhamento, aumentar a máquina para maquiar um problema na geração de empregos não é política pública viável.

    • Alan,

      Obrigado pelo comentário.

      Acho que você quis dizer que não é a favor do aparelhamento, até porque qualquer pessoa com um mínimo de ética não é.

      Volte sempre!

  13. Alan says:

    Por que não?

    Não sei o que você quer dizer com “aparelhamento”, porque, pelo menos no dicionário, tem, entre muitos, esses significados:

    - Prover de equipamentos, engenhos, peças, etc.
    - Dispor as peças que hão de servir para (alguma obra).

    Sendo assim, o governo deveria sim aparelhar a máquina estatal, ou seja, estruturá-la para que ela funcione adequadamente. Estou errado?

    • Alan,

      Obrigado pelo comentário.

      No jargão político, aparelhar é partidarizar o órgão, fazer indicações políticas, sem critérios técnicos, alocando aliados.

      Volte sempre!

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