Arquivo de 11/2009

José Roberto Arruda: Decidido a resistir (por enquanto)

30/11/2009

O Governador José Roberto Arruda deu novos contornos ao escândalo que o envolve e que foi comentado por este blog aqui e aqui: Afirmou que resistirá “até o fim”.

Acontece que o “até o fim” de Arruda significa, na verdade, “até que não seja mais possível”.

Arruda tenta apenas postergar o inevitável. Sabe que evitar é impossível.

Já comentei aqui e repito: A situação de Arruda é insustentável. Não há político em cargo de relevo que resista sem apoio. E não há apoio que resista a um recebimento inexplicável de maços de dinheiro registrados em vídeo.

O Governador afirmou que poderá provar sua inocência. Começou a época de insultos à nossa inteligência.

Deveria Arruda fazer o que ninguém faz: Assumir o erro, resignar-se, pedir desculpas ao distinto público e retirar-se de cena.

Contudo, o Governador preferiu o velho script: Negação, falsa indignação, alusões a uma herança maldita deixada pelo antecessor e vitimização.

Não que não haja uma herança maldita advinda do governo de Joaquim Roriz. Não que Durval Barbosa, pivô do esquema, não tenha sido colaborador de Roriz.

Entretanto, isso não justifica. Arruda deveria ter denunciado o esquema de Roriz, feito de tudo para destruí-lo, impedí-lo em seu governo e ponto final.

Alguns não entendem porque Arruda tenta resistir. Duas palavras podem explicar: Foro privilegiado. Como Governador, Arruda responde a tudo com regalias. Se renunciar, pode parar atrás das grades em dois tempos.

Enquanto isso, José Serra e Gilberto Kassab, por exemplo, fazem o correto: Apontam a contundência das acusações, a consistência das provas e defendem a punição dos envolvidos. Todos deveriam fazer o mesmo, preocupados com o desgaste para as eleições de 2010 ou não.

O Democratas, partido de Arruda, não pode refugar. Pelo menos não se quiser manter-se como defensor da ética e se desejar poder continuar a apontar as falhas morais dos petistas.

A expulsão de Arruda é o único caminho possível para o partido se não quiser se envergonhar. Não há mais dúvida plausível a respeito do envolvimento de Arruda no esquema. Já passou o tempo da cautela.

Cortar na carne é o que qualquer partido brasileiro deve fazer ao se deparar com algo desse tipo.

Ministros não poderão usar aparelhos eletrônicos em reuniões com Lula

30/11/2009

Conta Renata Lo Prete, da Folha:

“Comunicado do chefe de gabinete Gilberto Carvalho informa que, a partir de agora, os ministros não poderão usar nenhum equipamento eletrônico em audiências com o presidente. Os aparelhos devem ser deixados na portaria ou com ajudantes de ordem.”

Que me perdoem os mais lulistas, mas não adianta divagar. A questão é objetiva:

Quem não permite aparelhos eletrônicos, não quer registros.

E quem não quer registros, não quer que outros saibam o teor das conversas.

Ora, o que há demais nas conversas de Lula com os seus ministros? Será que alguém se assustou com os registros que os equipamentos eletrônicos fizeram dos esquemas envolvendo o Governador Arruda?

Quem não deve, não teme, senhor Gilberto Carvalho.

UNE envolvida em suspeitas de fraudes e desvios

30/11/2009

Informa o Estadão:

“Aliada do governo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) fraudou convênios, forjou orçamentos e não prestou contas de recursos públicos recebidos nos últimos dois anos. A entidade chegou a apresentar documentos de uma empresa de segurança fantasma, com sede na Bahia, para conseguir aprovar um patrocínio para o encontro nacional em Brasília. Dados do Ministério da Cultura revelam que pelo menos nove convênios celebrados com a UNE, totalizando R$ 2,9 milhões, estão em situação irregular – a organização estudantil toma dinheiro público, mas não diz nem quanto gastou nem como gastou.

