Sarney não é uma “pessoa comum”: Uma das maiores gafes de Lula

20/06/2009 em 01. Análise Política,08. Lula,Senado Federal | (11) Comentários

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Este blogueiro comentou, aqui, a declaração infeliz de Lula a respeito das denúncias que giram em torno da pessoa do Senador José Sarney, Presidente do Senado.

Perguntado, durante uma viagem ao Cazaquistão, a respeito de sua opinião sobre a crise no Senado, Lula disse que não podemos cair no denuncismo, que no fim as denúncias não dão em nada, e que não se pode tratar Sarney, devido ao fato dele ter uma longa história política, como uma “pessoa comum”.

O comentário deste blogueiro, citado acima, foi obviamente crítico. Como pode Lula achar que críticas mais do que devidas constituem denuncismo? Como pode Lula aprovar expressamente o tratamento privilegiado para Sarney? Como pode Lula pregar tacitamente o conformismo com as pizzas?

Pois bem. Na mesma linha do blogueiro, Ruth de Aquino, diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro, escreveu texto falando sobre o tema e também sobre as diversas gafes cometidas por Lula durante sua gestão.

Ruth resume bem o porquê de ser devida a inconformidade minha, e de mais alguns, com a declaração do Presidente. Além disso, faz uma coisa que prezo muito e que aplico aqui no blog: Respeita os acertos e os méritos, criticando apenas o que é devido.

Sendo assim, reproduzo:

“Foi a maior gafe de Lula desde que caiu nos braços do povo, em 1º de janeiro de 2003. Mesmo quem não votou nele se emocionou quando um homem comum chegou à Presidência pelo voto democrático e limpo. Na semana passada, Lula disse que o senador José Sarney ‘não pode ser tratado como se fosse uma pessoa comum’. Lula foi sincero. Amaciado pelo poder, envaidecido pelas lisonjas e pela popularidade, ele acredita que uns são mais iguais que outros. E leva o pragmatismo político às últimas consequências.

Lula nasceu em Pernambuco de uma família de oito filhos. Morou com a mãe, Eurídice, e irmãos num cômodo atrás de um bar em São Paulo. Trabalhou como engraxate e office-boy. Fez curso técnico de torneiro mecânico, perdeu um dedo numa prensa hidráulica. Em São Bernardo, tornou-se diretor do sindicato dos metalúrgicos. Testava seu carisma. Tentou cinco vezes a eleição para presidente. Uma história impressionante de persistência e sucesso.

Sempre disse o que pensava. Em 1986, chamou Sarney de ‘grileiro do Maranhão’. Em 1987, chamou Sarney de ‘ladrão’ – perto dele, Maluf não passaria de ‘um trombadinha’. Em 1993, disse que, ‘de todos os deputados no Congresso, pelo menos 300 são picaretas’. Agora, Lula depende da bancada do PMDB, a maior do Senado. Em terras remotas, no Cazaquistão, defendeu Sarney e o colocou num pedestal.

O que seria hoje, em 2009, um homem comum para Lula? De que princípios, de que vísceras ele seria constituído? Um dos fundamentos da democracia é que os governantes sejam vistos e cobrados como homens comuns. Qual seria o tratamento ideal para os poderosos no Brasil de Lula? Espera-se de um presidente do Senado a mesma dignidade e retidão de caráter de um chefe de família comum? Como é punido o homem comum que cai no desvio? Como deve ser punido o político ‘com história suficiente para não ser tratado como uma pessoa comum’? Que valores o líder transmite para o povo, com um discurso que trai sua própria história?

Lula é hoje parte da elite que sempre criticou com ferocidade. Natural. A elite não é má por definição, já descobriu o presidente. Mas, por isso, ele se solidariza com figuras como Renan Calheiros, Severino Cavalcanti, Jader Barbalho? De vez em quando, Lula incorpora o sindicalista (lá fora) e critica os ricos e poderosos, em surtos de demagogia atabalhoada. Diante do premiê britânico, Gordon Brown, disse que ‘a crise foi causada por gente branca com olhos azuis’. Pegou mal. Amaciado pelo poder, ele acredita que uns são mais iguais que os outros. E, pragmático, defende Sarney.

