Por Yashá Galazzi*

Ao longo desta semana que vai se aproximando do fim, pudemos nos deparar com mais uma demonstração de falta total de civilidade e de comprometimento democrático. Do que estou falando? Da tentação racista que acomete cada vez mais certa intelectualidade tupiniquim, ávida por dividir o Brasil em “ghetos” destinados a abrigar minorias as mais estapafúrdias. O ridículo de tal pensamento, porém, começa a ficar por demais evidente. Saibam que, neste país, as várias minorias já representam, oficialmente, a maioria.
Sim, eu sei que a coisa toda pode soar um tanto estranha e até difícil de ser compreendida, mas não culpem este escriba. O que há de confuso nas tais políticas compensatórias é fruto de um entendimento retrógrado e obsoleto, incapaz de suportar dois minutos de confronto com a boa e velha lógica cartesiana.
A mais nova tara separatista dos “racistas do bem” prevê a reserva de nada menos que 60% das vagas nas universidade públicas, divididas entre negros, índios e pessoas oriundas de escolas públicas. Qual o dado óbvio contido nisso? Uma vez aprovada tal estrovenga, aqueles que não se enquadrassem em nenhuma das minorias profissionais criadas por esse humanismo “pogreçista” estaria relegado aos 40% restantes. Não se enganem: se um dia negros, índios, mulheres, homossexuais e pobres já foram oprimidos no Brasil, não tenho a menor dúvida de que o “novo excluído” é o homem, branco, heterossexual, católico e de classe média.
A face mais cruel e totalitária dessa turma que prega o “racismo bom”, porém, não é criar uma “maioria de minorias”, relegando à opressão uma fatia da população que representa, na prática, a verdadeira maioria da sociedade brasileira. Nada disso. O pior é que o cotismo desenfreado defendido por essa gente não tem como objetivo final defender os direitos de negros, índios e outras categorias denominadas de minorias sociais. Para eles, só é importante defender negros comprometidos com a causa negra; ou índios comprometidos com a “causa indígena”. Querem, em suma, criar quadros políticos que se ocuparão, depois de devidamente doutrinados, de fazer a defesa de um ideário permeado pelo ranço que só os herdeiros do “pogreçismo” mais estúpido conseguem produzir.
Quem defende as cotas raciais costuma invocar o exemplo americano. Curiosa essa gente… As guerras preventivas dos Estados Unidos não podem ser imitadas nem defendidas, mas política de criar “ghetos” oficiais a fim de dividir o povo em castas raciais, sim. Sabem, porém, o que é ainda mais curioso? Saber que os americanos já reconheceram que essa patacoada de cotas é um dos maiores desastres que a sociologia filorevolucionária já inventou. Lá, nos lados do norte, já mitigaram os argumentos que foram, no passado, levantados em defesa do cotismo. Hoje, planeja-se abertamente acabar com as poucas (pouquíssimas!) cotas que ainda resistem por lá. Quem disse isso? Não, não foi o Hasmodeu aposentado, George Bush. Foi o Presidente-de-ébano, o Cristo de Illinois, aquele que vai redimir todos os nossos pecados, Barack Obama. E, sim. Ele está coberto de razão.
Alguns podem alegar que no chamado primeiro mundo as desigualdades sociais não são mais tão severas como aqui. Por isso as cotas seriam dispensáveis por lá, mas necessárias no Brasil. Besteira! O primeiro mundo não conquistou sua evolução econômica e social promovendo a divisão social e um racismo oficial, patrocinado por um discurso supostamente vanguardista e humano. Eles são melhores do que nós (e melhores em tudo!) porque sempre primaram pela meritocracia, garantindo aos cidadãos a igualdade de oportunidades e, por conseguinte, aquela perante à lei. O sucesso ou o fracasso de cada um – atenção agora! – depende de cada um! E é isso que provoca urticárias no “pogreçismo” que promove esse “racismo do bem”. Como, no mais das vezes, estamos falando de militantes político-partidários, sem muito traquejo intelectual, é fácil entender por que eles tremem diante da mera possibilidade de serem abandonados às suas próprias capacidades – ou incapacidades.
