Coluna do dia: Um dos “Judas”, logo ali, no Mato Grosso

Em 25/10/2009 Comente »

Por Tiago Franz*

Trinta moedas de prata e a maior história, ou estória, já contada para os filhos do Ocidente. Uma jogada que levou um cara para a cruz e outro para a corda.

O crucificado, protagonista da história/estória, foi traído por um dos seus doze escolhidos. Nas mãos dos governantes de sua terra, foi julgado e condenado à morte por se apresentar como o “rei dos judeus”, seu povo, que em parte ajudou a condená-lo. O traidor, pela quantia de trinta moedas de prata, entregou seu mestre àquela “corte de justiça”. O beijo no mestre, o arrependimento, a corda no pescoço e um nome manchado para a eternidade.

Judas é o nome. Judas Iscariotes, sinônimo de traidor.

Jesus, o mestre traído. Nada menos que o filho de Jeová, ninguém menos que Deus. Morto e ressuscitado.

Pronto, já fiz a minha “super, literária e bíblica introdução de impacto”. Agora vamos ao que interessa.

Na semana que passou, o nosso Presidente, que adora falar através de parábolas, proferiu mais uma de suas pérolas “espirituosas”. Em entrevista à Folha de São Paulo, Lula disse, referindo-se à maneira com que se constroem acordos políticos no Brasil, que “se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.

Realmente, no Brasil as tramoias políticas são arquitetadas e executadas de tal forma que permitem comparações como esta sem parecer exagero. O difícil é achar algum “Jesus” no meio da bagunça. Volta e meia alguém pinta de “messias”, mas nada que renda dois mil anos de conversa. Por outro lado, não faltam “Judas” no pedaço. E são muito mais que doze! Mas, infelizmente, no Brasil, eles não se enforcam (também não é para tanto – se fossem presos já bastaria), tampouco se arrependem.

Neste momento político, no País e nos estados, de intensa especulação por alianças e candidaturas para as eleições de 2010, os “Judas” estão mais ativos do que nunca. Você, que irá votar no próximo ano, saberia identificá-los? Está o bastante informado(a) para não se deixar enganar por eles?

E alguém pode estar se perguntando agora: mas, se não há nenhum “Jesus” aqui (a não ser que você acredite que o Jesus da história seja o Lula – ou outro de sua preferência), a quem esses “Judas” traem? A resposta é simples. Os traídos são aqueles que carregam a cruz: o povo brasileiro. E que cruz, hein?

Sem mais voltas: na política, os traidores são os corruptos e os traídos são o povo.

E há os “Judas” que se destacam, como o que veremos agora. É um dos bem grandes, que nesse momento articula alianças para as eleições estaduais do Mato Grosso. Confira a matéria abaixo, publicada ontem pelo MídiaNews, de Cuiabá:

“Riva aconselha Maggi a manter Jaime no arco de aliança”

Considerado o ‘fiel da balança’ nas eleições de 2010, o presidente da Assembleia Legislativa, José Riva (PP), alertou o governador Blairo Maggi (PR), sobre a importância de buscar entendimento com o senador Jaime Campos (DEM), visando manter o Democratas no arco de aliança governista.

‘O combustível da política é o diálogo, e o Democratas deve participar das definições, pois entendo que o caminho certo para a derrota é a imposição. O governador precisa chamar o Jaime para discutir, em função do que ele e o DEM representam para o Estado’, disse Riva ao MidiaNews (…). Leia a íntegra no link acima.

Bom, mas o que há de errado aí? Trata-se apenas de políticos matogrossenses negociando, como de costume, uma aliança para a eleição estadual de 2010. Se você não identificou o “Judas” da história (o grandão), vou ajudá-los. Afinal, muitas coisas acabam sendo “esquecidas” com o tempo, inclusive dentro dos próprios rincões em que acontecem. Vejamos outra matéria, publicada pelo JB Online, no último 19 de abril:

“Novo ‘Maluf’ do MT : No rastro de um rombo milionário”

BRASÍLIA – Corre em segredo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) um dos mais rumorosos casos de corrupção envolvendo autoridades estaduais em processos sobre desvio de dinheiro público. Os indiciados são o conselheiro do Tribunal de Contas do Mato Grosso, Humberto Melo Bosaipo, e o deputado José Geraldo Riva (PP), presidente da Assembléia Legislativa do Estado, alvos de 19 ações penais – todas elas transformadas em processos e distribuídas aos 15 ministros do STJ. Os dois respondem ainda a outras 80 ações por improbidade administrativa em tramite na Justiça cível matogrossense e ainda 20 inquéritos abertos pelo Ministério Público estadual, que busca o ressarcimento dos valores supostamente desviados. No total, Riva e Bosaipo respondem, por enquanto, a 119 procedimentos judiciais.

(…)

Presidente da Casa pela quarta vez, eleito este ano por todos os 24 deputados, Riva é o mais articulado dos dois. Ex-contador e ex-corretor de imóveis que chegou pobre a Juara – município ao Norte do estado, já na Amazônia matogrossense – no início da década de 80, hoje é um homem realizado. Milionário e carismático, é dono de um verdadeiro império financeiro e – segundo concordam amigos e adversários – principal liderança política regional, controlando entre 70% a 80% da força eleitoral representada pelos 141 municípios e entre os cerca de 1.400 vereadores. Riva é um midas da política e das finanças, uma espécie de Maluf do Mato Grosso: embora responda a 119 procedimentos judiciais – todos referentes a denúncias de corrupção, um a menos que seu correligionário paulista, nada pega contra ele. É como se fosse protegido pelo chamado efeito teflon. (…) Leia a íntegra, aqui.

