Coluna do dia: Brasil, Honduras e uma constatação óbvia

Em 28/09/2009 Comente »

Por Arthurius Maximus*

A recente crise política entre Brasil e Honduras, alguns posicionamentos do governo brasileiro e a repercussão destes entre a população serviram para demonstrar claramente como a ignorância e a falta de informação podem ser prejudiciais a um povo.

Descartando-se as condições que levaram os acontecimentos em Honduras a serem considerados como um golpe, podemos perceber que a população brasileira ainda se deixa influenciar claramente por questões ideológicas menores e sem importância, esquecendo-se que certas ações devem ser observadas sob uma ótima mais fria e mais distante, banhada unicamente pela legalidade e pelo normalismo civilizado.

Lula afirmou em entrevista, ainda na ONU, que Zelaya é o Presidente eleito de Honduras e que, por isso, deve cumprir o seu mandato até o fim e “ponto final”. No entanto, antes de ser um político eleito e mesmo de gozar de altíssimos índices de popularidade (o caso de Lula), Zelaya é, como qualquer um de nós, escravo da lei maior de seu país: a Constituição.

E é aí que se encerra toda a discussão sobre “golpe”, “contra golpe” ou “não golpe”. O que teria acontecido em Honduras? Analisando-se sob o ponto de vista da Constituição daquele país, Zelaya pretendia dar um golpe e modificar a mesma. Em seu artigo 239, a Constituição hondurenha ordena a deposição e a perda dos direitos políticos por dez anos do político que assim se comportar. Este ditame foi seguido pelo governo atual, com apoio da Corte Constitucional (o STF hondurenho).

Mas porque todos dizem que houve um golpe por lá? Por que as demais nações assim reconheceram as ações empreendidas? O golpe pode ser estabelecido graças a inúmeros erros cometidos pelos responsáveis pela deposição de Zelaya: A falta de um processo de impedimento formal (como aquele que fizemos com Collor), o sequestro de Zelaya e o seu envio compulsório para a Costa Rica ainda de pijamas e a idiota opção pela censura e pelo silêncio diante da comunidade internacional.

Mas e daí? O que isso tem a ver com ignorância e falta de informação? Muito simples. A forma como algumas pessoas vem tratando o caso, inclusive o Presidente Lula, mostra que pouco conhecem sobre a democracia e a organização política.

O fato de alguém ter sido eleito ou gozar de grande popularidade não pode ser encarado como a concessão de um cheque em branco, que permita a violação de qualquer lei, em nome da satisfação de vontades pessoais e da perpetuação no poder. Desde a Idade Média, concluiu-se que o poder absoluto corrompe e é perigoso. Daí o surgimento de um instrumento capaz de traçar parâmetros de comportamento e de limitar o poder das autoridades, garantindo que, em determinadas circunstâncias, fossem substituídas legalmente e sem violência: a Carta Magna (ou Constituição).

Em uma democracia, são as leis que regem o destino de uma nação e não os homens. Zelaya foi eleito, isso é certo. Mas também violou a Constituição de sua nação. Logo, é importante que se analise a situação fora da dicotomia “bem versus mal” ou “pobre versus rico” que governos populistas adoram implantar.

A intervenção brasileira em Honduras viola as leis internacionais ao permitir que Zelaya fique abrigado na embaixada brasileira sem uma definição de status clara e que use uma instituição que é, por natureza, neutra e imparcial, como patamar político para incentivar o conflito e a violência em uma nação que já o tinha considerado “carta fora do baralho”.

Em Honduras, sindicatos, igrejas (católica e evangélica), a ordem dos advogados de lá, o tribunal eleitoral e o constitucional, a maioria dos partidos políticos e toda a sociedade civil o afastaram de bom grado e o consideram um elemento pernicioso à nação.

A posição do Brasil é tão questionável que a própria ONU recusou-se a proferir as declarações fortes que o governo brasileiro desejava e limitou-se a afirmar, dentro do direito internacional, a inviolabilidade da embaixada brasileira. Qual a reação de Lula ao não encontrar eco nesse organismo internacional para suas sandices? Afirmar que a ONU está “falida”. Algo bem estranho para alguém que deseja tanto ter um assento no Conselho de Segurança.

