Por Raphael Machado Silva*
Foram celebrados, no último dia 9, os 20 anos da queda do Muro de Berlim, o qual dividia a Alemanha em duas metades: a República Federal Alemã, capitalista, e a República Democrática Alemã, comunista. Tal evento foi e é considerado como o mais simbólico, o mais representativo, do fim da Guerra Fria.
Segundo relatos dos presentes, o evento se deu quase que de modo absolutamente espontâneo, inexplicável, mágico. De um dia para o outro, sem qualquer razão evidente, toda a Alemanha estava transformada. Ou melhor, a Alemanha havia voltado a existir de verdade.
A Alemanha, aqui entendida também como o conjunto dos povos germânicos, ou seja, como Nação e não só como Estado, tem sido por muitos considerada o terceiro pilar da civilização Ocidental. A chama da civilização Ocidental foi acesa pelos gregos, passada aos romanos e herdada pelos povos alemães.
Toda a história Ocidental após Roma é uma história com um substrato eminentemente germânico. A partir da fusão entre as etnias e culturas germânicas com a herança greco-romana, com a conclusão das Migrações Germânicas que puseram fim ao já decrépito Império Romano, ergueram-se as bases de todo o futuro da Europa.
O Cristianismo após as Invasões é diferente do Cristianismo Primitivo, muito mais próximo ao Judaísmo, posto que foi ‘paganizado’ de modo a possibilitar a conversão das tribos germânicas e eslavas. Alguns teólogos ortodoxos, reconhecendo isso, também chamam o Catolicismo de ‘Cristianismo Germânico’.
Mesmo a estrutura etno-racial dos povos europeus foi alterada com as migrações germânicas. Onde se estabeleceram, nas velhas províncias imperiais, os germânicos se misturaram à aristocracia romana, servindo como base para a futura nobreza feudal. Da Alemanha também vieram as principais contribuições para a Música e para a Filosofia ao longo da História da Humanidade: Beethoven, Bach, Mozart, Händel, Wagner… Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger… São todos filhos da Germânia, e são grande parte do ápice da Cultura Ocidental.
Ao mesmo tempo, falar da Alemanha e de seu povo é falar de uma das Nações mais odiadas, vilanizadas, vilipendiadas e, sim, perseguidas do século XX. Um ódio esse que se deriva muito da inveja de anglo-saxões e alguns outros povos, surgido nos fins do século XIX.
A unificação da Alemanha criou o único rival à altura da Grã-Bretanha, e a imediata industrialização realizada por Bismarck foi tão eficaz que em três décadas a Alemanha fez o que a Grã-Bretanha havia feito em um século e meio, e já produzia com qualidade superior aos britânicos.
Quando a França Napoleônica fez o mesmo preteritamente, e apareceu como rival da Inglaterra, como potência européia continental, a brilhante diplomacia inglesa moveu o mundo contra a França. Em verdade, a chave dos mistérios da maior parte dos conflitos europeus dos séculos XIX e XX é o entendimento da linha programática e dos objetivos da política externa inglesa dessa época. O aspecto euro-continental dessa estratégia se fundava na necessidade de não permitir o surgimento de qualquer potência continental européia. Aí está a razão pela qual, em distintas guerras, a Inglaterra se aliou a diferentes Estados, às vezes contra Estados anteriormente aliados. A Inglaterra sempre foi inimiga e algoz das Nações européias que almejassem se elevar em poder.
Assim, a Grã-Bretanha, o país mais beligerante, devastador e sem dúvida um dos mais genocidas dos últimos três séculos, buscou e buscou insistentemente e finalmente conseguiu impor à Alemanha, em 1914, uma Guerra Mundial, sob uma chuva de propagandismos de tablóide, com direito à acusações de que os alemães tinham soldados que praticavam canibalismo com crianças belgas e de que transformavam cadáveres em combustível.