Agora ficou fácil de identificar, não? Riva é um “Judas” de proporções “malúficas”, muito influente no seu “feudo” – como se pode notar na primeira matéria reproduzida – mas nem tão conhecido em nível nacional.

Não tenho a menor ideia de quanto possa valer hoje as trinta moedas de prata que Judas recebeu por entregar Jesus. Mas uma coisa é certa: em termos lucrativos, nossos “Judas” deixam o coitado do Iscariotes no chinelo. E o pior, como eu já disse, não se arrependem, ao contrário do traidor bíblico.

O “Judas” matogrossense, José Riva, está trocando figuras com o Governador Maggi e com o Senador e ex-governador Jayme Campos (com ‘y’, apesar de alguns grafarem com ‘i’, como na matéria acima). Como disse Lula, é assim que se faz política no Brasil.

Eu, no entanto, vejo outra possibilidade. Ao invés de carregarmos a cruz, façamos o julgamento correto. As palavras demagógicas dos falsos homens públicos são a coroa de espinhos de quem as aceita. Sejamos rápidos. 2010 está aí. É melhor não confiarmos em ressurreição.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

11 comentários

  1. Franz,

    Parabéns pelo resgate histórico e pelo paralelo com o caso atual.

    Um abraço

  2. tiagofranz says:

    Grande Felipe!

    Fico muito grato e horrado.

    Outro abraço

  3. Luiz Franz says:

    Tiago,
    Em 1994 o Riva elegeu-se pela primeira vez Deputado Estadual, através de uma frentinha, uma coligação que apoiava Dante X Jayme. Caso estivesse na coligação dos principais partidos ele não teria nenhuma chance, porém a frentinha elegeu três.
    Dante foi vitorioso e elegeu 14 deputados, 11 da frente e os três da frentinha. O grupo do Jayme elegeu 10. No momento da eleição da mesa diretora, Riva apresentou uma chapa, figurando como Presidente, e elegeu-se com os 10 votos de Jayme e os três da frentinha. O primeiro secretário era Humberto Bosaipo, do Jayme.
    Aquela traição deu origem à mesa diretora que por 14 anos (sete mandatos) fez o revezamento do presidente e secretário – que ordenam as despesas. Em 2008, Bosaipo, apesar de todos os processos civis e criminais, foi nomeado para o Tribunal de Contas do MT.
    Interessante ainda são as eleições por unanimidade dos votos. Inclusive do PT. Até a senadora Serys, quando deputada, votou nele para presidente ou secretário.
    Sobre os atos ilícitos, imorais e anti-éticos do Riva dá para escrever centenas de volumes…

    Abraços do seu velho pai.

    Luiz Franz

  4. tiagofranz says:

    Tá aí um cara que conhece bem as coisas do meu Mato Grosso.

    Obrigado, meu velho pai.

    Um trecho do teu comentário:

    “Aquela TRAIÇÃO deu origem à mesa diretora que por 14 anos (sete mandatos) fez o revezamento do presidente e secretário – que ordenam as despesas. Em 2008, Bosaipo, apesar de todos os processos civis e criminais, foi NOMEADO para o Tribunal de Contas do MT.”

    Deixei em maiúsculas as palavras que explicam muita coisa ao meu ver.

    TRAIÇÃO remete logo ao Judas, rsrs. E o recurso da NOMEAÇÃO, quando se trata de órgãos fiscalizadores, de Justiça, de imprensa – sim, de imprensa também, devido ao caráter público inerente – e afins, é, para mim, um dos maiores facilitadores da lambança política.

    No mais, dá pre sentir bem a realidade no estado, que é exatamente a que você coloca. A política local está viciada nessas práticas horríveis. Tornou-se condição para a sobrevivência de qualquer político entrar no círculo.
    Só vejo uma solução para o problema: insistir para que a opinião pública não afunde da mesma forma na roda do vício. É preciso não aceitar as coisas como elas são/estão.

    Outro abraço.

  5. Cada vez que olho para meu titulo de eleitor compreendo mais o que realmente quer dizer a Expressão Zona…
    Cade vez que leio ou me faço consciente mais Mais tenho vontade de brincar como Nero…. mas não sem antes colocar todos dentro de um mesmo espaço, e cantar uma música qualquer que celebre uma bela fogueira de desopliação!

    • Ileniel,

      Obrigado pelo comentário.

      Não podemos desistir, há que se ter esperança que, com conscientização, isso mudará nas próximas gerações. Essa é a luta do Perspectiva.

      Volte sempre!

  6. tiagofranz says:

    Ileniel,

    obrigado pela participação.

    Faz bastante tempo desde o teu último comentário, mas vejo que você continua cético quanto a um futuro melhor.
    Motivos não faltam e nem são pequenos. Em parte, compartilho do teu sentimento.

    Mas, como sei que você é matogrossense – ou apenas reside no estado? – fico um pouco mais animado. Assim, sei que há pessoas inconformadas e que podem usar muito mais do que o título de eleitor para rigar contra essa triste realidade.

    Em alguns meses estarei devolta ao Mato Grosso. Conte comigo para incendiar muita coisa (as que precisam mesmo).

    Abraço

    • Tiago,

      Obrigado pelo comentário.

      Admiro sua atenção com os leitores. Ótimo você lembrar do nome deles e do tempo que faz que não comentam. Eu tento fazer o mesmo. Os leitores são o maior patrimônio do Perspectiva.

      Volte sempre!

  7. tiagofranz says:

    Obrigado, Bruno.

    Tens toda razão.

    abraço

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