Agora, aproximando-me da conclusão deste texto, já é possível divisar o cerne de minha argumentação. Por que os defensores das cotas querem tanto a institucionalização de uma sociedade de castas? Porque precisam dormir tranquilos, sabendo que o Estado vai lhes prover as necessidades. E não me refiro às necessidades basilares e próprias da existência. Que nada! Eles querem mais! Querem sempre mais. Não é sem motivo que hoje já chegamos ao absurdo de discutir cotas para negros em desfiles de moda; ou cotas para gordinhos em aviões; ou ainda cotas para índios e negros em novelas televisivas. Lembro-me do poeta Nelson Ascher, que disse não se surpreender se, depois do fenômeno Susan Boyle, houver quem reivindique o direito ao sucesso, como um bem inerente ao ser humano.
Exagero? Não acho. Nunca é bom duvidar da capacidade que os “pogreçistas” têm de fazer idiotices. Em sua busca desenfreada pelo “outro mundo possível”, onde a lógica será inteiramente solapada e as várias minorias formarão uma maioria avassaladora e destrutiva, são capazes de qualquer absurdo. Sempre, é claro, inventando maneiras de desconstruir os fundamentos democráticos e instituir barreiras ao pleno exercício dos direitos individuais das pessoas. Por isso não se interessam pelo negro, mas pelos negros; por isso não querem saber do homossexual, mas dos homossexuais; por isso abominam o índio, mas se empenham em defender os índios. Estão pouco se lixando para o indivíduo. Querem é abraçar uma categoria inteira, que representa uma bandeira, um pensamento, uma causa. Querem promover a coletivização da sociedade, ainda que em torno de categorias pré-determinadas. Lembram o que isso nos legou? No passado, falavam, nos proletários e nos operários. Hoje, falam nos negros, nos índios, nos gordos, nos diabéticos, nos torcedores de um time pequeno e em tantas outras minorias que se possam imaginar.
São tão obcecados em busca da segregação social, que se esquecem do mais simples: Por que não melhorar a educação básica para TODOS os indivíduos, a fim de garantir uma competição justa no futuro? Ora, mas é óbvio! Ao se reformar de forma séria e objetiva a sociedade, promovendo a verdadeira justiça e a verdadeira igualdade – aquela das oportunidades -, os “racistas do bem” vão perder seus oprimidos profissionais. Afinal, apesar de ser um branco, posso apostar que todo negro deseja simplesmente ser um negro que estuda, trabalha e tem uma vida normal. Ninguém se torna portador da “causa” por opção, mas por imposição. Ninguém se torna um cotista porque tem orgulho, mas porque – vocês sabem… – teve uma vida difícil por culpa “dazelite” branca, preconceituosa e conservadora. A partir do momento que esse discurso de vitimização social for abolido, o “pogreçismo” e seu “racismo do bem” vão ruir. E a sociedade civilizada poderá, então, florescer.
* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento











Yashá,
Concordo com você quando o seu texto apresenta o entendimento de que as cotas não deveriam existir. É totalmente verdade que o correto é investir na base para termos competições justas no vestibular e nos concursos de qualquer tipo, e não, tentarmos corrigir desequilíbrios já no topo. Porém, de certa forma, divergimos. Eu não sou um defensor do fim total das cotas. Acredito que elas sejam, hoje, um mal necessário. Em resumo, se elas existirem sem exagero, o que parece que não está ocorrendo, diga-se de passagem, podem ser úteis para minimizar um problema que, agora que já existe, deve ser solucionado de alguma forma. Elas deveriam ser, com certeza, fundamentalmente temporárias, sendo diminuídas à medida que o investimento, que deve aparecer necessariamente, na base dê resultados e proporcione igualdade aproximada de condições para todos.
Enfim, é isso. Cotas são ruins, mas são necessárias no curto prazo, sendo imprescindível que sejam excluídas no longo prazo da realidade brasileira por conta do investimento na base que, vindo, tornará as cotas desnecessárias. No que tange a forma das cotas, defendo que, enquanto existirem, sejam de no máximo 25% e com relação à renda, e não, de 50% e vinculadas a algo como “raça” ou “cor”.
Meu entendimento completo está explicitado na seguinte postagem:
http://perspectivapolitica.com.br/2008/11/23/o-que-dizer-sobre-as-cotas/
Parabéns pela coluna!
Bruno, agradeço os parabéns.
No que diz respeito à renda, vá lá… Sou até capaz de aceitar esse argumento de que, por enquanto, é necessário. Mas raça… Por que um negro tem direito, mesmo sendo rico, ao passo que um branco mais pobre talvez fique de fora? Não, definitivamente a cota racial não me convence.
Abraços.
Yashá,
Estou plenamente de acordo e falo disso na postagem que citei sobre as cotas. A cota racial exclui brancos necessitados e inclui negros ricos, uma distorção total.