O Estado analisou dois convênios com prazo de prestação de contas expirado no ministério: o Congresso Nacional da UNE, realizado em julho, em Brasília, e o projeto Sempre Jovem e Sexagenária, celebrado em 2008, que tinha como meta produzir – até 4 de junho – 10 mil livros e um documentário sobre a história estudantil secundarista. O presidente da entidade, Augusto Chagas, de 27 anos, promete devolver o dinheiro, se forem comprovadas irregularidades.

Apesar de o governo ter repassado R$ 826 mil para os projetos, a entidade, mesmo cobrada, não entrega extratos bancários e notas fiscais, nem cumpre a “execução dos objetivos”, os livros e o documentário. Sobre os livros, uma cláusula do contrato diz que a UNE teria 60 dias para prestar contas, a partir de junho, ou restituir em 30 dias as verbas não usadas. Não fez nem uma coisa nem outra.”

Informa também o Estadão:

“União Nacional dos Estudantes (UNE) transferiu recursos públicos destinados à pesquisa sobre a história estudantil para a mesma empresa de segurança de Salvador usada para fraudar um orçamento de outro convênio da entidade estudantil com o governo federal.

No dia 19 de dezembro do ano passado, a UNE repassou R$ 7,8 mil para a conta da MG Portaria e Limpeza, que tem como endereço uma sala em um pequeno sobrado na região da Baixa dos Sapateiros, na capital baiana. O dinheiro saiu da conta do convênio do projeto Sempre Jovem e Sexagenária, celebrado entre a entidade e o Ministério da Cultura em 2008.

Em junho do ano passado, a UNE recebeu R$ 435 mil para realizar o projeto, que propunha escrever um livro e produzir um documentário sobre a militância estudantil secundarista. Ontem, o Estado revelou que, apesar de o convênio ter terminado em junho, o livro e o documentário não foram feitos e nenhuma prestação de contas chegou ao ministério.”

Parece que a UNE, além de ser praticamente cooptada pelo governo, decidiu imitar práticas empreendidas por alguns governistas.

O Presidente da entidade que se diz representante das aspirações dos estudantes brasileiros, Augusto Chagas, afirmou que devolverá a quantia utilizada fora de sua destinação se for comprovado que houve o desvio.

O Perspectiva cobrará!

José Eduardo Dutra: “Em toda eleição há risco de caixa 2″

30/11/2009

Informa o Estadão:

“O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, admite que há risco de caixa 2 nas eleições de 2010, em todos os partidos. Sob a alegação de que o modelo de financiamento eleitoral no Brasil está ‘absolutamente esgotado’, ele afirma que o atual sistema é ‘indutor’ de ações irregulares e ilegais.

‘Em toda eleição há risco de você ter desvios, caixa 2. É inerente ao modelo’, constata Dutra, que vai coordenar a campanha presidencial da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Para ele, que é ex-senador, a única saída é o financiamento público de campanha. ‘Fora disso, a gente vai continuar nessa relação hipócrita’, emenda, ao pregar que candidatos à Câmara e ao Senado adotem a reforma política como bandeira.”

Sobre o financiamento de campanha, José Eduardo Dutra acerta no que diz. Realmente é muito complicado coibir o “caixa 2″ com o sistema de financiamento eleitoral que temos hoje no País.

Contudo, isso não quer dizer que os escândalos têm atenuantes e, muito menos, que, se algo do tipo se repetir no PT, Dutra não será duramente responsabilizado e condenado.

Senhor José Eduardo Dutra, concordo plenamente com vossa senhoria quando diz que o financiamento privado de campanhas incita o “caixa 2″.

Seu trabalho é coibí-lo.

Lula é acusado por ex-aliado de tentar “subjugar” companheiro de cela

30/11/2009

O cientista político e ex-militante petista César Benjamin acusou o Presidente Lula de ter tentado “subjugar” um companheiro de cela no passado. Em outras palvras: Benjamin disse que Lula quis abusar sexualmente de um outro prisioneiro quando esteve preso no Dops, em 1980.

A denúncia foi feita através de artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, que foi criticado por muitos – não só aliados do Presidente, mas também alguns oposicionistas – por conta de ter dado espaço para esse tipo de acusação que pode representar gravíssima leviandade.

Alguns, em sua maioria pessoas que não apóiam o governo Lula, sejam elas do meio político ou líderes da sociedade civil, deram a entender, através de suas declarações, que acreditam que os fatos narrados por Benjamin podem ser verídicos.

