Por Tiago Franz*
Trinta moedas de prata e a maior história, ou estória, já contada para os filhos do Ocidente. Uma jogada que levou um cara para a cruz e outro para a corda.
O crucificado, protagonista da história/estória, foi traído por um dos seus doze escolhidos. Nas mãos dos governantes de sua terra, foi julgado e condenado à morte por se apresentar como o “rei dos judeus”, seu povo, que em parte ajudou a condená-lo. O traidor, pela quantia de trinta moedas de prata, entregou seu mestre àquela “corte de justiça”. O beijo no mestre, o arrependimento, a corda no pescoço e um nome manchado para a eternidade.
Judas é o nome. Judas Iscariotes, sinônimo de traidor.
Jesus, o mestre traído. Nada menos que o filho de Jeová, ninguém menos que Deus. Morto e ressuscitado.
Pronto, já fiz a minha “super, literária e bíblica introdução de impacto”. Agora vamos ao que interessa.
Na semana que passou, o nosso Presidente, que adora falar através de parábolas, proferiu mais uma de suas pérolas “espirituosas”. Em entrevista à Folha de São Paulo, Lula disse, referindo-se à maneira com que se constroem acordos políticos no Brasil, que “se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.
Realmente, no Brasil as tramoias políticas são arquitetadas e executadas de tal forma que permitem comparações como esta sem parecer exagero. O difícil é achar algum “Jesus” no meio da bagunça. Volta e meia alguém pinta de “messias”, mas nada que renda dois mil anos de conversa. Por outro lado, não faltam “Judas” no pedaço. E são muito mais que doze! Mas, infelizmente, no Brasil, eles não se enforcam (também não é para tanto – se fossem presos já bastaria), tampouco se arrependem.
Neste momento político, no País e nos estados, de intensa especulação por alianças e candidaturas para as eleições de 2010, os “Judas” estão mais ativos do que nunca. Você, que irá votar no próximo ano, saberia identificá-los? Está o bastante informado(a) para não se deixar enganar por eles?
E alguém pode estar se perguntando agora: mas, se não há nenhum “Jesus” aqui (a não ser que você acredite que o Jesus da história seja o Lula – ou outro de sua preferência), a quem esses “Judas” traem? A resposta é simples. Os traídos são aqueles que carregam a cruz: o povo brasileiro. E que cruz, hein?
Sem mais voltas: na política, os traidores são os corruptos e os traídos são o povo.
E há os “Judas” que se destacam, como o que veremos agora. É um dos bem grandes, que nesse momento articula alianças para as eleições estaduais do Mato Grosso. Confira a matéria abaixo, publicada ontem pelo MídiaNews, de Cuiabá:
“Riva aconselha Maggi a manter Jaime no arco de aliança”
Considerado o ‘fiel da balança’ nas eleições de 2010, o presidente da Assembleia Legislativa, José Riva (PP), alertou o governador Blairo Maggi (PR), sobre a importância de buscar entendimento com o senador Jaime Campos (DEM), visando manter o Democratas no arco de aliança governista.
‘O combustível da política é o diálogo, e o Democratas deve participar das definições, pois entendo que o caminho certo para a derrota é a imposição. O governador precisa chamar o Jaime para discutir, em função do que ele e o DEM representam para o Estado’, disse Riva ao MidiaNews (…). Leia a íntegra no link acima.
Bom, mas o que há de errado aí? Trata-se apenas de políticos matogrossenses negociando, como de costume, uma aliança para a eleição estadual de 2010. Se você não identificou o “Judas” da história (o grandão), vou ajudá-los. Afinal, muitas coisas acabam sendo “esquecidas” com o tempo, inclusive dentro dos próprios rincões em que acontecem. Vejamos outra matéria, publicada pelo JB Online, no último 19 de abril:
“Novo ‘Maluf’ do MT : No rastro de um rombo milionário”
BRASÍLIA – Corre em segredo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) um dos mais rumorosos casos de corrupção envolvendo autoridades estaduais em processos sobre desvio de dinheiro público. Os indiciados são o conselheiro do Tribunal de Contas do Mato Grosso, Humberto Melo Bosaipo, e o deputado José Geraldo Riva (PP), presidente da Assembléia Legislativa do Estado, alvos de 19 ações penais – todas elas transformadas em processos e distribuídas aos 15 ministros do STJ. Os dois respondem ainda a outras 80 ações por improbidade administrativa em tramite na Justiça cível matogrossense e ainda 20 inquéritos abertos pelo Ministério Público estadual, que busca o ressarcimento dos valores supostamente desviados. No total, Riva e Bosaipo respondem, por enquanto, a 119 procedimentos judiciais.
(…)
Presidente da Casa pela quarta vez, eleito este ano por todos os 24 deputados, Riva é o mais articulado dos dois. Ex-contador e ex-corretor de imóveis que chegou pobre a Juara – município ao Norte do estado, já na Amazônia matogrossense – no início da década de 80, hoje é um homem realizado. Milionário e carismático, é dono de um verdadeiro império financeiro e – segundo concordam amigos e adversários – principal liderança política regional, controlando entre 70% a 80% da força eleitoral representada pelos 141 municípios e entre os cerca de 1.400 vereadores. Riva é um midas da política e das finanças, uma espécie de Maluf do Mato Grosso: embora responda a 119 procedimentos judiciais – todos referentes a denúncias de corrupção, um a menos que seu correligionário paulista, nada pega contra ele. É como se fosse protegido pelo chamado efeito teflon. (…) Leia a íntegra, aqui.
