Coluna do dia: “Neoliberdade”

Em 17/05/2009 Comente »

Por Tiago Franz*

Liberdade. Já que a contemporaneidade tem roubado de muitas palavras a literalidade, recorro ao dicionário. No Aurélio, o verbete “liberdade” tem, entre outras, a seguinte definição: “Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas.” É neste sentido que a liberdade é concebida como um pilar do Estado Democrático de Direito.

Tenho consciência de que a liberdade individual não existe sem liberdade coletiva, e vice-versa. Onde eu quero chegar com isso? Já adianto que não responderei a nenhuma questão sobre-humana do tipo: Qual é a receita para a vida em sociedade ideal? Ou então: Por que a humanidade não tem jeito? Longe disso. No momento me encontro em cima de um muro entre apocalípticos e integrados, ou seja, reconheço que há problemas, indiferença e injustiça abismais, mas também percebo ideias, boa vontade e solidariedade potencialmente transformadoras. Enfim, limito-me a refletir aqui as possibilidades que um indivíduo tem de ser livre numa democracia neoliberal – modelo político de sociedade em que vivemos, predominante no mundo desde as últimas décadas do século XX.

Acabo de ler no livro “Para além da esquerda e da direita”, de Anthony Giddens, um trecho sobre neoliberalismo. Novamente abro o Aurélio, para continuarmos fiéis ao sentido literal das palavras: “Neoliberalismo – doutrina que favorece uma redução do papel do Estado na esfera econômica e social.”

Giddens, tão fiel quanto o Aurélio, vai à raiz, e destaca entre as características do modelo neoliberal a aposta no empreendimento capitalista e na livre competição de mercado como principais garantias da liberdade individual e solidariedade social. Nem por isso o Estado tem que ser fraco. Ele deve sim ser uma instituição forte, mas que se limita a “fazer cumprir as leis das quais depende a competição”. Nessa lógica, os cidadãos devem conquistar a sua liberdade através da inserção no mercado, pelo esforço e pelo mérito. Ao mesmo tempo, o capitalismo neoliberal permite que as pessoas assumam o risco de viver suas vidas como bem entenderem.

Os efeitos reais deste sistema todos conhecem. Mas como eu já deixei dito, não pretendo apontar o câncer e nem a cura da humanidade. Apenas coloco as condições que temos hoje de buscarmos nossa liberdade, individual ou coletiva.

Nas nações onde o neoliberalismo é aplicado, apesar de certo grau de diferenciação de normas, a receita de vida é basicamente competir para sobreviver e vencer para ser feliz. Levamos uma vida de iniciativa individual, mas repleta de relações com diferentes grupos e pessoas. No entanto, como lembra Giddens, os neoliberais defendem que o individualismo competitivo deve se expandir até certo ponto. Alguns contextos de vida social ficam de fora. Um deles já mencionei: o Estado com seu papel reduzido. O outro é a família, cuja desestruturação sofrida a partir de meados do século XX é lamentada pelos neoliberais.

Os motivos atribuídos ao declínio da família são diversos. Giddens dá exemplos: “a permissividade sexual introduzida na década de 1960, a indulgência dos pais, a ascensão do feminismo e a difusão pública do homossexualismo”. Mas afinal, essas mudanças significam conquista de liberdade por parte de alguns ou perda de liberdade por parte de outros?

Uma ilustração para nos ajudar:

O filme hollywoodiano “Pleasantville – A Vida em Preto e Branco”, de 1998, roteiro e direção de Gary Ross, explica maravilhosamente a transformação das estruturas familiares desde os anos 1950 e sua relação com o pensamento conservador (conservador aqui se refere apenas a este sentido, pois o conservadorismo é relativo em cada corrente política). Os protagonistas, um casal de irmãos adolescentes da década de 1990, são transportados através de um controle remoto “universal” para dentro de um aparelho de televisão, mais especificamente para um programa chamado “Pleasantville”, que se traduz “Vila Agradável”. O programa é um típico seriado dos anos 50, ainda em preto e branco, que se passa numa cidadezinha dos EUA.

