Coluna do dia: O “jeitinho” na política

20/06/2009 em Matheus Passos | (8) Comentários

Palavras-chave: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Por Matheus Passos*

Sérgio Buarque de Hollanda foi um dos maiores historiadores brasileiros. É conhecido pelos estudantes dos cursos da área de Ciências Sociais principalmente devido ao seu livro “Raízes do Brasil”, de 1936. Nesta obra, Sérgio Buarque aborda aqueles que seriam, em sua ótica, os principais aspectos da história da cultura brasileira, trazendo o legado cultural da colonização portuguesa no Brasil e mostrando de que forma certos aspectos da cultura portuguesa foram absorvidos, adaptados ou ignorados pelos formadores da nova nação sul-americana.

Um dos aspectos presentes na obra é o conceito desenvolvido pelo autor e chamado de “homem cordial”, característica típica do brasileiro. Contudo, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, a palavra “cordial” não tem o sentido de cordialidade, de gentileza, de auxílio ao próximo: a palavra está diretamente relacionada à sua raiz latina, “cor”, que significa “coração”. Assim, o “homem cordial” não é o homem gentil, mas sim, o homem que se deixa levar pela sua emoção em detrimento de sua razão: o “homem cordial” é aquele que se utiliza de apelos ou chantagens emocionais para conseguir o que quer.

A caracterização do “homem cordial” está relacionada diretamente com outra característica cultural do Brasil: o “jeitinho brasileiro”. Todo brasileiro, em algum momento ou outro, se orgulha de ter “dado um jeitinho” para solucionar algum problema, se orgulha de ter passado por cima das regras em alguma situação que poderia prejudicá-lo e, ao final,  ter “se dado bem”, burlando normas e/ou convenções sociais para atingir seu objetivo. Daí vem também outro elemento da cultura brasileira, o “malandro”, que é o indivíduo que sabe que está fazendo algo não necessariamente correto mas, como “se dá bem”, é inclusive bem visto pela sociedade. Como exemplo concreto temos o político que rouba e sempre escapa da Justiça: este é o “esperto”, aquele “que se deu bem”, e que se torna – infelizmente – até mesmo um modelo para a sociedade.

Claro está que estamos no auge do “jeitinho brasileiro” em nossa política nacional. A partir do momento em que o Senador José Sarney se dirige à tribuna do Senado e afirma: “a crise é do Senado, não minha”, está ele tentando dar um “jeitinho” para se eximir de suas responsabilidades. A partir do momento em que afirma que “qualquer um teria feito o mesmo em meu lugar”, está sendo um “homem cordial”, apelando para o lado emocional do cidadão brasileiro. Quando o Senador Delcídio Amaral afirma que contratou a sobrinha de Sarney em retribuição a um “favor pessoal”, está sendo um “homem cordial” – deixando de lado a formalidade e fundamentando suas ações em sua amizade com o Senador José Sarney.

Quando o presidente Lula afirma que “não se pode julgar o Senador José Sarney”, ou quando afirma que “Sarney merece um tratamento especial devido à sua história”, está sendo um “homem cordial” no pior sentido da expressão – aquele que leva à informalidade, que leva a acreditar que é “melhor” ou “superior” a palavra do “amigo” do que o que a lei diz, o que leva a ignorar-se a lei em benefício das amizades ou dos laços pessoais. Tais situações, infelizmente, concretizam a máxima atribuída ao presidente Arthur Bernardes (1922-26): “aos amigos, tudo; aos inimigos, tanto quanto possível, o rigor implacável da lei”.

Enquanto o “jeitinho brasileiro” for um elemento fundamental – talvez até mesmo preponderante – da cultura brasileira, não há como o País alterar seu cenário político.

Enquanto o cidadão “comum” continuar achando que “para tudo se dá um jeitinho”, passando por cima da lei – seja fazendo um “agrado” ao policial que o para na rua, seja tentando passar por cima de prazos (já que o brasileiro deixa tudo para última hora), ou seja considerando que o Honesto é trouxa e o Malandro é o modelo a ser seguido – seus representantes serão um reflexo de sua própria atuação: se o cidadão “dá um jeitinho”, por que o político também não daria?

Se o cidadão não se interessa por política e não participa – cobrando constantemente de seus representantes –, por que o representante irá se preocupar com a vontade popular? Apenas com uma profunda mudança cultural será efetivamente possível mudar a cultura política brasileira.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus


8 Comentários em “Coluna do dia: O “jeitinho” na política”

RSS dos comentários nesta postagem. TrackBack URL

  1. Comment by Tiago Franz20/06/2009 at 18:04   Reply

    Não existe uma matriz e uma chocadeira diferente para políticos. Eles saem da mesma cloaca que o povo brasileiro. Desculpem a brincadeira!! Para mim não há nada de grosseiro na natureza animal.

    Boa contextualização histórica. Ótimo texto.

    abraço

    • Comment by mpassosbr20/06/2009 at 20:52   Reply

      Caro Tiago, concordo plenamente com suas palavras. Se o povo pensa assim, é óbvio que os políticos assim pensarão. E se aproveitarão do vácuo deixado pelo cidadão, impossibilitando que o mesmo participe.

      Abraços!

      • Comment by Bruno Kazuhiro20/06/2009 at 21:01   Reply

        Meus caros colunistas,

        Resumo: O político corrupto foi, um dia, cidadão comum. E muitos cidadãos comuns, se um dia políticos, seriam corruptos.

        Voltem sempre!

        • Comment by mpassosbr21/06/2009 at 14:57   Reply

          Sem dúvida a situação é essa. Por isso que defendo a ideia de que se deve mudar a cultura para aí sim tentar mudar o aspecto político. Nesse sentido concordo com você, Bruno — não há necessidade de uma nova Assembleia constituinte para a Reforma Política.

          Abraços!

          • Comment by perspectiva22/06/2009 at 02:12  

            Matheus,

            Obrigado pelo comentário.

            Com certeza é melhor termos politização e conscientização do que sermos forçados a empreendermos coisas limítrofes como constituintes exclusivas para conseguirmos fazer a reforma política.

            Volte sempre!

  2. Comment by Bento — 22/06/2009 at 01:55   Reply

    A maior dificuldade, talvez, em se entender a perniciosidade do “jeitinho brasileiro” estaria na necessária distinção conceitual do que seria virtude fundamentada no respeito à pessoa e aquela fundamentada no exercicio do dever do individuo cidadão. Assim poderiamos compreender que nossos males sociais estão fundados em nossas virtudes pessoais.

    • Comment by perspectiva22/06/2009 at 02:27   Reply

      Bento,

      Obrigado pelo comentário.

      É o que digo e repito: O político corrupto um dia foi mero cidadão e muitos meros cidadãos, uma vez eleitos, seriam corruptos. A sociedade tem mesmo os governantes que merece. A mentalidade brasileira precisa evoluir para que evolua o voto e, consequentemente, a política. O Perspectiva busca fazer sua parte.

      Volte sempre, será bem vindo e respondido!

    • Comment by mpassosbr22/06/2009 at 02:43   Reply

      Caro Bento,

      Concordo com você. Enquanto o brasileiro achar que não há problema em deixar a torneira aberta porque é ele que está pagando e "isso não é da sua conta", a coisa continuará complicada. Enquanto o brasileiro achar que pra tudo se dá um "jeitinho", especialmente no sentido de prezar o amigo e não a lei, fica complicado mudar alguma coisa. Infelizmente.

Comente