Foram mudanças profundas em seis anos. É saudável mudar com o aprendizado. Ao assumir a Presidência, Lula deixou a economia do país a cargo de quem entendia do assunto. Seu pragmatismo econômico manteve o Brasil nos trilhos.

Mas, e os valores essenciais? Direitos humanos, por exemplo. Como explicar sua insistência em dizer que há democracia de sobra na Venezuela censora de Chávez? Como aceitar a omissão do Brasil em relação a uma ditadura como a da Coreia do Norte? Toma lá dá cá?

O outro deslize da semana foi a reação primária e açodada de Lula aos protestos nas eleições no Irã. Além de defender o embaraçoso presidente Mahmoud Ahmadinejad, Lula minimizou a revolta contra a teocracia dos aiatolás chamando os manifestantes de ‘vascaínos contra flamenguistas’, uma turma que não sabe perder.

Lula aproveitou para atacar a imprensa brasileira, por, a cada dia, ‘arrumar uma vírgula a mais’ no ‘denuncismo’ contra o Congresso. Como se fosse um vírus denunciar malversação de verba pública, nepotismo, favorecimento ilícito, farra de passagens aéreas e atos secretos no Congresso. ‘Não tem fim, e depois não acontece nada’, disse Lula, como se o problema fossem as denúncias, e não a impunidade. ‘Vai desmoralizando todo mundo, e a imprensa corre o risco de ser desacreditada.’

Senhor presidente, a imprensa só fica desacreditada se as denúncias forem mentirosas. Ou se ela se omitir e fizer o jogo do poder. Uma imprensa medrosa e submissa ao governo – não importa o partido dominante – é uma imprensa sem credibilidade. Não faz jus a uma democracia madura como a brasileira. Ou a transparência só vale para o homem comum?”


11 Comentários em “Sarney não é uma “pessoa comum”: Uma das maiores gafes de Lula”

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  1. Comment by Nabil — 20/06/2009 at 21:46   Reply

    Excelente artigo esse de Ruth de Aquino. Assino embaixo. E de fato, essa de dizer que Sarney "não é uma pessoa comum" é uma gafe e tanto do Lula. Claro que Sarney não é pessoa comum, mas isso não quer dizer que ele deva ter um tratamento especial diferente das "pessoas comuns" ou será que o Lula, logo ele, nordestino, vai agora validar o regime dos "coroneis" acima dos demais???

    • Comment by perspectiva21/06/2009 at 13:10   Reply

      Nabil,

      Obrigado pelo comentário.

      O texto realmente é muito bom. É totalmente correta a visão de que, empiricamente, verificamos que Sarney não é uma pessoa comum, mas isso quer dizer que ele não é um qualquer, e não, que ele merece privilégios.

      Volte sempre, será bem vindo e respondido!

    • Comment by mpassosbr21/06/2009 at 16:54   Reply

      Lula pode não ser originalmente um coronel, mas não há dúvidas de que politicamente age como um

      • Comment by perspectiva22/06/2009 at 02:20   Reply

        Matheus,

        Obrigado pelo comentário.

        No início teve que se enquadrar para governar. Agora, parece governar o enquadramento.

        Volte sempre!

  2. Comment by Carlos Caldas20/06/2009 at 22:40   Reply

    Bruno, o que está sendo tratado como gafe na verdade me parece ato falho.
    O Lula sempre justificou as faltas dos companheiros(e que resvalavam nele próprio) como sendo pequenos deslizes que eram pequenos se comparados ao passado político deles, alguns fundadores do partido dos Trabalhadores.
    Gafe é eufemismo para o fato: Lula aceita a corrupção desde que lhe interesse, ou seja, faz o papel do corruptor.

    • Comment by perspectiva21/06/2009 at 13:11   Reply

      Carlos,

      Obrigado por mais esse comentário.