Outros, além de criticarem a Folha de São Paulo pelo espaço dado à denúncia meio sem pé nem cabeça, afirmam que trata-se de uma acusação leviana, sem embasamento algum na realidade e feita motivada pela má-fé.

De qualquer forma, certo é que uma acusação dessas precisa ser comprovada pelo acusador. É dele o ônus da prova. A Folha de São Paulo, segundo seu ouvidor, está tentando reconstruir os fatos, afinal, se comprometeu com a persecução da verdade a partir do momento que permitiu a Benjamim levantar suspeitas em suas páginas.

Se apurar que Benjamin mentiu descaradamente, a Folha terá que se desculpar por ter concedido caracteres de sua seção de artigos a um louco. Porém, se por acaso a Folha apurar que há alguma verdade nessa história, será uma bomba.

Enquanto isso, Gilberto Carvalho, Chefe de Gabinete de Lula, afirma que o Presidente Lula reagiu com tristeza e dizendo que tudo não passa de uma “loucura”; José Maria de Almeida, atual Presidente do PSTU e companheiro de cela de Lula na época, não se recorda do tal “menino do MEP”, que teria sido o assediado pelo Presidente segundo Cesar Benjamin; Djalma Bom, ex-líder sindical e outro companheiro de cela dos já citados, difere de Zé Maria e lembra de um “menino do MEP”, mas nega que tenha acontecido qualquer assédio; Paulo de Tarso Santos, dito por César Benjamin como presente na hora em que Lula contou sobre o episódio, negou o caso.

O grande ponto fica por conta do cineasta Silvio Tendler, que se disse como o publicitário citado por César Benjamin como presente no momento em que Lula fez a revelação. Tendler afirmou que Lula disse mesmo o que Benjamim contou, porém, em tom de piada. O caso seria uma invenção jocosa de Lula.

Ora, se Silvio ouviu, os outros devem ter ouvido. Por que mentiriam? Ou é Silvio que mente?

Cabe à Folha de São Paulo, que pode tanto ter aberto espaço para uma loucura, como para uma bomba sem precedentes, perseguir a verdade.

Até lá, prevalece o entendimento, também em mim, de que César Benjamin, que já foi candidato a Vice-Presidente da República na chapa de Heloísa Helena, surtou.

A ver.

Coluna do dia: Eleições em Honduras – O Brasil parece querer o juízo final

30/11/2009

Por Arthurius Maximus*

A política externa brasileira vem sendo criticada por mim, e por inúmeros outros articulistas, faz tempo. Subserviência a Chávez, apoio a toda sorte de ditadores e genocidas africanos, esmolas em profusão para nossos vizinhos que, ao invés de trabalharem pela melhora de seus países, ficam chafurdados no velho discurso de que a culpa de sua pobreza é do “Imperialismo Tupiniquim” e não de seus governos preguiçosos e de uma população acostumada ao populismo e ao assistencialismo.

A posição do Brasil frente às eleições hondurenhas deste domingo é mais um ponto de vergonha na política externa do governo Lula. A canhestra operação de acobertamento envolvendo a tomada da embaixada brasileira em Tegucigalpa pelas “legiões” de Zelaya e a sua transformação em palanque político (contra todas as leis internacionais) pelo velho caudilho hondurenho, não foram suficientemente capazes de fazer ver a Lula e ao Itamaraty a burrada em que o Brasil se meteu.

Além de abdicar do importante papel de mediador e de agente da normalidade política, aumentando o seu poder de influência na região e levando uma imagem de país preparado para lidar com crises além da sua própria fronteira, o Brasil, embalado pela subserviência a Chávez, tomou o pior partido possível e acabou se prestando ao papel de marionete de Zelaya e do venezuelano.

Honduras vivia a quase normalidade política e todas as partes compactuaram com um acordo firmado pelo Presidente da Costa Rica, que reconduziria o país para a normalidade democrática. Mas o retorno de Zelaya ao país e o seu abrigo em nossa embaixada serviram para lançar a nação hondurenha à beira de uma guerra civil e da instabilidade institucional. Tudo porque o Brasil deixou que Zelaya acessasse rádios, canais de televisão e a imprensa internacional através da nossa embaixada e conclamasse os seus seguidores a se revoltarem.