Por parte de nosso povo, seguem as comparações errôneas entre o que acontece aqui e a realidade hondurenha. Mencionam a fácil mudança de normas constitucionais que experimentamos no Brasil como base para o “absurdo” de Zelaya ser impedido de fazer uma consulta popular em Honduras.

Ao nosso povo, falta o entendimento de que leis constitucionais não devem ser mudadas ao bel prazer de quem governa. Ao nosso povo, falta o costume de ser regido por pessoas que levam as leis de seu país a sério e que não coloquem suas próprias figuras acima da normalidade constitucional de suas nações. Ao nosso povo, causa estranheza viver sob um regime que tenha leis estáveis e leis que sempre “pegam”.

Para muitos de nós, constituições como a americana e a inglesa são aberrações estranhas em sua quase imutabilidade. No entanto, cabe entender que uma nação sem leis constitucionais duras e de difícil modificação se transformará em algo como uma monarquia absolutista ou um regime onde uma maioria momentânea pode fazer o que quiser com as leis do país (alguma semelhança?) e, nesse caso, o maior prejudicado será o próprio povo.

Um povo sem conhecimentos políticos, sem entendimento e instrução de como agem e se constroem sistemas de governo não tem a capacidade para formar uma opinião e para analisar de forma fria os acontecimentos que se desenrolam diante de seus olhos. O abandono político, a baixa instrução, a alienação e a incapacidade de compreender a ligação entre causa e efeito das ações políticas praticadas por quem quer que seja mostram a fragilidade política de nosso povo. E isso é a pior tragédia que nossa nação experimenta.

Nota do Editor: Conclui-se, portanto, que Zelaya merece apenas total solidariedade no que tange o modo como foi retirado do poder, mas não sua restituição no cargo pois, como bem explicitado no texto acima, perdeu seu cargo ao tentar perpetuar-se no poder, por conta dos ditames normativos da Constituição hondurenha.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

15 comentários

  1. Alessandra M. Batalha says:

    Adorei, consegui resumir o que esta acontecendo!

    Se puder ver um debate no Canal Aberto da tV Bandeirantes que foi ao ar no dia 27 desse mes.

    Fala exatamente o que você descreve!

  2. Abilon Naves says:

    Ficou bem explicito os intere$$e$ imediatos da imprensa brasileira neste episódio.
    1. O governo brasileiro (Lula) tem acordos com construção de hidrelétrica com o então governo Zelaya.
    2. O Itamaraty se submete a uma politica entreguista e manipuladora do celerado venzuelano Chavez, que tem inve$stido alto no Zelaya.
    3. Democracia? o Governo Lula traduz democracia com eleições. Ora, em Cuba o fidel está a 50 anos no poder através de eleições “democráticas”. Na antiga URSS, havia eleições…
    4. O Zelaya não foi deposto. Ele cometeu um crime constitucional e a mais alta coret daquele país deu o cartão”vermelho” ao protótipo de ditador.
    5. Saída da crise: ja foi delineada, com a garantia do atual e legítimo governo em manter os acordos e contratos comerciais internacionais, inclusive com o Brasil. Háaaaa bommmm!!!, aí tá certo.. até a globo, agora, vai começar a meter o pau no Zelaya. Quem viver verá.

    • Abilon,

      Obrigado pelo comentário.

      A saída mais correta seria a realização de eleições antecipadas democráticas onde aliados de Zelaya e defensores de suas plataformas pudessem concorrer. Quem fosse eleito teria legitimidade para governar. Simples.

      Volte sempre!

  3. Abilon Naves says:

    Permita-me.

    Mas, exite previsão legal para antecipar eleições hondurenhas em caso de violação constitucional pelo Presidente? Haveria lógica, moral e legal, em antecipar eleições em virtude de crimes constitucionais? A suprema Corte daquele país está errada?
    Acaso a ordem constitucional seria mudada em razão de meia duzia de zalaystas? a Costituição não é maior que questões circunstanciais e pontuais?
    vide o mais recente vídeo, dentre centenas, pró governo de Honduras em http://www.youtube.com/watch?v=UaCrJ5xzqN4&feature=player_embedded

    • Abilon,

      Obrigado pelo comentário.