      Concordo. Não é bem gafe pois não foi uma bobagem falada, foi uma opinião nociva interna expressada conscientemente.

      Volte sempre!

    • Comment by mpassosbr21/06/2009 at 16:58   Reply

      Acho que o Lula se sintetiza nisso: "façam o que eu digo mas não façam o que eu faço". Serviria também aquela frase de FHC: "Esqueçam o que eu escrevi". Feitas as devidas adaptações, "esqueçam minhas lutas pelo movimento social, pois agora sou um deles".

      Não é ato falho, não é gafe: é a manipulação de uma opinião própria para parecer ato falho ou gafe. Ou vamos nos esquecer de que Lula se aliou àqueles que o criticavam para chegar ao/se manter no poder (vide Collor)?

      • Comment by perspectiva22/06/2009 at 02:20   Reply

        Matheus,

        Obrigado pelo comentário.

        Realmente não é gafe, é mais, é pior. É uma leniência que assusta.

        Volte sempre!

  3. Comment by Um Bom Brasileiro — 04/07/2009 at 23:59   Reply

    O Senador José Sarney não é comum…
    Dias atrás nosso “guru mor da República” (assim grafado propositadamente em minúsculo), diretamente do Cazaquistão declarou que o Sr. José Sarney “tem história para que não seja tratado como uma pessoa comum”.

    Realmente, nosso “guru mor” está certo. O Sr. José Sarney é “incomum” e “tem “história e estórias”.

    Senão, vejamos:

    1) o adjetivo:
    - segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, de Portugal, o verbete incomun é um adjetivo e significa “não comum ou fora do comum”;
    - já o nosso dicionário Aurélio, define também como um adjetivo que significa “que não é comum, extraordinário ou invulgar”;
    - se nos aprofundarmos em estudar um pouco apenas o significado de uma dessas variações, veremos que “extraordinário” significa “que não é conforme ao costume geral; excessivo; singular; esquisito; extremo, excessivo; que só se faz em circunstâncias anormais”;
    - seguindo por essa linha de raciocínio, chegaremos a vários e interessantes sinônimos desse adjetivo “incomum”, dentre os quais destacamos: bisonho, impertinente, feio, individual, isolado, excêntrico, estranho, assombroso. Daqui em diante, recomendamos que cada leitor desenvolva sua própria pesquisa, pois nós nos damos por satisfeitos com o que conseguimos;