Como sempre vimos nas transmissões ao vivo, as passeatas sempre eram de poucas centenas de pessoas. Contudo, a balbúrdia e a insegurança criadas por elas levaram o país para a beira de um colapso social e de uma luta fratricida.

Como ficou claro depois, Zelaya nunca quis negociar. Seu intuito era mesmo criar confusão e ser reconduzido “nos braços do povo” para o palácio presidencial (do qual foi retirado legalmente ao violar a Constituição de Honduras). Ao perceber que isso não aconteceria, pelo simples fato de que a maioria da população de seu país estava contra ele, a única alternativa era impedir as eleições. Com a ajuda do Brasil, Zelaya e Chávez tentaram de tudo. Mas, com o apoio dos EUA e de quase toda a comunidade das Américas para a realização das eleições e o reconhecimento de que isso encerrava a crise de uma vez por todas, Zelaya viu a sua posição esvaziar-se e até os membros de seu próprio partido participaram das eleições.

O resultado não pode ser mais expressivo do pensamento do povo hondurenho: Tanto o partido de Zelaya quanto o de Micheletti foram derrotados nas eleições. Isso demonstra claramente que o povo hondurenho está farto do populista de chapéu de vaqueiro e do incompetente que não soube explicar à comunidade internacional o acontecido.

As eleições colocaram um fim nessa longa pantomima mal interpretada e cheia de atores de terceira categoria. Mas, insatisfeito com seu papel ridículo, o Brasil se uniu às “forças do avanço” (Venezuela e Equador) e se recusará a reconhecer o vencedor das eleições hondurenhas como Presidente eleito legítimo.

O que querem o Itamaraty e o governo Lula? Um banho de sangue? A convulsão social em Honduras? Uma guerra civil?

Tudo isso para satisfazer Hugo Chávez e um obscuro caudilho centro-americano que só nos deu dores de cabeça. Além disso, ao invés de reduzir os danos, ao ser derrotado miseravelmente em seu apoio a Zelaya, o Brasil assumirá a posição equivocada de esperar que Papai Noel restitua o poder a ele.

O mais estranho é que Zelaya, ao ter sua proposta de negociação submetida à Suprema Corte Hondurenha, ainda foi condenado por traição. Portanto, se deixar a embaixada brasileira, ao invés do palácio presidencial, vai para a cadeia.

E o Brasil corre o risco de ficar com o “mico internacional” do ano ao apoiar a realização do Juízo Final e de uma guerra civil como única forma viável para reempossar um Presidente que desejava “apenas” eternizar-se no poder e violar a sua própria Constituição.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

José Roberto Arruda: Punição iminente no DEM

30/11/2009

Já foi comentado por mim, aqui neste Perspectiva Política, o escândalo que envolve o Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e outros nomes como José Geraldo Maciel e Durval Barbosa. Por conta da revelação de um esquema de pagamento de propinas a membros do Executivo, entre eles o Governador, e do Legislativo do estado, a situação de Arruda tornou-se, na minha opinião, insustentável.

Comentei também a respeito da intenção do DEM, demonstrada de pronto, de expulsar José Roberto Arruda do partido. A legenda, tão crítica ao mensalão petista, teme que uma demora nas providências possa solidificar a visão de que houve no DF algo parecido, mas dessa vez envolvendo o Democratas.

Está correto o Democratas em sua intenção de expulsar o Governador Arruda dos quadros da legenda. Se é verdade que o mensalão federal foi colado à imagem do PT por se tratar de um esquema gerido por membros da cúpula do partido, também é verdade que é compreensível e justo que o DEM queira estancar o sangramento o quanto antes, afinal, no caso do mensalão do Distrito Federal trata-se de algo provavelmente controlado pelo Governador Arruda e seus aliados próximos, que não diz respeito à cúpula nacional democrata.

Além disso, se quer assumir que, a partir da mudança de nome de Partido da Frente Liberal para Democratas, se reformulou e assumiu respeito total ao quesito ético, o DEM necessita comprovar isso através da expulsão de Arruda.