      Antecipar eleições é possível. Não seria feito como concessão a Zelaya, e sim, pelos cidadãos, como modo de legitimar logo o próximo governo e acalmar o país, afastando o perigo de guerra civil.

      Volte sempre!

  4. Caro Arthurius, parabéns pelos esclarecimentos. Pena que a maioria não tenha consciência disso — talvez por ser manipulada pela Globo –, como fica claro pela própria pesquisa aqui do Perspectiva: a maioria é a favor do retorno de Zelaya à presidência.

  5. A maior prova de que o governo interino de Honduras estava jogando honestamente (até a intervenção do Brasil) foi o fato das eleições gerais estarem marcadas para novembro e o país estar “rodando” na maior normalidade constitucional.

    A intervenção do Brasil e o papel ridículo a que delegaram nossa embaixada lá; foram os elementos que precipitaram os acontecimentos que estamos vendo hoje.

    Coincidência ou não; fica clara a vontade de Chávez que isso ocorresse e o papel de moleque que a diplomacia brasileira fez propiciando esse cenário.

    Haverá a expulsão dos diplomatas brasileiros, o rompimento das relações por parte de Honduras e a consequente prisão, asilamento ou deportação de Zelaya.

    Chávez poderá, então, vir “numa nuvem heróica” e posar de libertador do povo hondurenho (que não vê do que ser libertado) e assumir a frente militar para reconduzir Zelaya.

    Os desdobramentos imprevisíveis que advirão desse gesto mancharão ainda mais a nossa imagem no cenário internacional, já tão maculada pelo apoio irrestrito que Lula vem dando a ditadores e radicais procurados pelos tribunais internacionais. Restará apenas, caso Chávez tenha sucesso, um títere bolivariano a mais no continente; uma Venezuela fortalecida por botar as mãos nas riquezas hondurenhas e um Brasil mais fraco e humilhado, mais uma vez, diante das republiquetas bolivarianas.

    O outrora gigante, cai de joelhos mais uma vez diante de Chávez como fez nos episódios da Bolívia, do Equador e do Paraguai.

    Isso é Lula!

    • Arthurius,

      Obrigado pelo comentário.

      Se Honduras romper relações com o Brasil, cancelando a imunidade da embaixada e utilizando-se disso para poder prender Zelaya, estará comprovado por A mais B que o nosso País meteu os pés pelas mãos ao dar o aval para o plano de Zelaya e, principalmente, ao permitir que Zelaya aja politicamente de dentro de nossa embaixada.

      Volte sempre!

  6. E sobre o fechamento da tv e da rádio pró-Zelaya? Que cena bizarra foi aquela dos militares retirando os aparelhos de dentro dos estabelecimentos? O que acham? Democrático?

  7. Alessandra M. Batalha says:

    A justica Hondurenha tambem acha que o fechamento foi um ato ilicito,
    por tanto desde ontem, 28 de setembro, o jornal foi reaberto.
    Caso fosse uma ditadura militar:
    1º – O presidente interino não é militar, ele foi eleito pelo congresso…
    2º – A justiça não teria autonomia pra revogar uma ação feita pelo presidente.

    Caso tenha duvidas consula La Prensa de Honduras.

  8. Felipe,

    Obrigado pelo comentário.

    Não concordo com a medida, mas isso não faz do que houve em Honduras um golpe.

    Volte sempre!

    -

    Alessandra,

    Obrigado pelo comentário.

    Concordo.

    Volte sempre!

  9. andre says:

    O presidente de honduras foi tirado da cama a ponta dos fuzis e expulso do pais! Isso nao é golpe?? Quem se lembra do presidente collor e a forma que ele foi afastado do poder, a luz do dia atraves do congresso nacional, nao precisou um policial pra tirar o collor de la, como vai se realizar uma eleicao em pais sem liberdades, o poder vai ser entregue a quem esse governo que ta ai quizer.

    • André,

      Obrigado pelo comentário.

      Houve um absurdo, algo condenável, algo abominável à luz do estado de direito, mas ele não era mais o Presidente, havia perdido o mandato. Então não houve golpe, já que foi empossado o sucessor constitucional.
      Sobre as eleições, se forem fiscalizadas por órgãos internacionais poderão trazer um Presidente legítimo para resolver o impasse.

      Volte sempre!

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