Traída internamente a Alemanha por comunistas, derrubada a sagrada monarquia, ordenada a rendição, fez-se a vontade dos banqueiros e o país foi reduzido a escombros. Primeiro, se impôs um bloqueio marítimo, impedindo que a Alemanha se abastecesse de alimentos: morreram centenas de milhares. A seguir, veio o “Ditado” de Versalhes, no qual roubou-se um pedaço de quase metade do território da Alemanha, o qual foi dado, junto com sua população, à Polônia. Exigiu-se o desarmamento da Alemanha como pré-condição do desarmamento geral.
Desarmada a Alemanha, os vencedores descumpriram o acordo. Sugerido no Parlamento austríaco um plebiscito a respeito da unificação entre Alemanha e Áustria, algo intimamente desejado por ambos povos (que são um só), ameaçou-se ambos de nova aniquilação total. Roubou-se todas as reservas em metais preciosos, principalmente ouro, ao mesmo tempo que se exigiu da Alemanha reparações titânicas por uma Guerra cujas origens remontam à decisões tomadas em Londres, não em Berlim.
Não fosse o ressentimento, o ódio, a inveja e toda uma gama de outros sentimentos absolutamente irracionais contra os alemães que culminaram no “Ditado” de Versalhes e em 15 anos da mais abjeta escravidão de seu povo, a Segunda Guerra Mundial jamais teria acontecido. Tivesse ainda acontecido, todo o modo de condução da mesma teria sido diferente, porque os alemães não haviam se esquecido das centenas de milhares que morriam de fome nas ruas e dos milhões de desempregados. Isso não exime a Alemanha nazista de culpas, mas explica em grande parte os porquês de sua existência.
Nos momentos finais da Segunda Guerra surgiu ressentimento e ódio germanofílico ainda mais forte. Não satisfeitos com o pós-Primeira Guerra, queria-se mais. O povo alemão, principalmente a parcela que nada tinha a ver com a cúpula hitlerista, era visto como um povo mal, um povo beligerante, um povo intrinsecamente maligno, que havia causado duas Grandes Guerras e, portanto, era o responsável pela morte de dezenas de milhões.
Esse povo precisava ser punido, esmagado, destruído. Precisava-se garantir que esse Mal Absoluto jamais ressurgiria, ou seja, precisava-se garantir que não haveria qualquer oposição às maquinações diabólicas de Londres/Nova Iorque e Moscou. Não poderia mais haver oposição aos banqueiros internacionais e ao sistema econômico fundado na usura (para quem não sabe, a Revolução Russa foi financiada por Bancos, o que é demonstrado no livro ‘Wall Street and the Russian Revolution’).
O Plano Morgenthau, apresentado a Roosevelt e seriamente debatido entre os vencedores, previa o extermínio completo da população alemã por meio da esterilização gradual dos homens, da imigração de outras populações e da repartição dos territórios alemães entre todos os seus vizinhos. Venceu uma razoabilidade mínima e o Plano foi parcialmente rejeitado. Sugeriu-se, então, que o extermínio recaísse apenas sob um certo percentual de alemães, os quais deveriam ser julgados em tribunais de linchamento pelos vitoriosos com a sentença já definida previamente (ainda hoje, geriatras com mais de 90 anos são perseguidos pelo ódio anti-alemão).
Milhões de civis alemães foram também colocados em campos de concentração aliados para realizarem trabalho escravo, satisfazendo assim uma injustificável sanha vingativa dos Aliados, com a morte de quase 1 milhão de alemães. Erros não justificam outros.
Satisfez-se a gula e sede de sangue diabólica de Stálin entregando-lhe metade da Europa, apesar dos pedidos desesperados de vários generais americanos, em 1945, para que o Presidente Truman reconhecesse o governo alemão do Almirante Doenitz, autorizasse uma aliança com a Alemanha e declarasse guerra à URSS, cujas hordas vermelhas estavam absolutamente exaustas e enfraquecidas pela guerra no Fronte Oriental e que nessa época ainda não possuía armas nucleares.
