Coluna do dia: EUA – Não importa o quanto as coisas mudem, elas sempre permanecem as mesmas
Por Raphael Machado Silva*
Particularmente, eu não estava muito disposto a dedicar tanta atenção assim aos recentes acontecimentos no Irã porque, sinceramente, não dou muita importância às querelas internas dessa região do globo e, principalmente, porque acho que quem tenta associar os interesses dos países ocidentais com Israel, ou com qualquer questão do Oriente Médio, não só demonstra estar inseguro do que é realmente o Ocidente, mas também está posicionando esses interesses (que são nossos) em dependência de disputas e problemas milenares que envolvem questões complexas como religiosidade, identidade etno-cultural e várias outras questões em terrenos propícios a gerar conflitos intermináveis e às vezes irracionais.
Porém, por conta da atenção dedicada à suposta “revolução” que na cabeça de algumas pessoas, principalmente aquelas que tem sua opinião formada por certas corporações midiáticas poderosas nos EUA, Inglaterra e em outros países como o Brasil, está em processo no Irã, além da praticamente total ausência de um tema mais instigante e também de certos detalhes novos, dos quais eu não tinha conhecimento, que não são veiculados pelos meios usuais terem chegado até mim, sou obrigado a abordar novamente a questão do resultado das eleições iranianas, que deram a vitória a Ahmadinejad sobre Mousavi, e os desenvolvimentos subseqüentes, com protestos, acusações de fraude, conflitos de rua, intervenção do Aiatolá e outros mais.
Contrariando a desinformação apregoada aos quatro ventos por outros jornais americanos (e brasileiros), informa o Washington Post que uma pesquisa de opinião realizada pela ONG Terror Free Tomorrow: The Center for Public Opinion, uma das únicas pesquisas de opinião que não foram realizadas por instituições ligadas ao governo (e que por isso não são confiáveis mesmo), 3 semanas antes das eleições não só confirma o resultado das mesmas, mas apresentou uma margem de vitória ainda maior do que a alcançada por Ahmadinejad nas urnas.
Não só isso, mas informações de que a “revolução” teve seu início e fomento graças à internet são ridículas já que um pouco menos de 1/3 dos iranianos possui acesso à rede. Ademais, a mesma pesquisa de opinião demonstrou que o bloco etário que demonstra o maior e mais fervoroso apoio à Ahmadinejad é o de jovens entre 18 e 24 anos, ao contrário do dito insistentemente por certos jornais e canais de TV.
A BBC, por exemplo, que adora demonstrar não ser confiável, foi novamente pega falsificando fatos ao usar fotos de passeatas pró-Ahmadinejad, intencionalmente, em matérias pró-Mousavi, afirmando que a mesma era uma foto de manifestações contra Ahmadinejad. Essa é a mesma emissora que falsificou fatos na época da Guerra do Iraque para tentar passar a ideia grotescamente mentirosa de que a população iraquiana participou e apoiou ativamente a derrubada de Saddam Hussein e fazer propaganda tentando legitimar uma ação absurda, o extermínio de civis e o caos por que passa o Iraque desde que EUA e seus amigos decidiram intervir, sob a desculpa esfarrapada e mentirosa da posse de armas nucleares por Hussein (E não é que eles inventam sempre a mesma história como desculpa?)
O que nos leva a outras questões ainda mais contundentes e ousadas.
Segundo o General Paquistanês Mirza Aslam Beig, os EUA, através da CIA, distribuíram 400 milhões de dólares a certos elementos iranianos, de modo a possibilitar um golpe de Estado que coloque no poder alguém mais dócil e provável de se dobrar diante dos interesses imperialistas de banqueiros, de CEOs de certas corporações e aos interesses sionistas que, há décadas, comandam a política externa dos EUA para o Oriente Médio. Atividade comum dos EUA que recentemente financiaram um golpe na Geórgia, um na Ucrânia, e que tentam financiar golpes em praticamente todos os países fronteiriços à Rússia que possuam boas relações com a mesma de modo a efetuar uma política de cerco, que remonta bastante ao período da Guerra Fria.
O que nos leva a perceber que, em razão do péssimo status da política externa americana e do risco de “overstretching” de suas forças armadas, Obama e seus Comissários chegaram à conclusão de que, ao invés de ser derrotado por uma invasão, o governo soberano do Irã deve ser derrubado através de um golpe de Estado financiado pela CIA.