    2) histórias e/ou estórias:
    - a história do Sr. José Sarney mais parece uma coletânea de estórias, já que ninguém sabe qual sua verdadeira história. Entre suas diversas anomalias existenciais, uma delas é intitular-se como escritor, o que explica tantas estórias envolvendo sua trajetória de vida. Certamente nosso “guru mor” não sabe diferenciar “história de estória”.
    - dizemos estórias, porque são tantas que não cabem neste curto espaço que pretendemos ocupar:
    a) Seu verdadeiro nome (de batismo) é José Ribamar Ferreira de Araújo Costa; nascido no Estado do Maranhão em 1930, filho de um senhor que alguns afirmam ter sido um homem comum, enquanto a biografia oficial do Sr. José Sarney o descreve como tendo sido um desembargador. Enfim, era o cidadão Sarney de Araujo Costa. O nome José Sarney foi por ele adotado apenas em 1965, pois se mostrava muito descontente em ser chamado de “Zé do Sarney”, coisa tão comum no Brasil (mas afinal, ele não é comum). Em 1954 já militava politicamente tendo sido apenas um “simples e comum” quarto suplente de Deputado Federal, então pelo extinto PSD. Em 1958 já mudava de partido, ingressando na UDN (o braço de direita da política brasileira daquela época que fazia oposição ao governo Vargas e que depois apoiou o Sr. Jânio Quadros e a Ditadura Militar – sempre na situação da ocasião). Dentro da própria UDN era considerado como um filocomunista, coisa que não condiz com alguém que professa a fé católica;
    b) Em 1964, fez oposição ao golpe militar que depôs o presidente João Goulart. Com a instituição do bipartidarismo, em 1965, aderiu rapidinho ao partido governista, a Arena (Aliança Renovadora Nacional), para eleger-se por ela, governador do Estado do Maranhão -1966 a 1971 – dando início a uma oligarquia que perdura até hoje, 44 anos depois. Em 1979, mudou-se para o recém fundado PDS, pelo qual elegeu-se Senador pelo Maranhão. Mais uma vez mudou de sigla partidária em 1984, bandeando-se para o PMDB, que já existia desde março de 1966. Em 1985 era candidato a vice-presidente na chapa do Tancredo Neves.
    c) Mas o pior dessa estranha ou incomum “estória” ainda estava por vir. Uma das coisas que não engolimos, continua sendo uma dúvida atroz que paira no ar do país até hoje: as circunstâncias estranhas e não totalmente esclarecidas nas quais morreram o Presidente eleito Tancredo Neves, bem como seu garçom João Rosa, ocasião na qual o Sr. José Sarney assumiu o cargo, reconhecidamente um aliado dos militares, em lugar de um opositor declarado. Dá o que pensar, não?
    d) No governo Sarney, há muitos outros fatos “incomuns” a destacar:
    - índice de inflação galopante, jamais vista no país;
    - o fracassado Plano Cruzado;
    - o fracassado Plano Bresser;
    - o fracassado Plano Verão;
    - maior índice de inflação da “história” contemporânea do país: 1.764,86%;
    - clima de desordem civil com centenas de greves gerais dos trabalhadores no país, inclusive de setores básicos como hospitais, transportes coletivos, funcionalismo público, bancos, portos, etc;
    - vitória de Fernando Collor nas eleições de 1989, sobre Lula, com apoio do Sr. José Sarney, devido á uma negociação com o famigerado Dossiê Sarney, o qual jamais apareceu em público;
    - sob forte desaprovação popular e numa renhida disputa, quase perde a eleição para senador pelo Amapá, um território pobre que foi estrategicamente promovido a estado durante seu mandato de presidente. Vale a pena ler o que o falecido jornalista Sebastião Nery escreveu na época, em :
    http://www.folhadoamapa.com.br/classica/diario_comments.php?id=P16451_0_4_0
    e) Esta é “história” verdadeira: o Sr. José Sarney talvez seja o maior especialista na arte da sobrevivência política, pois sempre gravitou á sombra do poder, utilizando-se dos mais variados e “incomuns” recursos próprios e de terceiros (governos civis e militares), formando uma longa fila de pessoas, partidos políticos e entidades que sua oligarquia destruiu ou pelo menos retirou de cena, tornando-se o maior predador da recente “história” política do Brasil, fazendo escola entre muitos seguidores e apadrinhados políticos.

    Reflitam sobre este texto e tirem suas próprias conclusões sobre a trajetória política e de vida desse senhor, a qual apresenta um enorme potenial para uma profunda análise clínica.

    Definitivamente, o nosso “guru mor da republica” está coberto de razão. Aliás, a bem da verdade, nenhum dos dois pode ser chamado de ”comum”…aliás, pensando melhor, cabe a observação que estão ficando cada dia mais raros os “políticos comuns”, tão necessários ao nosso país!

    Um bom Brasileiro

    • Comment by Bruno Kazuhiro05/07/2009 at 11:42   Reply

      “Brasileiro”,

      Obrigado pelo comentário.

      Você está certo ao relembrar isso tudo. O passado nos faz entender melhor o presente. Só faço uma ressalva: Nem tudo o que você dá como certo é comprovado. É perigoso afirmar apenas baseado em indícios.

      Volte sempre, será bem vindo e respondido!

  4. Comment by Livros com erros de Português ou livro que ensina o Português? | Diário do Professor02/07/2011 at 18:11   Reply

    [...] de termos falados diferentes da norma culta do sarney, este senhor tão diferente de todos nós, segundo Lula, e tããããão preocupado com o nosso país, [...]

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