Pleasantville é um lugar onde tudo é “agradável”. Não existem conflitos sociais, todos têm papéis bem definidos na sociedade, as esposas são submissas e amadas pelos maridos, ninguém fala palavrões, todas as bolas arremessadas pelos jogadores do time de basquete da escola da cidade acertam a cesta, o trabalho dos bombeiros se limita a salvar gatinhos em árvores, e por aí vai. Já os irmãos protagonistas, que vieram do mundo real dos anos 90, são de uma família conturbada. Os pais são divorciados. A mãe, que mora com os dois filhos, não se conforma com a separação e não acerta outro relacionamento. O garoto é um típico “nerd” com barreiras para se sociabilizar. A garota não se interessa pelos estudos e tem uma vida sexual precoce. Não há entendimento entre os membros da família. Cada um busca resolver seus problemas e levar a vida à sua maneira, sempre em conflito, porque as liberdades individuais se chocam.

Em Pleasantville só existia aquilo que a televisão mostrava. Quando os irmãos entraram no seriado, o que ocorreu por um “acidente mágico” indesejado, uma revolução teve início na vida daquela comunidade. Conforme os moradores da cidade foram tendo contato com as coisas que sequer sabiam que existiam, como sexo, literatura – na biblioteca da cidade os livros tinham as páginas em branco, pois em nenhum episódio o conteúdo dos livros havia sido exibido – e conflitos morais de todos os tipos, o cenário e as pessoas foram ganhando cores. Logo se formaram dois grupos, os “coloridos” (aqueles que passaram a adotar as novidades em suas vidas) e os “preto&branco” (os conservadores, que não queriam aceitar as mudanças de comportamento de alguns). Todos tentavam conquistar sua liberdade e direitos, mas nem sempre de forma justa. A liberdade alheia era muitas vezes prejudicada. O poder público de Pleasantville, antes sem nenhum desafio, ficou do lado dos conservadores, até que sucumbiu por não conseguir administrar os conflitos sociais.

Ao invés de contar o final, vou direto para a “moral da história”. Quando volta aos anos 90, o garoto, totalmente transformado, mais seguro de si e sensibilizado com a vida dos outros, reencontra sua mãe na mesma situação de inconformidade, infeliz pelo divórcio. Ela lhe pergunta em prantos por que as coisas têm que ser do jeito que são. O garoto responde com carinho: “Nada tem que ser de nenhum jeito”.

Agora eu deveria relacionar o filme com o que eu escrevi antes sobre neoliberalismo e explicar melhor esta “moral da história”. Porém, além de já ter me estendido demais, acho desnecessário. Que cada “indivíduo” olhe para si e ao seu redor e faça a sua interpretação. Pensar é livre.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

7 comentários

  1. Tiago,

    com todo respeito, devo perguntar: em qual país do mundo foi aplicado o neoliberalismo? E em qual época histórica isso se deu? Perceba: pessoalmente, sou levado a acreditar que a expressão neoliberalismo é, antes, uma construção feita por aqueles que não gostam das ideias liberais, para rotular, atacar e condenar aquilo que não lhes agrada. Lembra da expressão “capitalismo”? Quem a usou pela primeira vez foi… Marx! E em sentido pejorativo, é claro. Sentido este que permanece até hoje, como sabemos.

    Também li o livro que você mencionou. Sou um grande fã de Giddens e das análises lúcidas que ele faz. E não me pareceu que ele falasse a partir de dados empíricos. Estou errado?

  2. Yashá e Tiago,

    Também sou fã de Giddens. Sobre a questão do neoliberalismo, é verdade que ele não foi aplicado totalmente em nenhum país, porém, também é verdade que efeitos de algumas das medidas que são do rol neoliberal puderam ser sentidos. Sendo assim, o neoliberalismo não pode ser visto automaticamente como modelo a ser desprezado, porém, seus erros também não podem ser negados.

  3. Tiago Franz says:

    Yashá,

    com o mesmo respeito, respondo: realmente Giddens não escreveu a partir de dados empíricos. Nem foi minha intenção resenhar a obra. Os questionamentos e relações no texto são percepções minhas, e não dele. Ainda não terminei a leitura do livro, mas até agora percebi que Giddens recorre a diversas teorias e pensadores para tecer sua análise. No trecho que eu li sobre neoliberalismo, Giddens cita a todo momento Hayek, a quem chama de principal pensador neoliberal.