Com mais argúcia, podemos ir mais profundamente:
Se, graças à internet, eu sei disso, e um general paquistanês sabe disso, é óbvio que as autoridades iranianas sabem disso. O que se pode esperar em termos de atitude, por parte do Irã? Um recrudescimento ainda maior de suas relações com os EUA, maior ênfase na necessidade de armas nucleares (que também são defendidas por Mousavi) e maior antagonismo a Israel. O que quer os EUA? Que o Irã dê o “casus belli” para que no caso de o golpe de Estado da CIA falhar, possa-se invadir militarmente o Irã, sem que isso incorra em grandes danos à imagem dos EUA. Tudo isso, ao mesmo tempo em que o Camarada Obama faz discursos conciliadores a açucarados em relação aos países islâmicos.
No mundo contemporâneo, a posição de vítima dá legitimidade moral a qualquer barbárie ou insanidade. Os israelenses podem massacrar palestinos por causa do Holocausto. Cotas são necessárias por causa da escravidão. Então, se você deseja derrotar um inimigo sem incorrer no risco de sofrer com a opinião pública, o que você faz? Você o ataca passivamente, de modo a fazer com que ele reaja de modo visível e violento. Assim, você é a vítima e está legitimado, pela ideologia do “coitadismo”, que rege o Ocidente atualmente, para esmagar seu inimigo impiedosamente.
Ué?! Mas… “Mudança” não era o lema do Obama?
* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.















Assim, acaba que é tudo culpa "duzamericânu"… E também – é claro! – dos capitalistas, esses canalhas que pretendem enriquecer. Salvo engano, é o mesmo que afirmam todos os que defendem a tal "revolução islâmica" do Irã, e insistem para que os EUA – e o ocidente – fiquem de fora.
Só uma pergunta.
Não foi o Conselho dos Guardiães que confirmou ter havido fraude mesmo! Isso cerca de 3 milhões de votos ou mais?
O Irã é um país bastante rígido, certamente não sabemos o que está ocorrendo ali com toda precisão. Mas dizer que o atual presidente poderia ganhar, isso é meio que achismo, de ONG e etc.
Acredito que mesmo parte da população acreditando nos dogmas teocráticos, certamente boa parte dos iranianos querem mais liberdade.
Essa revolta pode ganhar dimensões iguais as que ocorreu há 30 anos e derrubou o Xá Reza Pahlevi. Principalmente porque se fala que os comerciantes (mercadores) já começam a participar apoiando os opositores. E dizem que algumas cidades as forças militares já começam a mudar de lado.
O bom no Irã é que isso nos serve de exemplo não pelos conflitos nas ruas, mas lá pelos menos parte da população não fica calada, acreditando em tudo que o governo fala, pelo menos lá as coisas não são como no Brasil, um eterno conformismo e sem vontade de questionamento.
Acreditar que não houve fraude fica parecendo aqueles que defendem Cuba e acreditam que ali é uma Disney. So uma visita para cair na real.
Yashá,
achar que os EUA não possuem interesses na região e que eles não fazem e sempre fizeram o que acharam necessário para garantir esses interesses financeiros é o cúmulo da ingenuidade, no mínimo. Ou do fanatismo ideológico.
Raphael,
Obrigado pelo comentário.
Concordo que existem interesses, concordo que pouca coisa mudará nesse âmbito mesmo com Obama e concordo, também, que muita coisa feita pela CIA é empreendida de maneira espúria e oculta, visando a manutenção da hegemonia americana. Nisso você está corretíssimo. Porém, por outro lado, não podemos achar também que os EUA nada tem a ver com os conflitos no Oriente Médio, que devemos defender que se deixe as minorias oprimidas naquela região à própria sorte e que todas as insinuações a respeito do regime iraniano são pretextos. Em resumo, acho que deve ser consensual que não existem mocinhos nesse cenário e que a atuação americana tem prós e contras bem definidos e bem extremos.
Volte sempre!
Plínio,
O Conselho de Guardiães em momento algum afirmou que houve fraude. Mas sim que houve algumas irregularidades nas eleições. Do mesmo jeito que houve irregularidades em quase todas as eleições americanas, das quais podemos lembrar as que elegeram Bush e mesmo a que elegeu o Comissário Obama (Panteras Negras cercando as urnas para impedir que Brancos votassem). Do mesmo jeito que houve irregularidades nas recentes eleiçoes para o Parlamento Europeu na Grã-Bretanha(Desaparecimento de urnas em distritos onde o BNP era favorito).
No que concerne as vontades do povo iraniano, a maioria apoia o regime dos aiatolás. O que eles querem é algumas mudanças. A questão é que "querer mudanças" é tomado como significando ser a favor de Mousavi. Quando na verdade a maioria das pesquisas sérias demonstra que a maioria dos iranianos querem Ahmadinejad exatamenet porque o consideram como um bom negociador, ou seja, alguém que lutaria pelos interesses iranianos no plano internacional. Ao contrário de Mousavi, que representa o "comprometimento"(ou prostituição) do país diante de interesses absolutamente anti-nacionais.
