Coluna do dia: Duplicidade e demagogia na política atual

Em 08/09/2009 Comente »

Por Raphael Machado Silva*

Em uma democracia supõe-se que os políticos eleitos pelos cidadãos tenham a função de representar os interesses de seu eleitorado, lutando entre a miríade de interesses diversos para garantir que os de seu eleitorado recebam a merecida atenção. Porém, pode-se dizer que são poucos os políticos que têm esse entendimento. E isso se aplica tanto aos países de 1º Mundo como aos de 3º Mundo.

Geralmente, um político entende que seu mandato lhe dá uma carta-branca para fazer o que achar melhor (salvo o proibido por lei) e que não resta qualquer vínculo entre ele e os eleitores que lhe auxiliaram a chegar ao poder. Assim, os interesses de seu eleitorado servem apenas como mercadoria. Antes da chegada ao poder prometem-se certas coisas em troca de votos. Após alcançado o cargo almejado procrastina-se até chegar o momento em que realizar uma das promessas dará os maiores frutos publicitários possíveis. Mas não se pode realizar tudo. Devem sobrar promessas para as eleições seguintes. Todas essas promessas não cumpridas são ditas como não atingidas por culpa da oposição e alega-se que para que sejam conquistadas futuramente o eleitorado deve reeleger seu político.

Os Parlamentos ocidentais modernos em pouco se diferenciam de praças de mercado. Não há interesse, bem ou direito que não seja negociável. Tudo tem o seu preço.

Poucos países demonstram isso tão bem hoje quanto a Grã-Bretanha. Apesar de a grande maioria da população ser contra a imigração e não crer nos mitos dos benefícios econômicos da mesma, poucos países possuem uma política tão aberta e favorável à vinda de imigrantes. Poucos países têm feito tanto para aumentar as regalias de imigrantes às custas dos nativos quanto a Grã-Bretanha. Quem diria que hoje a Sharia, legislação religiosa islâmica, estaria em operação na Bretanha da Rainha Vitória, com reconhecimento oficial das autoridades do governo, já existindo até mesmo reportagens a respeito dos temores a respeito disso?

Como é possível combater o terrorismo no exterior e, ao mesmo tempo, possuir uma política migratória tão aberta que é incapaz de saber exatamente quem entra e sai de seu país e que permite que populações tradicionalmente hostis aos valores ocidentais apliquem leis incompatíveis com os mesmos em seu próprio território?

A Líbia é governada há décadas por um ditador extremamente presunçoso e hostil, que financia abertamente terroristas de todas as ideologias e causas ao redor do mundo. Tem sido colocada em discussão, inclusive, a exigência, por parte das vítimas dos ataques do IRA, de indenizações a serem pagas pela Líbia, que, sabe-se, forneceu toneladas de armamentos e explosivos ao grupo terrorista durante os anos 80.

Toda a razão nos levaria a crer que o governo britânico exerceria pressão incomensurável no sentido de extrair dos líbios não só uma grande compensação, mas também um pedido formal de desculpas, assim como, se possível, a prisão dos responsáveis pelo fornecimento de armamento pesado a terroristas. Mas não é o que se passa. Apesar de frouxas afirmativas por parte do governo de que apoiaria as exigências das vítimas do IRA, muito pouco têm sido feito para garantir reparações.

O que se coloca no caminho?

Interesses comerciais. Especificamente, interesses relacionados à indústria do petróleo. É assim que países de 3º Mundo se tornam capazes de usar e abusar da paciência dos países mais desenvolvidos. Através do controle de recursos naturais importantes. Ter ou não o apoio das grandes potências depende muito pouco de afiliação ideológica, mas  sim da predisposição para negociar, para traduzir todos as suas pretensões em interesses comerciais em favor das potências.

É uma pena que, cada vez mais, as populações ao redor do mundo pareçam mais e mais tolerantes com relação aos seus políticos. Um tipo de comportamento muito favorável para o surgimento de “ditadores democráticos”, como foi Júlio César.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

5 comentários

  1. A democracia liberal (que se estabelece por ser apenas uma eleição de 4 em 4 anos) favorece a apatia e a ingnorância.

    Como já disse, a democracia tem que ser trabalhada e discutida diariamente, para não ser confundida com o que temos hoje no Brasil, a pseudo-democracia.

    Parabéns pelo texto!

    • Felipe,

      Obrigado pelo comentário.

      Concordo, mas não acho que a democracia é o problema. E nem o fato de ser uma democracia liberal. Creio que falta conscientização. É na educação o problema. Se nós nos interessamos pela política, porque outros não o fazem? Se o sistema fosse o culpado, nós também seríamos apáticos. Com certeza o sistema atual não estimula, mas também não inibe. A classe política brasileira, por exemplo, presta desserviço muito maior ao interesse dos jovens pela política do que a democracia liberal.

      Volte sempre!

  2. Ignorância* (corrigindo)

  3. Esse é o grande problema, acharmos que democracia só tem a ver com política dos políticos. Melhorar a educação também é exercer a democracia, melhorar a saúde também é uma extensão democrática.

    A democratização social faz parte da democracia que achamos que temos. A classe política brasileira está dentro da democracia liberal.

    • Felipe,

      Obrigado pelo comentário.

      Se houvesse educação e saúde como você pede, a democracia liberal que você critica funcionaria melhor.

      Volte sempre!

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