Como se sabe, venceram as intrigas, a razão foi derrotada. Dezenas de milhões foram submetidos a uma tirania ainda pior do que qualquer que pudesse ter sido estabelecida pelos alemães. Entregou-se os que haviam se rebelado contra a tirania soviética ao longo da guerra, como os soldados cossacos com suas famílias, para que os mesmos fossem exterminados por Stalin.
Enfim, a Alemanha foi repartida entre os vencedores. O Muro de Berlim foi o muro do ódio. Não do ódio entre capitalistas e comunistas, os quais não se odeiam de verdade nos postos de liderança (haja vista a facilidade com que Comissários viram banqueiros e empresários, e vice-versa, com uma simples mudança de regime), mas apenas entre militantes; mas sim do ódio contra a Alemanha. Dividiu-se a Alemanha com vistas a que ela nunca se reunificasse, nunca se recuperasse, nunca mais resistisse às tiranias vindas da América e da Rússia.
Assim, Heidegger, o maior filósofo do século XX, justificou seu apoio à Alemanha do III Reich: a Alemanha, para ele, era a única coisa que se interpunha no caminho do domínio imperialista total das potências materialistas e desenraizadas, fundadas no Iluminismo, as quais instrumentalizavam sua dominação pela coisificação do homem operada por meio de sua ‘fagocitação’ na técnica (tanto o homem-massa-proletário do comunismo, como o ‘homo oeconomicus’ do capitalismo, mero objeto desumanizado inserido em um mercado são, em essência, idênticos).
Pois realizou-se o que Heidegger temia, dividiu-se o mundo em duas partes, ambas submetidas a abjetas tiranias. Já os alemães foram todos ‘desgermanizados’ culturalmente; metade dos alemães viraram americanos, a outra metade soviéticos.
A(s) Alemanha(s) das últimas décadas foi um país em que se sentia vergonha de se pertencer a ele. Os hinos nunca eram cantados, a bandeira nunca era hasteada. Quando alguém dizia a outro europeu que era alemão, o fazia com um misto de culpa e vergonha. Não há prática mais baixa, vil, mesquinha e ‘plebéia’’ como diria Nietzsche, do que impingir o sentimento de ‘culpa’ sobre os outros.
No caso da Alemanha, a ‘Culpa’ virou símbolo nacional. Uma espécie de ‘coroa de espinhos’, que os alemães ignominiosamente se regozijavam em portar.
Mas o domínio do ódio não pode durar para sempre. O ódio não acabou, mas o povo alemão deu o passo no sentido de retomar as rédeas de direção do próprio Destino. Um passo talvez frágil, mas ainda assim significativo por seu rico simbolismo.
Demonstração de uma pretensa superioridade do Capitalismo? Ora, superioridade não se demonstra por uma mera sobrevivência no tempo, mas pelos valores intrínsecos de uma Idéia e pelos seus efeitos no Mundo. Vitória parcial do Povo Alemão, que se libertou de uma tirania, caindo na talvez mais desumanizadora tirania do Mercado.
Caiu o Muro. Morreu o Comunismo. Falta à Alemanha tentar ser uma nação unida, livre de dualidades e com identidade própria, que tem o direito e o dever de reivindicar os louros que merece pelo que seu povo sofrido, esse sempre vítima, produz.
* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.











Que aula de história!
Muito esclarecedor!
Abraço.
Medina,
Obrigado pelo comentário.
Realmente muito denso o texto de Raphael.
Volte sempre!
Caro Raphael, muito bom seu texto, especialmente por não cair na falácia de que apenas um dos dois lados era bom e o outro, portanto, automaticamente “malvado”.
Sugestão: acho que você deixou de citar Marx no início, como uma das contribuições para o mundo.
Matheus,
Obrigado pelo comentário.
Concordo. O texto de Raphael é um golpe na mesmice.
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