As dimensões desses protestos e passeatas estão sendo imensamente exageradas pelas corporações midiáticas. A vitória de Ahmadinejad era completamente esperada e previsível.
Mousavi é um aproveitador sem-vergonha e um mal-perdedor, que está levando dinheiro americano para dar um golpe de Estado no Irã. Só isso. Não é nenhum defensor de "direitos", da "democracia" ou da "liberdade". É só mais um político aproveitador.
Raphael,
Compreendo seu ponto de vista. Realmente se tem o hábito de minimizar irregularidades em países como os europeus ou os Estados Unidos e de maximizar as irregularidades que ocorrem em países como o Irã, normalmente com um discurso de desqualificação do líder que não é simpático ao "acolhimento" dos ideais ocidentais. Isso é fato. Por outro lado, também é fato que os mecanismos de controle nesses países é mais frágil, o que dá margem ao entendimento de que as eleições que se realizam nestes locais, quando maculadas, o são em maior intensidade do que as dos países ditos "desenvolvidos". Sendo assim, acho que você tem razão ao usar as falhas em sistemas eleitorais ocidentais como argumento, porém, isso não faz com que uma suposta fraude no Irã seja descartada. E digo mais: Até acredito que Ahmadinejad tenha se beneficiado com um número de votos que, se fosse retirado, não faria diferença numericamente para a vitória. Acontece que a fraude, por menor que seja, contamina moralmente a vitória. Uma compra de voto deve inviabilizar, com certeza, uma vitória inteira. Não por se tratar de algo que deslegitima em termos de maioria, mas por ser algo que comprova a falta da idoneidade necessária para o cargo. Se existem fatos do tipo no Ocidente, que se punam todos, e não, que se perdoem os fraudadores de outras regiões do globo. Não podemos aplicar a lógica dos que defendem Delúbio, por exemplo.
Volte sempre!
Essa de dizer que a maioria gosta do Ahmadinejad é o mesmo que dizer os cubanos adoram Fidel, eles fazem aquelas coreografias nas ruas de Cuba em favor de Fidel, porque não podem ter liberdade de expressão. O mesmo se aplica a Ahmadinejad, a população tem que fingir que gosta, se não as forças policiais de lá usam a força.
Garanto que se abrir a porta geral sai dali correndo.
Nenhum dos lados é santo. Mas apoiar um louco como Ahmadinejad é coadunar com ele, espero que essa erva daninha não infiltre seus homens aqui, com apoio do nosso Itamaraty que virou um sindicato e comicio em cima de caminhão.
Daqui umas horas você vai dizer que a maioria de fato gosta do Lula, essas pesquisas tem serias distorçoes. Uma mentira contada mil vezes vira verdade.
"Essa de dizer que a maioria gosta do Ahmadinejad é o mesmo que dizer os cubanos adoram Fidel, eles fazem aquelas coreografias nas ruas de Cuba em favor de Fidel, porque não podem ter liberdade de expressão. O mesmo se aplica a Ahmadinejad, a população tem que fingir que gosta, se não as forças policiais de lá usam a força.
Garanto que se abrir a porta geral sai dali correndo. "
Essa é uma falsa analogia e uma falácia. Mesmo porque as semelhanças entre Cuba e Irã são absolutamente mínimas. O que há é uma construção artificial, por parte da mídia, no Brasil, principalmente por parte de uma certa revistinha de qualidade medíocre, de algum tipo de "Eixo do Mal".
Você parece supor que todo mundo gosta de Coca&Cola e AIDS. Deve ser um desses que acha que os "povos bárbaros" devem ser abençoados com os "presentes" do Ocidente. À força se necessário. Detelhe: A maioria das mulheres iranianas apóia suas tradições, inclusive o uso dos véus. Isso é um fato. Me desculpe se você foi iludido por informações contrárias vindos de meios de comunicação duvidosos, ou saídos da boca de dissidentes (vulgo traidores) . Assim como a maioria da população em geral. Me refiro à uma maioria esmagadora. Não caia na ilusão de que "vivemos em um paraíso abençoado" ou que "eles invejam nossa liberdade". Eles não invejam. Eles só querem algumas mudanças, dentro e mantendo a mesma estrutura de governo.
Não confunda um resultado que você acha desagradável, com um resultado falso. As pesquisas que eu citei foram realizadas por partes neutras, sem qualquer relação com o governo iraniano. E o resultado dessas pesquisas era bastante natural mesmo. Só para ocidentais manipulados é que não foi. E não seja um sofista. Que tem Lula que ver com Ahmadinejad?? Tentar derrubar uma tese, associando-a a um terceiro não-relacionado, dotado de má fama é uma falácia de principiante. Não demonstra nada e desse tipo de "argumento" não se pode derivar quaisquer implicações.