    Eu já deixei expressa aqui no blog minha posição. Disse que reconheço qualidades e defeitos no liberalismo. O marxismo pode parecer pejorativo, da mesma forma que me parece igualmente ofensiva a defesa da visão oposta. Para ficar bem claro, no sentido econômico eu sou sim marxista e contra o liberalismo, e em nenhum momento quis esconder isto. Portanto, considero o conceito de “capitalismo” de Marx e o relaciono com o liberalismo, mas sem o intuito do ataque tal como você comentou. Prova disso: quando digo que me encontro entre apocalípticos e integrados, quero dizer que reconheço que é possível se avançar corrigindo as falhas do sistema capitalista, e que algumas conquistas de direitos são frutos de políticas liberais.
    Eu disse que o neoliberalismo é aplicado em alguns países. Quem sabe um termo mais adequado, ao invés de “aplicado”, seja “experimentado”. No mais, o Bruno acabou respondendo isto por mim.

    Obrigado pela leitura. Tuas questões são pertinentes e fomentam um ótimo debate.
    Obrigado também ao Bruno.

  4. Fiquei sem entender um particular. Veja o trecho abaixo:

    “Para ficar bem claro, no sentido econômico eu sou sim marxista e contra o liberalismo (…)”

    Agora este:

    “(…) reconheço que é possível se avançar corrigindo as falhas do sistema capitalista, e que algumas conquistas de direitos são frutos de políticas liberais (…)”

    Tiago, posso não ter entendido, mas noto uma contradição quando você, primeiro, fala que é – se me permite – “economicamente marxista”, e, depois, fala em minimizar as desigualdades do capitalismo. A base teórica do marxismo não é o pressuposto de que o capitalismo não poderia ser humanizado jamais? Não é, pois, por isso que Marx sempre falou em revolução “para romper as estruturas”?

    Enfim, espero não estar aborrecendo. Se achar que uma discussão alongada não tem lugar aqui, fique a vontade para escrever pro meu e-mail.

    Abraços.

  5. Tiago Franz says:

    De modo algum me aborrece.

    O melhor de se escrever na internet é que o assunto não acaba em um ponto final que a gente determina.

    Não sigo o marxismo como se fosse uma religião. Procuro por na balança e não aderir totalmente a uma ou outra doutrina. De certa forma, o filme a que me refiro no texto fala disso. Se você não assistiu, recomendo. Gostaria de ver muitas estruturas rompidas, mas através de uma revolução diferente. Uma revolução construída nos princípios da tolerância, da liberdade individual e coletiva. Uma revolução onde a desigualdade dá lugar à diferença. Uma “Guerra Fria” já é o bastante para a humanidade.
    Se o capitalismo está aí vigorando, que se parta dele. O capitalismo não pode ser humanizado porque, ao ser humanizado, precisará de outro nome. Não vejo a hora de isso acontecer.

    Fique à vontade para me responder por e-mail também.

    Abraço

  6. Yashá e Tiago,

    Que belo debate! Muito bom!

    Posso dizer que passei a admirar mais Tiago Franz nesse momento. A noção de que o capitalismo pode sim ser melhorado e de que o marxismo não pode ser fundamentalista é corretíssima. Se o capitalismo conseguir fazer desigualdade ser apenas diferença será maravilhoso, esse conceito é ótimo Tiago. Se o capitalismo teria que mudar de nome se conseguisse isso eu não sei, mas entendi perfeitamente a premissa. Por outro lado, acho que as perguntas do Yashá foram fundamentais para que entendessemos perfeitamente o que Tiago propõe. Ajudou a lapidar.

    Franz e Gallazzi, que alegria tenho de abrigar este debate em meu blog. Obrigado mesmo. Enriquecimento dos debates e criação de conceitos como “desigualdade virando diferença apenas” são objetivos centrais do Perspectiva.

    Novamente, que belo debate! Respeitoso, sem extremismos, chegando a conclusões inteligentes e reconhecendo pontos consensuais. Brilhante!

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