Sou plenamente favorável à punição a Arruda. E que não venha só do DEM, mas também da Justiça estadual e federal, da sociedade civil e, até mesmo, das autoridades policiais. Corrupção é inaceitável. É uma mácula, um câncer.

É claro que os fortes indícios de que o esquema foi herdado por Arruda do governo de Joaquim Roriz demonstram que este tipo de sistema está enraizado, infelizmente, na política nacional. A corrupção é endêmica, sistematizada, mas nem por isso deve surgir conivência ou leniência.

Que Arruda seja expulso de seu partido e não possa concorrer nas próximas eleições. Que o DEM se comporte de forma a respeitar os valores que afirma defender e que foram tão levantados como bandeira por ocasião do mensalão petista, expulsando Arruda.

Pode até ser que Arruda tenha, como alega, sido chantageado. Mas isso não o torna menos culpado. Apenas faz do chantageador, Durval Barbosa, alguém mais condenável do que ele.

A suspensão da filiação de Arruda, solução que afastaria o Governador do partido, mas que, ao mesmo tempo, concederia tempo para apurações, me pareceria sensata apenas se ainda existissem dúvidas sobre o envolvimento do comandante do Distrito Federal. Contudo, estas não resistem aos fatos.

É iminente uma punição a Arruda no DEM. Resta saber a intensidade da mesma.

Se o Democratas expulsar José Roberto Arruda sumariamente, não dando espaço para explicações pífias e tentativas de ganho de tempo de manobra, subirá em meu conceito.

2ª Coluna do dia: Crônica – A verdade sobre a verdade

29/11/2009

Deus, os homens e a honestidade intelectual

Por Tiago Franz*

- Ateu?

- Sim. Se considerado for que ateu é quem nega a existência de divindades tais quais os teísmos pregam. Por quê? O que é um ateu pra você?

- Se diz de quem não acredita em Deus. Mas significa ser contra Ele. Anti-Deus.

- Definitivamente não significa ser contra Deus. É possível ser contra algo que se nega? Já ouvi falar em antiteísmo, que dizem ser uma oposição direta a divindades. Mas pra ser anti-Deus é preciso acreditar que Ele existe, penso.

- Mas…

- Não podemos confundir! Acho que há um erro conceitual aí. Teísta é aquele que crê que Deus existe. Ateísta, ou seja, ‘a’ mais ‘teísta’, é quem não crê. É simples.

- Humm!

O ‘a’ indica a negação. Mas essa negação não significa necessariamente ser contrário, como um antagonista ou adversário. Assexuado, por exemplo, não é ser contra o sexo. E analfabeto não é quem faz oposição à alfabetização.

- Tá certo.

- Uma vez assisti a uma palestra de um filósofo, que definiu e diferenciou ateus, céticos, fideístas, gnósticos…

- Hum!? Fideístas!? Gnósticos!?

- Calma! Vamos por partes. Ele disse que a palavra ‘ateu’, do grego ‘a’ mais ‘théos’, significa a negação do conceito de Deus. É contra a mentalidade de que há um ou mais deuses que nos avaliam pelos ditames do “certo e errado”, como muitas religiões teístas doutrinam. É contra a imposição da “verdade divina”.

- Então pro ateu não existe uma só verdade?

- Não existe a afirmação de uma só verdade. Mas acho melhor não ampliarmos e complicarmos muito a definição de ateísmo. Vamos limitá-la à negação do conceito de Deus e ver as outras definições. O ceticismo, por exemplo, é ligado à noção de “septo”, de olhar à distância, examinar, observar, desconfiar até mesmo da capacidade que a razão tem de conhecer alguma coisa, disse o filósofo. Já o fideísmo busca ignorar ou minimizar o papel da razão para se chegar à verdade suprema. E o gnosticismo, ao contrário do fideísmo, busca alcançar a plena realização humana a partir do desenvolvimento pleno do conhecimento, a razão…

- Nossa! Vá devagar aí senão eu não acompanho. Isso tudo tem a ver com acreditar ou não em Deus?

- São algumas das formas de pensar que orientam as pessoas a crer ou não na existência de Deus ou de qualquer outra entidade divina. Mas eu ainda não falei da definição que eu acho mais interessante: o agnosticismo.