Agora ficou fácil de identificar, não? Riva é um “Judas” de proporções “malúficas”, muito influente no seu “feudo” – como se pode notar na primeira matéria reproduzida – mas nem tão conhecido em nível nacional.
Não tenho a menor ideia de quanto possa valer hoje as trinta moedas de prata que Judas recebeu por entregar Jesus. Mas uma coisa é certa: em termos lucrativos, nossos “Judas” deixam o coitado do Iscariotes no chinelo. E o pior, como eu já disse, não se arrependem, ao contrário do traidor bíblico.
O “Judas” matogrossense, José Riva, está trocando figuras com o Governador Maggi e com o Senador e ex-governador Jayme Campos (com ‘y’, apesar de alguns grafarem com ‘i’, como na matéria acima). Como disse Lula, é assim que se faz política no Brasil.
Eu, no entanto, vejo outra possibilidade. Ao invés de carregarmos a cruz, façamos o julgamento correto. As palavras demagógicas dos falsos homens públicos são a coroa de espinhos de quem as aceita. Sejamos rápidos. 2010 está aí. É melhor não confiarmos em ressurreição.
*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo











Franz,
Parabéns pelo resgate histórico e pelo paralelo com o caso atual.
Um abraço
Grande Felipe!
Fico muito grato e horrado.
Outro abraço
Tiago,
Em 1994 o Riva elegeu-se pela primeira vez Deputado Estadual, através de uma frentinha, uma coligação que apoiava Dante X Jayme. Caso estivesse na coligação dos principais partidos ele não teria nenhuma chance, porém a frentinha elegeu três.
Dante foi vitorioso e elegeu 14 deputados, 11 da frente e os três da frentinha. O grupo do Jayme elegeu 10. No momento da eleição da mesa diretora, Riva apresentou uma chapa, figurando como Presidente, e elegeu-se com os 10 votos de Jayme e os três da frentinha. O primeiro secretário era Humberto Bosaipo, do Jayme.
Aquela traição deu origem à mesa diretora que por 14 anos (sete mandatos) fez o revezamento do presidente e secretário – que ordenam as despesas. Em 2008, Bosaipo, apesar de todos os processos civis e criminais, foi nomeado para o Tribunal de Contas do MT.
Interessante ainda são as eleições por unanimidade dos votos. Inclusive do PT. Até a senadora Serys, quando deputada, votou nele para presidente ou secretário.
Sobre os atos ilícitos, imorais e anti-éticos do Riva dá para escrever centenas de volumes…
Abraços do seu velho pai.
Luiz Franz
Tá aí um cara que conhece bem as coisas do meu Mato Grosso.
Obrigado, meu velho pai.
Um trecho do teu comentário:
“Aquela TRAIÇÃO deu origem à mesa diretora que por 14 anos (sete mandatos) fez o revezamento do presidente e secretário – que ordenam as despesas. Em 2008, Bosaipo, apesar de todos os processos civis e criminais, foi NOMEADO para o Tribunal de Contas do MT.”
Deixei em maiúsculas as palavras que explicam muita coisa ao meu ver.
TRAIÇÃO remete logo ao Judas, rsrs. E o recurso da NOMEAÇÃO, quando se trata de órgãos fiscalizadores, de Justiça, de imprensa – sim, de imprensa também, devido ao caráter público inerente – e afins, é, para mim, um dos maiores facilitadores da lambança política.
No mais, dá pre sentir bem a realidade no estado, que é exatamente a que você coloca. A política local está viciada nessas práticas horríveis. Tornou-se condição para a sobrevivência de qualquer político entrar no círculo.
Só vejo uma solução para o problema: insistir para que a opinião pública não afunde da mesma forma na roda do vício. É preciso não aceitar as coisas como elas são/estão.
Outro abraço.
Cada vez que olho para meu titulo de eleitor compreendo mais o que realmente quer dizer a Expressão Zona…
Cade vez que leio ou me faço consciente mais Mais tenho vontade de brincar como Nero…. mas não sem antes colocar todos dentro de um mesmo espaço, e cantar uma música qualquer que celebre uma bela fogueira de desopliação!
Ileniel,
Obrigado pelo comentário.
Não podemos desistir, há que se ter esperança que, com conscientização, isso mudará nas próximas gerações. Essa é a luta do Perspectiva.
Volte sempre!
Ileniel,
obrigado pela participação.
Faz bastante tempo desde o teu último comentário, mas vejo que você continua cético quanto a um futuro melhor.
Motivos não faltam e nem são pequenos. Em parte, compartilho do teu sentimento.
Mas, como sei que você é matogrossense – ou apenas reside no estado? – fico um pouco mais animado. Assim, sei que há pessoas inconformadas e que podem usar muito mais do que o título de eleitor para rigar contra essa triste realidade.
Em alguns meses estarei devolta ao Mato Grosso. Conte comigo para incendiar muita coisa (as que precisam mesmo).
Abraço
Tiago,
Obrigado pelo comentário.
Admiro sua atenção com os leitores. Ótimo você lembrar do nome deles e do tempo que faz que não comentam. Eu tento fazer o mesmo. Os leitores são o maior patrimônio do Perspectiva.
Volte sempre!
Obrigado, Bruno.
Tens toda razão.
abraço