- Olha o ‘a’ aí de novo! Gnosticismo e agnosticismo!?

- Sim. O agnóstico é aquele que professa a ignorância sobre a existência de Deus. E esta é uma das definições em que eu me encaixo. Sou o que chamam de ateu agnóstico. Nego a existência de Deus por achar que nunca saberemos se Deus existe ou não.

- Mas como assim? Se o agnosticismo considera a existência de Deus improvável e o ateísmo simplesmente a nega, não se pode ser agnóstico e ateu ao mesmo tempo.

- Mas posso estar próximo de ambos e sentir-me um pouco em cada lado. Afinal, essa coisa do improvável tem a ver com movimento, reflexão e mudança de pensamento. Não nego de todo a possibilidade de existir uma força relacionada ao equilíbrio universal. O que eu nego é a existência de um Deus à imagem de um cabeludo e barbudo grisalho, sentado num trono nas nuvens e rodeado de querubins e serafins e tudo mais. Isso, a meu ver, é mitologia. Invenção humana.

- Mas você não era assim. Você já foi um cristão como eu. O que te fez mudar?

- É aquilo que eu disse sobre estar em movimento. Eu não nasci cristão. Nasci numa família e numa comunidade cristã. Minha cultura é cristã. Porém, há uma questão de honestidade intelectual nisso. Você acredita que Deus existe e que Jesus Cristo é seu filho, certo?

- Certo. Mas estou meio abalado com toda essa conversa. E como é isso de honestidade intelectual? Por acaso você acha que eu sou desonesto?

- Não é isso, não! Se você confessa que está com suas convicções um tanto abaladas, é sinal de honestidade intelectual. Mas acho melhor falar por mim. Ser honesto intelectualmente é aceitar a dúvida e conviver com ela. É assumir que somos incapazes de solucionar tais questões. É dessa forma que eu me oriento.

- Me parece que a solução que você encontrou é negar tudo e pronto. Você é ateu e agnóstico, isto é, um “não teísta” e “não gnóstico”. E outra coisa que não entendo: essa tendência de negação não tem uma pitada de ceticismo? E se você chegou a esse ponto através da reflexão e da tal honestidade intelectual, não tem muito de gnosticismo no teu pensamento?

- Tem sim. Como eu já disse, o ‘a’ não significa ser contrário. Os agnósticos não são necessariamente contra os gnósticos, ou seja, não são contra a razão e o conhecimento. O que sei é que os agnósticos acham que o conhecimento e a razão são incapazes de responder à questão da existência de Deus. Até pode ser que haja um pouco de ceticismo aí também. Enfim, as formas de pensamento se aproximam e se afastam em diferentes pontos. E para ser bem honesto, comigo, com você e com todo mundo, repito o que disse Sócrates antes ainda de Jesus ter nascido, se é que eles existiram mesmo:

“Só sei que nada sei.”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

José Roberto Arruda: Posição insustentável

29/11/2009

Aqueles que acompanham o noticiário político nacional e, até mesmo, aqueles que só o analisam superficialmente, tomaram conhecimento, obviamente, do escândalo envolvendo o Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

O caso tomou uma proporção grandiosa, já que envolve gravações que demonstram, inclusive, a participação direta do Governador em um esquema de distribuição de propinas a parlamentares. Quase tudo foi revelado por conta de delações premiadas envolvendo Arruda e seu chefe da Casa Civil, José Geraldo Maciel, feitas pelo recém-exonerado Secretário de Relações Institucionais do governo do DF, Durval Barbosa.

Ora, não há nada a dizer a não ser repudiar completamente as atitudes de José Roberto Arruda, que já havia se envolvido no passado com atividades escusas, quando foi um participante minoritário do escândalo da violação do sigilo do painel eletrônico do Senado, e ressaltar que a posição do Governador é, hoje, insustentável.

Não tenho dúvida alguma de que o Governador Arruda terá que deixar o cargo. As denúncias são contundentes, as provas são irrefutáveis, as atitudes e falas injustificáveis e o esquema como um todo inaceitável.

A cúpula do partido de José Roberto Arruda, o DEM, está preocupadíssima. A legenda esforçou-se nos últimos anos para reformular a sua imagem e mostrar-se como uma que levanta a bandeira da ética. A troca de nome do partido de PFL para Democratas foi, inclusive, motivada em grande parte por este esforço de recuperação  da imagem partidária, que vinha abalada.

Agora, a cúpula democrata vê com forte receio os escândalos envolvendo Arruda. Temem que o desgaste se irradie para o partido como um todo. Os jornais de hoje já comentam que o DEM cogita fortemente expulsar Arruda do partido, buscando assim diferenciar sua atitude daquela que o PT tomou por ocasião do mensalão. O que seria, na minha opinião, o correto a ser feito.

Em resumo, entendo que o DEM está certíssimo em querer expulsar Arruda. Além disso, creio que não há mais espaço de manobra para que o Governador permaneça no cargo. Após a apresentação de provas tão contundentes, Arruda tem tudo para ser expulso de seu partido e também do governo do Distrito Federal. Quem sabe o Governador renuncie de pronto, como ocorrer normalmente, para evitar a ampliação do desgaste.

O mais decepcionante é lembrar que Arruda, ao retomar sua carreira política, dizia que o caso do painel eletrônico do Senado havia ficado para trás. O Governador afirmava, sempre, que havia errado e que não faria algo do tipo novamente. Fez pior.

Cabe ao Distrito Federal e à Justiça retirarem José Roberto Arruda do governo estadual. Cabe ao DEM puní-lo, tanto pelo quesito ético louvável e correto, como pela preocupação do partido com sua própria sobrevivência, o que já não diz respeito ao grande público.

A oposição a Arruda no DF já estuda a proposição do impeachment. É totalmente devido.

A posição de Arruda é insustentável.

Coluna do dia: Dia da Consciência Negra – Quem dera ele fosse desnecessário

29/11/2009

Por Jessica Riegg*

O Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, foi comemorado em todo o País. A data faz referência à morte de um dos líderes mais famosos dos escravos: Zumbi dos Palmares.

Como sou jornalista, fui cobrir a data conversando com a assessora de educação do movimento negro de Divinópolis e ela me disse coisas que me espantaram.

Quando perguntei a ela se a data era importante para os negros, ela me respondeu que é muito triste pensarmos que precisamos de um dia para lembrar à população que o racismo é um crime. E a assessora estava certa! Essa data deve ser lembrada todos os dias, pois os negros são enorme parte da essência desse País, eles nos ajudaram a construir a nossa história.

Esse dia pode, possivelmente, aumentar a diferença entre negros e brancos, afinal, não existe o Dia da Consciência Branca. Esse feriado pode institucionalizar uma suposta diferença entre as pessoas, diferença essa que não existe.

Os negros são discriminados, e isso não é nenhuma novidade. Mas eu pergunto a vocês: Como um País que é, em sua maioria, negro ou misto, pode permitir esse tipo de situação? Isso é um absurdo!

Independentemente da cor, todos somos iguais e deveríamos ser tratados de forma igual. Mas aí é que surge a questão: Como retirar da população um preconceito que vem sendo embutido há séculos? Como obrigar o governo a aplicar penas mais efetivas aos autores dos crimes de racismo? Como ensinar tudo isso à população?

A resposta dada pela assessora foi simples e ao mesmo tempo eficaz: Devemos ensinar isso às crianças, tanto nas escolas quanto em casa.

O governo já orientou para que as escolas desenvolvam matérias que dizem respeito à cultura negra, e isso está acontecendo, mas em pequena escala. Torço para que as escolas realmente implementem essa matéria de suma importância aos alunos, ensinando valores éticos e morais que as crianças estão perdendo atualmente.

Valores que deveriam ser ensinados pelos pais, mas que vem sendo deixados de lado.

O Dia da Consciência Negra é feriado ou ponto facultativo em oito Estados e em setecentas e cinquenta e sete cidades do País, conforme levantamento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), ligada à Presidência da República.

Bom, enquanto tudo o que defendi acima não acontece, essa data talvez continue sendo apenas um feriado…

*Jessica Riegg escreve no Perspectiva Política todos os domingos